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Mundo
Nova lei fiscal dos EUA amplia desigualdades, desmonta políticas de bem-estar e inspira a direita brasileira
Publicado em 04/07/2025 10:36 - Semana On
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O que une a ampliação do muro entre os Estados Unidos e o México à perda de acesso à saúde por milhões de americanos? A resposta está no coração da nova política econômica que Donald Trump oficializa neste 4 de julho: uma legislação fiscal que representa a mais drástica transferência de renda dos pobres para os ricos no país desde a era Reagan, há mais de 40 anos. Disfarçada sob slogans patrióticos e promessas de crescimento, a lei aponta para um cenário de agravamento da desigualdade social, esvaziamento de políticas públicas e regressão ambiental.
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Mas o que se desenha nos Estados Unidos vai muito além de suas fronteiras. A ideologia por trás da “Big, Beautiful Bill” – como Trump apelidou o projeto – já encontra terreno fértil em países onde a extrema direita busca restaurar sua hegemonia. No Brasil, essa inspiração se reflete na retórica e nas propostas de figuras como Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira, que enxergam no trumpismo não apenas uma afinidade ideológica, mas um modelo de poder.
Um projeto político travestido de reforma fiscal
Não se trata apenas de uma reestruturação tributária: a nova lei fiscal americana é, de fato, uma reengenharia completa das prioridades do Estado. Com 887 páginas, ela prevê isenções de até US$ 4,5 trilhões, que beneficiarão de forma desproporcional as grandes fortunas e corporações. A alíquota do imposto corporativo, reduzida de 35% para 21%, representa um corte massivo de arrecadação em nome de uma “competitividade” que pouco ou nada retorna às camadas populares.
Enquanto os rendimentos da elite devem aumentar até US$ 12 mil anuais, a renda dos mais pobres cairá em US$ 1.300 por ano, segundo o Congressional Budget Office (CBO). Isso em um país onde o salário mínimo federal permanece estagnado em US$ 7,25 por hora desde 2009, e onde mais de 38 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza.
A mesma lei que amplia lucros de herdeiros de fortunas superiores a US$ 15 milhões, corta quase US$ 1 trilhão do Medicaid, programa que garante acesso à saúde a cerca de 70 milhões de americanos, e mais US$ 250 bilhões de programas de alimentação como o SNAP, que sustenta 40 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar. “Os rostos do Medicaid incluem nossas crianças, nossos deficientes, nossos veteranos, nossos vizinhos e amigos”, alertou Rick Pollack, CEO da American Hospital Association, em nota oficial. “As consequências reais dessas reduções afetarão negativamente o acesso ao atendimento para todos os americanos.”
Trata-se de uma inversão clara da lógica do Estado de bem-estar, substituído por um modelo em que o mercado financeiro assume o protagonismo e a proteção social é tratada como “gasto excessivo”.
Endividamento crescente e repressão como solução
A ironia cruel dessa engenharia é que ela não resulta sequer em equilíbrio fiscal. Pelo contrário: o mesmo projeto que desonera os mais ricos empurra o país para uma dívida pública estimada em US$ 3,3 trilhões adicionais até 2034. Somente com o pagamento de juros, os EUA gastarão US$ 700 bilhões, o que, por si só, poderia financiar amplamente o Medicaid e outros programas sociais por anos.
Para compensar o desmonte do Estado social, o governo Trump aposta no fortalecimento da máquina repressiva: US$ 350 bilhões serão destinados à ampliação do controle de fronteiras, deportações e segurança nacional. O número de deportações saltará para 1 milhão por ano, graças à contratação de 10 mil novos agentes de imigração e à construção de centros de detenção em massa. Paralelamente, US$ 46 bilhões financiarão a expansão do muro com o México – um símbolo que, mais do que segurança, representa a institucionalização da xenofobia como política de Estado.
Uma guinada regressiva na política ambiental
Outro eixo da nova lei fiscal é o desmonte do legado ambiental de Joe Biden. Trump revogou US$ 543 bilhões em incentivos à energia limpa, cancelando benefícios fiscais para veículos elétricos, energia solar e eólica. “Ele está querendo desmantelar todos os programas para o meio ambiente. Está interessado apenas em lucros”, avaliou o historiador James Green, da Universidade de Brown. Do outro lado, o setor petrolífero comemora: “Esta legislação inaugura uma nova era de domínio no setor energético”, declarou Mike Sommers, CEO do Instituto Americano de Petróleo.
Ao ignorar o Acordo de Paris e retroceder nos compromissos climáticos, Trump reforça o negacionismo climático e amplia a vulnerabilidade global diante das mudanças ambientais.
O espelho brasileiro: do boné vermelho ao desmonte do Estado
O impacto dessa política nos EUA seria grave por si só. Mas torna-se ainda mais alarmante quando percebemos seu efeito mimético sobre a direita latino-americana – em especial no Brasil. Durante o governo Bolsonaro (2019–2022), a subserviência ao trumpismo não se traduziu em ganhos concretos: tarifas sobre aço, prejuízos ao agronegócio e irrelevância diplomática foram os resultados mais visíveis.
Mesmo assim, o trumpismo tropical prospera. Tarcísio de Freitas, possível presidenciável em 2026, defende abertamente a cartilha ultraliberal, tomando como inspiração tanto Trump quanto Javier Milei na Argentina. A ideia de um Estado mínimo, focado exclusivamente em segurança pública e privatizações, ignora as particularidades históricas e sociais do Brasil: desigualdade estrutural, racismo institucional, fome e precarização do trabalho.
Como alerta o sociólogo Jessé Souza, autor de A Elite do Atraso (Leya, 2017), “o liberalismo à brasileira serve apenas para preservar privilégios históricos e criminalizar a pobreza”. A proposta da extrema direita, camuflada sob o discurso de “eficiência”, é na verdade um projeto de exclusão.
A democracia sob ameaça econômica
A erosão do Estado social não é apenas uma questão econômica: é uma ameaça direta à democracia. Como bem demonstra a filósofa Wendy Brown em Undoing the Demos, políticas neoliberais que subordinam a vida social às lógicas de mercado acabam corroendo os fundamentos democráticos. O cidadão deixa de ser sujeito de direitos e passa a ser visto como consumidor – e os não consumidores, como descartáveis.
Esse modelo, exportado do trumpismo para o Brasil, pode produzir um ciclo vicioso: mais exclusão, mais repressão, menos participação democrática. Não por acaso, o avanço dessas pautas vem acompanhado de ataques à imprensa, ao judiciário e às instituições de controle.
A questão central, portanto, não é apenas fiscal ou ideológica: trata-se do tipo de sociedade que queremos construir. Um Estado que desinveste em saúde, educação, alimentação e habitação para beneficiar bilionários e empresas de petróleo não é neutro – é um Estado que escolheu lado. E o lado é o da minoria que já concentra riquezas e poder.
O que está em jogo em 2026
O Brasil de 2026 terá diante de si uma escolha civilizatória. O modelo trumpista, reproduzido com verniz tropical por setores da extrema direita, representa não apenas um retrocesso econômico, mas uma ameaça concreta ao pacto social que sustenta a democracia. A lição americana é clara: a promessa de crescimento não pode justificar a destruição dos mecanismos que garantem dignidade às maiorias.
Mais do que nunca, será preciso questionar: a quem serve a política tributária? Quem paga a conta dos privilégios fiscais? Qual o custo humano de cada corte orçamentário? E, sobretudo, que país queremos legar às próximas gerações?
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