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Especial
Como a elite convence trabalhadores a lutarem contra seus próprios interesses
Publicado em 21/03/2025 12:15 - Semana On
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No Brasil, a desigualdade não é apenas um fenômeno econômico: é um projeto político bem-sucedido, mantido ao longo dos séculos por um sistema que perpetua privilégios para poucos e transfere o peso do financiamento do Estado para os mais pobres. Recentemente, esse projeto foi escancarado na discussão sobre a taxação dos super-ricos, proposta pelo governo Lula para compensar a isenção do Imposto de Renda para aqueles que ganham até R$ 5.000 mensais.
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O debate, que poderia ser visto como uma medida natural para reduzir desigualdades e corrigir distorções históricas no sistema tributário, revelou um fenômeno curioso: enquanto os milionários se articulam para barrar qualquer tentativa de maior equidade fiscal, muitos trabalhadores de classe média e baixa engrossam o coro contra a taxação dos bilionários. Esse cenário levanta uma questão fundamental: por que pessoas que têm tanto a ganhar com uma reforma tributária justa acabam defendendo justamente aqueles que se beneficiam do sistema atual?
A resposta para essa contradição envolve um jogo complexo de interesses políticos, manipulação ideológica e a perpetuação de mitos sobre meritocracia, livre mercado e empreendedorismo. O resultado? Milhões de brasileiros lutando com unhas e dentes para garantir que um seleto grupo de 141 mil pessoas — aquelas que ganham mais de R$ 50 mil por mês — continue sem pagar impostos proporcionais à sua renda.
Para Pierre Bourdieu, a desigualdade não se mantém apenas por meio da política econômica, mas também por meio da dominação simbólica. Essa dominação ocorre quando determinados discursos são reproduzidos até se tornarem “verdades inquestionáveis”. No Brasil, um dos discursos mais poderosos é o de que “os ricos geram empregos e, por isso, não devem ser taxados”. Essa crença ignora o fato de que grande parte dos lucros dos milionários é acumulada em investimentos financeiros e bens de luxo, e não necessariamente reinvestida na economia produtiva. No entanto, a força desse discurso faz com que trabalhadores defendam a manutenção dos privilégios da elite, mesmo quando isso os prejudica diretamente.
Um modelo de exploração disfarçado de eficiência
Para compreender por que a taxação dos super-ricos enfrenta tanta resistência, é essencial entender como funciona o sistema tributário brasileiro. Diferente de países desenvolvidos, onde a arrecadação se baseia majoritariamente na taxação da renda e do patrimônio, no Brasil o grosso da carga tributária recai sobre o consumo. Isso significa que um trabalhador que ganha um salário mínimo paga a mesma alíquota de impostos sobre produtos básicos que um empresário bilionário.
O problema não é novo. Desde os tempos coloniais, o Estado brasileiro sempre se organizou de maneira a favorecer as elites econômicas, garantindo que os mais pobres arcassem com os custos da manutenção da sociedade. Mas foi durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, nos anos 1990, que essa estrutura se consolidou de forma quase irreversível com a isenção de impostos sobre dividendos, um dos maiores privilégios fiscais do mundo para os mais ricos.
Para ilustrar a magnitude dessa distorção, um estudo do Instituto de Justiça Fiscal apontou que, em 2021, os 10% mais ricos do Brasil pagaram uma alíquota efetiva de 6,5% de impostos sobre sua renda total, enquanto os mais pobres arcaram com 27%. Essa diferença grotesca escancara o abismo social que define o país.
Ao contrário do que ocorre em países como França, Alemanha e Estados Unidos — onde a tributação progressiva é um pilar do financiamento estatal — no Brasil, os trabalhadores de baixa e média renda sustentam o Estado enquanto os milionários acumulam fortunas.
O Congresso como representante dos super-ricos
A proposta do governo Lula de instituir um imposto mínimo sobre quem ganha mais de R$ 50 mil mensais e tributar dividendos enfrenta resistências previsíveis no Congresso Nacional. Afinal, quem são os parlamentares brasileiros?
Levantamentos do Tribunal Superior Eleitoral mostram que a maioria dos deputados e senadores possui patrimônio milionário. Mais de 60% dos deputados federais têm patrimônio superior a R$ 1 milhão, sendo que muitos atuam diretamente como empresários ou acionistas de grandes corporações. É evidente que um Congresso formado majoritariamente por essa elite dificilmente aprovaria uma medida que afeta diretamente seus próprios bolsos.
A resistência à proposta também vem de setores influentes do mercado financeiro e das grandes corporações. O discurso da “carga tributária excessiva” e do “risco ao investimento” já se tornou lugar-comum, mesmo quando os números demonstram que o Brasil está muito abaixo da média internacional na taxação de grandes fortunas e dividendos.
No entanto, a contradição mais absurda desse cenário é que parte da classe trabalhadora comprou esse discurso e agora atua como linha de frente na defesa dos interesses dos milionários.
“Guerreiros do Capital Alheio”
No livro Pobre de Direita, o sociólogo Jessé de Souza explica como a classe trabalhadora é manipulada a agir contra seus próprios interesses, adotando valores e discursos que, na prática, beneficiam apenas a elite econômica. Ele argumenta que essa adesão ocorre por meio da “captura ideológica”, um processo em que os mais pobres internalizam narrativas neoliberais que glorificam o mercado e demonizam o Estado, acreditando que a ascensão social depende exclusivamente do esforço individual. No Brasil, essa mentalidade leva milhões de trabalhadores a rejeitar políticas redistributivas e a defender privilégios que jamais terão, enquanto continuam a arcar com a maior parte da carga tributária. Essa lógica faz com que, mesmo explorados, muitos vejam os super-ricos como exemplos a serem seguidos, e não como parte de um sistema que perpetua a desigualdade.
O filósofo francês Louis Althusser explica que o Estado se utiliza de Aparelhos Ideológicos para moldar a visão de mundo das pessoas e garantir a reprodução do sistema capitalista. Esses aparelhos incluem escolas, igrejas, meios de comunicação e até mesmo a família, que desempenham um papel crucial na disseminação de valores que beneficiam a elite. No Brasil, essa estrutura é evidente na forma como o sistema educacional minimiza debates sobre desigualdade e justiça social, enquanto a grande mídia constrói narrativas que associam taxação de bilionários a crises econômicas e fuga de capitais. Dessa maneira, a população cresce acreditando que o imposto sobre grandes fortunas é “perigoso”, quando, na realidade, é uma ferramenta usada há décadas nos países mais desenvolvidos do mundo.
A ideia de que os trabalhadores deveriam apoiar a taxação dos super-ricos parece óbvia. Afinal, são eles que sustentam o sistema e arcam com a maior parte da carga tributária. No entanto, paradoxalmente, um número significativo de brasileiros de baixa renda se posiciona contra a proposta.
Esse fenômeno pode ser explicado por diversos fatores, entre eles:
1 – A crença na meritocracia e o mito do bilionário que começou do zero
O discurso do “self-made man” — aquele empresário que saiu da pobreza e construiu um império sozinho — é amplamente difundido no Brasil, especialmente por veículos de mídia e redes sociais. No entanto, a realidade é muito diferente. Estudos da Oxfam apontam que menos de 1% dos bilionários brasileiros começaram do zero, e que a maioria herdou suas fortunas ou teve acesso a oportunidades que a maior parte da população nunca terá.
2 – A influência do discurso neoliberal
Durante as últimas décadas, o Brasil foi bombardeado por uma narrativa de que o Estado é ineficiente e de que a única saída para o progresso é o empreendedorismo individual. Isso criou uma mentalidade onde o trabalhador médio não se vê como parte da classe operária, mas como um “empreendedor em potencial”. Ele rejeita a taxação dos ricos porque acredita que um dia fará parte desse grupo — mesmo que as estatísticas mostrem que suas chances são praticamente nulas.
3 – O medo de que tributar os ricos signifique tributar os pequenos empresários
Um dos principais argumentos contrários à taxação dos super-ricos é o de que isso abriria um precedente para tributar pequenos empresários e profissionais liberais. Esse raciocínio ignora que a proposta do governo mira exclusivamente um grupo extremamente restrito de pessoas que recebem mais de R$ 50 mil mensais.
4 – A manipulação política e midiática
Os grandes meios de comunicação, historicamente controlados por elites econômicas, ajudam a difundir a ideia de que qualquer aumento na tributação sobre os mais ricos resultaria em desemprego, fuga de capitais e recessão. Esse argumento já foi refutado por estudos internacionais que mostram que países com maior justiça tributária tendem a apresentar economias mais sólidas e crescimento sustentável.
Muita gente já analisou esta dicotomia perversa. No livro A Ideologia Alemã, Karl Marx e Friedrich Engels explicam que a classe dominante consegue perpetuar sua posição de poder porque controla não apenas os meios de produção, mas também as ideias e valores que circulam na sociedade. Eles chamam isso de falsa consciência: os trabalhadores, em vez de perceberem sua condição de exploração e lutarem por mudanças, acabam adotando os valores da elite, acreditando que as regras impostas pelo sistema são naturais e imutáveis. No Brasil, essa lógica se manifesta na defesa da tributação injusta, quando trabalhadores rejeitam a taxação de bilionários por acreditarem que isso prejudicaria a economia — uma crença que ignora evidências empíricas sobre sistemas fiscais mais progressivos ao redor do mundo.
O pensador italiano Antonio Gramsci desenvolveu a ideia de hegemonia cultural, explicando que a elite mantém seu domínio não apenas pela força, mas pela construção de um consenso social que leva as massas a enxergar suas regras como naturais. Esse domínio ideológico se dá por meio da mídia, da escola e das religiões, que ensinam desde cedo que o sucesso é fruto exclusivo do mérito individual, e não de privilégios estruturais. No Brasil, essa hegemonia se manifesta na glorificação do empreendedorismo como única saída para a pobreza, enquanto se demonizam políticas públicas redistributivas, como a taxação de grandes fortunas. Assim, a população aceita um sistema desigual como se fosse a única alternativa possível.
O linguista e filósofo Noam Chomsky descreve, em A fabricação do consenso, como a mídia manipula a percepção da sociedade para garantir que as elites permaneçam no poder. Ele mostra que governos e corporações utilizam táticas como a repetição exaustiva de mensagens, a criação de distrações e a distorção dos fatos para influenciar a opinião pública. No Brasil, isso se manifesta no modo como os meios de comunicação tratam o tema da taxação dos bilionários: em vez de apresentá-la como uma questão de justiça fiscal, enquadram o debate como um risco para a economia, utilizando “especialistas de mercado” que defendem os interesses da elite. O resultado é uma população convencida de que proteger os super-ricos é essencial para o bem-estar do país.
A desigualdade como ameaça à democracia
O debate sobre justiça tributária não é apenas econômico — ele é uma questão de sobrevivência democrática. O economista francês Thomas Piketty argumenta em O Capital no Século XXI que “sociedades muito desiguais tendem a gerar instituições políticas frágeis e autoritárias”.
A desigualdade extrema no Brasil tem efeitos diretos na percepção da população sobre o Estado e suas instituições. Quando o sistema é visto como um instrumento de proteção aos mais ricos, os mais pobres perdem a crença na democracia e se tornam presas fáceis para discursos autoritários.
A proposta de taxação dos super-ricos não resolverá todos os problemas do Brasil, mas pode ser um passo crucial para reverter esse cenário. O desafio, porém, não é apenas político, mas cultural: é preciso romper com os mitos que sustentam a adesão dos trabalhadores a um sistema que, na prática, os explora.
Slavoj Žižek, um dos principais filósofos contemporâneos, desenvolveu o conceito de cinismo ideológico, que explica por que as pessoas continuam a apoiar um sistema que as prejudica, mesmo quando percebem suas falhas. No Brasil, isso se traduz no paradoxo da classe trabalhadora que reconhece a desigualdade extrema, mas ainda assim rejeita reformas tributárias progressivas por medo de que “as coisas piorem” ou de que “o comunismo tome conta do país”. Esse medo é amplamente explorado por políticos e empresários, que distorcem propostas de taxação dos super-ricos e as apresentam como ameaças à liberdade econômica, quando, na verdade, são medidas comuns em democracias consolidadas.
Enquanto essa consciência não mudar, o Brasil continuará sendo um país onde milhões de pessoas defendem privilégios que nunca terão, servindo como massa de manobra para aqueles que, de fato, detêm o poder.
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