Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Pequim impõe tarifas estratégicas, Canadá e México fecham acordos temporários
Publicado em 04/02/2025 2:51 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Em um mundo cada vez mais interconectado, a guerra comercial entre Estados Unidos e China não é apenas uma disputa tarifária: ela traduz um embate geopolítico mais amplo, envolvendo influência tecnológica, controle de cadeias produtivas globais e até segurança nacional. Enquanto isso, Canadá e México, parceiros tradicionais de Washington, lutam para proteger suas economias do impacto das sanções ao oferecer reforços fronteiriços. O cenário expõe não apenas divergências econômicas, mas também as fissuras no equilíbrio global de poder.
Em resposta direta às tarifas de 10% impostas por Donald Trump sobre todas as importações chinesas, Pequim anunciou uma série de retaliações que visam tanto setores estratégicos dos EUA quanto empresas tecnológicas que simbolizam o poderio americano. A partir da próxima segunda-feira, produtos como carvão, gás liquefeito de petróleo (GNL), máquinas agrícolas e veículos americanos enfrentarão taxas adicionais de até 15% para entrar no mercado chinês.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Mais do que medidas econômicas, essas sanções representam um ataque cirúrgico a setores que exercem papel crucial na economia e na política de Trump. O setor de GNL, por exemplo, é parte central da política de “dominância energética” defendida pelo ex-presidente republicano, que busca transformar os EUA em uma potência exportadora de energia. Ao aplicar tarifas sobre o produto, Pequim não apenas desestabiliza essa estratégia, como também aproveita sua posição de maior importador mundial de gás para pressionar os produtores americanos.
Além das tarifas, a China anunciou a abertura de uma investigação contra o Google, alegando práticas monopolísticas e violação das regras de livre concorrência. Embora o gigante tecnológico tenha presença limitada na China devido ao bloqueio de serviços como Gmail e Chrome, a medida tem forte impacto simbólico: representa um desafio direto à hegemonia americana no setor digital. O foco da investigação está alinhado com a narrativa de Pequim de que o Ocidente, em especial os EUA, usa suas grandes empresas para exercer controle global.
Outras empresas americanas também foram alvos. A holding PVH Corp, responsável por marcas como Calvin Klein e Tommy Hilfiger, foi incluída em uma lista de “entidades não confiáveis”, o que na prática pode impedir novos investimentos dessas empresas na China. O motivo seria o boicote ao algodão produzido na região de Xinjiang, onde denúncias de trabalho forçado colocaram o país sob escrutínio internacional. Pequim, porém, vê essas ações como uma extensão das pressões políticas americanas e reage com sanções econômicas.
O Ministério do Comércio chinês também anunciou novos controles sobre a exportação de 25 metais raros, materiais críticos para a produção de componentes eletrônicos, painéis solares e equipamentos militares. Essa decisão pode ter efeitos devastadores nas indústrias americanas, pois cerca de 80% do fornecimento global desses metais passa pela China. Ao restringir o acesso, Pequim pode desestabilizar setores que vão desde a tecnologia até a defesa.
Trump, tarifas e a retórica do fentanil
No centro dessa disputa está a retórica agressiva de Donald Trump, que acusa a China, além de Canadá e México, de não fazerem o suficiente para conter o fluxo de fentanil, um opioide sintético responsável por uma grave crise de saúde pública nos Estados Unidos. Trump ameaçou impor “tarifas substancialmente mais altas” caso a China não contenha o envio da substância, mas Pequim rebate afirmando que o problema está no consumo descontrolado do opioide dentro do território americano.
Essa narrativa não é nova, mas ganhou força após o governo Trump ampliar o uso de tarifas como instrumento de pressão, uma estratégia que remonta à guerra comercial de 2018. Durante seu primeiro mandato, Trump impôs tarifas sobre centenas de bilhões de dólares em produtos chineses, o que provocou uma reação em cadeia nos mercados globais, desacelerou cadeias produtivas e reduziu o comércio bilateral.
Para analistas, o fentanil é apenas um pretexto dentro de uma disputa mais ampla. “A guerra comercial vai além das tarifas. Ela está inserida em uma competição pela liderança global em setores estratégicos, como tecnologia, energia e finanças”, explica Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores. “O que está em jogo é a reorganização da ordem mundial pós-Guerra Fria.”
Canadá e México: a busca por acordos e a proteção das fronteiras
Enquanto a disputa entre Washington e Pequim parece longe de um desfecho, Canadá e México adotaram uma estratégia mais pragmática. Para evitar tarifas de até 25% sobre seus produtos, ambos os países concordaram em reforçar suas fronteiras com 20 mil homens — 10 mil de cada lado — em um esforço conjunto para conter o tráfico de fentanil e a entrada de migrantes ilegais nos EUA.
O acordo foi anunciado após conversas de alto nível entre Trump, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Trudeau declarou que o Canadá investirá US$ 1,3 bilhão em novas tecnologias de vigilância, helicópteros e pessoal adicional na fronteira. Também prometeu a criação de uma Força de Ataque Conjunta EUA-Canadá para combater o crime organizado.
No México, Sheinbaum prometeu mobilizar a Guarda Nacional imediatamente. Segundo ela, o acordo não significa uma submissão às exigências americanas, mas uma tentativa de preservar o comércio bilateral, crucial para a economia mexicana. “Estamos agindo com respeito à nossa soberania, mas reconhecemos a necessidade de cooperação para enfrentar problemas compartilhados”, afirmou.
No entanto, a pressão interna sobre Trudeau e Sheinbaum não é desprezível. Em Ontário, maior província canadense, o primeiro-ministro Doug Ford anunciou que rompeu contratos com empresas americanas, incluindo a Starlink, de Elon Musk. “Ontário não fará negócios com quem está comprometido em destruir nossa economia”, afirmou Ford, em uma mensagem clara à administração Trump.
A geopolítica das tarifas e o futuro da ordem mundial
A guerra comercial entre EUA e China, somada às tensões com Canadá e México, reflete uma dinâmica mais profunda: a crise da globalização e o ressurgimento do protecionismo. Em um mundo marcado por cadeias de produção interconectadas, o uso de tarifas e sanções como armas políticas pode ter consequências de longo prazo para a estabilidade global.
A resposta chinesa, com foco em setores estratégicos, evidencia a intenção de Pequim de jogar no mesmo nível que Washington. O controle sobre metais raros, por exemplo, pode ser um divisor de águas nas futuras negociações, dada a dependência americana desses materiais. Por outro lado, Trump mostrou que está disposto a recorrer a medidas extremas, como a ameaça de anexação do Canadá, para defender seus interesses.
O Canal do Panamá, mencionado por Trump como possível ponto de barganha, é outro elemento geopolítico relevante. A região tem sido alvo de disputas entre EUA e China, e qualquer negociação envolvendo projetos chineses no canal pode ter impacto global.
“Estamos diante de uma transição de poder global”, afirma Fareed Zakaria, analista de relações internacionais. “Os Estados Unidos e a China não estão apenas disputando tarifas ou mercados — estão definindo quem controlará as regras do século XXI.”
No curto prazo, os mercados continuarão a oscilar diante das incertezas. No longo prazo, a guerra comercial deixa uma lição clara: a era do comércio global sem barreiras está em risco, e as batalhas econômicas estão cada vez mais imbricadas em jogos de poder geopolítico. Como previu Yuval Noah Harari, “as disputas econômicas do presente moldarão o equilíbrio de poder nas próximas décadas”.
A questão é: haverá tempo para evitar uma ruptura permanente?
Encarceramento de ilegais em Guantánamo é mais um passo rumo à barbárie
Deixe um comentário