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Mundo
Colonos ilegais assassinam e aterrorizam civis palestinos na Cisjordânia
Publicado em 17/07/2025 1:37 - Agência Brasil e DW
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Pelo menos 21 pessoas morreram, incluindo 15 por asfixia devido ao gás lacrimogênio disparado contra palestinos que procuravam comida em um dos centros de distribuição de ajuda humanitária gerido pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF), segundo informou o Ministério da Saúde do território.
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“Pela primeira vez, foram registradas mortes por asfixia e pela intensa debandada de cidadãos nos centros de distribuição de ajuda”, disse o Ministério da Saúde de Gaza, informando que foi disparado gás lacrimogênio contra os palestinos neste centro da GHF em Khan Younis, no Sul do enclave.
O Ministério da Saúde acusou o exército israelense e os Estados Unidos de cometerem “deliberadamente” “massacres contra o povo faminto de forma sistemática”.
Os comentários foram feitos depois de a GHF ter anunciado que pelo menos 19 vítimas foram pisoteadas e uma foi esfaqueada “na sequência a uma debandada caótica e perigosa, impulsionada por agitadores na multidão”.
A fundação disse ainda ter “razões plausíveis para acreditar” que a agitação foi provocada por elementos afiliados o Hamas.
GHF
No final de maio, Israel entregou a distribuição de ajuda humanitária na região, anteriormente liderada pelas Nações Unidas, foi confiada à GHF, uma organização de fachada comandada por Israel sob o apoio dos Estados Unidos.
A ONU e as principais organizações humanitárias recusam-se a trabalhar com a GHF, alegando que esta serve objetivos militares israelitas e viola os princípios humanitários básicos.
As Nações Unidas classificaram o seu modelo de ajuda como “inerentemente inseguro” e descrevem os locais de distribuição de ajuda como “armadilhas mortais” devido aos vários episódios de violência que têm sido relatados.
Desde que a GHF iniciou as suas operações, há relatos quase diários de palestinos mortos enquanto procuravam ajuda. Testemunhas afirmam que a maioria foi baleada pelas forças israelenses.
O gabinete de direitos humanos das Nações Unidas afirma ter registrado pelo menos 875 mortes nas últimas seis semanas perto de locais de distribuição de ajuda humanitária em Gaza, a maioria das quais perto de pontos de distribuição da GHF.
Até hoje, o GHF tinha negado qualquer incidente mortal nas proximidades dos locais de distribuição de ajuda e acusou a ONU de usar números “falsos e enganosos” do Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas.
Estes centros de distribuição tornaram-se uma das poucas vias que a população de Gaza tem para conseguir alimentos, embora muitos dos que os procuram saiam de mãos vazias, pois a comida disponibilizada à população não é suficiente.
A GHF afirma ter distribuído mais de 1,2 milhões de embalagens com alimentos desde que começou a funcionar em Gaza, em 27 de maio. Cada caixa alimenta 5,5 pessoas, segundo a organização, durante três dias e meio, o que significa que, em mais de um mês e meio, os recursos da organização teriam abastecido cerca de 218.500 pessoas (de uma população de 2,1 milhões).
Famílias acusam colonos israelenses por mortes de palestinos
O pátio de uma escola em Al Mazra’a ash-Sharqiya, cidade na Cisjordânia ocupada por Israel, atraiu centenas de pessoas no domingo passado (13) para o funeral de dois jovens, vítimas do que suas famílias descrevem como o mais recente ataque de colonos israelenses.
Sayfollah Musallet, 20 anos, cidadão americano, foi espancado até a morte, e Mohammed al-Shalabi, 23 anos, foi baleado, segundo relataram suas famílias. Moradores afirmam que os colonos bloquearam os esforços para ajudar os jovens, agredindo médicos que tentaram atendê-los.
Razek Hassan al-Shalabi, pai de Mohammed, sentou-se entre os moradores da cidade e parentes presentes na cerimônia fúnebre. “De manhã, ele havia me dito que queria se casar”, disse à DW. “Ele falou sobre começar uma família e agora vamos enterrá-lo.”
Do outro lado da rua, na casa dos Musallet, mulheres se reuniram para apoiar a família em seu luto. Saif, como Sayfollah era apelidado, havia chegado em junho de sua cidade natal, Tampa, na Flórida, para passar o verão com parentes na cidade, que fica cerca de 20 quilômetros a nordeste de Ramallah.
“Ele era como um irmão mais novo”, disse Diana Halum, prima que assumiu a função de porta-voz da família. “Viajávamos juntos, indo e voltando dos Estados Unidos para a Palestina. Ele veio aqui para visitar seus primos, seus amigos.”
“Nunca imaginamos que algo tão trágico aconteceria”, disse Halum. “E é também a maneira como o mataram. Quero dizer, ele foi linchado por colonos israelenses agressivos e ilegais e deixado lá por horas.”
Na sexta-feira anterior, a família comunicou que médicos tentaram socorrer Musallet por três horas antes que seu irmão conseguisse levá-lo para uma ambulância, onde morreu antes de chegar ao hospital. “Este é um pesadelo inimaginável e uma injustiça que nenhuma família deveria ter que enfrentar”, disse a família. “Exigimos que o Departamento de Estado dos EUA conduza uma investigação imediata e responsabilize os colonos israelenses que mataram Saif por seus crimes.”
O Departamento de Estado afirma estar ciente das notícias sobre a morte de um cidadão americano na Cisjordânia. As autoridades se recusaram a comentar “por respeito à privacidade da família”, mas afirmaram que o departamento está pronto para prestar serviços consulares.
“Realidade cotidiana” na Cisjordânia
O ataque ocorreu na sexta, quando os jovens participavam de uma manifestação contra a violência de colonos israelenses nos territórios palestinos ocupados e suas tentativas de confisco de terras.
Numa declaração inicial após o ataque, as Forças de Defesa de Israel (IDF) alegaram que “terroristas atiraram pedras em civis israelenses”, levando a um “confronto violento” que incluiu “vandalismo de propriedades palestinas, incêndio criminoso, confrontos físicos e arremesso de pedras”.
As IDF comunicaram que ao menos um palestino foi morto e vários ficaram feridos e afirmaram que o incidente seria investigado. As famílias afirmam que os corpos dos jovens apresentavam sinais de tortura.
Em resposta a uma consulta da DW, as IDF referiram-se à sua declaração anterior e acrescentaram que, “após o incidente, foi lançada uma investigação conjunta pela Polícia de Israel e pela Divisão de Investigação Criminal da Polícia Militar”.
Esse foi apenas o mais recente ato de violência contra palestinos na Cisjordânia. Desde os ataques liderados pelo Hamas em 7 de outubro de 2023, no sul de Israel, e a política de vingança estatal subsequente em Gaza, ataques se tornaram “uma realidade diária” também para os civis palestinos na Cisjordânia ocupada. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para Assuntos Humanitários (OCHA), entre janeiro de 2024 e maio de 2025, houve mais de 2.070 ataques de colonos, resultando em vítimas e danos materiais.
Os colonos invadem regularmente aldeias ou instalam postos avançados ilegais, ocupados por ativistas extremistas, para agredir e ameaçar palestinos, muitas vezes na presença de soldados ou policiais israelenses, que não interferem. Na atual ofensiva israelense desde o início da guerra já foram criados cerca de 80 novos postos avançados, considerados, por grupos de direitos humanos israelenses e palestinos, os principais impulsionadores da violência contra os palestinos. Esses grupos relatam que os colonos foram recrutados como reservistas.
Pequenas apropriações ilegais de terras são toleradas e até mesmo incentivadas por Israel, que ao longo dos anos converteu muitos postos avançados em assentamentos autorizados, avançando seu domínio sobre o território.
Choque, tristeza, resignação
O pai de Mohammed, Razek Hassan al-Shalabi, disse que acreditava que seu filho estava sob custódia das Forças de Defesa de Israel horas depois do ataque. Quando ele descobriu, naquela noite, que a informação estava incorreta, os moradores locais saíram à procura de Mohammed. De acordo com a família e o Ministério da Saúde palestino, eles o encontraram gravemente espancado e baleado nas costas.
Amigos dos dois jovens se reuniram na escola no sábado, em estado de choque. Iyad, que se recusou a dar seu sobrenome, disse que seu primo Saif e Mohammed faziam parte do mesmo grupo de amigos e costumavam sair juntos. “Eles eram sempre aqueles que animavam todo mundo, nunca deixavam ninguém triste, se você precisasse deles, eles estavam sempre lá”, disse Iyad à DW.
Iyad, que também é palestino-americano, acredita que a violência de colonos israelenses é amparada por um senso de impunidade. Ele disse que os Estados Unidos raramente intervêm em nome das vítimas desses ataques ou de suas famílias.
“Infelizmente, isso só chamou a atenção porque Saif tem cidadania americana. Não é a primeira vez que isso acontece, vários cidadãos americanos foram mortos por cidadãos israelenses ou soldados israelenses e acho que definitivamente deveria haver uma mudança nisso e eles [o governo dos EUA] deveriam fazer algo a respeito, porque, honestamente… estou sem palavras.”
Iyad, que é da Califórnia, também está de visita. “É triste que as pessoas tenham que ser cautelosas em sua própria terra, é triste que toda vez que um palestino saia de casa corra risco”, disse.
Outros três jovens palestino-americanos foram mortos na Cisjordânia ocupada desde que Israel iniciou a guerra em Gaza, em outubro de 2023. Seus casos, que envolveram soldados e colonos israelenses, continuam sem solução. “Isso faz você se sentir desesperado, faz você ficar triste. Aqui na aldeia, lidamos com isso diariamente”, disse Hafeth Abdel Jabbar à DW sobre os últimos assassinatos. Seu filho de 17 anos, Tawfiq, cidadão americano da Louisiana, foi baleado e morto em 2024 perto da cidade e, até agora, ninguém foi indiciado pelo crime.
“O mais louco é que nosso governo [americano] está apoiando um regime com racistas e extremistas que apoia esses colonos, que acham normal fazer isso conosco e nos tratam como se não fôssemos seres humanos. É isso que te deixa louco”, disse Abdel Jabbar.
Embora o governo anterior dos EUA tenha imposto sanções a alguns colonos radicais, elas foram revogadas pelo presidente Donald Trump logo após ele assumir o cargo.
Razek Hassan al-Shalabi não acredita que, algum dia, suas muitas perguntas sobre a morte de Mohammed sejam respondidas pelas autoridades israelenses. “Não éramos apenas pai e filho”, disse ele. “Éramos amigos…” Tomado pela tristeza, ele não conseguiu concluir seu pensamento.
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