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Especial
Violência do ICE remete a Gestapo nazista
Publicado em 23/01/2026 2:46 - Semana On
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A atuação recente do ICE – a política política de Donald Trump – não pode mais ser compreendida como mera política migratória dura: trata-se da conversão deliberada de uma agência estatal em aparelho de intimidação política e social. Ao autorizar invasões domiciliares sem mandado, normalizar o uso da força contra crianças, manifestantes e famílias inteiras, operar sob sigilo consciente de sua fragilidade jurídica e contar com blindagem política explícita, o ICE passa a atuar fora — e acima — do Estado de Direito. A analogia com a Gestapo não é retórica exagerada, mas histórica e funcional: assim como a polícia política do Terceiro Reich, a agência transforma grupos inteiros em inimigos internos, dissolve garantias legais em nome de uma suposta emergência nacional e usa o medo como instrumento de governança. Quando crianças são usadas como moeda de coerção, residências deixam de ser invioláveis e o dissenso passa a ser tratado como ameaça à segurança nacional, a fronteira entre democracia liberal e autoritarismo deixa de ser teórica — torna-se prática cotidiana. Sob Trump, o Immigration and Customs Enforcement deixa de aplicar a lei para disciplinar corpos, silenciar protestos e testar até onde uma sociedade tolera a erosão gradual de seus próprios direitos.
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Um memorando interno do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE), revelado pela Associated Press, escancara uma guinada autoritária na política migratória dos Estados Unidos sob Donald Trump. O documento, datado de maio de 2025, autoriza agentes a entrarem em residências de imigrantes sem mandado judicial, rompendo com práticas históricas do próprio órgão e tensionando frontalmente a Constituição americana.
O memorando operacionaliza a ordem executiva nº 14159, assinada por Trump no primeiro dia de seu novo mandato, sob o título retórico de “protegendo o povo americano contra a invasão”. Na prática, a diretriz redefine imigrantes como ameaça interna e concede poderes ampliados ao ICE para agir dentro de domicílios privados — um espaço tradicionalmente protegido pela Quarta Emenda.
A orientação permite que agentes utilizem o formulário administrativo I-205, assinado por um oficial do próprio ICE, para efetuar prisões dentro de casas. O documento, no entanto, não equivale a um mandado judicial e não tem aval de um juiz. Manuais anteriores da agência proibiam explicitamente esse tipo de entrada forçada, reconhecendo sua ilegalidade. Ainda assim, o texto recomenda o uso da “quantidade de força necessária e razoável” para acessar as residências, linguagem vaga que, na prática, abre margem para abusos.
Assinado pelo diretor interino do ICE, Todd Lyons, o memorando impõe algumas exceções: restringe as invasões às casas dos próprios alvos e mantém a proibição de entrada em residências de terceiros. Também não se aplica à Califórnia, onde uma decisão judicial de 2024 — no caso Kidd v. Mayorkas — considerou inconstitucional a atuação de agentes de imigração em áreas privadas sem mandado. Mesmo assim, a regra geral marca um retrocesso deliberado nas salvaguardas legais.
Embora tenha sido produzido no ano passado, o documento só veio a público em janeiro deste ano, repassado por fontes governamentais à Associated Press. Segundo a agência, o texto circula com controle de acesso rigoroso, o que indica consciência interna de sua fragilidade jurídica e do potencial explosivo de sua divulgação.
Crianças detidas, mortos e força contra civis
O endurecimento normativo ocorre em paralelo a uma escalada de confrontos e denúncias de violações de direitos humanos, especialmente em Minneapolis, no estado de Minnesota. Nas últimas semanas, operações do ICE atingiram diretamente crianças em idade escolar. Um garoto de cinco anos foi levado junto com o pai quando voltava da escola, apesar de a família ter um pedido de asilo em andamento e nenhuma ordem de deportação vigente.
Autoridades educacionais locais relataram que pelo menos quatro estudantes foram retidos por agentes federais. O Departamento de Segurança Interna tentou minimizar o episódio, alegando que a criança teria sido “abandonada” pelo pai durante a ação. A versão oficial, porém, contrasta com relatos de testemunhas e da superintendência escolar, segundo os quais agentes ignoraram pedidos para que a criança ficasse sob os cuidados de outro adulto presente. Para a administração local, o menino foi usado como instrumento de coerção para facilitar a entrada dos agentes na residência.
A repressão também teve desfechos fatais. No dia 7, a norte-americana Renne Nicole Good, de 37 anos, foi morta a tiros por agentes de imigração durante um confronto com manifestantes. Testemunhas afirmam que ela tentou bloquear a passagem dos veículos do ICE e foi alvejada após tentar fugir, em meio a uma abordagem descrita como agressiva. O governo federal alegou legítima defesa, uma justificativa recorrente em episódios que envolvem o uso letal da força.
Outros casos incluem um imigrante venezuelano baleado durante uma operação e uma família com seis filhos — entre eles um bebê de seis meses — atingida por gás lacrimogêneo e granadas de efeito moral durante um protesto. O bebê chegou a ficar inconsciente e precisou ser reanimado pela própria mãe. O ICE não respondeu aos pedidos de esclarecimento da imprensa.
Ameaça militar e retórica de exceção
Em vez de recuar diante das críticas, Trump elevou o tom. Em publicação na Truth Social, ameaçou acionar a Lei de Insurreição e mobilizar as Forças Armadas caso autoridades estaduais não contenham os protestos. O presidente classificou Minnesota como um “estado politicamente corrupto” e descreveu agentes do ICE como “patriotas” sob ataque, reforçando uma narrativa de guerra interna que criminaliza a dissidência e normaliza a exceção.
O conjunto de medidas — do memorando sigiloso às ameaças militares — revela uma estratégia coerente: expandir o poder coercitivo do Estado em nome da imigração, mesmo que isso implique corroer garantias legais básicas, expor crianças à violência institucional e transformar cidades americanas em laboratórios de repressão. Sob Trump, o ICE deixa de ser apenas uma agência de imigração e se consolida como instrumento central de uma política que trata direitos constitucionais como obstáculos descartáveis.
ONU e Anistia Internacional ampliam pressão sobre Trump
A escalada repressiva da política migratória norte-americana passou a provocar reações mais duras no plano internacional. Em um movimento incomum nas relações recentes com Washington, a Organização das Nações Unidas (ONU) acusou o governo Trump de promover a “desumanização” de migrantes e refugiados, alertando para o impacto direto das deportações em massa, das detenções arbitrárias e do aumento da violência associada às ações do ICE.
O posicionamento do organismo multilateral ocorre em um contexto político sensível: um dia após Trump anunciar a criação do chamado “Conselho da Paz”, iniciativa apresentada como alternativa à ONU e vista por diplomatas como tentativa explícita de enfraquecer o sistema multilateral. O projeto, porém, não obteve adesão de diversas potências europeias, sinalizando resistência internacional à ofensiva do governo americano contra instituições globais.
Em comunicado oficial, o Alto Comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, afirmou que as atuais políticas migratórias dos Estados Unidos violam princípios básicos do direito internacional ao negligenciar o devido processo legal e a dignidade humana. Segundo ele, há registros recorrentes de vigilância e detenções realizadas de forma violenta em espaços sensíveis — como hospitais, templos religiosos, escolas e até residências privadas — frequentemente baseadas apenas em suspeitas de situação migratória irregular.
Türk destacou ainda os efeitos indiretos dessa política sobre crianças e famílias, apontando que o medo de operações policiais tem levado menores a faltar à escola e a consultas médicas. Para o Alto Comissário, o ambiente de intimidação se estende também a quem protesta: manifestantes pacíficos estariam sendo alvo de difamação oficial, ameaças e, em alguns casos, de uso arbitrário da força.
Ao analisar o arcabouço legal das medidas adotadas por Washington, Türk afirmou que diversas prisões e deportações ocorrem sem avaliação individual adequada, resultando em decisões falhas e detenções ilegais. Embora reconheça o direito dos Estados de definir suas políticas migratórias, ele ressaltou que tal prerrogativa não é absoluta e depende do respeito estrito às garantias legais. O descumprimento desses princípios, advertiu, compromete a legitimidade institucional, fragiliza a confiança pública e abre espaço para abusos sistemáticos.
O representante da ONU também condenou a retórica oficial que associa migrantes a ameaças coletivas, classificando esse discurso como incompatível com a própria história dos Estados Unidos. Para Türk, a demonização de grupos inteiros com base em origem ou status migratório alimenta a xenofobia e serve como estratégia política de divisão social.
Mortes sob custódia e deportações apressadas
Entre os pontos mais sensíveis do comunicado está o pedido de uma investigação independente e transparente sobre as mortes ocorridas sob custódia do ICE. Segundo dados citados pela ONU, ao menos 30 pessoas morreram em centros de detenção no ano passado, número que já soma outras seis ocorrências neste ano. Türk também mencionou deportações realizadas de forma acelerada, inclusive para países com os quais os expulsos não mantêm vínculos, sem análise adequada dos riscos de tortura ou danos irreversíveis — erros que, em alguns casos, foram posteriormente reconhecidos pelas próprias autoridades americanas.
Outro aspecto destacado foi a fragmentação familiar causada pelas detenções. Transferências sucessivas de pais entre centros de detenção, sem informações claras sobre seu paradeiro ou acesso a advogados, dificultam o contato com familiares e agravam os impactos psicológicos sobre crianças. Para o Alto Comissário, trata-se de uma política que, na prática, “destrói famílias”.
Alerta sobre deriva autoritária
As críticas da ONU ecoam avaliações recentes da Anistia Internacional, que publicou um relatório alertando para os efeitos do primeiro ano do novo mandato de Trump sobre o Estado de Direito nos EUA. O documento identifica retrocessos em ao menos doze áreas centrais da vida democrática, incluindo liberdade de imprensa, direito à informação, liberdade de expressão, direito de reunião pacífica, funcionamento do sistema jurídico e a relação do Executivo com juízes e advogados.
Segundo a Anistia, o padrão observado nos Estados Unidos se assemelha ao de outros países que passaram por processos graduais de erosão democrática: concentração de poder, controle da informação, hostilidade à crítica, punição da dissidência e enfraquecimento dos mecanismos de responsabilização. Para o diretor executivo da Anistia Internacional EUA, Paul O’Brien, a normalização dessas práticas é o principal risco. Uma vez incorporadas ao cotidiano institucional, advertiu, tornam-se difíceis de reverter.
O relatório também chama atenção para o uso crescente de forças federais em contextos domésticos, a ampliação da vigilância sem supervisão adequada e os esforços do governo Trump para desacreditar ou contornar sistemas internacionais de proteção aos direitos humanos. Em conjunto, essas medidas, segundo a organização, configuram uma trajetória preocupante de enfraquecimento das salvaguardas democráticas.
Ao final, a Anistia apresenta recomendações ao Executivo, ao Congresso, ao Judiciário, ao setor privado e a atores internacionais, defendendo a restauração de freios institucionais, o fortalecimento da responsabilização e a proteção dos espaços cívicos. A mensagem central é clara: práticas autoritárias não se impõem apenas pela força, mas se consolidam quando deixam de ser contestadas.
Incentivos financeiros e critérios de recrutamento frouxos
A morte de Renée Nicole Good funcionou como catalisador de um debate que vinha se acumulando nos bastidores de Washington: a expansão vertiginosa do ICE e o preço institucional dessa estratégia. O episódio reacendeu protestos e aprofundou a desconfiança pública em relação à agência que se tornou o eixo operacional da política de deportações em massa do presidente Donald Trump.
Pesquisas recentes indicam um desgaste incomum. Levantamento do instituto Quinnipiac University Poll, citado pela Agence France-Presse, mostra que a maioria dos eleitores reprova os métodos do ICE, com rejeição expressiva entre democratas e independentes. Em outro sinal de inflexão, sondagem Economist/YouGov aponta que, pela primeira vez, o número de americanos favoráveis à extinção da agência supera o dos contrários.
O desgaste político contrasta com a transformação estrutural em curso. Após a aprovação do pacote orçamentário do governo, o ICE recebeu recursos inéditos e metas agressivas de contratação. Segundo a CNN, o plano é incorporar até 10 mil novos agentes em poucos meses, impulsionado por bônus de até US$ 50 mil e por programas de perdão de dívidas estudantis.
Dados do Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) indicam que o efetivo saltou de cerca de 10 mil para 22 mil agentes em apenas um ano — expansão classificada como “sem precedentes” por especialistas ouvidos pela AFP. O ritmo, porém, expôs limites administrativos: reportagens da CNN descrevem um processo de seleção conduzido como força-tarefa, com falhas de comunicação, contratações provisórias e verificações de antecedentes incompletas.
A pressão foi tamanha que o governo deslocou funcionários da Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) para apoiar o setor de recursos humanos do ICE. Para analistas, a medida evidencia um colapso operacional no momento em que a agência amplia seu poder coercitivo.
Episódios reveladores e treinamento reduzido
As fragilidades do sistema ganharam visibilidade com o relato da jornalista Laura Jedeed, da Slate, que recebeu comunicações de oferta final de emprego após uma entrevista de poucos minutos em uma feira de recrutamento, sem ter apresentado documentação completa. Embora o DHS negue contratação definitiva, o caso reforçou críticas sobre opacidade e improviso, analisou o The Guardian.
Paralelamente, o treinamento foi encurtado. No Federal Law Enforcement Training Center (FLETC), na Geórgia, a formação passou a durar 47 dias; mais recentemente, o ciclo total foi reduzido de 16 para oito semanas. A exigência de noções básicas de espanhol foi eliminada. Mais de 200 recrutas já foram desligados por não atenderem a critérios físicos ou acadêmicos — um índice considerado atípico por instrutores veteranos, segundo a CNN.
Métodos sob crítica e choque cultural
As táticas do ICE também enfrentam contestação fora do campo progressista. Citado pela AFP, Joe Rogan — influenciador que apoiou Trump — comparou a atuação da agência à da Gestapo, criticando abordagens ostensivas em vias públicas, inclusive contra cidadãos americanos sem documentos.
Para o professor Steven Schwinn, da Universidade de Illinois em Chicago, essas práticas colidem com princípios centrais da cultura jurídica dos EUA, sobretudo a exigência de “suspeita razoável” para controles de identidade.
Campanha de mídia e alvo ideológico
A estratégia de recrutamento vai além de feiras de emprego. A advogada e professora Melissa Hamilton, ouvida pela Deutsche Welle, aponta uma campanha midiática de escala incomum, com orçamento elevado e linguagem alinhada à retórica presidencial. Símbolos como o Tio Sam e a pintura Progresso Americano — frequentemente criticada por sua leitura colonial — passaram a integrar materiais oficiais.
Documento analisado pelo The Washington Post estima em US$ 100 milhões o orçamento publicitário de uma campanha descrita pelo DHS como “recrutamento em tempos de guerra” para 2026. A lei orçamentária aprovada pelo Congresso — apelidada por Trump de “Big Beautiful Bill” — reservou ao ICE US$ 170 bilhões em quatro anos.
Segundo Hamilton, a agência aposta em divulgação orientada por dados, com geolocalização e anúncios direcionados a públicos próximos de bases militares, feiras de armas e plataformas como o Rumble, popular entre apoiadores do movimento Maga. Os incentivos financeiros e o fim dos limites de idade ampliam o universo de candidatos, mas tendem a atrair perfis distantes de pautas de justiça social.
Proteção política e custo eleitoral
O mal-estar é agravado pela blindagem política explícita. O assessor Stephen Miller afirmou que agentes do ICE têm “imunidade” para cumprir sua missão; o vice-presidente JD Vance falou em “imunidade absoluta” no caso envolvendo Renée Good, segundo a AFP. Pesquisas internas citadas pelo Axios indicam erosão de apoio inclusive entre conservadores.
Com projeções de até US$ 75 bilhões em recursos até 2029, conforme a CNN, e um orçamento anual já estimado em US$ 37 bilhões pela Franceinfo, o ICE se consolida como um “monstro orçamentário” às vésperas das eleições de meio de mandato. Em um país pressionado pelo custo de vida, a multiplicação acelerada de agentes armados, recrutados às pressas e protegidos politicamente, tornou-se um dos pontos mais sensíveis — e potencialmente explosivos — do segundo mandato de Trump.
Protesto em Nova York pede impeachment
Nesta semana, um ato realizado em frente à Trump Tower, em Manhattan, levou centenas de pessoas à Quinta Avenida para exigir o impeachment de Trump. Os manifestantes classificaram o atual momento político como uma “ameaça fascista crescente” e apontaram uma sequência de decisões do governo como sinais de erosão democrática.
A diversidade de palavras de ordem refletiu o alcance das críticas. Cartazes pediam o afastamento do presidente, a abolição do ICE, a manutenção de compromissos com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e rejeitavam declarações e iniciativas do governo relacionadas à Groenlândia. O mosaico de temas expôs um ano marcado por decisões simultâneas na política interna e externa, percebidas pelos críticos como parte de uma reordenação autoritária.
Entre os presentes, predominavam relatos de inquietação com os rumos do país. May, 84 anos, afirmou estar “horrorizada” com o que chamou de retrocessos acumulados. Em entrevista à Lusa, citou a perda de direitos civis, o tratamento dado a imigrantes e a agenda externa como fatores que a levaram ao protesto. “Estamos muito distantes do que deveríamos ser enquanto nação”, disse.
Apesar do frio intenso — com sensação térmica próxima de −15 °C em Nova York — o grupo permaneceu no local por cerca de uma hora. Marge, 82 anos, resumiu o sentimento ao afirmar que a política migratória atual é “desumana” e que a postura do governo em relação a aliados históricos “vira as costas” a compromissos consolidados.
A presença de manifestantes mais jovens indicou que a crítica atravessa gerações. Tom, 30 anos, disse associar diretamente o “clima de autoritarismo” ao presidente e destacou surpresa com a agenda internacional do governo. Para ele, a combinação de repressão doméstica e confrontação externa ampliou o sentimento de instabilidade.
Trump reassumiu a presidência em janeiro de 2025, após já ter governado entre 2017 e 2021. O primeiro ano de seu segundo mandato tem sido marcado por medidas de impacto em múltiplas frentes, reconfigurando políticas públicas e tensionando alianças. O protesto em Manhattan, ainda que localizado, sintetiza um descontentamento mais amplo que começa a ganhar visibilidade nas ruas, à medida que decisões do Executivo produzem efeitos políticos, sociais e simbólicos dentro e fora dos Estados Unidos.
Para finalizar
O que emerge desse conjunto de medidas, mortes, abusos documentados e alertas internacionais não é um desvio pontual, mas um padrão estrutural de poder que redefine os limites da ação estatal nos Estados Unidos. Ao expandir o ICE como força de choque político, protegê-lo institucionalmente de responsabilização e enquadrar direitos constitucionais como entraves burocráticos, o governo Trump testa a resiliência das engrenagens democráticas por desgaste contínuo, não por ruptura abrupta. A história mostra que democracias raramente colapsam de uma vez; elas se esvaziam quando a exceção vira rotina, quando a violência administrativa é normalizada e quando a sociedade se acostuma a ver determinados grupos tratados como descartáveis. O fortalecimento quase militar de uma agência como o ICE, aliado à retórica de inimigo interno e à deslegitimação sistemática de freios institucionais, não é apenas um problema migratório — é um teste decisivo sobre até que ponto os Estados Unidos estão dispostos a sacrificar seus próprios princípios em nome do medo, da conveniência política e da ilusão de ordem.
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