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Mundo

Trump coloca o ICE no centro da crise democrática nos Estados Unidos

Operações contra imigrantes avançam sobre direitos civis e ameaçam a estabilidade no país

Publicado em 28/01/2026 1:57 - Semana On

Divulgação Reprodução: Raessler Guthrie and James Simpson

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A morte a tiros de dois ativistas durante protestos contra operações federais de imigração em Minneapolis colocou sob intenso escrutínio a política migratória do presidente Donald Trump e a atuação do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE). O episódio provocou condenação pública do ex-presidente Joe Biden, reacendeu o debate sobre abusos de poder e contribuiu para uma inflexão perceptível na opinião pública americana.

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Em mensagem divulgada nas redes sociais, Biden classificou os acontecimentos como uma ruptura com valores fundamentais do país. “Não somos uma nação que mata seus próprios cidadãos nas ruas”, afirmou o democrata, ao responsabilizar o uso da força estatal pela escalada da violência. Para ele, a normalização do terror e da repressão — sobretudo quando promovidas pelo próprio governo — representa uma ameaça direta à democracia. Biden também cobrou investigações “completas, imparciais e transparentes” sobre as mortes de Renee Good, em 7 de janeiro, e de Alex Pretti, baleado no último sábado.

Minneapolis, cidade que adotou políticas de proteção a imigrantes sem documentação, tornou-se palco simbólico desse confronto institucional. Agentes federais passaram a ser seguidos e filmados por ativistas durante operações, muitas vezes sem qualquer cooperação da polícia local. O governador de Minnesota e o prefeito da cidade, ambos democratas, recorreram à Justiça estadual para contestar o envio e a atuação das forças federais, denunciando ingerência e excesso de poder.

A repressão em Minneapolis não é um caso isolado, mas parte de uma estratégia mais ampla. Desde o início de seu segundo mandato, Trump intensificou ações contra a imigração irregular, transformando o tema em eixo central de governo e bandeira política permanente. O presidente acusa Biden de ter permitido a entrada de milhões de imigrantes sem documentos entre 2021 e 2024 — período em que, segundo o Pew Research Center, mais de um milhão de pessoas por ano chegaram aos EUA, de forma regular e irregular, vindas da América Latina.

O que mudou agora é o impacto dessas operações quando deslocadas das fronteiras para grandes centros urbanos. A visibilidade das ações do ICE — muitas delas violentas e, em alguns casos, letais — tem alterado a percepção de parte significativa da sociedade americana. Pesquisa Reuters/Ipsos divulgada em 26 de janeiro mostra que 53% dos entrevistados desaprovam a forma como Trump conduz a política migratória, contra 39% no início do mandato. A aprovação caiu para 39%, bem abaixo do pico de 50% registrado no ano anterior.

Embora a polarização partidária siga forte — com apoio majoritário entre republicanos e rejeição quase unânime entre democratas —, o dado mais revelador vem dos eleitores independentes: quase dois terços consideram que o ICE “foi longe demais”. É um sinal de desgaste que vai além da disputa ideológica e toca no temor difuso de erosão de direitos.

Criado para identificar e deter imigrantes em situação irregular, o ICE passou, no segundo mandato de Trump, a operar sob uma lógica de expansão agressiva: mais recursos, mais agentes, metas ambiciosas de deportação e uma presença ostensiva nas cidades. Para a cientista política Kelsey Norman, do Instituto Baker de Políticas Públicas, trata-se de uma convergência inédita de fatores. Táticas antes restritas às fronteiras — e, portanto, longe dos holofotes — agora se desenrolam em bairros densamente povoados, sob o registro constante de celulares e câmeras.

Essa exposição tem revelado práticas que especialistas consideram incompatíveis com um Estado democrático de direito. O pesquisador Walter Olson, do Instituto Cato, aponta indícios de violações recorrentes da Quarta Emenda da Constituição, que protege contra buscas e apreensões arbitrárias. Segundo ele, há registros de entradas em residências sem mandado judicial, arrombamentos de portas e abordagens nas ruas sem justificativa legal — abusos que atingem cidadãos e não cidadãos.

A morte de Alex Pretti ampliou ainda mais o debate ao trazer à tona uma contradição incômoda para o campo conservador. Embora Pretti tivesse porte legal de arma em Minnesota e não haja evidências de que tenha sacado ou ameaçado agentes, autoridades e aliados do governo sugeriram que ele não deveria estar armado durante um protesto. A retórica contrasta frontalmente com décadas de defesa irrestrita da Segunda Emenda por parte do próprio Partido Republicano, revelando uma flexibilização oportunista de princípios quando o alvo são críticos do governo.

Para Olson, o alerta é mais profundo: se tais medidas excepcionais são toleradas em nome do combate à imigração, nada impede que sejam estendidas a outros grupos rotulados como “subversivos” ou “antiamericanos”. A linha que separa política pública de perseguição política torna-se, assim, perigosamente tênue.

O impacto dessas operações também recai sobre as polícias locais. Kathy O’Toole, ex-chefe de polícia em Boston e Seattle, observa que a população não costuma distinguir entre forças federais, estaduais ou municipais quando ocorre uma tragédia. Em cidades como Minneapolis, são as corporações locais que lidam com os protestos, a desconfiança pública e as consequências institucionais de ações decididas em Washington.

Ao deslocar o enforcement migratório para o coração das cidades e revesti-lo de métodos militarizados, o governo Trump não apenas tensiona relações federativas, mas testa os limites da própria democracia americana. As mortes em Minneapolis funcionam como um divisor de águas: expõem o custo humano de uma política baseada no confronto e levantam a pergunta que começa a ecoar além da oposição partidária — até onde o Estado pode ir antes de ultrapassar definitivamente a Constituição que jura defender?

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