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Mundo

Direita disputará 2º turno inédito na Bolívia

Esquerda se implode e fica fora da disputa após 20 anos no poder

Publicado em 18/08/2025 12:42 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Pela primeira vez em 20 anos, a Bolívia terá um segundo turno presidencial sem a presença da esquerda. Com 92% das atas eleitorais apuradas, os candidatos de direita Rodrigo Paz e Jorge Quiroga lideram a corrida e se enfrentarão no segundo turno marcado para 19 de outubro. O resultado representa um marco histórico: o fim da hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS), que dominou a política boliviana desde 2006, sob a liderança de Evo Morales.

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Rodrigo Paz, do Partido Democrata Cristão (PDC), surpreendeu ao obter 32,1% dos votos, superando o ex-presidente Jorge Quiroga, da coalizão Libre, que recebeu 26,8%. Ambos capitalizaram o crescente descontentamento popular com o governo do presidente Luis Arce, que decidiu não disputar a reeleição em meio a uma grave crise econômica — marcada por escassez de combustíveis, desabastecimento de produtos básicos e uma inflação de quase 25%, a maior em 17 anos.

Rodrigo Paz: o outsider que virou favorito

Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, Rodrigo Paz tem trajetória política consolidada — já foi deputado e prefeito —, mas sua liderança nas urnas surpreendeu analistas e contrariou todas as pesquisas de intenção de voto. Nem mesmo aparecia entre os favoritos, posição que pertencia a Samuel Doria Medina, do Alianza Unidad, que terminou com 19,85%.

Paz apresenta-se como um candidato de centro-direita e sustenta um discurso de “capitalismo para todos”. Suas propostas incluem a criação de um salário universal para mulheres, cortes nos chamados “gastos supérfluos” do Estado, combate à corrupção e medidas para ampliar o acesso ao crédito. Também defende reforma tributária, incentivo à indústria nacional e livre importação de produtos.

“O povo boliviano disse: quero mudar, e este é um sinal de mudança”, declarou a apoiadores após o resultado parcial.

Jorge Quiroga: veterano com discurso duro contra a crise

Ex-presidente da Bolívia entre 2001 e 2002 e ex-executivo da IBM, Jorge Quiroga tem se posicionado como o candidato da estabilidade. Promete “esmagar a inflação”, recuperar a confiança dos mercados e abrir a economia boliviana com acordos de livre comércio com China, Japão e União Europeia.

Com um discurso duro, Quiroga afirmou que o país vive o “maior desafio institucional, econômico e moral de sua história” e advertiu que a crise ainda vai se agravar.

Sua campanha foi marcada por confrontos com antigos aliados, especialmente Doria Medina. A coalizão opositora, que inicialmente prometia um candidato único, rachou após desentendimentos sobre a cabeça de chapa. Paz e Quiroga, apesar de alinhados ideologicamente, seguiram caminhos opostos: o primeiro adotou um tom mais discreto; o segundo, uma campanha combativa.

Congresso à direita, mas fragmentado

Além da presidência, os 7,9 milhões de bolivianos aptos a votar também elegeram os 166 membros do Congresso. O novo parlamento será majoritariamente de direita, mas marcado pela fragmentação, o que exigirá habilidade política do próximo presidente para formar coalizões.

Esquerda se implode e fica fora do 2º turno na Bolívia após 20 anos no poder

A eleição presidencial de 2025 na Bolívia não apenas marcou o fim de uma hegemonia política; expôs o colapso de um projeto que por duas décadas foi referência para a esquerda latino-americana. O MAS, partido que levou Evo Morales ao poder e comandou o país entre 2006 e 2019, teve um desempenho catastrófico. Completamente dividido entre as alas de Morales e do atual presidente Luis Arce, o partido amargou apenas 3,2% dos votos com o candidato oficial, Eduardo del Castillo, e ficou fora do segundo turno pela primeira vez em 20 anos.

O mais bem colocado representante da esquerda, Andrónico Rodríguez, ex-aliado de Evo e presidente do Senado, conquistou 8,15%. O segundo turno, agora confirmado entre os candidatos de direita Rodrigo Paz (32,08%) e Jorge Quiroga (26,94%), sela o esvaziamento político da esquerda no país andino.

Segundo o jornalista e escritor boliviano Fernando Molina, autor do livro Las cuatro crisis, a esquerda boliviana vive uma “autodestruição”, resultado direto da cisão entre Morales e Arce. “Essa divisão drástica entre os dois grupos foi como uma pá de terra no caixão”, resume.

De símbolo de transformação a crise de identidade

Eleito em 2005 como o primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales marcou seu governo por transformações estruturais e forte crescimento econômico. Durante a década de 2010, o país cresceu em média 5% ao ano, puxado sobretudo pela exportação de gás natural ao Brasil e à Argentina. Em 2014, a Bolívia atingiu o pico de suas exportações: US$ 6,6 bilhões em hidrocarbonetos. Em 2023, esse valor despencou para US$ 2 bilhões.

O “milagre econômico boliviano” ruiu a partir de 2023, quando a escassez de dólares passou a gerar filas e abriu espaço para um mercado paralelo de câmbio. Ao mesmo tempo, as reservas cambiais caíram de US$ 15 bilhões (2015) para apenas US$ 1,9 bilhão no fim de 2024. O modelo dependente da renda do gás colapsou sem planejamento para substituí-lo.

Brasil e Argentina, principais compradores do gás boliviano, passaram a buscar alternativas: o Brasil investiu no pré-sal e na importação de GNL; a Argentina acelerou a produção em Vaca Muerta, na Patagônia.

Segundo a cientista política Moira Zuazo, da Universidade Livre de Berlim, a crise era previsível: “Já se sabia desde 2010 que o gás estava se esgotando e que o subsídio aos combustíveis era insustentável. Mas o MAS não promoveu o debate necessário”, afirma.

Morales x Arce: o racha que implodiu o MAS

A ruptura entre Evo Morales e Luis Arce, consumada em 2023, foi o golpe final no MAS. Morales tentou voltar à presidência em 2025, mas foi barrado pela Justiça Eleitoral. Em retaliação, pediu voto nulo e sabotou abertamente os candidatos ligados a Arce e mesmo Andrónico Rodríguez, seu antigo pupilo.

“O MAS não debateu a sucessão. E isso implodiu o partido”, diz Zuazo. Ao invés de apoiar um nome de consenso, Morales optou pelo confronto e pelo boicote. Rodríguez não teve sequer o respaldo simbólico do ex-presidente.

Fernando Molina vê nessa atitude o reflexo de uma política personalista, em que o partido se subordina ao líder: “Na Bolívia, os militantes seguem pessoas, não ideias ou instituições. Morales preferiu o voto branco a fortalecer sua própria base no Congresso. É puro culto à personalidade”.

Hoje, Morales vive refugiado em um povoado no centro da Bolívia, protegido por simpatizantes e ameaçado de prisão por acusações que vão desde corrupção até estupro de menor. Já Arce, desgastado por sua impopularidade e pela crise econômica, sequer tentou a reeleição. A candidatura de del Castillo, seu ministro de Governo, foi rejeitada nas urnas.

Divergências sobre o futuro do lítio

O conflito entre Evo e Arce extrapola a disputa pelo poder e se manifesta em temas estratégicos, como o futuro do lítio, mineral fundamental para a transição energética e abundante na Bolívia. Morales defende sua total nacionalização, com monopólio estatal na extração. Arce prefere um modelo estatal híbrido, com parcerias internacionais — como russas e chinesas — para agregar tecnologia à exploração.

Essa falta de consenso interno, somada ao desmonte econômico e à briga de egos, reduziu o MAS a um espectro de si mesmo.

E o futuro de Evo Morales?

Mesmo fora da disputa eleitoral e com a imagem pública profundamente desgastada, o ex-presidente Evo Morales ainda tenta manter relevância política — à sua maneira. Ao votar neste domingo (17/8) no Chapare, reduto histórico do movimento cocaleiro e base de sua liderança, Morales afirmou: “Pela primeira vez na história, se não houver fraude, o voto nulo será o mais votado.”

A previsão não se confirmou, mas 19% dos eleitores optaram por anular o voto, segundo resultados preliminares — uma cifra significativa em uma eleição polarizada e que reflete a rejeição ao sistema político atual e à ausência de uma alternativa consolidada à direita.

Morales compareceu às urnas sem a presença da polícia, segundo relatos da agência AFP, protegido apenas por apoiadores locais. A situação reflete não apenas sua condição de refugiado político informal — ele é alvo de um mandado de prisão por suposto abuso de menor, acusação que nega e atribui a perseguição política — mas também o vácuo de autoridade estatal em regiões como o Chapare.

A cientista política Moira Zuazo alerta que a situação na região precisa ser tratada como um tema regional, e não apenas boliviano: “Hoje, há um enorme vazio estatal no Chapare. É uma área onde a polícia se retirou e onde nenhuma força política ousa fazer campanha”, aponta.

O jornalista e escritor Fernando Molina vê o isolamento de Evo como parte de um ciclo recorrente da política boliviana:

“Sempre que um caudilho de grande importância se eclipsa, surgem a fragmentação e a incerteza.”

Volta ao centro da política é possível?

A grande questão agora é: Evo Morales ainda tem força para retornar ao centro do debate político? Ou sua trajetória se encerra neste capítulo?

Zuazo pondera que, apesar do colapso atual, não é possível decretar o fim definitivo de Morales ou do MAS: “Pode ser o momento de uma reconstrução mais democrática, mais plural. O MAS ainda tem base social. Resta saber se aprenderá com os erros.”

Já Molina avalia que o desgaste do novo governo diante da grave crise econômica pode, paradoxalmente, reabrir espaço para o retorno de Morales: “Se a crise piorar — com empobrecimento, perda de direitos, instabilidade — Morales pode canalizar esse mal-estar. E, claramente, ele já está se preparando para isso.”

O ex-presidente, embora rejeitado por amplos setores da população, mantém influência em segmentos organizados, como sindicatos rurais, movimentos indígenas e núcleos regionais — especialmente no interior do país. Sua capacidade de mobilização permanece, mesmo que limitada. E, numa Bolívia historicamente marcada por volatilidade política, subestimar Evo Morales pode ser um erro de cálculo.

O vácuo deixado pela esquerda

Com a saída do MAS da cena central, a Bolívia vê surgir um novo eixo político. Mas o vácuo deixado pela esquerda — que durante anos implementou políticas de redistribuição e combate à desigualdade — ainda está longe de ser preenchido. Rodrigo Paz e Jorge Quiroga, embora divergentes em estilo, representam variantes do mesmo campo ideológico, e a possibilidade de uma guinada liberal na economia é concreta.

Molina alerta que o colapso do MAS deve ser entendido também à luz de um movimento mais amplo: “Há uma tendência regional de avanço da direita, e a Bolívia não está imune a isso. Mas, neste caso, a destruição foi também por dentro. O MAS perdeu sua narrativa, seu líder, sua base — e agora seu lugar na história recente do poder”.

Ecos da nova direita regional e o perfil boliviano

Embora os candidatos bolivianos que avançaram ao segundo turno — Rodrigo Paz e Jorge “Tuto” Quiroga — estejam associados à direita, nenhum deles se enquadra no perfil do “outsider radical” que tem ganhado força em países vizinhos, como Javier Milei na Argentina ou Jair Bolsonaro no Brasil.

Quiroga, que já presidiu a Bolívia entre 2001 e 2002, representa a direita tradicional e institucionalizada. Ex-vice de Hugo Banzer, militar e ex-ditador eleito democraticamente em 1997, Tuto tem trajetória política ligada aos setores conservadores clássicos, com base no empresariado e nas Forças Armadas.

O terceiro colocado nas urnas, Samuel Doria Medina, empresário e político de centro, também não representa a nova direita radical. Visto historicamente como social-democrata, Medina é membro da Internacional Socialista, mesma organização que reúne partidos como o PDT, no Brasil. Durante a campanha, no entanto, aproximou-se da direita ao receber o apoio do ex-governador de Santa Cruz, Luis Fernando Camacho, preso por envolvimento nos protestos de 2019 que culminaram na queda de Evo Morales. Segundo o analista Fernando Molina, essa aliança contribuiu para a radicalização do discurso de Medina, que acabou derrotado nas urnas, com 19,93% dos votos.

Apesar disso, o movimento global da direita também ressoa na Bolívia. Molina aponta que regiões como Santa Cruz de la Sierra, centro econômico do país e polo agroexportador próximo à fronteira com o Brasil, registram forte influência do bolsonarismo. “Há quem se diga bolsonarista no lado oriental do país, com influência em alguns partidos locais”, observa.

Além disso, a eleição de Milei na Argentina, e seu controle inicial da inflação, têm servido como argumento de campanha para setores conservadores bolivianos. “Tudo isso devolveu certa confiança aos setores mais à direita, mas também coincide com um esgotamento de 20 anos de governo do MAS”, avalia Molina.

Direita boliviana: conservadora, mas não liberal

Ainda assim, a direita que desponta na Bolívia não segue o mesmo roteiro ideológico de Milei ou Bolsonaro. Segundo a cientista política Moira Zuazo, isso se deve aos avanços estruturais promovidos nos anos Morales, como a nova Constituição de 2009, que consolidou direitos dos povos indígenas, maior inclusão social e reconhecimento da plurinacionalidade.

“O que foi alcançado em termos de inclusão não tem volta. Há uma base legal e simbólica muito forte construída nos anos do MAS”, diz Zuazo.

Molina acrescenta que a elite boliviana também tem particularidades que a distanciam do ultraliberalismo visto em países vizinhos:

“É uma elite mais oligárquica, voltada para dentro, menos conectada com o mundo e que depende do Estado para suas riquezas. Uma elite antiestatista aqui estaria contrariando seus próprios interesses.”

Assim, mesmo no campo da direita, os candidatos evitam agendas de choque neoliberal. Quiroga, embora esteja mais à direita do espectro, foca em estabilidade econômica e abertura comercial, mas sem adotar o discurso iconoclasta de Milei. Rodrigo Paz, por sua vez, é um centrista liberal com viés pragmático, que propõe uma economia de mercado voltada para a inclusão, sob o lema de “capitalismo para todos”.

Outro personagem decisivo, ainda que fora das urnas, foi o empresário Marcelo Claure, considerado o homem mais rico da Bolívia. Vice-presidente global da gigante chinesa Shein e dono do Club Bolívar, Claure tentou influenciar o debate eleitoral com críticas ao MAS e mobilizações digitais, em apoio a candidaturas oposicionistas.

Sua atuação mostra como a economia e a elite empresarial buscaram reposicionar-se no vácuo deixado pela queda da esquerda, apostando em lideranças capazes de manter a estabilidade sem romper completamente com o legado de inclusão dos anos Morales.

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