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Mundo
Protestos no país já geraram centenas de mortos e milhares de presos
Publicado em 13/01/2026 9:27 - Semana On e DW
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou a imposição de uma tarifa de 25% sobre todos os produtos exportados aos EUA por países que mantenham relações comerciais com o Irã. A medida, de efeito imediato, amplia o isolamento econômico de Teerã e cria um novo fator de pressão sobre parceiros comerciais do país — entre eles, o Brasil.
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Em comunicado direto, Trump afirmou que a sobretaxa será aplicada a “qualquer país que faça negócios com a República Islâmica do Irã”, classificando a decisão como definitiva e sem possibilidade de recurso. A iniciativa integra uma ofensiva mais ampla da Casa Branca contra o regime iraniano, em meio à intensificação de protestos internos e à deterioração das relações entre Washington e Teerã.
Embora o comércio com o Irã represente uma fatia relativamente pequena da corrente total de comércio brasileira — cerca de 1% das exportações —, os números absolutos são relevantes. Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente US$ 2,9 bilhões ao país do Oriente Médio, mantendo patamar semelhante ao de 2024, quando as vendas superaram US$ 3 bilhões. O Irã consolidou-se, assim, como o quinto principal destino das exportações brasileiras na região.
A pauta comercial é fortemente concentrada no agronegócio. Milho e soja responderam por 87,2% das exportações brasileiras ao mercado iraniano em 2025. Apenas o milho somou mais de US$ 1,9 bilhão, o equivalente a quase 68% do total embarcado, enquanto a soja alcançou cerca de US$ 563 milhões. Também figuram na lista produtos como açúcar, itens de confeitaria, farelo de soja para ração animal e petróleo.
Apesar da relevância regional, o Irã ocupa apenas a 31ª posição entre os destinos globais das exportações brasileiras. Ainda assim, em 2025, o país superou mercados tradicionais como Suíça, África do Sul e Rússia. No sentido inverso, as importações brasileiras provenientes do Irã permaneceram modestas, somando cerca de US$ 84 milhões, concentradas principalmente em adubos e fertilizantes, além de frutas secas e nozes.
A relação comercial entre os dois países tem sido marcada por oscilações. O pico recente ocorreu em 2022, quando as exportações brasileiras ao Irã atingiram US$ 4,2 bilhões. Houve retração em 2023, seguida de recuperação em 2024 e manutenção em 2025. As importações, por sua vez, apresentaram variações ainda mais acentuadas, refletindo instabilidade no fluxo bilateral.
No campo diplomático, o estreitamento comercial foi acompanhado por iniciativas institucionais. Em abril de 2024, autoridades agrícolas dos dois países acordaram a criação de um comitê bilateral para facilitar o intercâmbio técnico e destravar entraves ao comércio. O governo iraniano também manifestou interesse em instalar uma empresa de navegação no Brasil, com o objetivo de reduzir custos logísticos. Desde 2023, o Irã integra o Brics, bloco do qual o Brasil é membro fundador.
Apesar do potencial impacto sobre o comércio brasileiro, analistas avaliam que os efeitos mais profundos da medida norte-americana devem recair sobre parceiros de maior peso econômico para Teerã. China, Índia e Rússia concentram parcela expressiva das relações comerciais iranianas — no caso chinês, cerca de 30% do comércio exterior do país e quase 90% das exportações de petróleo.
Pequim reagiu de forma contundente à decisão de Washington. O governo chinês rejeitou o uso de tarifas como instrumento de pressão política e alertou para o risco de uma escalada comercial. Autoridades chinesas reiteraram oposição a sanções unilaterais e afirmaram que adotarão medidas para proteger seus interesses, defendendo que o protecionismo não produz vencedores e agrava instabilidades globais.
A nova ofensiva tarifária ocorre em um contexto de crescente tensão internacional, marcado por ameaças mútuas entre Estados Unidos e Irã, repressão a protestos internos no país persa e sinais ambíguos sobre a possibilidade de negociações. Ao optar por ampliar o cerco econômico, a Casa Branca sinaliza que, ao menos por ora, a estratégia prioriza a pressão máxima — ainda que o custo político e comercial recaia também sobre aliados e parceiros comerciais indiretos.
Protestos e repressão
O recrudescimento da repressão aos protestos no Irã elevou de forma significativa o número de vítimas fatais. Segundo a organização não governamental Iran Human Rights, ao menos 648 manifestantes foram mortos desde 28 de dezembro, quando teve início a onda de mobilizações contra o governo. O balanço mais recente foi divulgado nesta terça-feira (13) por Mahmood Amiry Moghaddam, diretor da entidade, sediada na Noruega.
De acordo com a ONG, a maioria das vítimas tinha menos de 30 anos, o que reforça o perfil jovem do movimento de contestação. A organização alerta, no entanto, que os números disponíveis podem estar subestimados. O prolongado apagão digital imposto pelas autoridades dificulta a verificação independente dos dados. “Segundo algumas estimativas, mais de 6.000 pessoas podem ter morrido”, afirmou a entidade em comunicado.
O Irã está há cerca de quatro dias praticamente desconectado do mundo. Informações da NetBlocks, especializada em monitoramento de redes, indicam que serviços de internet fixa, dados móveis e chamadas telefônicas permanecem amplamente desativados, enquanto outros meios de comunicação também vêm sendo alvo de restrições crescentes. A conectividade nacional estaria limitada a cerca de 1% dos níveis considerados normais.
Apesar do cenário, autoridades iranianas insistem que a situação está sob controle. O ministro das Relações Exteriores, Abbas Araghchi, afirmou que parte dos manifestantes teria recorrido à violência com o objetivo de provocar uma intervenção externa, especialmente dos Estados Unidos. Teerã acusa Washington e Israel de incentivarem os protestos.
No plano diplomático, o governo iraniano reconhece que os canais de comunicação com os Estados Unidos permanecem abertos, mas descarta qualquer negociação em termos unilaterais. Em declarações a jornalistas, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Esmail Baghei, disse que “mensagens necessárias” continuarão a ser trocadas com Washington, inclusive durante o atual período de tensão.
Representantes do ministério também se reuniram com diplomatas estrangeiros em Teerã para tratar da escalada dos protestos. O encontro foi noticiado pela emissora Al Jazeera, mesmo diante das severas restrições ao acesso à internet no país.
Além das mortes, a repressão resultou em prisões em massa. A Iran Human Rights estima que ao menos 2.600 pessoas tenham sido detidas desde o início das manifestações. A escassez de informações oficiais e o bloqueio prolongado das comunicações ampliam as incertezas sobre a real dimensão da repressão.
Relatos pontuais, contudo, continuam a emergir. No último sábado à noite, um protesto tomou forma em um bairro da zona norte de Teerã. Imagens do ato, analisadas e confirmadas pela Agence France-Presse, mostram manifestantes lançando fogos de artifício na Praça Punak, batendo panelas e entoando slogans em apoio à dinastia Pahlavi, derrubada pela Revolução Islâmica de 1979.
A persistência dos protestos, somada ao endurecimento da resposta estatal e ao isolamento informacional do país, aprofunda o clima de instabilidade interna e amplia a pressão internacional sobre o governo iraniano — um cenário que se conecta diretamente à ofensiva diplomática e econômica em curso liderada por Washington.
A cronologia dos protestos no Irã desde 1999
Os protestos iniciados em dezembro do ano passado que se espalharam para várias cidades iranianas foram inicialmente motivados pelo aumento do custo de vida e pela alta da inflação. No entanto, as manifestações logo refletiram a crescente insatisfação de segmentos cada vez maiores da população com o sistema político do país.
Mais de 500 manifestantes foram mortos em confrontos com as forças de segurança desde o início dos protestos, segundo entidades de direitos humanos que acompanham a situação do país.
A polícia e as milícias paramilitares Basij – unidades voluntárias subordinadas à Guarda Revolucionária Iraniana – se mantêm em prontidão para serem mobilizadas a qualquer momento para reprimir os protestos.
A Guarda Revolucionária é um aparato militar independente, diretamente subordinado ao líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei. Sua missão é proteger a República Islâmica. A polícia e a Guarda Revolucionária têm décadas de experiência na repressão de manifestações.
Desde 1999, oIrã vivenciou repetidas vezes grandes movimentos de protesto, em sua maioria pacíficos, que foram reprimidos violentamente.
O que esses movimentos de protesto em todo o país têm em comum é a profunda insatisfação com a República Islâmica entre segmentos cada vez maiores da população. A liderança política é acusada de não ter vontade ou capacidade de atender às demandas da sociedade.
Em vez disso, o Estado se apoia em medidas repressivas, como ataques direcionados e a demonização de qualquer movimento de oposição que tenha potencial para unir e mobilizar as pessoas.
Devido à falta de coordenação e liderança, os protestos foram repetida e brutalmente reprimidos. Um grande número de ativistas políticos está preso ou sendo forçado a deixar o país. O desfecho dos protestos atuais ainda é incerto.
Julho de 1999 – protestos estudantis
O estopim dos protestos foi o fechamento do jornal reformista Salam, contra o qual estudantes em Teerã protestaram inicialmente de maneira pacífica.
Na noite de 8 de julho daquele ano, as forças de segurança invadiram um dormitório estudantil e mataram pelo menos um estudante. A ação desencadeou protestos em todo o país que duraram vários dias.
As milícias Basiji reprimiram violentamente os manifestantes. Ao menos mais quatro pessoas foram mortas, alguns estudantes desapareceram sem deixar rastro e entre 1.200 e 1.400 pessoas foram presas.
Junho de 2009 – Movimento Verde
Após uma polêmica eleição presidencial, protestos em massa irromperam por todo o país, ficando conhecidos como o Movimento Verde. Milhões de iranianos questionaram os resultados oficiais da eleição e acusaram o governo do presidente Mahmoud Ahmadinejad de fraude eleitoral. O verde era a cor da campanha de seu adversário, Mir Hossein Mousavi.
As manifestações, inicialmente pacíficas, se transformaram nos maiores protestos desde a Revolução Islâmica de 1979. As forças de segurança, a Guarda Revolucionária e as milícias Basij usaram força excessiva contra os manifestantes. Inúmeras pessoas foram mortas ou feridas, e milhares foram presas.
Novembro de 2019 – preços dos combustíveis como estopim
Protestos em todo o país abalaram o regime mais uma vez. O estopim foi um aumento drástico e repentino nos preços dos combustíveis. As manifestações, que rapidamente se espalharam por mais de 20 cidades, foram brutalmente reprimidas em pouco tempo. Além das reivindicações econômicas, slogans cada vez mais políticos foram entoados, incluindo apelos diretos à derrubada do líder Ali Khamenei.
As forças de segurança reagiram com extrema violência. Os eventos ficaram conhecidos na história recente do país como Novembro Sangrento.
Setembro de 2022 – Mulher, Vida, Liberdade
A morte da jovem curda Jina Mahsa Amini, de 22 anos, desencadeou novos protestos em todo o país. Ela morreu sob custódia das autoridades após ser presa pela polícia da moralidade por uma suposta violação das normas sobre o uso do véu islâmico, o hijab.
O que começou como manifestações contra a brutalidade policial e a obrigatoriedade do uso do hijab rapidamente se expandiu para um amplo movimento de protesto contra o sistema político como um todo.
Sob o lema Mulher, Vida, Liberdade, muitos jovens participaram dos protestos, principalmente as mulheres que se rebelaram contra o hijab obrigatório. O governo respondeu com repressão massiva, as forças de segurança usaram munição real contra os manifestantes. Milhares foram presos e inúmeras pessoas foram mortas.
Dezenas de jovens manifestantes foram condenados à morte em julgamentos sumários. Os protestos duraram meses e representaram um dos maiores desafios para a República Islâmica em décadas.
Dezembro de 2025 – crise econômica desencadeia protestos
Até o momento, ao menos 572 pessoas morreram nos protestos que começaram em 28 de dezembro devido à crise econômica e que vêm se multiplicando desde então por mais de uma centena de cidades de todo o país, segundo informações da ONG Human Rights Activists News Agency (Hrana).
As manifestações continuaram a se espalhar mesmo com os apagões na internet e falhas na cobertura telefônica em todo o país. Os protestos contra a crise econômica se tornaram um movimento de críticas à República Islâmica e o aiatolá Ali Khamenei.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vem ameaçando repetidamente intervir caso a força seja usada contra os manifestantes.
Trump usa estética supremacista branca para atrair membros à sua polícia politica
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