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Mundo

Escalada retórica e militar eleva risco de confronto direto entre EUA e Irã

Mortes em protestos chegam a 2.500, diz ONG: milhares foram presos

Publicado em 14/01/2026 11:11 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A possibilidade de um ataque militar dos Estados Unidos ao Irã passou a ser considerada mais provável do que improvável dentro do governo norte-americano, segundo apuração publicada pelo Wall Street Journal. Embora a Casa Branca não tenha detalhado o tipo de ação em avaliação, fontes ouvidas pelo jornal indicam que o presidente Donald Trump analisa “todas as opções” disponíveis diante da escalada de tensões com Teerã.

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De acordo com integrantes da administração, Trump tem ouvido diferentes correntes internas antes de definir os próximos passos. Um funcionário do governo afirmou ao jornal que, apesar da diversidade de opiniões, a decisão final caberá exclusivamente ao presidente, que busca a alternativa que considere mais adequada para lidar com o cenário iraniano.

Ao mesmo tempo, aliados árabes dos Estados Unidos no Golfo Pérsico atuam para conter qualquer iniciativa militar. Arábia Saudita, Omã e Catar têm alertado Washington de que uma tentativa de derrubar o regime iraniano poderia provocar instabilidade nos mercados internacionais de petróleo, com efeitos diretos sobre a economia global — inclusive a norte-americana. A preocupação central desses países é o risco de interrupção do tráfego de petroleiros pelo Estreito de Ormuz, rota por onde escoa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo.

Nesse contexto, autoridades sauditas teriam assegurado a Teerã que não participariam de um eventual confronto com os EUA. Segundo a reportagem, Riade também sinalizou que não autorizaria o uso de seu espaço aéreo por forças americanas, numa tentativa de se distanciar de qualquer ofensiva e reduzir os riscos de retaliação regional.

Reação iraniana e embate diplomático

A retórica beligerante encontrou resposta imediata do lado iraniano. Em carta enviada ao Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o embaixador do Irã, Amir Saeid Iravani, acusou os Estados Unidos de estimular a desestabilização política do país, incitar a violência e ameaçar sua soberania nacional. A informação foi divulgada pela agência Reuters.

No documento, também encaminhado ao secretário-geral da ONU, António Guterres, Iravani responsabiliza Washington e Israel pela morte de civis durante protestos recentes no Irã. “Os Estados Unidos e o regime israelense têm responsabilidade legal direta e inegável pela perda de vidas civis inocentes, especialmente entre os jovens”, escreveu.

A carta foi uma reação direta a declarações de Donald Trump nas redes sociais. O presidente americano advertiu que o governo iraniano “pagará um preço alto” por qualquer ato de violência e prometeu aos cidadãos do país que “a ajuda está a caminho”. Trump também anunciou o cancelamento de reuniões com autoridades iranianas até que as mortes cessassem.

Ameaças de retaliação e movimentação militar

Em resposta à elevação do tom por parte de Washington, Teerã comunicou a países vizinhos que retaliará qualquer ataque americano com bombardeios a bases militares dos EUA no Oriente Médio. Diplomatas relataram a ameaça à Reuters, em meio ao aumento da pressão internacional sobre o Irã pelas mortes registradas nos protestos internos.

A Guarda Revolucionária iraniana afirmou estar “no auge da prontidão”. À mídia estatal, o comandante aeroespacial Majid Mousavi declarou que o estoque de mísseis do país foi ampliado desde a guerra de 12 dias travada com Israel. Paralelamente, canais diretos de comunicação entre Washington e Teerã foram suspensos. O contato entre o chanceler iraniano Abbas Araghchi e o enviado especial dos EUA ao Oriente Médio, Steve Witkoff, foi interrompido, segundo fontes militares citadas pela Reuters.

No plano operacional, militares foram orientados a evacuar a Base Aérea de Al Udeid, no Catar, uma das principais instalações das Forças Armadas dos EUA na região. Diplomatas ressaltaram que a medida representa uma “mudança de postura”, e não uma evacuação formal, embora não tenham detalhado os motivos. Além do Catar, os Estados Unidos mantêm grandes bases nos Emirados Árabes Unidos e no Kuwait.

Capacidade militar iraniana

O Irã ocupa atualmente a 16ª posição entre as maiores forças militares do mundo, conforme ranking do Global Fire Power de 2025, que avalia 145 países a partir de mais de 60 indicadores. Os Estados Unidos lideram a lista. O Irã conta com cerca de 610 mil militares na ativa, 350 mil na reserva e outros 220 mil integrantes de forças paramilitares.

Em termos de equipamentos, o país dispõe de centenas de tanques, quase 800 aeronaves e cerca de 100 embarcações. Nos últimos anos, mísseis de curto e médio alcance tornaram-se o eixo central de sua estratégia defensiva e ofensiva, com capacidade de atingir alvos em Israel, nos países do Golfo, bases americanas e até partes da Europa, segundo a BBC.

Outro vetor de destaque é o uso de drones. Com quase 4 mil veículos aéreos não tripulados, o Irã consolidou-se como fornecedor global de sistemas de baixo custo, parte deles utilizados para vigilância e, em maior escala, para ataque. O apoio militar a Moscou após a invasão da Ucrânia expôs, segundo analistas, o grau de desenvolvimento da indústria iraniana nesse setor.

Oficialmente, o Irã não possui armas nucleares. Organizações internacionais indicam, porém, que o país já dispõe de plataformas de lançamento e se aproxima da quantidade de urânio enriquecido necessária para produzir uma bomba, o que mantém a questão nuclear no centro das preocupações estratégicas dos Estados Unidos e de seus aliados.

Mortes em protestos chegam a 2.500, diz ONG

O número de mortos na repressão aos protestos no Irã chegou a 2.571, segundo levantamento divulgado pela organização de direitos humanos HRANA, sediada nos Estados Unidos. Do total contabilizado até agora, 2.403 seriam manifestantes, 147 pessoas ligadas ao aparato governamental, além de 12 crianças e nove civis que não participavam diretamente das mobilizações.

As próprias entidades de monitoramento alertam, no entanto, que os dados disponíveis tendem a subestimar a dimensão real da violência. Investigações conduzidas pelo Iran Human Rights Documentation Center indicam que o número de vítimas fatais pode alcançar até 12 mil pessoas, resultado de operações repressivas realizadas simultaneamente em diferentes cidades do país. Segundo a organização, uma parcela significativa dos mortos tinha menos de 30 anos, incluindo estudantes.

A apuração independente é dificultada por um ambiente de forte censura. Há cerca de uma semana, o Irã enfrenta um bloqueio quase total da internet, o que limita a circulação de informações e impede a verificação precisa dos números. Ainda assim, relatos continuam a emergir por meio de jornalistas e fontes locais.

De acordo com Siavosh Ghazi, correspondente da RFI em Teerã, os protestos atuais diferem dos ciclos de mobilização registrados na última década. Se manifestações anteriores tiveram como foco o custo de vida, o aumento do preço dos combustíveis ou episódios como a morte de Mahsa Amini, desta vez o movimento assumiu um caráter mais radicalizado. Segundo o jornalista, slogans explicitamente políticos ganharam espaço, incluindo manifestações favoráveis à restauração da monarquia e ao retorno da dinastia Pahlavi, além de críticas diretas e contundentes ao regime vigente.

Outro elemento que distingue o atual levante é sua capilaridade. Ghazi destaca a adesão de pequenas cidades, muitas delas pobres e pouco conhecidas, que passaram a registrar protestos expressivos, ampliando a pressão sobre as autoridades centrais.

Justiça acelerada e temor de execuções

Em meio à escalada da repressão, o chefe do Poder Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni Ejei, afirmou que os detidos nas manifestações — classificadas oficialmente como “tumultos” — serão submetidos a julgamentos “rápidos” e “públicos”. Durante visita a uma prisão em Teerã, onde permaneceu por cerca de cinco horas analisando processos, Ejei defendeu uma atuação célere das autoridades diante de episódios de violência atribuídos aos protestos.

“Se alguém incendiou uma pessoa, decapitou-a antes de queimar seu corpo, devemos fazer nosso trabalho rapidamente”, declarou o magistrado, em fala divulgada por agências estatais iranianas. Organizações de direitos humanos, porém, afirmam que milhares de pessoas foram presas desde o início das mobilizações, em 28 de dezembro, e expressam preocupação com a possibilidade de uso em larga escala da pena de morte.

O alerta ganha peso diante do histórico do país. O Irã é o segundo maior executor do mundo, atrás apenas da China, que, segundo estimativas internacionais, realiza milhares de execuções por ano, embora não divulgue números oficiais.

Repercussão internacional e posição do Brasil

A violência também repercutiu no plano diplomático. O governo brasileiro divulgou nota oficial informando que acompanha “com preocupação” os acontecimentos no Irã. No comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil lamenta as mortes registradas e ressalta o princípio da soberania nacional.

“Ao sublinhar que cabe apenas aos iranianos decidir, de maneira soberana, sobre o futuro de seu país, o Brasil insta todos os atores a se engajarem em diálogo pacífico, substantivo e construtivo”, afirma a nota. O governo informou ainda que, até o momento, não há registro de brasileiros entre mortos ou feridos e que a embaixada em Teerã segue prestando assistência à comunidade brasileira no país.

A soma de repressão interna, endurecimento judicial e crescente atenção internacional aprofunda o isolamento político do Irã e amplia a pressão sobre um regime já tensionado por disputas regionais e pelo risco de confronto externo.

Repressão interna e risco externo colocam o Irã diante de um impasse histórico

O Irã atravessa um dos momentos mais críticos de sua história recente. O ciclo de protestos iniciado no fim de 2025, catalisado pela inflação descontrolada, pela escassez de alimentos, pelo colapso do rial e pela insatisfação crescente de comerciantes e trabalhadores urbanos, ultrapassou rapidamente o campo econômico. O que começou como reação à deterioração das condições de vida converteu-se em contestação política aberta ao regime teocrático e à liderança do aiatolá Ali Khamenei.

A mobilização passou a reunir segmentos diversos da sociedade: mulheres submetidas há décadas à violência institucional, jovens sem perspectivas de inserção econômica, universitários e parcelas da classe média que já não enxergam espaço para reformas graduais. A resposta estatal, por sua vez, seguiu um padrão conhecido: uso sistemático da força letal, prisões em massa e bloqueios quase totais da internet, numa tentativa de isolar o país de si mesmo e do escrutínio internacional.

Apesar da repressão, o alcance territorial e social dos protestos revela um dado relevante. Quando universidades, bazares e pequenas cidades — inclusive regiões historicamente mais pobres — passam a se mobilizar simultaneamente, o sinal não é apenas de crise conjuntural, mas de desgaste estrutural. Ainda assim, a ausência de fissuras no topo do poder limita o horizonte de mudança no curto prazo.

É nesse cenário que declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometendo “ajuda” aos manifestantes e sugerindo uma possível intervenção externa, produzem um efeito contraproducente. Longe de fortalecer a sociedade civil iraniana, esse discurso oferece ao regime o argumento perfeito para endurecer ainda mais a repressão, enquadrando a contestação interna como conspiração estrangeira. A hipótese de uma ação militar, apresentada como defesa da democracia, apenas ampliaria o número de vítimas civis e aprofundaria o caos regional.

A experiência histórica recente do Oriente Médio desmonta a ideia de que bombardeios externos geram transições democráticas. Do Iraque pós-Saddam Hussein ao Afeganistão após duas décadas de ocupação internacional, intervenções militares produziram instabilidade prolongada, fragmentação social e vácuos de poder, raramente instituições democráticas funcionais. A democracia, como mostram esses casos, não se implanta por imposição externa.

Revoluções bem-sucedidas exigem mais do que mobilização popular. A queda do Xá, em 1979, só se consolidou quando setores decisivos das elites e das Forças Armadas se recusaram a sustentar o regime até o fim. No Irã atual, essa convergência ainda não se materializou. O Estado construiu, ao longo de décadas, um aparato de segurança altamente profissionalizado, ideologicamente coeso e economicamente dependente da própria sobrevivência, com destaque para a Guarda Revolucionária. Trata-se menos de um governo isolado e mais de uma engrenagem institucional dedicada à repressão.

Comparações simplistas com outros contextos latino-americanos ou apostas em soluções “cirúrgicas” ignoram essa realidade. O Irã não enfrenta apenas uma crise de governo, mas a possibilidade de colapso de um sistema que sustenta milhões de pessoas e que, justamente por isso, tende a reagir com violência extrema para se preservar.

Se houver uma abertura política no país, ela dificilmente surgirá da ação de mísseis estrangeiros ou de discursos proferidos do exílio por herdeiros de uma monarquia deposta. Uma transição dependerá da combinação de pressão social interna, organização política, desgaste econômico prolongado e, sobretudo, do momento em que partes do próprio aparato estatal optarem por não seguir na mesma direção.

À comunidade internacional cabe uma tarefa menos espetacular, porém mais eficaz: pressionar o regime iraniano a cessar imediatamente a repressão e a abrir canais reais de diálogo. A hesitação global diante de outras tragédias contemporâneas — como a devastação em Gaza — mostrou o custo humano da inação e da seletividade moral. Existem instrumentos diplomáticos e econômicos para constranger governos sem recorrer à lógica de resolver uma matança com outra.

A democracia não chega por drones nem por salvadores ocasionais. Ela só se sustenta quando nasce de dentro, como conquista coletiva. O resto costuma ser apenas a troca do nome do opressor, enquanto os mortos continuam a se acumular ao longo do caminho.

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