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Mundo
Apenas a criação de um Estado palestino pode pôr fim ao ciclo de violência na região
Publicado em 13/10/2025 10:43 - Semana On
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A troca de reféns entre Israel e Hamas, com a libertação de 20 israelenses mantidos na Faixa de Gaza e 1.718 palestinos presos por Israel representa um alívio temporário no conflito, mas está longe de ser uma solução para a crise que há décadas assola a região — cuja superação só será possível com a criação de um Estado palestino soberano, segundo especialistas.
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O acordo de cessar-fogo, mediado diretamente pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levou a libertação de todos os reféns israelenses ainda vivos em Gaza. Em troca, Israel se comprometeu a soltar 250 prisioneiros palestinos: 88 da prisão de Ofer, na Cisjordânia ocupada, e 162 da prisão de Ketziot, no deserto do Negev. Além deles, todos os 1.718 palestinos detidos após o início da guerra já foram libertados.
A trégua teve início com a entrega de sete reféns ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV), no domingo, e de outros 13 nesta manhã (13), totalizando 20. Segundo fontes do Hamas, os reféns foram realocados em três locais antes da entrega. Israel também receberá os corpos de 28 cidadãos mortos em cativeiro; quatro deles já foram devolvidos.
Do lado palestino, o diretor do Escritório de Mídia de Prisioneiros do Hamas afirmou à rede Al Jazeera que este é um “grande dia” e que alguns detentos libertados estavam há décadas presos. Mais de 150 palestinos libertados serão deportados para outros países, segundo a mesma fonte.
As cenas que acompanharam as libertações foram marcadas por forte carga emocional. Em Israel, a devolução dos reféns foi recebida com festa. Milhares acompanharam a transmissão ao vivo em praças públicas. Em Ramallah, famílias celebraram a volta de seus parentes, libertos pelas Forças de Defesa de Israel nesta manhã. As autoridades israelenses, no entanto, proibiram manifestações públicas ou declarações à imprensa por parte dos palestinos libertados e suas famílias.
Em Gaza, onde muitos dos prisioneiros são aguardados, milhares se reuniram em frente ao Hospital Nasser, em Khan Younis, onde foi montado um ponto de atendimento médico. Apesar da euforia momentânea, a população enfrenta uma realidade devastadora.
Segundo o correspondente Ibrahim al-Khalili, da Al Jazeera, civis palestinos começaram a retornar às suas cidades após a trégua, apenas para encontrar bairros inteiros convertidos em escombros. “As pessoas voltam a verdadeiros desertos de ruínas”, relatou. Caminhões com ajuda humanitária começaram a entrar no território no domingo, mas a distribuição segue lenta e insuficiente. “Os palestinos não esperam apenas comida. Precisam de abrigos móveis, painéis solares e itens médicos básicos, que estão em falta há quase dois anos”, informou a repórter Hind Khoudary, também da rede catari.
A libertação ocorre às vésperas da chegada de Donald Trump a Tel Aviv, em uma tentativa de reforçar seu papel como fiador da trégua. O presidente norte-americano desembarcou nesta manhã acompanhado do secretário de Estado Marco Rubio, do secretário de Guerra Pete Hegseth e do diretor da CIA John Ratcliffe. “Vai ser um momento muito especial. Todos estão vibrando”, disse Trump antes de deixar Washington. A bordo do Air Force One, declarou a jornalistas que “a guerra acabou” e elogiou a mediação do Catar no processo.
Apesar do discurso triunfal, analistas alertam para o caráter provisório da trégua. “As trocas de reféns são importantes para salvar vidas, mas não tocam o centro da questão: a ausência de uma solução política duradoura”, afirmou o professor Rashid Khalidi, especialista em Oriente Médio e autor de The Hundred Years’ War on Palestine (2020), em entrevista à Democracy Now.
De acordo com dados da organização israelense B’Tselem, mais de 4.500 palestinos seguem detidos sob o que o governo chama de “prisão administrativa”, sem julgamento formal — um ponto frequentemente criticado por organizações de direitos humanos. Já o governo israelense argumenta que essas detenções são fundamentais para a segurança nacional.
O conflito entre Israel e Hamas, agravado após os ataques de outubro de 2023, já deixou mais de 67 mil mortos, a maioria civis palestinos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. Israel contabiliza mais de 1.400 mortes desde o início da ofensiva.
A troca de reféns, embora simbólica e humanamente significativa, não resolve a causa estrutural do conflito: a ocupação e a negação do direito palestino à autodeterminação. Como resume o ex-negociador de paz Aaron David Miller, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace: “Enquanto não houver um caminho crível para a criação de um Estado palestino viável, estaremos apenas adiando o próximo confronto”.
Reconstrução de Gaza pode levar até 15 anos
O acordo de cessar-fogo e troca de prisioneiros entre Israel e Hamas marca uma pausa necessária no conflito, mas não é — nem de longe — uma solução. O alerta partiu da própria Organização das Nações Unidas (ONU), que pediu o “fim da ocupação” dos territórios palestinos e defendeu um compromisso internacional com a autodeterminação do povo palestino. O custo da guerra, segundo a entidade, é tão profundo e estrutural que a reconstrução da Faixa de Gaza pode levar entre 10 e 15 anos, ao custo estimado de US$ 53 bilhões. A viabilidade dessa recuperação, no entanto, depende de um único fator: a descolonização do território.
“O sofrimento deve acabar”, apelou o secretário-geral da ONU, António Guterres, ao comentar o acordo, mediado pelo presidente norte-americano Donald Trump. Em comunicado, Guterres comemorou o cessar-fogo e a libertação de reféns, mas insistiu que “um cessar-fogo permanente deve ser assegurado” e que “a entrada imediata e desimpedida de suprimentos humanitários” é essencial. Mais do que isso, concluiu: “É hora de estabelecer um caminho político credível rumo ao fim da ocupação, reconhecendo o direito à autodeterminação do povo palestino e alcançando uma solução de dois Estados”.
Devastação sem precedentes
O balanço da destruição em Gaza é brutal. De acordo com estimativas da ONU, cerca de 78% dos 250 mil edifícios do enclave foram danificados ou destruídos desde outubro de 2023. Isso representa cerca de 61 milhões de toneladas de entulho — o equivalente a 15 pirâmides do Egito. Aproximadamente 15% desse material pode conter amianto, resíduos industriais ou metais pesados, o que compromete ainda mais os esforços de reconstrução.
A infraestrutura básica colapsou. Hoje, nenhuma pessoa em Gaza tem acesso a saneamento seguro, segundo levantamento da ONU. Antes da ofensiva israelense, 85% da população era atendida por redes de esgoto e estações de tratamento. Agora, mais de 1,2 milhão de pessoas vivem a menos de 10 metros de esgoto ou matéria fecal, em um cenário que representa risco direto à saúde pública. Apenas metade das famílias dispõe de sanitários privados; o restante depende de estruturas improvisadas ou compartilhadas, frequentemente inseguras.
A escassez de produtos de higiene agrava ainda mais a situação: 63% das famílias (cerca de 1,3 milhão de pessoas) não têm acesso a sabão, principalmente por causa da inflação. Quase 500 mil mulheres e meninas estão sem produtos para higiene menstrual, condição que afeta diretamente sua saúde e mobilidade.
O colapso ambiental também é alarmante. O aquífero costeiro que abastece a Faixa de Gaza está contaminado, resultado da destruição de sistemas de esgoto, encanamento e da dependência de fossas sépticas. O fornecimento de água doce está severamente limitado, e as áreas marinhas e costeiras também são consideradas contaminadas. Além disso, desde 2023, Gaza perdeu 97% de suas árvores, 95% da cobertura vegetal e 82% das plantações anuais, tornando praticamente inviável qualquer produção agrícola em larga escala.
Solução estrutural, não paliativa
A ONU e organizações internacionais de direitos humanos têm reiterado que a reconstrução de Gaza precisa ser conduzida pelos palestinos, e não transformada em um “projeto comercial” liderado por consórcios estrangeiros. A crítica é especialmente voltada à proposta apresentada por Trump, que acena com investimentos bilionários, mas evita abordar pontos centrais como a soberania territorial, a desocupação das terras e o reconhecimento mútuo entre Israel e Palestina.
O receio é de que, sob o pretexto da reconstrução, a causa palestina seja desidratada em favor de soluções imediatistas — ou mesmo cosméticas. O plano atual, segundo analistas, perpetua a lógica colonial imposta desde 1919, quando o Reino Unido recebeu o mandato para administrar a região da Palestina após o colapso do Império Otomano.
Para que uma paz real seja viável, aponta a ONU, alguns critérios mínimos precisam ser cumpridos:
– Definição de fronteiras internacionalmente reconhecidas por Israel e Palestina;
– Não ingerência externa e garantias de autonomia na gestão dos territórios;
– Desocupação de terras invadidas;
– Reconhecimento mútuo da legitimidade de existência de ambos os Estados, com garantias de segurança;
– Estabelecimento e reconhecimento formal da soberania palestina, com viabilidade econômica assegurada.
O risco do adiamento
O temor da comunidade internacional é de que o atual acordo sirva apenas como um armistício temporário, capaz de interromper momentaneamente os bombardeios, mas incapaz de resolver as causas estruturais do conflito. “O que está em jogo é muito mais do que um cessar-fogo. É o destino de um povo que vive sob ocupação há décadas”, afirmou Francesca Albanese, relatora da ONU para os direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, em relatório recente (UN Human Rights Council, 2024).
A reconstrução de Gaza, sem uma solução política clara, corre o risco de virar um projeto de fachada — uma repetição do ciclo em que destruição, reconstrução e nova destruição se sucedem sem que a raiz do problema seja enfrentada.
Em suma, o acordo em curso é um passo importante, mas está longe de representar um desfecho. O fim da ocupação, a autodeterminação e o compromisso com dois Estados continuam sendo as únicas condições reais para uma paz duradoura.
Leia os 20 pontos do plano de Gaza
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