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Mundo

Trump e Netanyahu apostam na guerra para salvar a própria pele

Entenda como os ataques ao Irã expõem estratégia para conter divisões internas nos EUA

Publicado em 02/03/2026 1:37 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Ao ordenar o bombardeio contra o Irã na madrugada de sábado, sem autorização formal do Congresso, Donald Trump voltou a recorrer a uma velha fórmula da política externa americana: usar a guerra como instrumento de coesão doméstica. A decisão, anunciada em vídeo nas redes sociais, ocorre a oito meses das eleições legislativas de novembro, num cenário de fragilidade política interna, carestia e reveses judiciais. Mais do que um movimento estratégico no tabuleiro geopolítico, o ataque parece desenhado para dissolver divisões internas que ameaçam sua precária maioria no Legislativo.

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Trump já havia determinado uma ofensiva contra instalações nucleares iranianas em junho de 2025, durante a chamada “guerra de 12 dias” entre Jerusalém e Teerã. Na gravação divulgada neste fim de semana, reafirmou que o poderio nuclear iraniano foi “obliterado” e justificou os novos ataques como medida urgente para “defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano”. A retórica, no entanto, foi além da autodefesa: prometeu fulminar a capacidade iraniana de produzir mísseis de longo alcance, aniquilar sua Marinha e impulsionar, a partir da insatisfação interna, a queda da República Islâmica. Em outra postagem, celebrou a morte do líder supremo iraniano, chamando-o de “uma das pessoas mais malignas da história”.

A incursão foi realizada em parceria com Israel, ampliando a escala e o risco do confronto regional. O alvo foi o Irã, governado desde 1979 por uma teocracia instaurada após a Revolução Islâmica que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi. Desde então, as relações entre Washington e Teerã alternam hostilidade aberta, sanções econômicas e confrontos indiretos.

No plano interno, a ofensiva ocorre após semanas de desgaste político. A atuação da agência de imigração Immigration and Customs Enforcement (ICE) reacendeu protestos contra políticas anti-imigração. Além disso, a Suprema Corte dos Estados Unidos declarou ilegal a política tarifária da Casa Branca, golpe relevante na narrativa econômica trumpista. O tarifaço, vendido como motor de reindustrialização, produziu retração econômica e pressionou o custo de vida.

O cenário social é de fragmentação. Há uma minoria independente que defende a remoção imediata do presidente; um grupo que aposta na contenção institucional por meio de um Congresso oposicionista; e uma base fiel que sustenta a promessa de “Make America Great Again”. Trump parece calcular que a exibição de musculatura bélica pode recompor parte dessa base e neutralizar críticas.

A Constituição dos Estados Unidos é clara ao atribuir ao Congresso o poder de declarar guerra. O Artigo I, Seção 8, estabelece que cabe ao Legislativo autorizar o uso formal da força. O Executivo, contudo, tem historicamente ampliado sua margem de ação sob o argumento de defesa nacional. O cientista político Arthur Schlesinger Jr. cunhou a expressão “presidência imperial” para descrever essa expansão de poderes no livro The Imperial Presidency. A advertência permanece atual: “A presidência imperial foi um produto da guerra permanente”, escreveu Schlesinger, analisando como conflitos externos consolidaram prerrogativas executivas.

Trump parece operar exatamente nessa tradição. Em entrevistas concedidas neste domingo, apresentou versões contrastantes. À Fox News, afirmou que os ataques conjuntos mataram 48 líderes iranianos. À The Atlantic, acenou para negociações com o recém-proclamado líder supremo interino Alireza Arafi: “Eles querem conversar, então eu concordei e vou falar com eles”. A ambiguidade retórica reforça a percepção de improvisação estratégica.

Não é a primeira vez que Trump testa os limites do uso unilateral da força. Em janeiro, ordenou o bombardeio da Venezuela e promoveu a captura de seu governante, Nicolás Maduro, num movimento que ampliou o isolamento diplomático de Washington na América Latina. Também insinuou ações mais duras contra Cuba. Agora, ao lançar foguetes sobre o território iraniano, realiza sua aposta mais ousada desde o retorno à Casa Branca.

O risco é evidente. A história recente mostra que intervenções militares no Oriente Médio — do Iraque ao Afeganistão — produziram efeitos colaterais duradouros, tanto regionais quanto domésticos. Como observou o historiador Andrew Bacevich em America’s War for the Greater Middle East , a política externa americana na região frequentemente gerou “consequências não intencionais que corroeram a própria segurança que pretendiam proteger”.

No vídeo divulgado no sábado, Trump afirmou estar disposto a fazer o que “nenhum presidente esteve disposto a fazer” desde 1979. Transferiu, no entanto, a responsabilidade pelo eventual fracasso para a própria sociedade iraniana: “Quando terminarmos, assumam seu governo; ele será seu. Esta será provavelmente a sua única chance em gerações.” A declaração ignora que o regime iraniano historicamente reprime protestos com violência extrema. Para sufocar manifestações iniciadas em dezembro, autoridades executaram milhares de opositores, segundo organizações de direitos humanos.

A aposta de Trump é dupla: recuperar popularidade antes das eleições legislativas ou, em caso de insucesso, construir álibis. O mundo observa com perplexidade uma potência nuclear cuja liderança parece oscilar entre o cálculo eleitoral e a escalada militar. Se a estratégia render dividendos políticos internos, consolidará a perigosa normalização do uso unilateral da força. Se falhar, aprofundará divisões e poderá transformar o presidente num “pato manco” ainda na metade do mandato.

Em ambos os cenários, a consequência é a mesma: o trumpismo reafirma sua disposição de tensionar instituições internas e incendiar o tabuleiro internacional como método de sobrevivência política. A conta, como de costume, não será paga apenas em Washington.

Pequim em alerta

O ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, instou os países do Golfo a se unirem para conter “interferências externas” e zelar pela própria soberania. A mensagem, articulada em conversas com o chanceler de Omã e com autoridades iranianas, aponta uma tentativa explícita de Pequim de redimensionar o papel ocidental no bloco regional e de recuperar influência perdida diante do crescente caos geopolítico.

O apelo a uma “união contra a interferência externa” ocorre num momento em que o cenário político do Golfo se reconfigura rapidamente. Estados tradicionalmente alinhados a Washington enfrentam agora tensões domésticas e pressões diplomáticas para recalibrar suas alianças, enquanto protestos e preocupações econômicas se espalham. Ao mesmo tempo, a China — cuja dependência de energia do Oriente Médio é crítica para sua economia — tenta projetar-se como mediadora e alternativa à hegemonia americana, oferecendo um discurso de respeito à soberania que contrasta com a narrativa unilateralista dos ataques liderados por Trump.

A resposta chinesa inclui também esforços diplomáticos com potências europeias, pedindo à França que se associe a Pequim na busca por “desescalação” das hostilidades. Wang Yi qualificou os ataques ao Irã e a morte do líder supremo Ali Khamenei como “inaceitáveis”, e reiterou a necessidade de cessar-fogo imediato e retorno às negociações — um claro contraste com a postura militarista de Washington.

Além das declarações públicas, Pequim enfrenta consequências concretas do conflito: a morte de um cidadão chinês em Teerã e a evacuação de milhares de seus nacionais, segundo autoridades diplomáticas. A ausência de aviso prévio sobre a ofensiva americana intensifica o descontentamento chinês com a imprevisibilidade da política externa dos EUA, ampliando a crítica de que ações unilaterais desprezam tanto o direito internacional quanto a segurança de terceiros.

No plano multilateral, representantes chineses levaram a condenação ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, argumentando que os ataques violam os princípios da Carta das Nações Unidas e os direitos humanos dos iranianos — uma retórica que visa reclamar legitimidade moral e jurídica para o papel de Pequim como ator internacional responsável.

Para analistas, essa postura não é apenas retórica. Ao se apresentar como defensor do “destino próprio” dos Estados do Golfo e crítico da intervenção americana, a China capitaliza a frustração regional com a estratégia militar dos Estados Unidos, cuja ação explosiva no Irã já provocou deslocamentos de populações, volatilidade nos mercados de energia e temores de uma ruptura ainda mais ampla no Estreito de Ormuz — corredor vital por onde passa cerca de 20% do petróleo comercializado mundialmente.

A mensagem de Pequim, portanto, não se limita à condenação: é um projeto geopolítico que visa reposicionar a China como um ator capaz de influenciar equilibrios regionais e minar a narrativa unilateralista dos EUA — justamente quando a administração Trump pretende, com seus ataques no Irã, usar a guerra externa para reforçar sua posição política interna. O resultado dessa estratégia, em curto e médio prazo, pode redesenhar alianças e intensificar a competição entre potências por influência nos fluxos de energia e segurança global.

Moscou eleva o tom contra Washington

A Rússia classificou como “agressão” os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã e exigiu cessar-fogo imediato, ampliando o eixo de contestação internacional às ações militares lideradas por Washington. Em nota divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores e repercutida pela agência estatal Tass, Moscou afirmou que a escalada é “profundamente preocupante” e cobrou medidas urgentes para proteger civis em toda a região.

A manifestação oficial coloca o Kremlin no campo explícito de condenação às ofensivas que culminaram na morte do líder supremo iraniano, Ali Khamenei. O governo de Vladimir Putin acusou Washington de perseguir uma mudança de regime por “métodos inescrupulosos”, incluindo o assassinato da liderança de um Estado soberano — formulação que ecoa o discurso histórico russo de defesa da soberania nacional contra intervenções externas.

O Ministério das Relações Exteriores foi além: declarou que Estados Unidos e Israel não apenas buscam redesenhar o poder em Teerã, mas também sabotam esforços de normalização entre o Irã e seus vizinhos árabes. A acusação reforça uma leitura estratégica segundo a qual a guerra extrapola o confronto militar e atinge o equilíbrio diplomático regional.

No mesmo dia, as Forças de Defesa israelenses anunciaram operações no Líbano contra o Hezbollah, em resposta a ataques do grupo xiita — aliado de Teerã — realizados após a ofensiva americana. O risco de alastramento do conflito para múltiplos frontes confirma o temor russo de descontrole regional.

A posição de Moscou também foi reiterada em comunicado conjunto com o emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani. O texto enfatiza a necessidade de retorno aos “métodos políticos e diplomáticos” para resolver divergências com base no respeito mútuo e na igualdade soberana. Ao associar-se a Doha — ator relevante na mediação de crises regionais — o Kremlin busca sinalizar protagonismo diplomático e ampliar sua interlocução no Golfo.

Putin já havia classificado a morte de Khamenei como “homicídio cínico” e, no domingo, afirmou que negociações que considerava “promissoras” foram substituídas por agressões diretas. A formulação sugere que Moscou enxerga na ofensiva americana uma ruptura deliberada de canais diplomáticos, o que reforça sua narrativa de que Washington opera à margem de consensos multilaterais.

A reação russa deve ser lida em duas dimensões. No plano imediato, trata-se de alinhamento estratégico com Teerã, parceiro militar e energético em um cenário global de sanções e reconfiguração de alianças. No plano mais amplo, Moscou tenta reafirmar sua posição como contrapeso ao unilateralismo americano — discurso que já mobilizou em outros episódios de intervenção ocidental.

A escalada envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos transforma o conflito em palco de disputa entre grandes potências. Ao condenar a ofensiva e exigir cessar-fogo, a Rússia não apenas critica a ação militar: ela reivindica espaço como mediadora alternativa num sistema internacional cada vez mais tensionado pela competição geopolítica.

Se a estratégia americana aposta na força como instrumento de recomposição política interna, Moscou aposta na diplomacia como instrumento de reposicionamento externo. O resultado dessa disputa narrativa poderá redefinir não apenas os rumos do conflito no Oriente Médio, mas o equilíbrio entre as potências que disputam influência sobre ele.

Guerra maior que Teerã

A nova investida militar de Estados Unidos e Israel contra o Irã, a segunda em menos de um ano, extrapola a narrativa oficial de “ataque preventivo” e insere-se numa disputa geopolítica mais ampla. Analistas ouvidos pela Agência Brasil sustentam que a operação visa não apenas pressionar por uma mudança de regime em Teerã, mas também redesenhar o equilíbrio estratégico do Oriente Médio, afetando diretamente os interesses da China e reforçando a centralidade militar de Israel na região.

A ofensiva ocorreu quando negociações diplomáticas mediadas por Omã indicavam avanço concreto. Segundo o chanceler omanense, Badr bin Hamad Albusaidi, o governo iraniano havia aceitado não manter estoques de urânio enriquecido — medida que, se confirmada, representaria um compromisso inédito. A declaração foi feita à rede CBS um dia antes dos bombardeios. O contraste entre o estágio das tratativas e a decisão militar alimenta o ceticismo de especialistas quanto à justificativa nuclear apresentada por Washington e Tel Aviv.

Para Rashmi Singh, professora da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, o momento escolhido revela cálculo estratégico. Segundo ela, tanto Washington quanto o governo de Benjamin Netanyahu avaliaram que o Irã atravessa fase de vulnerabilidade e poderia ser pressionado a aceitar uma transição política favorável aos interesses ocidentais. A docente sustenta que a meta seria neutralizar o principal contraponto à supremacia israelense no Oriente Médio.

A leitura converge com a análise de Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, para quem a explicação centrada na “contenção nuclear” é insuficiente. O eixo real da crise, afirma, está na disputa pelo controle das rotas energéticas e na tentativa de limitar a influência regional iraniana. O impacto sobre a China seria imediato: Pequim é grande importadora de petróleo iraniano, cujo escoamento depende do estratégico Estreito de Ormuz.

A conexão sino-iraniana também é destacada por Ali Ramos, especialista em geopolítica. Ele observa que Teerã ocupa posição-chave na arquitetura econômica da Iniciativa do Cinturão e Rota, projeto estruturante da política externa chinesa. A eventual queda do governo iraniano abriria espaço, segundo essa perspectiva, para maior interferência ocidental na Ásia Central e criaria obstáculos logísticos aos corredores de infraestrutura que conectam China, Oriente Médio e Europa.

O historiador Rodolfo Queiroz Laterza amplia o foco e insere a ofensiva no contexto da rivalidade estrutural entre Washington e Pequim. Para ele, retirar o Irã da engrenagem econômica articulada por China e Rússia na Eurásia significaria enfraquecer um eixo alternativo ao sistema dominado pelos Estados Unidos. O país persa figura entre os maiores produtores globais de petróleo e detém uma das mais volumosas reservas comprovadas de hidrocarbonetos — ativo estratégico em qualquer disputa por supremacia econômica.

A centralidade israelense na equação é sublinhada por Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC. Ele considera secundária a justificativa nuclear e interpreta o movimento como parte de um projeto para impedir o surgimento de qualquer potência regional capaz de rivalizar com Tel Aviv. Na avaliação do professor, Washington atua como fiador dessa primazia.

O pano de fundo remete ao histórico contencioso iniciado após a Revolução Islâmica de 1979, quando o Irã rompeu com a órbita americana e passou a enfrentar sucessivas sanções. Em 2015, durante o governo de Barack Obama, foi firmado o acordo nuclear que previa inspeções internacionais. A retirada unilateral dos EUA do pacto, ainda no primeiro mandato de Donald Trump, reabriu a crise e ampliou a desconfiança.

Roberto Goulart Menezes, da Universidade de Brasília, recorda que o Irã é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e aceita inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica. Para ele, a retórica sobre armas atômicas funciona como argumento recorrente em uma política externa orientada pela lógica de poder. O sociólogo Raphael Seabra, também da UnB, classifica essa dinâmica como expressão de imperialismo — conceito que descreve a imposição de interesses de uma potência central sobre Estados periféricos por meio de instrumentos econômicos, políticos ou militares.

Ao exigir não apenas limites ao programa nuclear iraniano, mas também o desmantelamento de mísseis de longo alcance e o fim do apoio a grupos como Hamas e Hezbollah, Washington amplia o escopo das exigências para além do campo atômico. O resultado é um conflito cuja dimensão ultrapassa a segurança regional e se conecta a uma disputa sistêmica entre grandes potências.

A sucessão de ofensivas em intervalo tão curto indica que o confronto com Teerã tornou-se peça de engrenagem maior. Não se trata apenas de neutralizar um programa nuclear controverso, mas de influenciar corredores energéticos, alianças estratégicas e a própria arquitetura de poder no Oriente Médio — região que, mais uma vez, converte-se em epicentro de rivalidades globais.

Relatores da ONU acusam plano para Gaza de violar direito internacional

Um grupo de relatores independentes das Nações Unidas classificou como “ilegal” e “ilegítima” a criação do chamado Conselho de Paz proposto pelo governo Trump para conduzir a reconstrução de Gaza. Em carta divulgada nesta segunda-feira, os especialistas afirmam que qualquer iniciativa sobre o futuro do território palestino deve estar ancorada no direito internacional e nas normas de direitos humanos — não em interesses geopolíticos ou econômicos de potências estrangeiras.

O documento é assinado, entre outros, por Balakrishnan Rajagopal, relator especial sobre moradia adequada, e Francesca Albanese, relatora especial sobre a situação dos direitos humanos no território palestino ocupado. Eles sustentam que a aprovação do Conselho de Paz por meio da Resolução 2803 do Conselho de Segurança da ONU contraria princípios fundamentais do direito internacional, especialmente o direito à autodeterminação.

Segundo os relatores, a medida também afronta o parecer consultivo emitido em julho de 2024 pela Corte Internacional de Justiça, que determinou a necessidade de encerramento imediato da ocupação israelense. A posição foi reiterada posteriormente pela Assembleia Geral da ONU na Resolução ES-10/24.

A crítica vai além da legalidade formal. Para os especialistas, o modelo proposto representaria um retrocesso a práticas coloniais, ao retirar dos próprios palestinos a condução sobre a reconstrução de seu território. “O direito à autodeterminação é inalienável”, afirmam, rejeitando qualquer condicionamento político ou estratégico imposto de fora.

Os relatores alertam que decisões sobre planejamento urbano, infraestrutura e desenvolvimento econômico devem ser tomadas pelos residentes de Gaza, inclusive no que diz respeito ao retorno seguro às suas propriedades. A imposição externa de diretrizes para reconstrução, argumentam, comprometeria a legitimidade do processo e aprofundaria a vulnerabilidade política da população local.

A dimensão material da devastação reforça a gravidade da situação. Estimativas indicam que, entre outubro de 2023 e outubro de 2025, ao menos 92% das unidades habitacionais de Gaza foram destruídas ou danificadas. Em análise recente, o relator sobre moradia adequada concluiu que a destruição sistemática de residências — fenômeno descrito como “domicídio” — pode configurar crimes de guerra e alcançar o patamar de crimes contra a humanidade e genocídio.

O documento também estabelece responsabilidades diretas. Como potência ocupante e parte beligerante, Israel teria obrigação prioritária de assegurar condições para a reconstrução, inclusive permitindo a entrada irrestrita de materiais e equipamentos. Os especialistas estendem a responsabilidade a Estados que forneceram apoio militar ou logístico durante a campanha em Gaza.

Para que qualquer processo de reconstrução seja considerado sustentável e alinhado aos direitos humanos, defendem os relatores, três condições são indispensáveis: manutenção do cessar-fogo, fim da ocupação e garantias de não repetição das violações. Sem esses elementos, alertam, iniciativas internacionais correm o risco de legitimar uma ordem imposta, marcada por assimetrias de poder.

Ao questionar frontalmente o Conselho de Paz, os especialistas da ONU inserem o debate sobre Gaza em uma arena jurídica e política mais ampla. A disputa não se limita à reconstrução física de edifícios, mas envolve a definição de soberania, responsabilidade internacional e os limites da intervenção externa em territórios devastados por conflito.

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