Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Maduro convoca forças populares contra 'ameaças' dos Estados Unidos
Publicado em 19/08/2025 11:01 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, enviou três navios militares para a costa da Venezuela com o pretexto de combater o narcotráfico em águas internacionais. A operação, revelada pela agência Reuters e confirmada pelo jornalista Jamil Chade (UOL), foi interpretada como um gesto de intimidação geopolítica que acendeu alertas entre diplomatas brasileiros e de outros países sul-americanos. A movimentação bélica retoma a retórica intervencionista da Guerra Fria, sob o manto da “segurança nacional”, e reacende preocupações sobre uma possível escalada militar no Cone Sul.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Os navios USS Gravely, USS Jason Dunham e USS Sampson devem se aproximar da região até a noite desta quarta-feira. Segundo fontes diplomáticas em Washington, o envio das embarcações pode ser apenas a primeira fase de uma ação mais ampla, que incluiria aviões, submarinos e, eventualmente, operações táticas no território venezuelano — sob a justificativa de destruir bases associadas ao narcotráfico.
Desde seu primeiro mandato, Trump vem redesenhando o conceito de “guerra ao terror”, estendendo-o a grupos do narcotráfico, especialmente na América Latina. Ao reclassificar cartéis como organizações terroristas, os EUA abrem caminho legal para ações militares unilaterais fora de seu território. O caso venezuelano agora se insere nesse novo quadro doutrinário.
A retórica foi explicitada por Marco Rubio, atual secretário de Estado e figura central no realinhamento da política externa norte-americana com foco agressivo na América Latina. “A droga é uma ameaça à segurança nacional dos EUA”, declarou. Rubio sustenta que o regime de Nicolás Maduro é apenas um “disfarce para o Cartel de los Soles”, organização acusada de narcotráfico. “Não é um governo legítimo”, insistiu.
O uso do narcotráfico como justificativa para intervenção militar não é novidade. A estratégia remonta à década de 1980, com o escândalo Irã-Contras e a guerra contra os cartéis na Colômbia, ambas marcadas por violações de soberania e direitos humanos. A diferença agora é a escala e o uso da linguagem antiterrorismo para legitimar ações armadas.
Repercussão no Brasil e alinhamento político
No Brasil, o governo Trump pressiona autoridades para classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupo terrorista. A proposta encontra respaldo entre figuras políticas alinhadas à extrema direita, como os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Cláudio Castro (PL-RJ), além do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que mantêm laços com setores trumpistas desde o governo de Jair Bolsonaro.
O apoio brasileiro à reclassificação do PCC revela um perigoso alinhamento automático com a agenda de segurança dos EUA, frequentemente descolada das realidades sociais e institucionais latino-americanas. Como alertou o cientista político Oliver Stuenkel, da FGV, em entrevista à Deutsche Welle (2023): “A adoção do vocabulário da guerra ao terror por governos sul-americanos tende a enfraquecer garantias constitucionais e abrir espaço para abusos em nome da segurança.”
Fantasmas históricos
A atual ofensiva de Trump resgata o espírito da Doutrina Monroe (“América para os americanos”), que historicamente serviu como justificativa para intervenções militares dos EUA na América Latina — de Honduras a Granada, do Chile ao Panamá. A diferença, agora, é que o discurso de combate ao narcotráfico e ao terrorismo substitui o anticomunismo da Guerra Fria, mas com os mesmos efeitos desestabilizadores.
Para o sociólogo argentino Atilio Borón, “a política externa norte-americana sempre foi marcada por uma visão imperial do seu papel no mundo, e a América Latina segue sendo tratada como seu quintal estratégico”.
A nova ofensiva sobre a Venezuela também reativa tensões diplomáticas com a Guiana, já que Rubio insinuou que grupos aliados a Maduro ameaçam empresas petrolíferas norte-americanas que operam no país vizinho — outro sinal de que os interesses econômicos continuam sendo o motor das intervenções disfarçadas de guerra moral.
Escalada e risco regional
Maduro, por sua vez, anunciou o acionamento de um plano de mobilização com mais de 4,5 milhões de milicianos (forças populares), alertando para o que chamou de “ameaças bizarras” vindas de Washington. A resposta evidencia que a crise pode sair do campo diplomático e entrar em um perigoso jogo de forças, com efeitos imprevisíveis sobre países vizinhos como o Brasil.
Para o Cone Sul, o risco de uma militarização progressiva da região, sob comando ou influência dos EUA, acende um alerta histórico. Experiências passadas, como a Operação Condor — aliança entre ditaduras militares latino-americanas com apoio direto dos EUA nos anos 1970 e 1980 — deixam lições claras sobre os perigos de interferência externa e da erosão da soberania em nome de uma “ordem” imposta por Washington.
A política externa agressiva de Trump na América Latina não é apenas uma questão de segurança ou narcotráfico. Trata-se de um modelo de projeção de poder que desrespeita soberanias nacionais, enfraquece instituições democráticas locais e normaliza o uso da força como ferramenta diplomática. Para a democracia sul-americana, cada navio no Caribe é também um recado: a autonomia regional está na mira.
Como alerta a filósofa Nancy Fraser, “quando a segurança nacional vira justificativa universal, os direitos humanos se tornam exceção” (Fonte: Fraser, The Old is Dying and the New Cannot Be Born, 2019). O Cone Sul precisa estar atento — e unido — para não repetir tragédias já vividas em sua história recente.
Deixe um comentário