Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Jovem brasileiro-palestino morre em prisão de Israel: mais uma vítima da limpeza étnica que já matou 50 mil pessoas
Publicado em 25/03/2025 10:28 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
Colonos israelenses na Cisjordânia agrediram com gravidade, no início da noite de segunda-feira (24), o co-diretor do filme “Sem chão” (No Other Land, em inglês), Hamdan Ballal, vencedor do Oscar 2025 na categoria Melhor Documentário. A denúncia foi feita no X pelo outro diretor do filme, Yuval Abraham.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
“Um grupo de colonos acabou de linchar Hamdan Ballal, co-diretor do nosso filme no other land. Eles o espancaram e ele tem ferimentos na cabeça e no estômago, sangrando. Soldados invadiram a ambulância que ele chamou e o levaram. Nenhum sinal dele desde então”, publicou Abraham. Veja abaixo a postagem original:
A group of settlers just lynched Hamdan Ballal, co director of our film no other land. They beat him and he has injuries in his head and stomach, bleeding. Soldiers invaded the ambulance he called, and took him. No sign of him since.
— Yuval Abraham יובל אברהם (@yuval_abraham) March 24, 2025
“Eles bateram nele e o deixaram com lesões na cabeça e no estomago, com sangramento. Os soldados ainda invadiram a ambulância que ele chamou e o levaram. Não há sinais dele desde então”, escreveu Yuval. Em nova publicação nas redes sociais, Yuval Abraham disse que Ballal foi espancado durante a noite por soldados israelenses.
A advogada Leah Tsemel conseguiu entrar em contato com ele, que está em uma delegacia de polícia de Kiryat Arba. Leia a publicação completa:
“Após o ataque, Hamdan foi algemado e vendado a noite toda em uma base do exército enquanto dois soldados o espancavam no chão, disse sua advogada Leah Tsemel depois de falar com ele agora há pouco. Ele ainda está detido na delegacia de polícia de Kiryat Arba”.
After the assault, Hamdan was handcuffed and blindfolded all night in an army base while two soldiers beat him up on the floor, his lawyer Leah Tsemel said after speaking with him just now. He’s still held in the Kiryat Arba police station.
— Yuval Abraham יובל אברהם (@yuval_abraham) March 25, 2025
Uma testemunha afirmou para a agência de notícias Reuters que a prisão ocorreu no contexto de um impasse sobre uma tentativa de colonos de roubar ovelhas de fazendeiros palestinos na parte ocupada da Cisjordânia.
O prefeito de Susiya, Jihad Nawajaa, disse que oito palestinos ficaram feridos.
O diretor vencedor do Oscar participava de uma reunião para o fim do jejum diário do Ramadã na vila de Susiya, perto de Hebron, quando todo o caso aconteceu.
Ativistas judeus-americanos presenciaram o ataque. Ao jornal The Guardian, alguns membros do Centro para a Não-Violência Judaica disseram que os colonos “começaram a atirar pedras contra os palestinos e destruíram um tanque de água perto da casa de Hamdan”. ”Os colonos destruíram seu carro com pedras e cortaram um dos pneus. Todas as janelas e para-brisas estavam quebrados”, disseram.
Israel confirmou prisão
Ao jornal Haaretz, as FDI (Forças de Defesa de Israel) afirmaram que “vários terroristas atiraram pedras em cidadãos israelenses, danificando seus veículos”, mas que houve “arremesso mútuo de pedras”. Os militares disseram que levaram quatro pessoas — três palestinos e um israelense — para “mais questionamentos”, mas que ninguém foi detido em uma ambulância. O paradeiro de nenhum dos detidos foi informado.
Palestino venceu Oscar de Melhor Documentário deste ano
Ballal é um dos quatro diretores de “Sem Chão”, filme de israelenses e palestinos que denuncia a destruição da região de Masafer Yatta por soldados israelenses na Cisjordânia ocupada. No Brasil, “Sem Chão” está em cartaz nos cinemas e disponível para aluguel ou compra nas plataformas digitais.
O documentário mostra a destruição na comunidade de Masafer Yatta por soldados israelenses na Cisjordânia ocupada por Israel e a aliança que se desenvolve entre o ativista palestino Basel Andra e o jornalista israelense Yuval Abraham. A área abriga um conjunto de aldeias palestinas que sofrem pressão das forças israelenses para deixar o local.
No discurso de vitória do Oscar, os diretores do filme pediram ‘fim da injustiça’.
‘Apelamos ao mundo para que tome medidas sérias para pôr fim à injustiça e à limpeza étnica do povo palestino’.
Confira o discurso completo (em inglês):
“No Other Land” director Basel Adra: “We call on the world to take serious actions to stop the injustice and to stop the ethnic cleansing of Palestinian people.” | #Oscars pic.twitter.com/NzoqLKiBSJ
— Variety (@Variety) March 3, 2025
Brasileiro-palestino de 17 anos morre em prisão israelense
A morte de um adolescente de 17 anos em uma prisão israelense, no último fim de semana, gerou protestos de organizações palestinas e mobilizou o governo brasileiro. Walid Khaled Abdallah, jovem de origem brasileiro-palestina, estava detido desde setembro de 2024 na cidade de Silwad, na Cisjordânia ocupada. A informação foi divulgada nesta segunda-feira (25) pela Sociedade de Prisioneiros Palestinos.
Segundo a ONG, Abdallah estava encarcerado na prisão de Megido, no norte de Israel — um centro de detenção que, ao longo de 2024, foi alvo de diversas denúncias de maus-tratos e abusos, conforme revelou o jornal israelense Haaretz. A instituição afirmou que esta é a 63ª morte de prisioneiros palestinos sob custódia israelense desde o início da guerra na Faixa de Gaza, em 7 de outubro de 2023. As circunstâncias da morte, porém, ainda não foram esclarecidas.
O jornal Jerusalem Post confirmou a morte, citando um comunicado oficial do Serviço Prisional de Israel: “Um detento de segurança de 17 anos da Cisjordânia morreu ontem [sábado] na prisão de Megido”. O governo israelense, no entanto, não divulgou a identidade do jovem nem detalhes sobre a causa da morte.
Abdallah era filho de um cidadão brasileiro. A representação diplomática do Brasil em Ramallah, na Cisjordânia, está prestando assistência à família e já cobrou explicações oficiais do governo israelense. De acordo com informações preliminares, a suspeita é de que tenha havido negligência médica. O adolescente teria sido preso em setembro sob acusação de agressão a soldados israelenses.
Palestinian prisoner advocacy groups reported that 17-year-old Walid Khaled Abdullah Ahmed is the 63rd detainee to die in Israeli detention since October 2023https://t.co/OaEZwXU8QR
— Middle East Eye (@MiddleEastEye) March 24, 2025
A Federação Árabe Palestina do Brasil (Fepal) divulgou nota repudiando o caso e denunciando a prisão de Megido como “notória pelo uso de tortura com choques elétricos, espancamentos, privação de alimento e até uso de cães contra detentos”. A denúncia ecoa o conteúdo de uma reportagem publicada pelo Haaretz em 2024, que revelou gravações de guardas israelenses agredindo prisioneiros dentro da unidade.
De acordo com relatório publicado pela Organização das Nações Unidas (ONU) em julho de 2024, mais de 9.400 palestinos estavam detidos em prisões israelenses, dos quais 4.781 estavam sob detenção administrativa — mecanismo legal que permite a prisão sem acusação formal, sob justificativa de segurança. A Sociedade de Prisioneiros Palestinos afirma que ao menos 250 menores de idade estão atualmente sob custódia israelense.
A morte de Abdallah ocorre em meio à escalada da violência no conflito entre Israel e Palestina, especialmente após a retomada das operações militares israelenses na Faixa de Gaza. O atual ciclo de guerra começou em 7 de outubro de 2023, quando o grupo Hamas, que controla Gaza, lançou uma ofensiva armada contra Israel, matando cerca de 1.200 pessoas e sequestrando mais de 200, segundo autoridades israelenses.
Desde então, a resposta militar de Israel tem resultado em devastação em larga escala no enclave palestino. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, o número de mortos na Faixa desde o início da contraofensiva ultrapassa 50 mil pessoas.
Israel ultrapassa 50 mil mortos em Gaza e é acusado de planejar limpeza étnica
O número de mortos na Faixa de Gaza ultrapassou os 50 mil no último domingo (24), segundo informou o Ministério da Saúde local, controlado pelo Hamas. A marca foi alcançada em meio à retomada da ofensiva israelense e ao fracasso das negociações por um cessar-fogo duradouro. Tel Aviv alega que os ataques foram reiniciados após o Hamas se recusar a libertar os reféns ainda mantidos em cativeiro.
O atual ciclo de violência teve início em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou uma ofensiva armada contra Israel, deixando cerca de 1.200 mortos e fazendo centenas de reféns. A resposta do governo de Benjamin Netanyahu foi uma operação militar sem precedentes sobre Gaza, que vem sendo duramente criticada por organizações internacionais e países da região.
Além dos mais de 50 mil mortos, os dados oficiais — utilizados por agências internacionais — apontam cerca de 113 mil feridos e milhares de desaparecidos sob os escombros. Embora o governo israelense alegue que parte significativa das vítimas seja composta por combatentes do Hamas, organizações palestinas afirmam que mulheres e crianças representam cerca de 70% dos mortos.
A crise humanitária em Gaza se agravou nas últimas semanas. Desde o colapso do último cessar-fogo, mais de 670 palestinos morreram. Somente no domingo, 26 pessoas foram mortas em ataques israelenses, incluindo um dos líderes políticos do Hamas.
Acusações de limpeza étnica
O governo de Israel aprovou recentemente a criação de um órgão destinado a promover as chamadas “saídas voluntárias” da população de Gaza. Segundo o ministro da Defesa, Israel Katz, o novo órgão ficará responsável por “coordenar a passagem por terra, mar e ar para os países de destino” dos palestinos que deixarem o enclave.
A proposta tem sido duramente criticada por países árabes, entidades de direitos humanos e pela Organização das Nações Unidas, que classificaram a medida como equivalente a uma limpeza étnica. O plano é visto como parte de uma estratégia para esvaziar Gaza de sua população nativa.
Nos Estados Unidos, membros do governo de Donald Trump, que voltou ao poder, têm declarado apoio incondicional a Israel. Alguns assessores citam até um suposto “direito bíblico” do país sobre os territórios palestinos. Em declarações recentes, o próprio Trump afirmou que pretende “tomar Gaza” para transformá-la em uma “riviera com hotéis”.
Ele também ameaçou o Hamas com represálias ainda mais severas: “Se os reféns não forem libertados, as portas do inferno se abrirão”, disse o ex-presidente em discurso público.
Denúncia no Tribunal Penal Internacional
O primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu já foi formalmente acusado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI) por crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Uma ordem de prisão foi emitida. Em reação, o governo Trump impôs sanções contra o procurador-geral do tribunal, Karim Khan, incluindo bloqueios financeiros e restrições de visto — medida que gerou críticas da comunidade internacional e de juristas.
O conflito em Gaza atinge níveis alarmantes, com crescentes denúncias de violações do direito internacional humanitário. A destruição da infraestrutura civil, os bloqueios ao envio de ajuda humanitária e os relatos de deslocamento forçado de populações inteiras alimentam acusações de que Israel estaria promovendo uma política de expulsão em massa — algo proibido pelas convenções de Genebra.
Deixe um comentário