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Mundo
Uma nova ordem mundial surge, mas não tem nada de nova, e ecoa o velho colonialismo
Publicado em 18/01/2026 9:58 - Semana On
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Horas após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciar a imposição de novas tarifas comerciais contra países europeus contrários à anexação da Groenlândia, líderes da União Europeia iniciaram neste domingo (18) uma ofensiva diplomática para conter a escalada da crise. As medidas, descritas por autoridades do bloco como “chantagem econômica”, abriram um novo e delicado capítulo nas relações entre aliados da Otan.
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O presidente da França, Emmanuel Macron, foi um dos primeiros a reagir. Em declaração pública, classificou as ameaças tarifárias como “inaceitáveis” e afirmou que a Europa responderá de forma “unida e coordenada” caso as sobretaxas se confirmem. Macron também anunciou reuniões com líderes dos países diretamente atingidos para alinhar uma estratégia comum.
A reação ocorre após Trump anunciar que oito países europeus — Dinamarca, França, Alemanha, Reino Unido, Noruega, Suécia, Finlândia e Países Baixos — seriam alvo de sobretaxas de 10% sobre exportações aos EUA, percentual que subiria para 25% a partir de junho. Segundo o presidente americano, as tarifas permaneceriam em vigor “até a completa e total venda da Groenlândia”, território autônomo sob soberania dinamarquesa.
Exercícios militares e soberania no Ártico
O estopim imediato da crise foi a participação de militares desses países no exercício “Arctic Endurance”, organizado pela Dinamarca com aliados da Otan na Groenlândia. Para Macron, a presença francesa e europeia na região responde à necessidade de garantir a segurança do Ártico e das fronteiras do continente. “Nenhuma intimidação ou ameaça nos fará recuar quando princípios fundamentais estão em jogo”, afirmou.
Na rede social X, o líder francês reforçou que a atuação europeia se baseia no respeito à soberania dos Estados e ao direito internacional, valores que, segundo ele, também orientam o apoio à Ucrânia e o engajamento europeu em coalizões de segurança.
Diante do agravamento da crise, os embaixadores dos 27 países da União Europeia foram convocados para uma reunião de emergência em Bruxelas. O objetivo é discutir uma resposta comum às ameaças tarifárias e avaliar instrumentos de retaliação disponíveis.
Pressão econômica e resposta institucional
Entre as opções em análise está o acionamento do instrumento anticoerção da UE, mecanismo em vigor desde 2023 que permite ao bloco retaliar países que utilizem pressão econômica para influenciar decisões políticas de Estados-membros. A ferramenta autoriza contramedidas que vão de tarifas a restrições comerciais, financeiras e de investimentos.
Segundo fontes do governo francês ouvidas pela AFP, Macron considera seriamente recorrer a esse mecanismo. A pressão também vem do setor produtivo: a associação alemã de fabricantes de máquinas e equipamentos (VDMA) pediu formalmente à Comissão Europeia que ative o instrumento. Para o presidente da entidade, Bertram Kawlath, ceder às ameaças americanas abriria precedente para novas exigências.
Reações no bloco e temor de ruptura transatlântica
O presidente do Conselho Europeu, António Costa, afirmou que a UE será “muito firme” na defesa do direito internacional e da integridade territorial de seus membros. Já a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, fez um apelo ao diálogo, mas alertou para o risco de deterioração das relações transatlânticas caso as tarifas sejam implementadas.
A Holanda foi ainda mais direta. O chanceler David van Weel classificou a iniciativa americana como “chantagem” e advertiu que ela enfraquece tanto a Otan quanto a estabilidade da Groenlândia.
Embora não esteja entre os países alvo, a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, também criticou a iniciativa após conversar com Trump, chamando-a de “erro”.
Diplomacia nórdica e papel da Otan
Paralelamente, o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen, iniciou uma série de visitas à Noruega, Reino Unido e Suécia para discutir o fortalecimento do papel da Otan na segurança do Ártico. Segundo Rasmussen, a Groenlândia integra o território da aliança atlântica, e sua defesa é uma responsabilidade compartilhada.
Em nota conjunta, a Comissão Europeia e o Conselho Europeu reiteraram solidariedade à Dinamarca e ao povo groenlandês, ressaltando que o envio de tropas foi um exercício previamente coordenado e legítimo no âmbito da Otan.
Opinião pública nos EUA e isolamento político
Enquanto a tensão diplomática cresce, a opinião pública americana parece pouco alinhada à estratégia da Casa Branca. Pesquisa Reuters/Ipsos indica que apenas 17% dos norte-americanos apoiam a tentativa de Trump de adquirir a Groenlândia. A maioria se opõe, sobretudo ao uso da força militar — hipótese rejeitada por 71% dos entrevistados.
O levantamento também aponta preocupação generalizada com os impactos da crise sobre a Otan, pilar da ordem transatlântica desde 1949. Autoridades dinamarquesas chegaram a alertar que qualquer uso de força contra a Groenlândia colocaria em risco a própria sobrevivência da aliança.
Apesar do discurso beligerante, Trump afirmou estar “aberto a negociações imediatas” com a Dinamarca e os demais países envolvidos. Até o momento, porém, a resposta europeia indica que o bloco não pretende negociar sob ameaça — e que a defesa da soberania, no Ártico ou em qualquer outro ponto do mapa, não está à venda.
Uma nova ordem mundial
A captura de Nicolás Maduro e a pressão dos Estados Unidos sobre a Groenlândia reabriram uma discussão recorrente na política internacional: o sistema global estaria diante do nascimento de uma nova ordem ou apenas atravessando mais uma etapa de redistribuição de poder entre as grandes potências?
Para especialistas em relações internacionais, os episódios recentes não configuram uma ruptura estrutural imediata. O que se evidencia, segundo essa leitura, é a aceleração de uma transição já em curso, marcada pelo enfraquecimento progressivo das regras multilaterais que organizaram o mundo desde o pós-Segunda Guerra Mundial.
Na literatura acadêmica, “ordem mundial” refere-se ao arranjo que articula Estados, instituições, organismos multilaterais e normas que regulam o exercício do poder. Trata-se de um sistema historicamente mutável, mas que raramente se transforma de forma abrupta. Nesse sentido, a ação dos Estados Unidos na Venezuela e no Ártico é vista mais como sintoma do momento atual do que como seu marco inaugural.
Para o professor Roberto Uebel, da ESPM, o período é melhor definido como uma fase de fragmentação do multilateralismo. As grandes potências passaram a atuar de forma mais direta, reduzindo o peso das instâncias coletivas. Estados Unidos, Rússia e China concentram hoje os principais instrumentos militares, econômicos e políticos e testam seus limites regionais: Moscou no Leste Europeu, Pequim no entorno do Mar do Sul da China e Washington em seu entorno estratégico imediato.
Esse movimento recoloca no centro do debate a noção de esferas de influência. A hipótese de um redesenho informal do sistema internacional, no qual cada potência busca consolidar áreas prioritárias de atuação, voltou a ganhar força. O resultado é um ambiente mais militarizado e menos previsível — não necessariamente um prenúncio de guerra global, mas um sistema mais tensionado e orientado pela lógica da segurança.
Europa entre pressões cruzadas
Nesse contexto, a União Europeia surge como um dos atores mais fragilizados. Apesar de seu peso econômico, o bloco enfrenta dificuldades para se afirmar como polo geopolítico autônomo em meio à competição entre as grandes potências. A pressão russa no Leste e a imprevisibilidade americana no Ocidente expõem limitações estruturais da política externa europeia.
O desgaste das instituições multilaterais aprofunda esse quadro. Organismos como a ONU e a Otan são cada vez mais questionados, o que reduz a previsibilidade do sistema internacional e amplia o espaço para ações unilaterais. Para analistas, quando essas instituições perdem legitimidade, a própria soberania dos Estados se torna mais vulnerável.
A situação envolvendo a Groenlândia, território ligado à Dinamarca, ilustra esse dilema. A dificuldade europeia em reagir de forma plenamente coordenada evidencia uma perda de protagonismo político e estratégico. Em um cenário em que o direito internacional é relativizado pelas grandes potências, até alianças históricas passam a operar sob maior incerteza.
Países periféricos e adaptação estratégica
Os efeitos dessa transição não se limitam ao núcleo do sistema. Estados com menor capacidade militar ou econômica tendem a ficar mais expostos, à medida que os mecanismos coletivos de proteção se enfraquecem. A lógica do poder direto substitui, em parte, a mediação institucional que historicamente oferecia algum grau de proteção aos atores periféricos.
O Brasil, nesse contexto, busca uma postura mais pragmática. Segundo especialistas, o governo brasileiro passou a adotar uma leitura mais realista do cenário internacional, priorizando a diversificação de parcerias e o fortalecimento de acordos bilaterais, em vez de depender exclusivamente de grandes fóruns multilaterais.
O próprio papel do chamado Sul Global está em revisão. O conceito perde nitidez em um mundo no qual países como a China ocupam posições centrais na economia global. Fóruns como Brics, G20 e G77 seguem relevantes, mas têm capacidade limitada para conter ações unilaterais das grandes potências.
Além disso, a disputa por recursos estratégicos — petróleo, gás e minerais — continua a moldar decisões políticas e militares, ajudando a explicar a centralidade de países como a Venezuela no tabuleiro geopolítico.
O consenso entre os analistas é que o mundo atravessa uma transição sistêmica longa, ainda sem contornos definitivos. Não se trata de uma nova ordem claramente estabelecida, mas de um processo em andamento, cujos efeitos já se fazem sentir em diferentes regiões. O destino final desse rearranjo permanece incerto — mas a erosão das regras que sustentaram a estabilidade do pós-guerra já é um dado concreto da política internacional contemporânea.
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