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Brasileiros detidos seguem encarcerados, alguns em greve de fome e sede
Publicado em 06/10/2025 4:29 - Semana On
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Interceptados por Israel enquanto levavam ajuda humanitária à Faixa de Gaza, mais de 500 ativistas da Flotilha Global Sumud enfrentaram detenções, deportações forçadas e denúncias de violações de direitos humanos. Entre os alvos da repressão está a ativista sueca Greta Thunberg, deportada nesta segunda-feira (6) após ser mantida sob custódia por forças israelenses. Os 14 brasileiros detidos seguem encarcerados, alguns em greve de fome e sede, sem previsão de liberação e sem garantias mínimas de dignidade.
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“Estamos fazendo o mínimo”, declarou Greta ao desembarcar em Atenas, na Grécia, recusando o rótulo de heroína atribuído por apoiadores. “É uma vergonha que esta missão tenha que existir”, afirmou a ativista, que embarcou na missão com dezenas de embarcações destinadas a Gaza. O grupo levava alimentos, medicamentos e insumos básicos à população palestina — sitiada por mar, ar e terra desde o início da ofensiva militar israelense.
Apesar de evitar detalhes sobre os maus-tratos que sofreu, outros ativistas relataram agressões físicas e psicológicas. “Fomos humilhados, sofremos golpes e violência física, principalmente a companheira Greta”, disse o educador popular Nicolas Calabrese, argentino com cidadania italiana que vive no Brasil e foi um dos primeiros a ser deportado. Seu relato contrasta com a versão oficial israelense, que afirma que “todos os direitos legais foram respeitados”.
Brasileiros seguem presos e em greve de fome
Apesar da deportação de pelo menos 170 ativistas — nenhum brasileiro entre eles — os 14 cidadãos brasileiros continuam detidos em instalações prisionais de Israel, como o presídio de Ktziot, no deserto de Negev. Thiago Ávila, coordenador da Flotilha Global Sumud e um dos ativistas detidos, encontra-se em greve de fome e sede desde sábado. Segundo sua esposa, Lara Souza, Thiago se recusa a assinar o documento de deportação, que afirma falsamente que ele teria tentado entrar ilegalmente em Israel. “Ele foi sequestrado em águas internacionais”, denunciou Lara em entrevista à rede Al Jazeera.
Thiago já havia participado de uma flotilha anterior, no primeiro semestre, quando também foi preso por Israel e descreveu a experiência como “um inferno na Terra”, denunciando celas insalubres, ameaças e isolamento. Agora, ele protesta contra a recusa das autoridades israelenses em fornecer medicamentos a colegas com pressão alta e problemas cardíacos.
Além de Thiago, outros três brasileiros — João Aguiar, Bruno Gilga e Ariadne Telles — aderiram à greve de fome. Há relatos de que os detidos estão sem acesso a água potável adequada, recebendo líquidos de má qualidade, e privados de alimentos por dias desde a captura.
Falta de transparência e violações processuais
O processo de detenção e deportação tem sido marcado por opacidade e arbitrariedade. De acordo com os organizadores da flotilha, centenas de audiências judiciais foram realizadas sem aviso prévio ou presença de advogados — prática que fere diretamente a Convenção de Genebra e compromete o direito a julgamento justo, previsto no artigo 14 do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos, ratificado por Israel em 1991.
“O padrão recorrente de desrespeito sistemático às garantias legais e aos direitos humanos básicos por parte das autoridades israelenses é evidente”, afirma comunicado oficial do movimento Global Sumud Flotilla. Advogados da organização relatam que foram informados de deportações sem qualquer acesso prévio às listas de nomes, dificultando o acompanhamento legal e o contato com familiares.
O grupo aponta ainda para a ausência de informações por parte da Embaixada do Brasil em Israel. Segundo os ativistas, até o momento, não há confirmação oficial de deportação de nenhum dos brasileiros detidos, e as visitas diplomáticas têm se limitado a verificações de bem-estar físico, sem avanços significativos na negociação por liberdade.
O silêncio das democracias ocidentais
Greta Thunberg foi contundente ao apontar a conivência internacional com os abusos de Israel. “Este e outros genocídios estão sendo permitidos e alimentados pelos nossos governos, nossas instituições, nossa mídia e empresas”, declarou a ativista ao desembarcar na Europa. Sua fala ecoa as críticas de organizações internacionais como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, que têm denunciado o bloqueio de Gaza como forma de punição coletiva — uma violação direta do Direito Internacional Humanitário.
O bloqueio, imposto por Israel desde 2007, intensificou-se com a guerra deflagrada após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023. Desde então, a Faixa de Gaza vive uma catástrofe humanitária. Segundo a ONU, mais de 35 mil palestinos foram mortos até agosto de 2025, sendo 70% mulheres e crianças. “As restrições impostas à entrada de ajuda humanitária configuram uma violação grave do direito internacional e colocam em risco a sobrevivência de milhões de civis”, afirmou recentemente Martin Griffiths, secretário-geral adjunto para Assuntos Humanitários da ONU.
Crítica à narrativa israelense
A tentativa de associar a Flotilha Global Sumud ao Hamas, como faz o governo israelense em seu comunicado oficial, tem sido duramente contestada pelos organizadores e participantes. “Somos uma missão civil e pacífica, formada por ativistas, médicos, professores, parlamentares e defensores dos direitos humanos”, afirma a nota do grupo. A delegação incluía representantes de mais de 30 países e diversos parlamentares europeus e latino-americanos, incluindo a deputada federal brasileira Luizianne Lins e a vereadora Mariana Conti, ambas ainda detidas.
A repressão à flotilha é mais um episódio da criminalização de movimentos internacionais de solidariedade à Palestina, prática denunciada por estudiosos como Noam Chomsky e Ilan Pappé. Em entrevista recente ao Democracy Now!, Pappé, historiador israelense e crítico das políticas de seu país, afirmou: “A criminalização da solidariedade internacional é uma tática usada para isolar Gaza e impedir que o mundo veja o que está acontecendo”.
Enquanto ativistas são agredidos por levar ajuda, o cerco à população palestina continua. O silêncio diplomático — inclusive do governo brasileiro — diante da repressão a seus próprios cidadãos contribui para o prolongamento de uma tragédia que já não pode mais ser ignorada.
Governo Lula evita ruptura com Israel, apesar de denúncias de genocídio
Apesar das denúncias de genocídio em Gaza e da prisão de cidadãos brasileiros pela repressão israelense à Flotilha Global Sumud, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva descarta, por ora, qualquer rompimento diplomático com Tel Aviv. A posição foi reafirmada pelo chanceler Mauro Vieira durante reunião com parlamentares e representantes de organizações civis ocorrida anteontem, em Brasília.
O Itamaraty avalia que a suspensão das relações afetaria diretamente os cerca de 20 mil brasileiros que vivem em Israel, deixando essa comunidade vulnerável. Ao mesmo tempo, Vieira destacou que um eventual rompimento obrigaria o Brasil a fechar sua embaixada em Ramallah, na Cisjordânia, devido ao controle territorial imposto por Israel, o que dificultaria o apoio direto à Autoridade Palestina. Segundo o chanceler, defender a criação de dois Estados exige manter diálogo com ambos os lados.
A posição diplomática, no entanto, tem sido alvo de críticas dentro e fora do país. Movimentos sociais e setores da base governista pressionam o Planalto a adotar medidas mais contundentes contra o governo de Benjamin Netanyahu, especialmente diante do tratamento dado aos brasileiros presos ilegalmente em território israelense.
Internamente, há vozes no governo que defendem a imposição de restrições comerciais específicas, como forma de resposta proporcional às violações cometidas. A pressão ganhou força após denúncias de que o Brasil estaria exportando aço com potencial de uso militar para Israel — insumo que poderia estar abastecendo a indústria bélica do país, atualmente envolvida em uma das mais severas ofensivas contra civis da história recente de Gaza.
A informação foi revelada pelo movimento internacional BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que atua para pressionar governos a cessarem o apoio direto e indireto às políticas israelenses de ocupação e repressão. Também há indícios de que petróleo brasileiro estaria sendo exportado regularmente para Israel, mesmo em meio ao colapso humanitário em Gaza.
Durante a reunião com os parlamentares, Mauro Vieira negou ter apoiado o plano de paz de Donald Trump, como chegou a ser ventilado em reportagens. Segundo ele, o Brasil defende um acordo de paz duradouro que respeite o direito internacional e assegure o princípio da autodeterminação dos povos, cláusula fundamental da Carta das Nações Unidas.
Vieira afirmou ainda que qualquer plano de reconstrução para Gaza deve passar pelo respeito à soberania palestina — e não por projetos unilaterais impostos por potências estrangeiras. No que diz respeito aos brasileiros detidos na operação contra a flotilha, o chanceler foi categórico: “A segurança deles é responsabilidade de Israel.”
Ainda assim, admitiu que os cidadãos brasileiros seguem julgados sem acesso a advogados e sem direito à comunicação com o exterior, situação que se arrasta há quase uma semana. De acordo com a chancelaria, o processo de deportação pode se estender por mais alguns dias, mas não há garantias de prazos ou de condições humanitárias adequadas durante esse período.
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