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Mundo

Para coibir oposição, Trump classifica Antifa como “terrorismo”

Medida abre brecha para criminalizar todas as pessoas e organizações que se oponham ao governo

Publicado em 29/09/2025 1:56 - Agência Brasil e Semana On

Divulgação Semana On - IA

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou esta semana um decreto que designa o movimento Antifa como “organização terrorista”. A medida chamou atenção de especialistas, que chegaram a considerá-la como uma das mais graves em termos de repressão tomadas por Trump até o momento. Isso porque, na prática, ela pode ser usada para coibir qualquer manifestação contrária ao governo e até mesmo para justificar o uso abusivo de violência por parte do Estado, sendo comparável a repressões feitas em ditaduras.

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“Na verdade, o que ele está suspendendo, sem mexer na Constituição, é o direito constitucional da livre expressão, de protesto, de dissenso, que é próprio da democracia”, diz o professor do departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal Fluminense (UFF), Thiago Rodrigues.

“É muito grave isso que tá acontecendo. É equivalente a políticas de repressão de uma ditadura militar, como houve no Brasil. A pessoa que é contra o regime é considerada subversiva, como inimiga da pátria, não como criminosa, mas como traidora da pátria. É muito sério, é uma medida que equivale a medidas de um governo ditatorial”, acrescenta.

A medida foi anunciada após o assassinato do ativista de extrema direita Charlie Kirk, aliado de Trump, baleado em um campus universitário em Utah. Um estudante de 22 anos foi acusado do assassinato, e os investigadores, que ainda buscam uma motivação para o crime, não comprovaram a ligação dele com qualquer grupo organizado. Antes mesmo da prisão do suspeito, Trump atribuiu o assassinato a uma “esquerda radical”. A classificação de Antifa como terrorista veio como represália.

A inclusão chama atenção porque Antifa não se trata de uma organização específica, mas de uma pauta antifascista que é defendida por diversos movimentos e organizações em todo o mundo. Nos Estados Unidos, Antifa ganhou ainda mais projeção desde o primeiro governo de Trump, entre 2017 e 2021, sendo utilizado como bandeira por movimentos progressistas, por exemplo, durante os protestos após o assassinato de George Floyd, sob o lema Black Lives Matter (Vidas Negras Importam).

“Não existe um grupo organizado, com hierarquia, com comando central, com propósitos elaborados de uma forma mais organizada que se chame Antifa”, diz Rodrigues. “Antifa é uma tática motivada por uma ideologia antifascista e anticapitalista. É preocupante que Trump tenha designado uma forma de pensar e agir como um grupo terrorista”.

O fascismo surge na Itália, nos anos 1920, sob a liderança de Benito Mussolini. Trata-se de um regime ultranacionalista e autoritário. Já o movimento Antifa ganha força nos Estados Unidos na mesma época, quando grupos se organizam contra organizações pró-nazistas no país. Atualmente, Antifa congrega também pautas de igualdade de gênero e racial.

Sem uma organização específica, a medida de Trump abre brecha para que todas as que se oponham ao governo possam ser criminalizadas.

“É muito possível que essa associação [ao terrorismo] facilite o uso de medidas de repressão, de medidas autoritárias contra grupos em geral desse espectro progressista”, diz a professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) Clarissa Nascimento Forner.

“Usar o termo terrorismo mobiliza não só um certo conjunto de significados, mas também autoriza um conjunto de práticas, inclusive, de maior violência”, explica.

Terrorismo

Para os professores é importante compreender o peso do termo terrorismo nos Estados Unidos. No dia 11 de setembro de 2001, não apenas os Estados Unidos, mas todo o mundo assistiu a aviões atingirem e derrubarem as duas torres do World Trade Center, em Nova York, que abrigavam escritórios de grandes empresas. O atentado deixou cerca de 3 mil mortos e marcou o início do que foi chamado pelo governo da época de “uma guerra ao terror”.

Nos EUA, a Ordem Executiva 13.224, de 2001, dá ao governo poder de interromper a rede de apoio financeiro para terroristas e organizações terroristas, de designar e bloquear os ativos de indivíduos e entidades estrangeiras que cometem, ou representam um risco significativo de cometer atos de terrorismo.

O ato presidencial que designou Antifa como uma organização terrorista doméstica estabelece: “Todos os departamentos e agências executivas relevantes devem utilizar todas as autoridades aplicáveis ​​para investigar, interromper e desmantelar toda e qualquer operação ilegal — especialmente aquelas que envolvam ações terroristas — conduzida pela Antifa ou qualquer pessoa que alegue agir em nome da Antifa, ou para a qual a Antifa ou qualquer pessoa que alegue agir em nome da Antifa forneceu suporte material, incluindo ações investigativas e processuais necessárias contra aqueles que financiam tais operações”.

“Isso se segue uma lógica que nós testemunhamos em vários países com governos autoritários, com governos não democráticos. A gente viu isso na Rússia, a gente viu isso na Hungria, a gente tem visto isso na Venezuela. É uma ação típica de um governo autoritário que quer, se não acabar, certamente enfraquecer determinadas partes da sociedade civil que eles consideram politicamente hostil”, diz o professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), Kai Lehmann.

Repercussões

No início do ano, Trump classificou diversas organizações do narcotráfico como terroristas e tem pressionado o Brasil a adotar a mesma postura em relação aos grupos criminosos locais.

Para Clarissa Forner, a nova medida pode trazer também novas pressões para o Brasil. “Eu não duvido que isso possa também ser um outro mecanismo para ampliar essa pressão, já que a gente tem também grupos que se vinculam a essa pauta antifascista. Acho que isso pode corroborar também para reforçar essas pressões que já existem”, diz a professora da Uerj.

Lehmann acrescenta que, por mais que o Brasil tente copiar a medida, há entraves legais que dificultam que isso seja implementado no país.

“A Justiça no Brasil, atualmente, tem muito mais independência do que nos Estados Unidos. Então, contra esse tipo de medida, caberia no Brasil ainda recurso judicial. Nos Estados Unidos é mais difícil, a Suprema Corte nos Estados Unidos não pode ser considerada independente do Executivo”, diz.

Trump abre caminho para repressão doméstica

Ao classificar o movimento Antifa como “organização terrorista”, Trump mira também a esquerda de forma mais ampla. A manobra, inicialmente simbólica, pode ganhar contornos legais com a utilização de mecanismos previstos na legislação antiterrorismo dos Estados Unidos, historicamente direcionada a alvos estrangeiros, mas que agora são reinterpretados para uso contra cidadãos norte-americanos.

Especialistas em direitos civis alertam para os riscos do que chamam de “instrumentalização autoritária” da legislação vigente. “Há alguns caminhos muito estreitos que eles podem tentar seguir, para criarem problemas, se quiserem”, afirma Shayana Kadidal, advogada do Centro de Direitos Constitucionais (Center for Constitutional Rights), sediado em Nova York.

Segundo Kadidal, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), ligado ao Departamento do Tesouro dos EUA, já possui uma lista com mais de 17 mil nomes associados a sanções internacionais. Com base nessas conexões, o governo pode tentar vincular cidadãos norte-americanos a organizações estrangeiras classificadas como terroristas, mesmo sem provas de ação coordenada. “Se você olhar de perto as normas, é possível que o governo classifique organizações nacionais pelo crime de ter fornecido apoio a grupos estrangeiros que já estão classificados”, explica.

A advogada relata ter representado, nos anos 1990, um cidadão dos EUA classificado como “terrorista especialmente designado” a partir de supostas ligações com o Hamas. Mesmo sem processo criminal, seu cliente foi impedido de abrir contas bancárias ou realizar gastos cotidianos. A classificação só foi retirada após uma ação judicial. O caso mostra como a aplicação de medidas administrativas, ainda que temporárias, pode ter efeitos devastadores na vida de pessoas sem qualquer condenação.

Esse tipo de repressão se tornaria ainda mais eficaz com o que Kadidal chama de efeito paralisante: o medo da criminalização pode levar manifestantes a evitarem atos públicos, cerceando na prática o direito constitucional à livre expressão. “O manifestante comum pode achar difícil compreender as questões jurídicas relacionadas à classificação de terrorista, e preferir ficar em casa”, alerta.

Além disso, Trump e seus aliados políticos parecem dispostos a ampliar o escopo da repressão. Após o assassinato do ativista de extrema direita Charlie Kirk — cuja motivação ainda é incerta e sem vínculo comprovado com qualquer grupo político —, a retórica presidencial associou o crime à “esquerda radical”. Pouco depois, a procuradora-geral Pam Bondi chegou a anunciar a intenção de apresentar denúncias por “discurso de ódio” contra opositores, mas recuou após críticas da própria direita, que viu na medida risco de censura reversa.

Para o historiador Mark Bray, autor de Antifa: The Anti-Fascist Handbook e especialista em movimentos antifascistas, o governo Trump adota uma visão simplificada e conspiratória da esquerda. “Trump e pessoas como ele enxergam o que consideram ser a esquerda como uma hidra de várias cabeças: tem a cabeça de George Soros, a cabeça antifa, a cabeça Black Lives Matter”, afirma. “Para eles, tudo é o mesmo monstro, que eles tentam classificar essencialmente como Partido Democrata. Isso, claro, embora a maioria das pessoas que integram grupos antifa tenha muitas críticas ao Partido Democrata – para dizer o mínimo.”

A lógica por trás dessas ações segue um padrão já visto em regimes autoritários contemporâneos. Como afirmou o professor Kai Lehmann, do Instituto de Relações Internacionais da USP, em entrevista anterior: “É uma ação típica de um governo autoritário que quer, se não acabar, certamente enfraquecer determinadas partes da sociedade civil que eles consideram politicamente hostil”.

Do ponto de vista legal, a base para a repressão encontra respaldo na decisão da Suprema Corte de 2010, que considerou possível acusar cidadãos norte-americanos de apoio material ao terrorismo apenas por atos de fala — como prestar aconselhamento ou auxiliar na redação de comunicados à imprensa. É um precedente que amplia o alcance da repressão e esvazia a fronteira entre discurso e crime político.

A ofensiva de Trump contra a esquerda não se limita, portanto, a um gesto retórico. Trata-se de uma escalada jurídica e institucional que ameaça direitos civis básicos e pode consolidar, na prática, um modelo de repressão seletiva. A rotulagem de adversários políticos como terroristas — sem base legal clara e ignorando o devido processo — ecoa práticas autoritárias que já marcaram tragicamente outras democracias no passado.

Oregon processa Trump por envio de tropas federais a Portland

O estado do Oregon entrou com uma ação judicial contra o governo Trump após a autorização para o envio de tropas federais à cidade de Portland, sob o pretexto de proteger instalações do serviço de imigração (ICE). A medida foi denunciada como uma violação da autonomia estadual e uma tentativa de intimidar manifestações antifascistas que ocorrem na cidade desde o início da gestão republicana.

“O que estamos vendo não é uma questão de segurança pública, mas sim do presidente exibindo sua força política sob o pretexto da lei e da ordem, buscando um sucesso midiático às custas da nossa comunidade”, afirmou o procurador-geral do Oregon, Dan Rayfield, ao anunciar o processo.

A decisão de Trump foi oficializada por um memorando do Departamento de Defesa, assinado pelo secretário Pete Hegseth, que autoriza o envio de 200 agentes da Guarda Nacional para permanecerem em Portland por 60 dias, “onde protestos estão ocorrendo ou provavelmente ocorrerão”. O alvo principal, segundo o documento, seria a proteção de um edifício do ICE — agência responsável pela execução de políticas de deportação e controle migratório nos EUA.

Rayfield contesta a legalidade e a necessidade da medida: “As comunidades do Oregon estão estáveis, e nossas autoridades locais foram claras: temos a capacidade de gerenciar a segurança pública sem interferência federal”. Para o procurador, o envio de soldados para proteger um único prédio “não é normal”. E acrescenta com ironia: “Se você tivesse alguma preocupação com a segurança da sua casa, tomaria algumas providências e preencheria as lacunas, não chamaria um exército”.

A ação movida pelo Oregon se inspira em processo semelhante movido pela Califórnia, em junho, após a ocupação militar de partes de Los Angeles por ordens do governo federal. Ambas as ações refletem a tensão crescente entre estados progressistas e a Casa Branca, que tem usado forças federais como instrumento de repressão política.

O pano de fundo da nova intervenção é a escalada da repressão contra o movimento antifa e contra manifestantes que se opõem às políticas de imigração do governo. Desde o início da presidência de Trump, o ICE tem sido o braço operacional da sua política de “tolerância zero”, frequentemente acusado de práticas truculentas e de atuar encapuzado durante batidas, criando um clima de medo entre imigrantes e ativistas.

O legado de repressão em Portland

Portland, cidade com forte tradição progressista e um dos principais polos da militância antifascista nos Estados Unidos, tem sido alvo recorrente das ações repressivas do governo Trump. Em 2020, durante a onda de protestos nacionais pelo assassinato de George Floyd, Trump enviou tropas federais para ocupar a cidade, sob justificativa semelhante: “restaurar a ordem”.

Desde então, grupos extremistas de direita têm usado Portland como palco de provocações contra o movimento antifa. O episódio inaugural dessa tensão remonta a 2017, quando o ativista de extrema direita Joey Gibson, fundador do grupo Patriot Prayer, passou a organizar comícios e desfiles em Portland, apesar de residir no estado vizinho de Washington. Os atos atraíram apoiadores armados de todo o país e culminaram em confrontos violentos com militantes antifascistas locais.

As constantes intervenções em Portland simbolizam a estratégia política de Donald Trump: associar a repressão ao antifa com sua promessa de “lei e ordem”, mobilizando sua base mais radicalizada enquanto deslegitima a oposição de esquerda.

Com o envio de tropas federais sem anuência estadual, o governo volta a tensionar a ordem federativa, utilizando o aparato de segurança como ferramenta de disputa política interna. O caso do Oregon poderá se tornar mais um capítulo decisivo no embate entre estados progressistas e uma presidência que, ao se aproximar de mais um ciclo eleitoral, aposta na confrontação como combustível político.

Mas, o que é Antifa?

O movimento antifa, abreviação de antifascista, tem suas raízes fincadas nos embates diretos contra o fascismo europeu no início do século XX. Surgido antes mesmo da ascensão de Adolf Hitler ao poder, o movimento não se confunde com uma organização formal, com líderes ou estatuto próprio. Trata-se de uma prática política de ação direta, formada por múltiplas tendências da esquerda — especialmente anarquistas, socialistas e comunistas, mas também sindicalistas revolucionários e outras correntes críticas ao autoritarismo.

O marco histórico mais reconhecido da origem do antifascismo organizado remonta à Alemanha da década de 1930, quando o Partido Comunista Alemão fundou a Antifaschistische Aktion (Ação Antifascista), em 1932. Essa frente de luta se apresentava como resposta imediata ao crescimento do Partido Nazista e das milícias paramilitares que ameaçavam trabalhadores, sindicatos e minorias políticas e étnicas.

Contudo, a ação antifascista não surgiu exclusivamente da linha comunista soviética. Pelo contrário: anarquistas e socialistas libertários já enfrentavam o fascismo nas ruas da Itália desde os anos 1920, em choques diretos contra os “camisas-negras” de Benito Mussolini. Na Espanha, durante a Guerra Civil (1936–1939), o antifascismo encontrou expressão decisiva na aliança entre anarquistas da CNT-FAI, comunistas e socialistas que resistiram ao golpe do general Francisco Franco. George Orwell, em seu livro Homenagem à Catalunha, relata sua experiência ao lado dos milicianos antifascistas, exaltando a espontaneidade e a combatividade das brigadas libertárias.

Na França e no Reino Unido, o movimento também teve protagonismo nas décadas de 1930 e 1940. Um episódio emblemático ocorreu em 1936, na Batalha de Cable Street, em Londres, quando anarquistas, comunistas, judeus e trabalhadores impediram a marcha de fascistas liderados por Oswald Mosley. O lema “They shall not pass” — “Eles não passarão” — ecoou a resistência republicana à ofensiva fascista na Espanha e se tornaria um símbolo global do antifascismo.

Estados Unidos: resistência cíclica contra a extrema direita

Nos Estados Unidos, o movimento antifa assumiu contornos próprios, sempre em reação a surtos de supremacismo branco, racismo institucional e autoritarismo. Ainda nos anos 1920 e 1930, imigrantes judeus e anarquistas organizaram resistência contra grupos pró-nazistas e contra a Ku Klux Klan.

A partir dos anos 1980, após o crescimento da cena neonazista no país, grupos como o Anti-Racist Action (ARA) passaram a se organizar em células autônomas para combater eventos e manifestações de grupos de ódio. Essa vertente do antifa é marcada pela ação direta e pela recusa em confiar exclusivamente nos meios institucionais para conter o avanço fascista.

O movimento ganhou novo fôlego a partir da eleição de Donald Trump, em 2016, com sua retórica nacionalista e racista. Em 2017, a resistência antifascista esteve no centro dos confrontos em Charlottesville, quando manifestantes antirracistas enfrentaram uma marcha neonazista que terminou com o assassinato de Heather Heyer, atropelada por um supremacista branco.

Em 2020, após o assassinato de George Floyd, manifestações organizadas sob o lema Black Lives Matter incorporaram pautas e táticas do antifascismo, consolidando o antifa como uma força relevante na mobilização de rua e no embate simbólico contra o autoritarismo.

Antifa não é organização, é prática política

Ao contrário do que sugerem narrativas conservadoras, o antifa não é uma entidade centralizada. Não há líder, não há filiação formal. Trata-se de uma tática e de uma filosofia de resistência, enraizada na ideia de que o fascismo não deve ser apenas debatido ou contestado nos tribunais, mas confrontado diretamente em seus espaços de crescimento: ruas, escolas, parlamentos, redes sociais.

O historiador Mark Bray, professor no Dartmouth College e autor do livro Antifa: The Anti-Fascist Handbook, define o movimento como uma “política de negação de plataforma” para o fascismo. “O objetivo dos antifascistas é impedir que a extrema direita ganhe espaço para se organizar e propagar ideias que, historicamente, levaram a regimes genocidas e repressivos”, escreveu Bray (Antifa: The Anti-Fascist Handbook, Melville House, 2017.)

Antifascismo no Brasil: entre repressão e mobilização

No Brasil, o termo “antifa” ganhou notoriedade mais recentemente, especialmente a partir de 2018, com a ascensão de uma retórica política autoritária e revisionista por parte de setores da extrema direita. No entanto, a prática antifascista não é nova no país.

Durante a ditadura militar (1964–1985), diversas organizações de esquerda, incluindo grupos anarquistas, socialistas e comunistas, atuaram na clandestinidade e promoveram resistência à repressão política. A luta contra o autoritarismo, embora não tenha se identificado com o rótulo “antifa” na época, compartilha os mesmos princípios fundamentais do movimento: combate à opressão estatal, ao militarismo e à supressão de direitos civis.

Já no século XXI, coletivos autônomos e torcidas organizadas de futebol passaram a incorporar símbolos antifascistas em protestos e ações de rua. Em 2020, a criação da Frente Antifascista Brasileira, com manifestações em capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, reuniu jovens, ativistas, professores e militantes de diferentes vertentes ideológicas. A repressão policial a esses atos, assim como a tentativa de enquadrar o antifa como “organização criminosa”, reflete a tensão entre liberdade de expressão e tentativas de criminalização da dissidência.

A persistência do movimento antifa ao longo de quase um século revela sua importância como força de oposição permanente ao autoritarismo, ao racismo e ao ultranacionalismo. Longe de ser um agrupamento radical isolado, o antifascismo se constitui como um campo de ação transversal, presente em diferentes culturas políticas da esquerda e sempre reativo aos contextos históricos.

Seja nas ruas da Berlim dos anos 1930, nas barricadas de Barcelona, nos protestos de Charlottesville ou nas manifestações brasileiras contra o autoritarismo contemporâneo, o antifa permanece como símbolo de resistência.

Como lembra Mark Bray: “Não se trata apenas de lutar contra um inimigo. Trata-se de defender a possibilidade de uma sociedade mais justa, igualitária e democrática.”

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