Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
EUA resistem a abrir mão do uso de algemas em brasileiros
Publicado em 06/02/2025 11:48 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Na madrugada desta sexta-feira (7), mais um avião com dezenas de brasileiros deportados dos Estados Unidos pousará no Aeroporto de Fortaleza. Mas, diferentemente das cenas polêmicas da semana anterior, quando 88 brasileiros chegaram ao país algemados, a promessa do governo brasileiro é evitar um novo episódio de constrangimento e violação de direitos. Um plano de acolhimento “humanizado” foi desenhado às pressas em Brasília, mas ainda enfrenta um impasse central: a prerrogativa americana de decidir, caso a caso, se os repatriados deverão usar algemas nos voos.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Cerca de 35 mil brasileiros aguardam para ser deportados dos EUA, muitos deles detidos em centros de imigração superlotados e vivendo sob condições precárias, numa realidade que contrasta com o sonho que os levou a cruzar a fronteira americana. Para eles, a jornada de retorno ao Brasil não é apenas o encerramento de uma tentativa frustrada de recomeço, mas também um choque emocional e social ao voltar para um país que muitas vezes não está preparado para reintegrá-los.
Diante desse desafio humanitário, o governo Lula busca estabelecer uma política que vá além do simples retorno físico. “A dignidade da pessoa humana é um princípio basilar da Constituição Federal e um dos pilares do Estado Democrático de Direito, configurando valor inegociável”, enfatizou o governo em nota oficial. Mas a implementação prática dessa política depende de negociações delicadas com os Estados Unidos, onde a postura endurecida de Donald Trump continua sendo um obstáculo.
O simbolismo das algemas
Desde 2017, Brasil e Estados Unidos mantêm um acordo que regula os procedimentos de deportação, mas a questão das algemas nunca foi pacificada. Enquanto o Brasil insiste em tratativas diplomáticas para eliminar seu uso, os EUA defendem que a decisão de algemar ou não os deportados cabe aos agentes americanos de imigração, dependendo da avaliação de risco.
Para Washington, o uso de algemas em voos não se resume a uma questão de segurança, mas reflete a abordagem ampla do governo Trump, que ao longo de seu mandato adotou uma postura de criminalização dos imigrantes ilegais. As imagens de homens e mulheres algemados dentro de aviões, muitas vezes acompanhadas por relatos de humilhação, causam indignação no Brasil e em outros países da América Latina.
Na última semana, o Itamaraty cobrou explicações do governo americano após a chegada do voo de deportados em condições consideradas degradantes. A resposta foi protocolar: segundo fontes diplomáticas, os americanos alegaram que o protocolo de segurança foi seguido à risca. O que está em jogo, porém, vai além do debate técnico. O uso das algemas se tornou um símbolo do tratamento desumanizador reservado aos imigrantes.
Para o sociólogo Lucas Nogueira, especialista em políticas migratórias, essa tensão revela uma disputa maior entre o princípio da dignidade humana e a retórica de criminalização: “Nos EUA, a imigração ilegal passou de um problema socioeconômico para uma questão de segurança nacional. O uso de algemas nos voos de deportação é apenas a ponta do iceberg de uma política que desumaniza os imigrantes, transformando-os em ameaças.”
Assistência humanitária e reintegração social
Ciente dos traumas vividos por muitos repatriados, o governo brasileiro está implementando um plano emergencial para garantir que os deportados recebam suporte ao chegar ao país. O Aeroporto de Fortaleza, um dos principais pontos de chegada desses voos, terá equipes multidisciplinares do Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante (PAAHM), criado em parceria com a Secretaria dos Direitos Humanos do Ceará. Psicólogos, assistentes sociais e tradutores estarão presentes para oferecer apoio imediato.
Já no Aeroporto de Belo Horizonte, onde parte dos deportados seguirá após a chegada em Fortaleza, foi montado um posto de acolhimento especial, oferecendo acesso à internet, carregadores de celular e informações sobre serviços públicos, como saúde e assistência social. O governo também disponibilizou aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB) para transportar os repatriados de forma mais rápida e confortável, uma tentativa de minimizar o impacto psicológico da deportação.
No entanto, para além do acolhimento inicial, o grande desafio será garantir a reintegração desses brasileiros em suas comunidades de origem. Muitos deles enfrentam preconceitos ao retornar, são vistos como “fracassados” ou “deportados” e encontram barreiras para se reinserir no mercado de trabalho. Segundo dados do Ministério da Justiça, a maioria dos brasileiros deportados nos últimos anos era composta por trabalhadores informais, sem qualificação profissional formal. Sem políticas públicas estruturadas, há o risco de que esses cidadãos fiquem à margem da sociedade.
O impacto psicológico e social da deportação
A deportação não é apenas um processo administrativo; ela carrega um peso emocional profundo. “As pessoas deportadas não só retornam com um sentimento de derrota, mas também enfrentam um estigma social que dificulta sua reabilitação”, explica a psicóloga Maria Helena Rocha, especialista em traumas migratórios. Segundo ela, muitos deportados apresentam sinais de depressão, ansiedade e, em casos mais graves, tendências suicidas.
A história de João da Silva (nome fictício), um pedreiro de 38 anos que viveu ilegalmente nos Estados Unidos por quatro anos, ilustra esse drama. Preso em uma batida de imigração em Nova York, ele foi deportado em janeiro deste ano. “Chegar algemado foi humilhante. Eu não sou bandido, só queria dar uma vida melhor para minha família”, desabafou. De volta ao Brasil, ele enfrenta dificuldades para encontrar emprego e se sente rejeitado pelos vizinhos. “Eu sou visto como alguém que fracassou. Não sei por onde começar de novo”, conta.
Para especialistas, histórias como a de João evidenciam a necessidade de uma política pública mais ampla, que inclua programas de qualificação profissional e apoio psicológico aos deportados. “Se o governo não oferecer suporte a longo prazo, corremos o risco de transformar essas pessoas em um grupo vulnerável e socialmente marginalizado”, alerta Nogueira.
Criminalização como ferramenta política
Nos Estados Unidos, a deportação de imigrantes tem sido usada como uma poderosa ferramenta política. Durante seu mandato, Trump não apenas endureceu as políticas de imigração, mas também utilizou uma retórica agressiva para reforçar o medo do “outro”. Termos como “animais” e “invasores” foram amplamente utilizados pelo ex-presidente para justificar ações de repressão, especialmente contra imigrantes latinos.
Em um movimento recente, Trump propôs até mesmo deportar cidadãos americanos que cometeram crimes graves, enviando-os para prisões estrangeiras. A ideia, considerada por muitos como absurda e ilegal, reflete a escalada de sua retórica anti-imigrante. El Salvador já se ofereceu para receber esses prisioneiros, mas a proposta tem gerado críticas de organizações de direitos humanos, que alertam para o risco de abusos e desrespeito ao devido processo legal.
Entre o humanitarismo e a geopolítica
O Brasil está diante de um dilema delicado. De um lado, busca proteger seus cidadãos da desumanização promovida pelas políticas migratórias americanas; de outro, precisa equilibrar essa postura com a manutenção de relações diplomáticas estratégicas com Washington. O plano de acolhimento humanizado é um passo importante, mas pode se revelar insuficiente se não for complementado por políticas de longo prazo.
A batalha diplomática pelo fim do uso de algemas é simbólica, mas representa algo maior: o embate entre duas visões opostas sobre direitos humanos. Enquanto o Brasil tenta reafirmar o princípio da dignidade, os Estados Unidos sob Trump continuam a explorar o medo e a exclusão como armas políticas. Para os brasileiros que retornam, a luta não termina no momento em que desembarcam no país — é apenas o começo de uma nova fase de desafios.
“Quando você é tratado como criminoso, a cicatriz fica para sempre. Não importa quantas vezes me digam que eu estou em casa agora”, conclui João, resumindo o drama de milhares de repatriados.
Deixe um comentário