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Mundo

Trégua em Gaza está longe de significar paz na região

Troca de prisioneiros e retirada de tropas israelenses alivia tensão, mas não resolve a crise histórica

Publicado em 10/10/2025 1:22 -

Divulgação Reprodução

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O Exército de Israel concluiu nesta sexta-feira (10) a retirada de suas tropas da Faixa de Gaza até a chamada “linha amarela”, um perímetro militar estabelecido entre 1,5 e 5 quilômetros a partir das fronteiras do enclave, correspondente a 53% do território. A movimentação integra o cessar-fogo com o Hamas, formalizado na véspera sob mediação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Com isso, o grupo palestino tem agora um prazo de 72 horas — até a manhã de segunda-feira (13) — para libertar os 20 reféns israelenses ainda vivos.

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“As forças das IDF [Forças de Defesa de Israel] se posicionaram nas últimas linhas de deslocamento, em conformidade com o acordo de cessar-fogo e para o retorno dos sequestrados”, declarou o Exército em comunicado oficial. Apesar do recuo, o texto ressalta que as forças israelenses “continuarão a operar para eliminar qualquer ameaça imediata”.

Enquanto as tropas se deslocavam, ataques aéreos e de artilharia continuaram a atingir diferentes pontos da Faixa de Gaza. A retirada, que deveria representar um gesto de distensão, foi marcada por bombardeios contínuos, com uso de helicópteros de ataque, tanques e drones, especialmente no norte da Cidade de Gaza e na região de Khan Younis, no sul. Testemunhas relataram explosões durante toda a noite.

Segundo a agência palestina Wafa, bombardeios atingiram a área de Al-Katiba, em Khan Younis, e ao menos 35 corpos foram resgatados por equipes médicas em diversas áreas de Gaza. Apenas na Cidade de Gaza, 19 corpos foram encontrados nesta sexta-feira, sendo nove vítimas de um ataque aéreo no bairro de al-Sabra. No bairro de Sheikh Radwan, um civil foi morto por disparos israelenses.

Mesmo sob bombardeio, milhares de palestinos começaram a retornar ao norte do enclave, após meses de deslocamento forçado para o sul. No entanto, Israel advertiu para que civis não se aproximem de áreas de concentração militar, da fronteira de Rafah ou do Corredor Filadélfia, na divisa com o Egito. As Forças de Defesa de Israel também “recomendaram” que pescadores e banhistas se mantenham longe do mar nos próximos dias. “Aproximar-se de zonas militares coloca em risco a vida de vocês”, alertaram.

Ajuda humanitária e fiscalização externa

Com a retirada parcial e o cessar-fogo em vigor, os Estados Unidos e parceiros regionais começaram a organizar um plano de ajuda humanitária. A Rádio do Exército de Israel confirmou que até 600 caminhões por dia poderão entrar em Gaza transportando alimentos, combustível, gás de cozinha e medicamentos, com logística coordenada pela ONU e instituições internacionais. A circulação será feita pelas estradas Salah al-Din e al-Rashid, ligando o sul ao norte da Faixa.

Além disso, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) formará uma força-tarefa de 200 soldados para monitorar o cumprimento do cessar-fogo, sem presença direta em solo palestino. O Centro de Coordenação Civil-Militar (CMCC) atuará em parceria com Egito, Catar, Turquia e possivelmente os Emirados Árabes Unidos. O objetivo é supervisionar o envio de ajuda humanitária e evitar novos confrontos durante o processo de retirada.

A passagem de Rafah também será reaberta para permitir o retorno gradual dos palestinos que deixaram o território durante os meses de conflito. A reabertura será supervisionada pela União Europeia, com envolvimento direto das autoridades egípcias e israelenses. No entanto, o início da repatriação depende ainda de um acordo final sobre os mecanismos de controle fronteiriço — ponto sensível que ainda gera impasses diplomáticos.

Perspectivas e riscos

Apesar do cessar-fogo, o cenário permanece instável e de alto risco. A retirada parcial de Israel, longe de representar uma desocupação definitiva, mantém o controle sobre mais da metade do território e preserva a capacidade de intervenção militar imediata. O recuo para a “linha amarela” é, na prática, uma reconfiguração tática, não uma renúncia ao domínio territorial. Como afirmou o correspondente da Al Jazeera, Tareq Abu Azzoum, “muitos moradores se reúnem perto do Corredor Netzarim esperando o momento de voltar para casa, mas o som dos drones e as explosões não cessaram”.

A pressão sobre o Hamas para libertar os reféns em 72 horas eleva ainda mais a tensão. Em meio à destruição massiva, ao colapso dos serviços básicos e à presença militar contínua, especialistas alertam para os limites do atual acordo. “Cessar-fogos assimétricos tendem a ser frágeis quando não há mecanismos sólidos de responsabilização”, observa Tamara Cofman Wittes, ex-diretora para o Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional dos EUA, em entrevista ao Foreign Affairs.

Desde o início da guerra, mais de 66 mil palestinos foram mortos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. O saldo humanitário é devastador, e a reconstrução do enclave dependerá não apenas de recursos, mas de estabilidade política e diplomática — algo ainda distante do horizonte.

Israel exclui líderes palestinos na troca de reféns

Israel publicou hoje uma lista de 250 “detidos por motivos de segurança” que podem ser libertados em troca dos reféns mantidos em Gaza, sem incluir nenhum dos principais detidos simbólicos da luta armada palestina contra Israel, dentre eles o “Mandela palestino”, popular entre o povo palestino por ter encabeçado intifadas e recusado o acordo de Oslo.

A lista, publicada no site do ministério da Justiça israelense, não inclui nenhum dos principais detidos simbólicos da luta armada palestina contra Israel, cujos nomes foram transmitidos pelo movimento islâmico palestino aos mediadores na esperança de sua libertação, como o líder palestino Marwan Barghouthi, Ahmad Saadat, Hassan Salamé ou Abbas Al-Sayyed, condenados à prisão perpétua por atentados mortais contra Israel.

O Hamas exigiu a libertação de Marwan Barghouthi, o mais famoso detento palestino, no âmbito das discussões indiretas realizadas na terça-feira com Israel sobre a lista de prisioneiros palestinos a serem libertados em troca dos reféns israelenses, segundo um meio de comunicação estatal egípcio.

Ex-alto dirigente do partido palestino Fatah condenado à prisão perpétua por homicídio, Marwan Barghouthi foi preso em 2002 por Israel e condenado em 2004. Ele é considerado um “terrorista” por Israel, que lhe impôs cinco penas de prisão perpétua por homicídios, por seu papel na segunda Intifada (levante palestino entre 2000 e 2005).

Mas ele é considerado por seus apoiadores como o “Mandela da Palestina” e continua sendo uma figura política muito popular nos Territórios Palestinos, de acordo com pesquisas locais.

Nos termos do plano de Trump, nas 72 horas seguintes à entrada em vigor do cessar-fogo, o Hamas deve libertar os 48 reféns (vivos ou mortos) sequestrados em 7 de outubro de 2023 durante o ataque que desencadeou a guerra, bem como os restos mortais de um soldado morto em 2014 durante uma guerra anterior em Gaza.

Em troca, Israel deve libertar 250 detidos por motivos de segurança (incluindo muitos condenados), bem como 1.700 palestinos de Gaza detidos pelas forças israelenses desde outubro de 2023.

Países árabes e europeus discutem ajuda à Palestina após genocídio

A França recebeu ontem (9), chanceleres árabes e europeus para conversas sobre como ajudar os palestinos após o fim do genocídio em Gaza, horas após Israel e Hamas chegarem a um acordo de cessar-fogo. O encontro foi criticado por Israel, que o julgou “supérfluo e prejudicial”.

Chanceleres de França, Espanha, Alemanha, Itália, Reino Unido, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Jordânia, Catar, Canadá, Indonésia, Turquia e a União Europeia já haviam planejado discutir o “dia seguinte” em Paris.

No início da reunião, o presidente francês, Emmanuel Macron, alertou que a “aceleração” da colonização na Cisjordânia é uma “ameaça existencial para um Estado Palestino” e “contradiz o plano americano”.

Os chanceleres reunidos em Paris deviam debater “a implementação do plano de paz” e nos “principais parâmetros do ‘dia seguinte’”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores francês em um comunicado, referindo-se à segurança, governança e reconstrução.

“O que vamos tentar aqui em Paris é colocar nossas vozes juntas (…) para que esse caminho que se inicia hoje seja irreversível e que finalmente possamos implementar a solução de dois Estados”, um israelense e um palestino, destacou o chanceler espanhol, José Manuel Albares. No entanto, o chanceler francês demissionário, Jean-Noël Barrot, advertiu que “um cessar-fogo ainda não é uma paz duradoura”.

“É a primeira etapa de um longo caminho para uma solução política que garantirá a segurança de Israel e reconhecerá o direito legítimo dos palestinos a um Estado”.

Israel criticou duramente esta iniciativa, que considerou “supérflua e prejudicial”, escreveu o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, no X. Macron busca “desviar a atenção de seus problemas internos às custas de Israel”, acrescentou.

O grande ausente da reunião foi o secretário de Estado americano, Marco Rubio, cuja participação foi anunciada em um dado momento.

Durante o encontro os chanceleres debateram a ajuda humanitária, a reconstrução de Gaza e até mesmo o envio de uma missão internacional de segurança e estabilização, sob a égide das Nações Unidas, à qual os europeus seriam favoráveis.

Itália e Indonésia já expressaram sua disposição em enviar tropas no âmbito dessa eventual força. Os países árabes também manifestaram “seu interesse”, mas sem anúncios concretos, segundo diplomatas europeus.

Trump não é herói

Apesar de sua atuação como mediador, Trump, está longe de poder ser celebrado como arquiteto da paz no Oriente Médio. A trégua em Gaza, embora represente um alívio momentâneo, não apaga o papel ativo dos EUA na sustentação política, militar e diplomática do governo de Benjamin Netanyahu ao longo dos dois anos mais brutais de ofensiva contra a população palestina.

Desde que reassumiu a presidência, Trump intensificou o apoio a Israel, fornecendo armamentos e blindando Tel Aviv em votações na ONU que pediam o fim da ofensiva militar. Sob seu governo, ativistas pró-Palestina foram perseguidos nos Estados Unidos, enquanto o fornecimento de armas continuou a alimentar o conflito. A proposta, inicialmente ventilada como piada, de transformar Gaza em um resort turístico administrado por empresas da família Trump, expôs o cinismo com que a Casa Branca vinha tratando a crise humanitária.

A atuação de Trump foi além da omissão: quando a Procuradoria do Tribunal Penal Internacional (TPI) pediu a prisão de Netanyahu, do ex-ministro da Defesa Yoav Gallant — que chegou a se referir aos palestinos como “animais” — e do líder do Hamas (já morto), o presidente norte-americano respondeu com sanções. Utilizando a Lei Magnitsky, ele puniu juízes e procuradores do TPI, repetindo o mesmo modelo de retaliação que usou contra o ministro Alexandre de Moraes, do STF, no contexto brasileiro.

O impacto humanitário do conflito é atestado por diversas organizações. Um relatório independente encomendado pela ONU concluiu que Israel cometeu atos configuráveis como genocídio segundo os critérios da Convenção sobre o Genocídio de 1948. Segundo o documento, o governo israelense atingiu “quase todos os elementos” que caracterizam esse crime, incluindo a destruição deliberada de comunidades inteiras, bloqueio de ajuda humanitária, ataques sistemáticos à infraestrutura civil e ações que impedem a sobrevivência da população. Ainda assim, o apoio irrestrito de Washington impediu qualquer responsabilização real.

Cenas de crianças em estado de inanição, civis fuzilados em busca de comida, hospitais sem recursos e bairros inteiros destruídos se tornaram imagens rotineiras. O alto número de vítimas civis — mais de 30 mil palestinos mortos — e a deterioração total das condições de vida em Gaza tornaram insustentável a posição norte-americana. A atual trégua, portanto, é menos uma vitória diplomática do que uma tentativa tardia de contenção de danos.

Mesmo a crescente pressão internacional, com países como França e Reino Unido reconhecendo o Estado da Palestina, não foi suficiente para reverter o isolamento da população palestina. Ao contrário: o silêncio de Washington permitiu a continuação da ofensiva com legitimidade tácita. Como analisa Rashid Khalidi, historiador da Universidade Columbia, “os EUA não são um mediador neutro — eles são parte do conflito”, afirmou em entrevista ao Democracy Now!.

Trump tenta agora colher os dividendos políticos de um cessar-fogo que ele próprio tornou necessário ao prolongar a destruição. Mas como ressaltou o professor Reginaldo Nasser, “cessar-fogo não é paz”, e o caminho para uma solução real continua bloqueado por interesses estratégicos, pressões geopolíticas e, sobretudo, pela ausência de reconhecimento pleno dos direitos palestinos.

A assinatura do acordo, por mais relevante que seja, não é o ponto final de um conflito de décadas. É o início de um novo capítulo — que só terá validade se monitorado por instâncias internacionais independentes, com garantias efetivas para civis palestinos e reféns israelenses. Mais do que gestos diplomáticos, o que se exige agora é responsabilização. E os Estados Unidos, protagonistas neste tabuleiro, têm uma dívida profunda a saldar.

Cessar-fogo não é paz

Apesar da trégua em vigor e da retirada das tropas israelenses, especialistas alertam que a atual suspensão das hostilidades não representa, de fato, um avanço rumo à paz. Para o professor Reginaldo Nasser, do departamento de Relações Internacionais da PUC-SP, o cessar-fogo é uma pausa tática, mas a solução definitiva para o conflito permanece distante.

“São duas coisas distintas: cessar-fogo e paz. Cessar-fogo é a suspensão das hostilidades, dos ataques”, afirmou o pesquisador em entrevista ao UOL. Segundo Nasser, o Hamas, neste estágio da guerra, já havia perdido a capacidade ofensiva contra Israel e atuava apenas em resistência localizada dentro de Gaza. “O outro então foi cessado, os ataques que Israel estava fazendo”, explicou.

O atual acordo prevê etapas como a retirada de forças israelenses e a substituição progressiva por uma Força Internacional de Estabilização — ainda em processo de definição. Mas, para Nasser, isso está longe de configurar uma solução duradoura. “A paz, é lógico, é uma palavra que comporta vários significados, mas se a gente entender que a paz se refere a uma condição plena de desenvolvimento, de justiça, de direitos, isso está muito longe”, afirmou.

O cerne do conflito, lembra o professor, continua inalterado: a ausência de um Estado palestino soberano e viável. “Como todo mundo sabe, todo mundo concorda, a sua raiz, aquilo que está lá na sua estrutura, é a criação do Estado palestino. E isso está muito distante.”

A situação de Gaza permanece crítica mesmo com o cessar-fogo. “Gaza está cercada por terra, mar e ar desde 2007. E isso vai continuar”, concluiu Nasser, destacando que, embora a pausa nos bombardeios represente um alívio temporário para a população civil, não há sinal concreto de mudanças estruturais ou diplomáticas que conduzam a um acordo de paz definitivo.

A análise de Nasser ecoa o diagnóstico de diversos organismos internacionais. Em relatório recente, o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) destacou que a crise humanitária em Gaza é agravada pelo bloqueio contínuo, que impede a entrada plena de insumos básicos e limita drasticamente a reconstrução da infraestrutura local. “Sem uma solução política duradoura, cada cessar-fogo será apenas o intervalo entre destruições”, disse Martin Griffiths, subsecretário-geral da ONU para assuntos humanitários, em pronunciamento de setembro de 2025.

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