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Mundo

Trump ameaça soberania palestina e reativa lógica colonial em Gaza

Enquanto bombardeios de Israel matam centenas de civis, presidente dos EUA sugere transformar região em zona turística

Publicado em 16/05/2025 2:25 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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No mesmo dia em que mais de cem civis foram mortos por bombardeios israelenses na Faixa de Gaza, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reafirmou em visita ao Catar o desejo de “assumir o controle” sobre o território palestino, prometendo transformá-lo em uma “zona de liberdade”. A declaração não só foi recebida com repúdio pelas lideranças árabes e pela ONU, como também evocou, perigosamente, as práticas coloniais do século XIX, quando impérios europeus justificavam intervenções sob a retórica civilizatória.

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“Ficaria orgulhoso se os Estados Unidos tivessem Gaza, a tomassem e a tornassem uma zona de liberdade”, afirmou Trump, segundo a agência Reuters. Suas palavras coincidem com a intensificação da ofensiva israelense, que já matou mais de 54 mil palestinos desde outubro de 2023, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza. A infraestrutura do enclave foi quase totalmente destruída e 70% de seu território está sob ordem de evacuação ou declarado como zona proibida por Israel.

As palavras de Trump não apenas sugerem o desrespeito à soberania do povo palestino, como reforçam a instrumentalização da guerra como meio para ocupação territorial — uma prática que o jurista italiano Luigi Ferrajoli denomina como “banalização jurídica da barbárie” quando o poder ignora os limites da legalidade internacional em nome de interesses hegemônicos (FERRAJOLI, 2006).

O neocolonialismo reeditado em nome da “liberdade”

A proposta de Trump para Gaza — torná-la uma “Riviera do Oriente Médio” após a emigração forçada de seus habitantes — remete diretamente aos processos históricos de colonialismo, quando potências estrangeiras ocupavam territórios sob o pretexto de modernização e progresso. “Gaza não está à venda”, rebateu Basem Naim, do Bureau Político do Hamas. “É parte integrante das terras palestinas. Permanecemos firmemente comprometidos com nossa causa e preparados para todos os sacrifícios.”

O presidente norte-americano tenta, com isso, reconfigurar a tragédia humanitária de Gaza como uma oportunidade geopolítica para os EUA, numa lógica que ignora o direito à autodeterminação dos povos — princípio basilar da Carta das Nações Unidas (art. 1º, §2º). Trata-se de uma violação da soberania palestina e, ao mesmo tempo, da memória histórica de resistência ao imperialismo.

Como alerta Edward Said, em Cultura e Imperialismo (1993), o discurso colonial frequentemente se apresenta sob a máscara do progresso, mas opera por meio da anulação do outro: “a colonização se funda na negação da humanidade do colonizado”. A retórica de Trump encaixa-se nesse molde. Fala-se em turismo, reconstrução, zona livre — mas não em autodeterminação, em soberania ou em justiça histórica.

O horror presente: fome, deslocamento e genocídio

Enquanto líderes discutem o futuro do território, a população de Gaza vive o presente sob bombardeios diários, fome e colapso do sistema de saúde. Nas últimas 48 horas, mais de 160 civis foram mortos, incluindo dezenas de mulheres e crianças em Khan Younis e Beit Lahia. O Hospital Al-Awda confirmou o atendimento de 75 feridos. O jornalista palestino Hassan Samour foi assassinado com 11 familiares quando sua casa foi atingida por um míssil israelense.

A crise humanitária é agravada pelo bloqueio total à entrada de ajuda humanitária, imposto por Israel desde 2 de março de 2025. Agências da ONU alertam para estoques “quase inexistentes” de alimentos, água potável, medicamentos e combustível. “O bloqueio israelense transcendeu as táticas militares e se tornou uma ferramenta de extermínio”, denunciou Federico Borello, diretor executivo da Human Rights Watch.

A memória da Nakba e o prolongamento do trauma coletivo

As ações de Israel, apoiadas material e politicamente pelos EUA, ocorrem no momento em que os palestinos lembram a Nakba, a catástrofe de 1948 que forçou a fuga de 750 mil pessoas e marcou o início da ocupação de seus territórios. “O que vivemos agora é ainda pior do que a Nakba”, disse Ahmed Hamad, deslocado diversas vezes em Gaza. Com mais de 2,3 milhões de pessoas em deslocamento interno forçado, o drama palestino se aprofunda, num ciclo contínuo de expulsão e violência.

A guerra iniciada em 7 de outubro, após o ataque do Hamas a Israel, deixou mais de 1.200 israelenses mortos. Desde então, a resposta militar de Tel Aviv tem sido desproporcional, segundo observadores internacionais. A ONU denunciou repetidamente violações sistemáticas aos direitos humanos por parte de Israel e classifica as ações como possíveis crimes de guerra.

Diplomacia paralela e os limites da legalidade internacional

Apesar de oficialmente os EUA não reconhecerem o Hamas como interlocutor válido, o próprio grupo revelou estar negociando diretamente com representantes do governo norte-americano. Basem Naim afirmou que está disposto a entregar o controle de Gaza em troca de condições mínimas: retirada das tropas israelenses, cessar-fogo permanente, reconstrução do território e entrada plena de ajuda humanitária.

O Hamas também sinalizou abertura para eleições democráticas e novas lideranças políticas, o que desmonta o discurso segundo o qual o grupo se recusa a dialogar ou manter uma ordem institucional. “Temos exigido eleições livres e justas. Respeitaremos plenamente seus resultados”, declarou Naim.

No entanto, a proposta humanitária norte-americana, organizada por uma ONG financiada por Washington, foi rejeitada pela ONU por violar princípios de neutralidade, imparcialidade e independência. O gesto revela que, mesmo no campo da ajuda, os EUA buscam impor sua lógica unilateral, comprometendo os marcos éticos do direito humanitário.

A paz como pacto, não como imposição

Ao tentar transformar Gaza em uma “zona de liberdade” sob controle norte-americano, Trump reedita uma lógica que o filósofo Achille Mbembe classificou como “necropolítica”: a política que define quem deve viver e quem pode morrer em nome do poder. A proposta ignora a centralidade da dignidade e da autodeterminação para qualquer projeto de paz sustentável.

Como lembra a filósofa Hannah Arendt em A condição humana (1958), “liberdade não é algo que se dá, mas algo que se exerce”. A paz duradoura não surgirá de planos arquitetônicos ou concessões territoriais, mas do reconhecimento mútuo entre nações e do respeito aos direitos históricos de um povo sistematicamente privado de sua terra, seu futuro e sua voz.

O que é a Nakba palestina?


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