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Mundo

Trump confirma sobretaxa ao aço e ao alumínio brasileiros

Mas, taxação deve prejudicar mais os EUA do que o Brasil

Publicado em 11/02/2025 11:34 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Em um movimento protecionista inédito no setor siderúrgico, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a suspensão de todos os acordos, cotas e isenções relacionadas ao comércio de aço e alumínio com países aliados. A medida estabelece uma sobretaxa de 25% sobre o aço e o alumínio importados de todas as nações, afetando diretamente as exportações brasileiras, que somam mais de US$ 6 bilhões anuais.

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A decisão, mais abrangente do que o previsto inicialmente, desencadeou reações imediatas. O governo brasileiro estuda possíveis retaliações contra os Estados Unidos, mas busca evitar danos à indústria nacional ou uma escalada em uma guerra comercial.

Com a ordem executiva assinada por Trump, o Brasil, segundo maior fornecedor de aço aos EUA, está entre os países mais prejudicados, ao lado de Canadá, Coreia do Sul, União Europeia e México. Em 2024, o Brasil exportou US$ 5,7 bilhões em produtos de ferro e aço para o mercado americano, o que representa 48% das vendas externas do setor. No segmento de alumínio, as exportações brasileiras somaram US$ 267,1 milhões, 16,8% do total vendido ao exterior.

De acordo com levantamento da Câmara de Comércio Brasil-EUA, produtos semi-acabados de ferro ou aço ocupam o segundo lugar entre os itens mais exportados pelo Brasil para o mercado americano, com um volume de US$ 3,5 bilhões em 2024.

Motivações protecionistas e ameaças de Trump

Trump justificou a medida afirmando que os EUA precisam proteger suas indústrias estratégicas. “Os Estados Unidos estavam sendo enganados por inimigos e aliados. Precisamos proteger o setor, e isso valerá para todos os países”, disse o presidente. Segundo ele, o objetivo é fazer com que a produção retorne ao território americano.

O assessor comercial da Casa Branca, Peter Navarro, reforçou o caráter estratégico da medida, afirmando que as novas tarifas visam garantir a segurança econômica e nacional do país. “Não se trata apenas de comércio. É uma questão de nunca mais depender de nações estrangeiras para setores essenciais como o aço e o alumínio”, declarou.

Trump foi categórico ao ser questionado sobre as possíveis retaliações de países afetados. “Eu não me importo”, afirmou, acrescentando que, em sua visão, tais nações não têm margem para represálias eficazes.

Reação internacional e cenário brasileiro

Diversos países anunciaram que irão reagir às medidas protecionistas. A Comissão Europeia prometeu proteger os interesses do bloco, enquanto o chanceler alemão Olaf Scholz classificou a decisão como “ilegal”. Na Coreia do Sul, o governo convocou uma reunião de emergência com representantes da indústria siderúrgica para avaliar formas de mitigar os impactos.

No Brasil, a orientação inicial do governo é de responder de forma pragmática e ponderada, sem escalonar o conflito comercial. O Itamaraty já trabalha na elaboração de uma lista de possíveis produtos a serem incluídos em uma eventual retaliação. Entre os setores analisados estão as empresas digitais, um ponto sensível para os EUA.

Precedentes e contexto político

Desde o início da presidência de Trump, o Brasil buscava evitar atritos comerciais com os EUA, especialmente devido às diferenças de posicionamento em temas globais. Durante o governo de Jair Bolsonaro, o Brasil aceitou a aplicação de cotas e tarifas como forma de preservar a aliança política com Trump. Entretanto, as sobretaxas atuais indicam que o governo norte-americano prioriza suas políticas domésticas independentemente dos aliados.

As novas tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio foram acompanhadas de uma intensificação dos controles aduaneiros para evitar que países como China e Rússia possam driblar as barreiras por meio de exportações indiretas via Canadá e México.

Repercussão nos mercados

A decisão de Trump já impacta o mercado financeiro. As ações de grandes siderúrgicas americanas, como a Nucor, subiram 9,5% após o anúncio, enquanto a Century Aluminum registrou alta de 8,5%. Por outro lado, companhias internacionais como a ArcelorMittal e a Hyundai Steel sofreram quedas expressivas.

O cenário evidencia uma nova fase de tensões comerciais que deve mobilizar governos, indústrias e diplomacias nos próximos meses. Para o Brasil, a resposta pragmática será fundamental para equilibrar os interesses comerciais e estratégicos sem agravar a crise com o principal mercado de exportação de seus produtos siderúrgicos.

Taxação deve prejudicar os EUA mais do que o Brasil, aponta especialista

Apesar das reações iniciais, a decisão de Donald Trump de retomar a taxação de 25% sobre as importações de aço e 10% sobre o alumínio gerou apreensão inicial entre empresários e políticos brasileiros. No entanto, análises como a do diretor de Comércio Exterior da Câmara de Comércio Indústria e Serviços do Brasil (Cisbra), Arno Gleisner, trazem uma perspectiva menos alarmante. Para ele, o impacto imediato sobre o Brasil será limitado, enquanto as consequências negativas devem recair majoritariamente sobre os Estados Unidos.

“O mercado americano terá que pagar mais caro pelo aço importado, inclusive o brasileiro. Isso pode gerar efeitos inflacionários e prejudicar a competitividade da indústria americana no longo prazo”, destacou Gleisner durante entrevista ao UOL News. Segundo ele, esse tipo de medida protecionista, no curto prazo, cria um ambiente artificialmente favorável para a indústria local, mas tende a se mostrar insustentável com o tempo.

Diferentemente do que muitos inicialmente pensaram, a taxação não foi direcionada especificamente ao Brasil, mas aplicada a todos os países que exportam aço e alumínio para os Estados Unidos. Essa abrangência limita o impacto negativo sobre a indústria siderúrgica brasileira, já que os principais concorrentes internacionais — como China, Canadá e México — também estarão sujeitos às mesmas tarifas.

“Não há uma repercussão grave de maneira nenhuma. No curto prazo, praticamente nada muda, pois o mercado americano não tem como substituir suas importações de forma rápida”, afirmou Gleisner. Ele explicou que os produtores americanos não possuem capacidade imediata para suprir a demanda interna, o que obrigará os Estados Unidos a continuar importando aço brasileiro, mesmo com a aplicação de tarifas mais altas.

O especialista relembrou o episódio de 2018, quando Trump adotou uma medida semelhante. Na ocasião, as siderúrgicas americanas enfrentaram falta de matéria-prima, o que levou o governo a rever parte das tarifas e estabelecer cotas. “Algo semelhante pode acontecer agora. Essa taxação pode durar apenas alguns meses até que fique evidente seu impacto negativo interno”, disse Gleisner.

Setor siderúrgico brasileiro: sem riscos de perda de empregos

Uma das preocupações iniciais era a possível perda de empregos na cadeia produtiva brasileira. No entanto, Gleisner descartou essa possibilidade no curto e médio prazo. “O setor siderúrgico é intensivo em capital, não em mão de obra. Além disso, apenas 10% a 12% da nossa produção de aço é direcionada à exportação. Não vejo riscos de perda de empregos nos próximos anos”, afirmou.

Ele também destacou que a cadeia produtiva do aço envolve diversas etapas — desde a produção da matéria-prima até o transporte e o desembaraço aduaneiro —, o que gera uma base de empregos distribuída e resiliente. Mesmo com a taxação americana, Gleisner acredita que essa estrutura continuará funcionando sem grandes mudanças.

A estratégia de Trump, de proteger a indústria local para “tornar os Estados Unidos mais ricos”, segundo o próprio ex-presidente, pode ter o efeito oposto. Gleisner explica que a taxação encarecerá o custo de insumos para as indústrias americanas que dependem do aço importado, como a automobilística e a de construção civil. Esse aumento de custos pode ser repassado ao consumidor final, provocando uma pressão inflacionária.

Além disso, o protecionismo pode desestimular investimentos e inovação no setor industrial americano. “No início, pode parecer vantajoso para a indústria local, mas, no longo prazo, ela perde competitividade global e pode enfrentar desindustrialização. Isso já foi observado em outros momentos da história econômica americana”, pontuou.

Resposta brasileira: sem necessidade de retaliação

Durante a entrevista, Gleisner foi questionado sobre a possibilidade de o Brasil retaliar os Estados Unidos, conforme sugerido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva antes da confirmação da medida. O especialista descartou a necessidade de uma resposta agressiva, argumentando que o Brasil não sairia beneficiado.

“Não há motivo para retaliação, já que todos os nossos concorrentes também estão sendo taxados. O Brasil não está em desvantagem”, explicou. Para Gleisner, a fala de Lula pode ter sido uma referência a medidas protecionistas mais amplas, envolvendo outros produtos brasileiros, o que, no momento, não está no radar do governo americano.

Além disso, Gleisner destacou que a balança comercial entre Brasil e Estados Unidos não é desfavorável para os americanos, diferentemente de países como China, México e Canadá. Isso torna menos provável que o Brasil seja alvo de medidas mais severas no futuro.

O exemplo da Gerdau e a internacionalização das empresas brasileiras

Uma alternativa para driblar o impacto das tarifas é a internacionalização das empresas brasileiras, como no caso da Gerdau, que já possui plantas industriais nos Estados Unidos. Essa estratégia tem permitido à empresa atender ao mercado americano sem depender de exportações diretas do Brasil, minimizando os efeitos de medidas protecionistas.

“A decisão da Gerdau se mostrou muito acertada. Eles produzem aço nos Estados Unidos utilizando sucata como matéria-prima, o que facilita a produção local e reduz os custos logísticos”, explicou Gleisner. Ele também ressaltou a importância de programas de incentivo à internacionalização, que têm sido adotados por outras empresas brasileiras, como a ArcelorMittal e a Usiminas.

A Gerdau se destaca por adotar um modelo de economia circular, reciclando sucata metálica para produzir aço. Isso não só torna a operação mais sustentável, mas também reduz a dependência de importações de minério de ferro. Gleisner apontou que esse modelo pode servir de inspiração para outras empresas brasileiras que desejam expandir suas operações internacionais.

Fortalecer a indústria sem protecionismo: o caminho para o Brasil

Ao ser questionado sobre o que o Brasil pode fazer para fortalecer sua indústria, Gleisner foi enfático ao defender políticas de incentivo horizontais, aplicáveis a todos os setores, em vez de medidas protecionistas. “Taxações elevadas sobre importações não são o caminho. Elas levam ao atraso tecnológico e ao aumento da inflação”, alertou.

Segundo ele, o Brasil deve investir na inovação e na modernização tecnológica de suas indústrias para se manter competitivo no mercado global. “Incentivos fiscais e programas de fomento à pesquisa e desenvolvimento são muito mais eficazes do que barreiras protecionistas”, concluiu.

Impacto limitado no Brasil e alerta para os EUA

A taxação de Trump ao aço e alumínio pode não representar uma ameaça significativa ao Brasil, mas levanta alertas importantes para a economia americana. Enquanto o Brasil segue com sua base produtiva estável e empresas como a Gerdau colhem os frutos da internacionalização, os Estados Unidos enfrentam o risco de inflação e perda de competitividade industrial.

Dessa forma, especialistas recomendam que o Brasil evite retaliações desnecessárias e concentre seus esforços em fortalecer sua indústria local por meio de políticas horizontais e investimentos estratégicos. Afinal, como pontuou Gleisner, “no longo prazo, o protecionismo sempre cobra seu preço”.

China promete ‘luta decidida’ contra tarifas

A China prometeu reagir com firmeza às novas tarifas impostas pelos Estados Unidos. Em publicação nas redes sociais estatais WeChat e Weibo, o perfil oficial da CCTV destacou: “Se os EUA tomarem outras medidas, a China continuará a responder de forma resoluta!”.

Pequim respondeu às tarifas de 10% impostas por Washington sobre todos os produtos chineses com contramedidas de 10% a 15% sobre petróleo bruto, gás natural liquefeito, carvão, equipamentos agrícolas e produtos automotivos.

Segundo a publicação, a retaliação “mostra que os EUA terão de arcar com o custo de suas ações”. Além disso, a mensagem reforçou que “a China precisa do mundo, e o mundo precisa da China”, destacando os esforços do país em diversificar suas exportações e ampliar laços comerciais com outras regiões.

As contramedidas chinesas focaram em produtos energéticos — uma das poucas áreas em que os EUA têm superávit com a China. Para a mídia estatal, isso evidencia a “precisão das ações de retaliação”.

Como exemplo de sua estratégia, a publicação citou o embarque de uma delegação chinesa composta por mais de 30 empresas, incluindo as petroleiras Sinochem, CNPC e PetroChina, para assinar acordos de cooperação em energia na Ásia Central. O governo chinês também planeja iniciativas semelhantes no Oriente Médio, Europa e África, focando nos setores de petróleo, gás, automóveis e maquinário agrícola.

Já sobre as novas tarifas de 25% sobre aço e alumínio anunciadas pelos EUA, a mídia chinesa minimizou o impacto no país. Em 2024, a China exportou apenas 890 mil toneladas de aço para os EUA, o que representa 0,8% do total de suas vendas externas. Segundo analistas de Pequim, países como Canadá, México e Brasil devem ser os mais afetados pela medida.

Esse cenário sinaliza uma intensificação nas tensões comerciais, com a China afirmando estar preparada para “responder à altura” e explorar novas oportunidades no mercado global.

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