Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

Trump ameaça equilíbrio mundial por narcisismo, poder e recursos

Europeus ameaçados por EUA dizem que continuarão unidos por soberania

Publicado em 19/01/2026 10:01 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu registrar por escrito aquilo que há tempos já se manifesta em discursos improvisados e publicações em redes sociais: a política externa americana, sob sua condução, parece cada vez mais guiada por ressentimentos pessoais. Em carta enviada ao primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Stoere — e obtida pela agência Reuters — Trump afirmou que já não se sente obrigado a “pensar puramente na paz”. O motivo? Não ter sido contemplado com o Prêmio Nobel da Paz.

SIGA A SEMANA ON NO YOUTUBE, INSTAGRAMFACEBOOK E WHATSAPP

Segundo o próprio presidente, a responsabilidade pela “injustiça” recai sobre a Noruega, país-sede do comitê que concede a honraria. Um detalhe menor, quase irrelevante para Trump: o Comitê Norueguês do Nobel é independente do governo norueguês, algo que Stoere já havia explicado anteriormente ao ocupante da Casa Branca. A distinção entre Estado, instituições autônomas e interesses privados — ao que tudo indica — segue sendo um conceito excessivamente sofisticado para o atual comandante da maior potência mundial.

Na edição de 2025, o Nobel da Paz foi concedido à líder opositora venezuelana María Corina Machado, reconhecida por sua atuação em defesa da democracia frente ao regime de Nicolás Maduro. Para Trump, porém, o prêmio deveria ter sido seu, uma vez que afirma ter impedido “mais de oito guerras”. A ausência de comprovação documental parece não ser um obstáculo relevante quando se governa a partir da convicção íntima — e da memória seletiva.

A carta não se limita ao lamento narcisista. Em resposta a uma mensagem conjunta de Stoere e do presidente da Finlândia, Alexander Stubb — que criticavam a imposição de tarifas norte-americanas sobre aliados europeus — Trump reiterou sua antiga obsessão: o controle da Groenlândia. Em tom que mistura revisionismo histórico e ameaça estratégica, questionou o “direito de propriedade” da Dinamarca sobre a ilha e sugeriu que o mundo só estaria seguro sob domínio total dos Estados Unidos.

A lógica apresentada é simples, quase infantil: se barcos dinamarqueses atracaram ali há séculos, barcos americanos também poderiam ter feito o mesmo. Logo, a soberania seria uma questão de conveniência retrospectiva. A Groenlândia, vale lembrar, é território autônomo do Reino da Dinamarca e possui importância estratégica real — abriga sistemas de monitoramento, defesa antimísseis e vigilância aérea no hemisfério norte. Ainda assim, a forma como Trump trata o tema sugere menos uma análise geopolítica e mais um impulso de posse.

Como se o enredo já não fosse suficientemente surreal, a própria vencedora do Nobel decidiu acrescentar um novo capítulo à confusão institucional. María Corina Machado entregou sua medalha de ouro a Trump durante encontro recente na Casa Branca, descrevendo o gesto como uma “retribuição” após a prisão de Nicolás Maduro em uma operação conduzida pelos Estados Unidos. O presidente, naturalmente, exaltou o “gesto maravilhoso” e declarou sentir-se honrado, ainda que tenha afirmado não enxergar na líder venezuelana o respeito da maioria de seu próprio povo.

A Fundação Nobel reagiu com rapidez, talvez prevendo que o prêmio estivesse prestes a ser tratado como souvenir diplomático. Em nota oficial, esclareceu que a medalha, o diploma ou o dinheiro não alteram o fato histórico: o Nobel pertence, de forma intransferível, a quem o recebeu. Mesmo quando a realidade insiste em se impor, Trump parece confortável em habitar uma versão alternativa dos fatos.

O episódio, em seu conjunto, expõe algo maior que uma excentricidade presidencial. Revela uma preocupante confusão entre interesse público e ego pessoal no centro do poder global. Mais do que um problema individual, trata-se de um sintoma coletivo: uma sociedade capaz de normalizar que decisões estratégicas, alianças internacionais e até a retórica da paz sejam condicionadas ao humor de um homem incapaz — ou desinteressado — de compreender os limites entre vaidade, Estado e responsabilidade histórica.

Se a carta de Trump pretendia intimidar aliados ou reafirmar liderança, acabou funcionando como documento involuntário de um tempo em que o cargo mais poderoso do planeta é exercido como extensão do ressentimento pessoal. E isso, definitivamente, não deveria ser motivo de prêmio algum.

Tarifas, ameaças e a diplomacia do ultimato

A escalada retórica do presidente dos Estados Unidos ganhou novo fôlego na noite de domingo (18), quando Donald Trump decidiu transformar a Groenlândia em eixo central de uma ofensiva simultânea contra aliados europeus, a Otan e a própria ideia de diplomacia cooperativa. O movimento ocorreu às vésperas de reuniões sensíveis entre autoridades dinamarquesas, groenlandesas e o secretário-geral da Otan, Organização do Tratado do Atlântico Norte, Mark Rutte — sinal claro de que o momento foi cuidadosamente escolhido para maximizar pressão política.

Em publicações nas redes sociais, Trump voltou a acusar a Dinamarca e a Otan de negligência histórica na proteção da Groenlândia. Segundo ele, a aliança teria alertado Copenhague por duas décadas sobre supostas ameaças russas, sem que “nada fosse feito”. A conclusão, apresentada com a simplicidade de um silogismo apressado: se a Europa falhou, caberia agora aos Estados Unidos “resolver” o problema. O que exatamente significa “resolver”, Trump não detalha — o que, dadas declarações anteriores, talvez seja parte do problema.

As ameaças surgem em paralelo à articulação europeia contra as tarifas anunciadas pela Casa Branca. A lógica do pacote é direta: países que contestarem a medida enfrentariam taxas de 10%, elevadas a 25% a partir de junho. O alvo imediato são oito membros da Otan — entre eles Dinamarca, Alemanha, França e Reino Unido — que enviaram contingentes militares ao Ártico na semana anterior, a pedido de Copenhague. Na leitura de Washington, cooperação defensiva virou provocação.

A retórica de pressão ganhou reforço institucional com o secretário do Tesouro, Scott Bessent, que decidiu vincular o futuro da Groenlândia ao apoio norte-americano à Ucrânia. Em entrevista à NBC, sugeriu que a segurança europeia depende de uma obediência estratégica tácita aos interesses de Washington. Caso contrário, insinuou, o colapso seria inevitável. O subtexto é transparente: proteção coletiva como moeda de troca — um conceito inovador para uma aliança fundada justamente para evitar esse tipo de chantagem.

Em documento encaminhado pelo Conselho de Segurança Nacional a embaixadores europeus em Washington, Trump voltou a questionar a soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia, relativizando séculos de direito internacional com o argumento de que “barcos atracaram ali” — sem documentos, tratados ou, ao que tudo indica, paciência para debates jurídicos. A carta também reafirma que o mundo só estaria seguro sob “controle completo e total” dos Estados Unidos sobre a ilha, uma afirmação que dispensa análise sofisticada para revelar sua natureza imperial.

A resposta europeia, desta vez, foi menos protocolar. O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, classificou as ameaças tarifárias como equivocadas e anunciou articulações diretas com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Para Starmer, soberania não é variável negociável nem prerrogativa de quem fala mais alto.

Na Alemanha, o vice-chanceler Lars Klingbeil foi direto ao ponto: não haverá submissão a chantagem econômica. A França seguiu na mesma linha. O presidente Emmanuel Macron anunciou reuniões de emergência sobre defesa e segurança, enquanto o ministro Roland Lescure defendeu a convocação urgente do G7. O termo “chantagem entre amigos” apareceu com notável frequência — talvez porque seja difícil encontrar outro vocábulo mais preciso.

A reação se espalhou pelo continente. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, alertou que o conflito só favorece Rússia e China. O ministro holandês do Exterior, David van Weel, foi ainda mais explícito ao dizer que a estratégia de Trump “não ajuda a Otan nem a Groenlândia”. Até aliados tradicionalmente cautelosos, como a Itália de Giorgia Meloni, classificaram as tarifas como um erro.

Em meio à turbulência, autoridades militares dinamarquesas trataram de reduzir a temperatura. O comandante do Ártico, Søren Andersen, afirmou que os exercícios na Groenlândia seguirão por anos, com foco em treinamento conjunto — inclusive com convite aberto aos Estados Unidos. Uma tentativa de lembrar que alianças, ao menos em teoria, funcionam melhor com cooperação do que com ultimatos.

Do próprio território disputado veio uma resposta rara, mas simbólica. A Groenlândia agradeceu publicamente o apoio europeu. Em nota, a ministra Naaja Nathanielsen afirmou que os tempos exigem coragem e decência — duas qualidades que, curiosamente, não costumam aparecer nos comunicados da Casa Branca sobre o tema.

Trump segue insistindo que a Groenlândia é vital para a segurança americana e para o acesso a minerais estratégicos, sem descartar o uso da força. A insistência revela menos uma análise estratégica refinada e mais um padrão recorrente: a conversão de temas complexos em impulsos proprietários. No processo, tarifas viram armas, alianças viram dívidas e a política externa se transforma em exercício de coerção pessoal.

Se o episódio expõe fissuras nas relações transatlânticas, também lança luz sobre algo mais profundo: uma liderança que parece confundir poder com posse, diplomacia com imposição e interesse público com vontade individual. O problema, ao fim, não é apenas a Groenlândia — é o que esse tipo de lógica diz sobre quem hoje decide os rumos da principal democracia do Ocidente.

Europa, acuada diante do expansionismo de Trump, tenta encontrar discurso comum


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *