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Discurso contrasta com estatísticas oficiais: 73% dos imigrantes detidos não têm antecedentes criminais
Publicado em 05/02/2026 3:32 - Semana On
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Durante um café da manhã anual com líderes religiosos, em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump voltou a tratar a imigração latino-americana como sinônimo de ameaça criminal. Disse que governantes da região seriam “astutos” por enviarem aos EUA apenas sua “gente ruim”, repetindo um argumento central da campanha de 2024. Ao comentar que “os criminosos deles faziam os nossos parecerem bebês”, arrancou risos da plateia — inclusive do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, elogiado por aceitar deportados em prisões de segurança máxima. Em tom de piada, Trump chegou a perguntar se Bukele não enviaria apenas “os piores”, antes de concluir: “Gosto dele. Ele fez um grande trabalho”.
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A retórica foi apresentada como parte de um balanço político do início de seu segundo mandato, no qual Trump celebrou deportações em massa, afirmou que 2,5 milhões de migrantes deixaram o país e exaltou uma suposta retomada da religiosidade entre jovens americanos. O pano de fundo é eleitoral. Em novembro, os republicanos disputam eleições legislativas de meio de mandato e enfrentam risco de perda de apoio entre comunidades hispânicas e afro-americanas, que tiveram peso nas presidenciais de 2024.
Os dados oficiais, no entanto, tensionam o discurso. Levantamento do Transactional Records Access Clearinghouse (TRAC), da Universidade de Syracuse, mostra que 73% dos 68 mil imigrantes detidos nos Estados Unidos ao final de 2025 não tinham antecedentes criminais. Entre os condenados, muitos respondiam apenas por delitos menores, como infrações de trânsito. Ainda assim, o governo sustenta que o Serviço de Alfândega e Imigração (ICE) concentra esforços na prisão de indivíduos perigosos para a segurança pública.
O Conselho Americano de Imigração aponta outra dinâmica. Segundo a organização, a detenção de imigrantes sem antecedentes criminais cresceu 2.450% sob o governo Trump. O número total de pessoas presas aumentou 75%, saltando de cerca de 40 mil para 68 mil, com projeção de atingir 100 mil já no início de 2026. No mesmo período, as liberações discricionárias despencaram: de janeiro a 29 de novembro de 2025, a queda foi de 87%. Em novembro, para cada imigrante liberado enquanto aguardava audiência, 14,3 foram deportados diretamente — proporção quase dez vezes maior que a registrada em dezembro de 2024.
As detenções, segundo o Conselho, têm sido usadas como instrumento de pressão para forçar migrantes a desistirem de processos de regularização e aceitarem a deportação. Batidas indiscriminadas em locais de trabalho, patrulhas itinerantes e prisões “colaterais” passaram a complementar operações direcionadas. Imigrantes que comparecem regularmente a audiências judiciais relatam ser detidos novamente, sem aviso prévio.
O contraste entre narrativa oficial e realidade ganhou rosto com a prisão do influenciador brasileiro Júnior Pena, que soma quase um milhão de seguidores nas redes. Conhecido por comentar imigração e defender as políticas de Trump, Pena afirmava que “apenas bandidos” eram detidos pelo ICE. Segundo um amigo, ele foi preso por não comparecer a uma audiência migratória; teria entrado no país de forma irregular. O episódio expôs o alcance de um sistema que atinge também quem o defendia publicamente.
Há ainda questionamentos legais. O historiador James N. Green, professor emérito da Universidade Brown e presidente do Washington Brazil Office, afirma que juízes em Minnesota — estado que liderou protestos contra o ICE — identificaram centenas de violações nos procedimentos de detenção. Segundo ele, agentes têm parado e prendido pessoas sem que haja confissão de irregularidade migratória, prática vedada pela lei. Green aponta que muitos imigrantes desconhecem o direito de permanecer em silêncio e acabam autorizando a própria prisão ao abrir a porta para agentes federais. Para ele, a meta informal de até 3 mil detenções diárias estimula abusos.
O avanço das prisões também movimenta interesses econômicos. No início de 2025, cerca de 90% dos detidos estavam em unidades pertencentes ou operadas por empresas privadas. O próprio ICE administra poucas instalações. Com o orçamento do órgão triplicado, o setor privado tornou-se um dos principais beneficiários da política anti-imigração. Até o fim de novembro, o ICE utilizava 104 centros de detenção a mais do que no começo do ano — aumento de 91%.
O impacto humano é crescente. Entre janeiro e 18 de dezembro de 2025, 30 pessoas morreram sob custódia do ICE, número superior ao registrado durante a pandemia de covid-19. No Texas, um centro de detenção foi colocado em quarentena após casos de sarampo. Transferências frequentes entre estados — ou deportações rápidas — fazem com que famílias “desapareçam” do sistema, reaparecendo a milhares de quilômetros ou fora do país. Embora ações judiciais tenham evitado algumas deportações, a maioria dos detidos não dispõe de recursos para contestar decisões do ICE.
Entre frases de efeito, risos em eventos oficiais e números frios, a política migratória americana segue avançando menos como estratégia de segurança e mais como engrenagem de contenção, punição e lucro. Os dados estão aí. A retórica, também. O choque entre ambas já não é detalhe: virou método.
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