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Mundo
O título, concedido pela Time a figuras que impactam o mundo – seja para o bem ou para o mal – desencadeou uma onda de críticas
Publicado em 13/12/2024 10:38 - Semana On
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A revista Time, uma das mais influentes publicações do mundo, escolheu Donald Trump como a “Pessoa do Ano” de 2024. O título, concedido a figuras que mais impactam o mundo – seja para o bem ou para o mal – desencadeou uma onda de críticas e análises. Segundo o editorial da revista, “talvez nenhum indivíduo tenha desempenhado um papel maior na mudança do curso da política e da história do que Trump”.
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A escolha, no entanto, gerou reações intensas. No Brasil, o colunista Josias de Souza, do UOL, afirmou que Trump foi selecionado não por suas virtudes, mas pelo que representa de “deletério, de negativo”. Para ele, o republicano se tornou “uma ameaça planetária”, opinião que não é isolada no debate público.
Mas o que significa ser uma “ameaça planetária”? Para entender essa afirmação, é preciso olhar para o impacto de Trump não apenas nos Estados Unidos, mas em democracias de todo o mundo. Seu retorno à cena política americana é um evento de magnitude global, pois simboliza o fortalecimento de uma onda autoritária que se espalha pelo mundo desde meados da última década.
O retorno de Trump: um feito político ou uma recaída democrática?
O retorno de Donald Trump ao protagonismo político é, sem dúvida, um feito impressionante. Poucos líderes políticos, após serem derrotados e enfrentarem processos judiciais, conseguem reocupar o centro do poder. Trump, no entanto, contrariou as expectativas. Ele foi alvo de investigações e acusações de tentativa de golpe – especialmente pelo ataque ao Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Ainda assim, com decisões favoráveis da Suprema Corte americana, muitos de seus processos foram arquivados, o que garantiu a ele uma espécie de “salvo-conduto”, conforme apontou Josias de Souza.
Aqui, surge uma das maiores preocupações de analistas políticos e estudiosos da democracia. A jornalista Anne Applebaum, especialista em autoritarismo, lembra que “quando líderes autoritários testam os limites das instituições e não enfrentam consequências, eles tendem a repetir as mesmas práticas, mas de forma mais ambiciosa”. Essa lógica parece se aplicar ao caso de Trump, que agora volta ao poder sem as amarras impostas no início de seu primeiro mandato.
América sob risco: a democracia mais antiga do mundo pode falhar?
A democracia americana, vista durante décadas como modelo global, também se revela vulnerável. A volta de Trump simboliza que nem as instituições mais consolidadas estão imunes ao apelo populista e às estratégias de desinformação. Seu primeiro mandato foi marcado por ataques à imprensa, desprezo por tratados internacionais e apoio tácito a grupos extremistas. Agora, com um ambiente político ainda mais polarizado, as perspectivas não parecem mais seguras.
O cientista político Steven Levitsky, coautor do livro Como as Democracias Morrem, destacou em uma entrevista recente que “a erosão democrática não ocorre da noite para o dia, mas em etapas graduais, em que normas e práticas que antes eram inquebrantáveis começam a ser desrespeitadas”. No caso dos Estados Unidos, o ataque ao Capitólio foi um símbolo dessa erosão. A falta de punição efetiva a seus líderes, somada ao retorno de Trump ao poder, reforça a ideia de que as normas democráticas americanas estão sob risco.
Para muitos analistas, o que mais impressiona não é o retorno de Trump em si, mas a disposição do eleitorado em “devolver à presidência do país um condenado”, nas palavras de Josias de Souza. Essa aparente “normalização” de líderes que subvertem as normas democráticas é uma tendência que pode ser observada em outras nações, como Brasil, Hungria e Turquia.
A influência de Trump no mundo: uma nova onda autoritária
A escolha de Trump como “Pessoa do Ano” simboliza não apenas sua relevância nos Estados Unidos, mas também seu impacto global. Sua retórica nacionalista, isolacionista e combativa influenciou líderes como Jair Bolsonaro, Viktor Orbán (Hungria) e Recep Tayyip Erdoğan (Turquia). Todos eles, em maior ou menor medida, utilizaram o mesmo manual de estratégias de Trump: questionar a lisura do processo eleitoral, atacar as instituições democráticas e cultivar a ideia de que são perseguidos por “inimigos invisíveis”.
Não à toa, Bolsonaro afirmou, em 2020, que se inspirava em Trump para questionar as urnas eletrônicas brasileiras, mesmo sem apresentar provas. Viktor Orbán, por sua vez, se manteve no poder ao minar a independência do Judiciário e controlar a mídia estatal. Essas práticas se tornaram uma espécie de “manual do autoritário contemporâneo”, e Donald Trump, de certa forma, é visto como um de seus principais autores.
O que podemos esperar do segundo mandato de Trump?
O retorno de Trump à presidência dos Estados Unidos, caso se confirme, não será uma simples repetição de seu primeiro mandato. Se antes ele enfrentava resistência de boa parte do establishment político, agora, após decisões judiciais que anularam investigações contra ele, o cenário é diferente. Além disso, o Partido Republicano foi gradualmente “trumpificado”, afastando membros mais moderados e promovendo nomes alinhados ao seu estilo beligerante.
A questão central, segundo a politóloga Ruth Ben-Ghiat, autora de Strongmen: Mussolini to the Present, é que “a partir do momento em que o líder autoritário não enfrenta limites, ele passa a agir de forma mais intensa e agressiva”. Na prática, isso pode significar políticas mais extremas em relação à imigração, relações internacionais e liberdade de imprensa.
Para os críticos, Trump não apenas ameaça a democracia americana, mas o próprio conceito de democracia no mundo. Isso ocorre porque seus métodos servem de inspiração para políticos populistas que enxergam nele um “modelo de sucesso”. E, em tempos de crise econômica e polarização política, as promessas de “retomar o controle” têm apelo popular.
Por que Trump é a pessoa do ano?
A escolha de Donald Trump como “Pessoa do Ano” pela revista Time se justifica pela sua relevância no cenário político mundial, independentemente do juízo de valor. A própria Time afirma que o título não é um prêmio ou reconhecimento de virtude, mas um indicador de quem “mais influenciou os acontecimentos do ano”.
Seja como “ameaça planetária”, como sugere Josias de Souza, ou como símbolo de uma nova configuração do poder global, Trump personifica os dilemas contemporâneos sobre os limites da democracia. Ele evidencia a fragilidade das instituições e mostra que, mesmo na maior democracia do mundo, a insensatez pode ser vencedora.
Como afirmou o editor-chefe da Time, Sam Jacobs, “Trump moldou o mundo”. A frase é incontestável. O desafio, agora, é saber para onde esse molde nos levará.
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