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Presidente quer usar Forças Armadas para conter protestos contra sua polícia política
Publicado em 15/01/2026 3:02 - Semana On
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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou recorrer à Lei da Insurreição para autorizar o emprego das Forças Armadas em Minnesota, em meio ao agravamento dos confrontos entre agentes federais de imigração e manifestantes contrários às políticas anti-imigração do governo. A escalada ocorre após a morte de uma mulher durante uma operação do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês), episódio que ampliou protestos no estado e em outras regiões do país.
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Em publicação na rede Truth Social, Trump pressionou autoridades estaduais a conterem os protestos. Segundo ele, caso “políticos corruptos de Minnesota” não impeçam o que classificou como ataques de “agitadores profissionais e insurgentes” contra agentes do ICE, o governo federal intervirá diretamente. “Se for necessário, instituirei a Lei da Insurreição”, escreveu, acrescentando que seria capaz de “encerrar rapidamente a farsa” no estado, que, segundo ele, “um dia foi grande”.
O presidente também descartou a possibilidade de suspender as operações do ICE em Minnesota. Sem identificar nomes, afirmou que um “juiz altamente respeitado” teria se recusado a bloquear as ações da agência no estado, que voltou a classificar como “politicamente corrupto”.
Morte em operação do ICE intensifica crise
A tensão aumentou após a morte de Renee Nicole Good, de 37 anos, baleada por um agente do ICE em 7 de janeiro, em Minneapolis, durante uma abordagem a imigrantes. Na noite seguinte, outro agente disparou contra um homem venezuelano, atingindo-o na perna. O Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS) informou que o policial teria reagido após ser atacado com uma pá, sem divulgar o nome ou o estado de saúde do ferido.
Imagens gravadas por um agente de imigração mostram os momentos que antecederam a morte de Renee. No vídeo, ela conversa calmamente com os policiais e repete que “está tudo bem”, enquanto o agente circula o veículo. Em determinado momento, uma segunda voz — atribuída à esposa de Renee — pede que o agente mostre o rosto, parcialmente coberto, e afirma que ambas são cidadãs americanas.
A gravação prossegue com a ordem para que Renee saia do carro. Ela dá marcha a ré, acelera levemente e parece tocar um dos agentes com o veículo. Em seguida, ouvem-se disparos; o carro perde o controle e colide com outros automóveis.
Após o episódio, o DHS afirmou que agentes foram atropelados por manifestantes e que o disparo ocorreu em legítima defesa. A versão, reproduzida pela CNN Internacional, sustenta que o policial temeu pela própria vida e pela segurança pública. Autoridades informaram ainda que o agente sofreu uma hemorragia interna.
Até o momento, nenhuma gravação confirmou a tese de legítima defesa. Uma testemunha, Emily Heller, declarou à emissora que a narrativa oficial não corresponde ao que presenciou. “Não posso deixar essa versão avançar, porque isso absolutamente não foi legítima defesa”, afirmou.
O vice-presidente JD Vance atribuiu a responsabilidade da morte à própria vítima, classificando o comportamento de Renee como “horrível”. Trump, por sua vez, suavizou parcialmente o tom ao dizer à agência Reuters que era “triste ver ambos os lados” da situação.
Diante da repercussão nacional, o FBI assumiu a investigação do caso, centralizando o acesso a provas e evidências. O procurador-geral de Minnesota, Keith Ellison, questionou a decisão, uma vez que a apuração já vinha sendo conduzida por autoridades locais.
Mortes sob custódia e endurecimento migratório
O episódio em Minnesota ocorre em um contexto mais amplo de agravamento da política migratória. Nos primeiros dez dias de 2026, quatro migrantes morreram enquanto estavam sob custódia do ICE — dois hondurenhos, um cubano e um cambojano, segundo comunicados oficiais. As mortes se somam a um recorde registrado em 2025, quando ao menos 30 pessoas morreram em centros de detenção, o maior número em duas décadas.
Entre os casos recentes está o do cubano Geraldo Lunas Campos, de 55 anos, que morreu em 3 de janeiro em um centro de detenção no Texas após ser colocado em isolamento. Outros dois migrantes hondurenhos faleceram em hospitais na Califórnia e no Texas, ambos por problemas cardíacos. Já o cambojano Parady La, de 46 anos, morreu na Filadélfia após apresentar sintomas graves de abstinência de drogas.
Para organizações de direitos humanos, o aumento das mortes está diretamente relacionado à ampliação das detenções. Em 7 de janeiro, dados do ICE indicavam cerca de 69 mil pessoas sob custódia, número impulsionado por um reforço orçamentário aprovado pelo Congresso no ano anterior. Setareh Ghandehari, da Detention Watch Network, classificou a situação como “verdadeiramente espantosa” e defendeu o fechamento dos centros de detenção. O DHS e o ICE não comentaram.
Brasileiros entre os mais afetados
O impacto da política de deportações também se reflete no Brasil. Um relatório da organização Human Rights First aponta que o número de brasileiros deportados dobrou no primeiro ano do novo mandato de Trump. Em 2025, foram realizados 37 voos de deportação ao país, mais que o dobro do registrado em 2024, quando o governo anterior havia deportado cerca de 1.600 brasileiros em 16 voos.
Segundo o levantamento, mais de 3 mil brasileiros foram enviados de volta ao país desde janeiro de 2025. A partir de julho, a média mensal de voos aumentou, chegando a cinco em um único mês. As rotas, cada vez mais longas e com escalas em outros países, mantêm os deportados fisicamente contidos durante toda a viagem. Desde agosto, os voos passaram a pousar no aeroporto de Confins, em Belo Horizonte, em vez de Fortaleza.
Relatos de famílias indicam um clima de medo constante entre comunidades brasileiras nos EUA, levando muitos a optarem pelo retorno voluntário. O estudo também aponta que o Brasil tem sido usado como escala para voos que transportam imigrantes de outras nacionalidades rumo à América do Sul.
Operação sem precedentes
De acordo com a Human Rights Watch, desde 20 de janeiro de 2025 o governo Trump vem implementando uma agenda de deportação em massa “sem precedentes”, marcada por práticas consideradas ilegais ou cruéis por tribunais federais. Entre elas estão deportações sumárias, envio de migrantes a centros de detenção offshore, revogação de status legais, desaparecimentos sem devido processo e transferências forçadas para países de origem ou terceiros.
Os números dimensionam a operação: em 2025, foram realizados 13,7 mil voos de fiscalização e transporte de imigrantes — 8.521 deles internos, um aumento de 114% em relação a 2024. Os voos internacionais também bateram recorde, com 2.201 operações e crescimento de 41%. Ao todo, os EUA realizaram deportações para 79 países, um salto de 76% em comparação ao ano anterior.
Nesse cenário, a ameaça de Trump de acionar a Lei da Insurreição em Minnesota reforça a disposição do governo de responder à contestação social com instrumentos excepcionais, aprofundando um debate nacional sobre limites do poder federal, direitos civis e o custo humano da política migratória.
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