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Mundo
Entenda as origens do conflito e como os ataques de Israel podem agravar a situação
Publicado em 17/06/2025 11:46 - Semana On
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Em meio à escalada das tensões no Oriente Médio, a cúpula do G7 realizada no Canadá deixou transparecer não apenas divergências internas, mas também as contradições históricas que moldam a política externa das potências ocidentais. Sob pressão direta do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o comunicado final do grupo — formado por EUA, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Canadá e Japão — evitou qualquer menção a um cessar-fogo no conflito entre Israel e Irã, limitando-se a declarações genéricas em defesa da “paz e estabilidade no Oriente Médio”.
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O texto divulgado sofreu vetos explícitos da delegação norte-americana, segundo relatos da imprensa dos EUA, que barraram qualquer referência formal à necessidade de desescalar a violência — mesmo após Israel ter iniciado um bombardeio maciço ao território iraniano na última sexta-feira, episódio que acendeu o estopim da atual crise.
Enquanto isso, a retórica do comunicado seguiu a cartilha habitual das alianças militares ocidentais, qualificando o Irã como “a principal fonte de instabilidade e terror” na região, ao mesmo tempo em que reafirmou que “Israel tem o direito de se defender”. A assimetria narrativa é flagrante: nenhuma menção ao fato de que a ofensiva militar partiu do governo israelense.
A história se repete — e não é por acaso
O episódio ilustra uma lógica geopolítica antiga e reiterada: a seletividade na aplicação dos princípios internacionais, onde o direito à legítima defesa é frequentemente reservado aos aliados estratégicos do Ocidente, enquanto adversários são enquadrados na lógica da contenção, do isolamento e da demonização.
Historicamente, essa dinâmica tem raízes no pós-Segunda Guerra Mundial, quando os EUA emergiram como potência hegemônica no cenário internacional, estruturando um sistema global no qual instituições multilaterais — como a ONU, a OTAN e, mais recentemente, o próprio G7 — muitas vezes funcionaram como extensões de sua política externa.
Como observa o cientista político Noam Chomsky, “a política externa dos EUA nunca foi sobre direitos humanos ou democracia, mas sobre controle, estabilidade e manutenção de uma ordem favorável aos seus interesses” (Manufacturing Consent, 1988). A reunião no Canadá parece, mais uma vez, confirmar essa tese.
O peso da dependência militar
O alinhamento quase automático dos países do G7 com os interesses de Israel não pode ser dissociado da dependência militar e estratégica desses países em relação aos Estados Unidos. Segundo dados do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI, 2024), os EUA respondem por cerca de 40% das exportações globais de armas, sendo Israel um dos principais destinos desse arsenal, além de contar com cerca de 3,8 bilhões de dólares anuais em ajuda militar direta americana — um patamar que se mantém estável há décadas.
A Europa, por sua vez, enfrenta o dilema de sustentar seu compromisso formal com os direitos humanos, enquanto segue atrelada aos acordos de defesa e às cadeias logísticas de segurança controladas por Washington. É a mesma lógica que, desde a Guerra Fria, condicionou a autonomia europeia às prioridades geopolíticas dos EUA.
Trump: o fator desestabilizador
Donald Trump, que deixou a reunião do G7 antes do encerramento formal, reforçou em declarações à imprensa uma postura beligerante e ambígua. Ao afirmar que busca “um fim, um fim de verdade, não um cessar-fogo”, Trump sinaliza que não está interessado em negociações diplomáticas, mas em uma rendição unilateral do Irã — especialmente no que se refere ao seu programa nuclear.
Na prática, segundo fontes do governo americano, o ex-presidente tem sido pressionado diretamente por Benjamin Netanyahu e pelo governo israelense a autorizar ataques às instalações nucleares de Fordow, construídas sob uma montanha, a mais de 90 metros de profundidade — protegidas, portanto, contra armamentos convencionais. Apenas os EUA possuem o tipo de bomba capaz de destruir esse complexo: a GBU-57, conhecida como Massive Ordnance Penetrator, uma das armas mais destrutivas não nucleares do arsenal americano.
O Oriente Médio como palco permanente
O conflito atual não surge no vácuo. É o capítulo mais recente de um ciclo de hostilidades que remonta à própria fundação do Estado de Israel em 1948 e às sucessivas intervenções dos EUA na região — do golpe de 1953 no Irã, que derrubou o governo democraticamente eleito de Mohammad Mossadegh, passando pela guerra do Iraque em 2003 e pelo financiamento de grupos armados em diversos conflitos locais.
Essa lógica foi sintetizada pelo historiador britânico Eric Hobsbawm, que escreveu: “O século XX foi, em grande parte, o século da guerra — e a guerra não desapareceu com ele. Ela apenas mudou de forma, especialmente nas regiões onde a geopolítica do petróleo e da segurança definem os rumos da história” (A Era dos Extremos, 1994).
Silêncios que falam
O silêncio do G7 sobre os ataques israelenses e sua decisão de concentrar críticas exclusivamente no Irã revelam mais do que simples pragmatismo diplomático. Revelam o funcionamento de uma ordem internacional assimétrica, na qual os princípios de soberania, legalidade e direitos humanos são aplicados de maneira seletiva.
Como alerta o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos, “vivemos uma era em que os direitos humanos são simultaneamente celebrados e violados, dependendo de quem é o violador e quem é a vítima” (A difícil democracia, 2016).
O impacto desse alinhamento não se limita ao Oriente Médio. Ele reverbera no enfraquecimento das instituições multilaterais, na descrença crescente da opinião pública global sobre a imparcialidade das potências ocidentais e no fortalecimento de discursos nacionalistas, autoritários e antiocidentais em diversas partes do mundo.
Enquanto isso, a reunião do G7 encerra-se como começou: com declarações ambíguas, nenhuma proposta concreta de mediação e a reafirmação tácita de que a geopolítica do século XXI segue, em muitos aspectos, as mesmas lógicas excludentes e assimétricas herdadas do século anterior.
Por que Israel Está Atacando o Irã, o Líbano, a Síria, o Iêmen e Gaza?
Na sexta-feira, 13 de junho, Israel fez o que muitos temiam e poucos previam ser imediato: atacou diretamente o território do Irã. O ataque não foi um episódio isolado. Ocorria no mesmo dia em que o exército israelense completava 616 dias de guerra ininterrupta contra a Faixa de Gaza, intercalados, nas últimas semanas, com bombardeios sistemáticos ao sul do Líbano, à Síria e ao Iêmen. Um mapa da guerra que hoje se desenha conecta, em linha reta, cinco países e territórios — todos alvos da máquina militar israelense.
Não por acaso, entender o que está em jogo exige muito mais do que acompanhar os noticiários diários. Trata-se de compreender a sobreposição de camadas históricas, traumas civilizatórios, contradições internas, rivalidades geopolíticas e, sobretudo, as escolhas — algumas antigas, outras recentes — que transformaram o Oriente Médio num tabuleiro permanente de tensões e guerras.
Origens históricas: onde tudo começou
O atual conflito não é fruto de uma disputa episódica. Suas raízes estão fincadas no fim da Primeira Guerra Mundial, quando o colapso do Império Turco Otomano entregou à administração britânica uma região então conhecida genericamente como Palestina, onde conviviam — nem sempre pacificamente — árabes e judeus, povos que compartilhavam aquele território há séculos.
O surgimento do Estado de Israel, em 1948, sob a égide da ONU e com o pano de fundo do trauma do Holocausto, é um divisor de águas na história moderna do Oriente Médio. Para os judeus, a fundação de Israel representou o cumprimento do projeto sionista de Theodor Herzl (1860–1904) — a criação de um lar nacional judeu. Para os árabes da região, significou a Nakba, a catástrofe, com a expulsão forçada de centenas de milhares de palestinos de suas terras ancestrais.
Desde então, a história da região tem sido escrita à sombra de guerras, ocupações e fracassos diplomáticos. O episódio mais simbólico ocorreu em 1967, na Guerra dos Seis Dias, quando Israel ocupou a Cisjordânia, Jerusalém Oriental, as Colinas de Golã (Síria) e a Faixa de Gaza — ocupações que, em boa parte, perduram até hoje.
Gaza: um epicentro permanente de tragédia
A Faixa de Gaza, que Israel alega ter desocupado em 2005, vive na prática sob um bloqueio naval, aéreo e terrestre, classificado como ocupação ilegal pelo direito internacional, segundo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) de 2022. Ali, mais de 50 mil palestinos já morreram desde o início da ofensiva israelense em outubro de 2023, após o ataque do Hamas que matou 1.139 israelenses, considerado o terceiro maior ataque terrorista da história contemporânea, de acordo com o Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS).
A devastação provocada em Gaza levou a África do Sul a denunciar Israel na Corte Internacional de Justiça (CIJ), sob acusação formal de genocídio, e motivou o Tribunal Penal Internacional (TPI) a emitir um mandado de prisão contra o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, por uso da fome como arma de guerra.
O eixo de alianças e confrontos: por que o Irã?
O ataque ao Irã, mais do que uma escalada militar, é a materialização de uma tensão que se arrasta desde a Revolução Islâmica de 1979, quando o país persa adotou um regime teocrático xiita e passou a apoiar, financeiramente e militarmente, grupos considerados terroristas por Israel e seus aliados, como Hezbollah (Líbano), Hamas (Gaza) e Houtis (Iêmen).
O maior temor israelense — e aqui reside o cerne do ataque — é o programa nuclear iraniano, que, embora oficialmente tenha fins civis, é visto por Israel como uma ameaça existencial. Curiosamente, Israel possui seu próprio arsenal nuclear, não declarado formalmente, mas amplamente reconhecido por especialistas como o único da região, o que acentua a lógica de desconfiança mútua.
“O equilíbrio atômico asseguraria a estabilidade regional”, afirma o professor Bruno Huberman, especialista em relações internacionais da PUC-SP, em entrevista recente. “É uma situação indesejável, mas compreensível do ponto de vista do realismo geopolítico. A outra saída seria uma negociação para a eliminação mútua dos arsenais nucleares, algo tão improvável quanto necessário”, conclui.
Netanyahu: guerra externa, crise interna
O contexto doméstico também ajuda a explicar os últimos movimentos de Netanyahu. Com 70% da população israelense declarando não confiar no primeiro-ministro, segundo pesquisa do Canal 12 de Israel (29 de março de 2025), e com processos de corrupção por fraude e suborno batendo às suas portas, Netanyahu vê na escalada militar uma estratégia clássica: usar ameaças externas para reforçar sua fragilizada legitimidade interna.
Não à toa, quando os ataques ao Irã começaram, marchas multitudinárias que exigiam sua saída do poder e a libertação dos reféns sequestrados pelo Hamas foram imediatamente proibidas, sob pretexto de segurança nacional e aplicação da lei marcial.
A sociedade israelense, que muitos fora da região imaginam como homogênea, é profundamente dividida. De um lado, há setores laicos, progressistas e críticos do governo, especialmente concentrados em Tel Aviv. De outro, uma coalizão de forças ultranacionalistas, religiosas e de extrema direita que sustenta o governo de Netanyahu no Knesset, o Parlamento israelense.
“Netanyahu usou um objetivo legítimo aos olhos da sociedade — impedir um Irã nuclear — para benefício próprio. E pode virar o jogo, sobretudo se conseguir destruir o reator nuclear de Natanz”, afirma o historiador João Koatz Miragaya. E completa, com um tom que revela a própria ambiguidade do sentimento israelense: “Como de praxe, o ataque é popular desde que dê certo. Se der errado, vira impopular.”
O jogo maior: Estados Unidos, Brics e as potências
O ataque ocorre num momento em que Netanyahu experimenta seu maior isolamento internacional desde 2023. A fome como arma de guerra em Gaza levou até aliados históricos a se distanciar: Espanha ameaça embargar armas, o Reino Unido suspendeu acordos comerciais, e França e Alemanha pressionam pela retomada da solução dos dois Estados.
Nos Estados Unidos, mesmo sob o governo de Donald Trump, o apoio irrestrito a Israel tem dado lugar a um jogo de ambiguidade estratégica. Antes do ataque, Netanyahu fez duas visitas a Washington, buscando carta branca para bombardear o Irã — e não conseguiu. Trump, em vez disso, fez uma viagem ao Golfo para negociar diretamente com os países árabes e retomou discretamente as negociações sobre o programa nuclear iraniano, sinalizando que ainda não havia comprado a tese israelense da guerra total.
No xadrez internacional, Rússia e China, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, vetariam qualquer ação militar contra o Irã, inviabilizando qualquer amparo legal via ONU. E os Brics, grupo que se reúne em julho no Rio de Janeiro, prometem ser um contraponto a essa ofensiva, tanto pela presença de China e Rússia quanto pelo próprio Brasil, que historicamente defende soluções diplomáticas e multilaterais.
O que vem depois?
A pergunta que paira sobre o Oriente Médio — e sobre o mundo — é: até onde vai essa escalada? Os sinais são ambíguos. De um lado, há setores que acreditam que, se Israel for bem-sucedido em destruir o programa nuclear iraniano, Netanyahu poderá declarar vitória e encerrar — ao menos temporariamente — os ataques. De outro, há o risco real de que o Irã responda, direta ou indiretamente, através de seus aliados regionais, ampliando o conflito para uma guerra regional de proporções inéditas neste século.
Como observa o sociólogo Boaventura de Sousa Santos, “vivemos um tempo em que os direitos humanos são celebrados nos discursos, mas frequentemente ignorados nas práticas de poder” (A Difícil Democracia, 2016).
Seja qual for o desfecho, uma certeza se impõe: enquanto não houver coragem política, tanto em Israel quanto no mundo, para enfrentar de frente a questão palestina — e implementar efetivamente a solução de dois Estados — qualquer cessar-fogo será apenas uma pausa entre guerras.
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