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Brasil se une a coalizão internacional por Gaza e cobra sanções a Israel
Publicado em 27/05/2025 10:39 - Semana On
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“Isso não é amar Jerusalém. Isso é ódio, racismo e intimidação.” A frase de Yair Golan, ex-vice-comandante das Forças Armadas e uma das principais vozes da oposição de esquerda em Israel, resume o que se viu ontem (26) nas ruas de Jerusalém Oriental. Em pleno “Dia de Jerusalém” — uma data que marca a ocupação da parte leste da cidade por Israel em 1967 —, milhares de ultranacionalistas israelenses, muitos ligados à extrema-direita religiosa e assentados na Cisjordânia ocupada, tomaram as ruas da Cidade Velha aos gritos de “morte aos árabes” e ataques físicos a palestinos, ativistas pela paz, jornalistas e até mesmo policiais.
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A marcha, supostamente uma celebração da unificação de Jerusalém, tornou-se mais uma vez palco de intolerância. Com temperaturas próximas aos 37 °C e comércio árabe fechado às pressas por segurança, os bairros muçulmanos viram-se tomados por violência e slogans racistas. “67 – Jerusalém nas nossas mãos; 2025 – Gaza nas nossas mãos”, dizia uma das faixas carregadas pelos manifestantes — um claro apelo à expansão do domínio israelense à custa da soberania palestina.
A escalada de violência não é um episódio isolado, mas parte de uma trajetória que remonta à Guerra dos Seis Dias. Em junho de 1967, Israel ocupou Jerusalém Oriental e a anexou unilateralmente — uma ação jamais reconhecida pela comunidade internacional. Desde então, Jerusalém tornou-se um microcosmo do conflito israelense-palestino: dois povos, três religiões, incontáveis feridas abertas.
Para muitos palestinos, o “Dia de Jerusalém” é menos uma comemoração e mais uma provocação. A presença do ministro da Segurança Nacional de Israel, Itamar Ben Gvir — conhecido por seu histórico de declarações extremistas e sua defesa de colonos judeus radicais — na Esplanada das Mesquitas horas antes da marcha foi interpretada como mais uma fagulha num barril de pólvora. A Jordânia, que mantém a custódia da Esplanada, condenou o gesto, chamando-o de “provocação inaceitável”.
A Esplanada das Mesquitas, onde está localizada a Mesquita de Al-Aqsa — terceiro local mais sagrado do Islã — é também o Monte do Templo, o lugar mais sagrado para os judeus. Desde o acordo de status quo, judeus podem visitar o local, mas não rezar nele. Alterações nesta norma têm sido defendidas por setores da extrema-direita israelense, aumentando tensões com o mundo árabe e com os próprios judeus progressistas.
O cenário desta segunda-feira expôs, de forma brutal, as fissuras internas da sociedade israelense. Enquanto grupos pacifistas israelenses distribuíam flores na tentativa de contrapor a retórica de ódio, manifestantes da direita religiosa e sionista promoveram atos de agressão física e simbólica. O próprio aparato de segurança do Estado, muitas vezes conivente, teve dificuldade em conter a violência.
O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, em reunião de gabinete realizada em Jerusalém Oriental, reforçou a linha oficial de que “Jerusalém permanecerá unificada e sob soberania israelense”. A afirmação ecoa a política de fato consumado, mas ignora a realidade de uma cidade dividida por muros invisíveis e ressentimentos concretos.
A politóloga e especialista em Oriente Médio, Sara Roy, da Universidade de Harvard, argumenta que “a desumanização cotidiana dos palestinos em Jerusalém é uma forma de controle que se esconde sob o véu da legalidade e da segurança”. Já o filósofo e linguista Noam Chomsky alerta há décadas que a ocupação israelense é “uma das mais longas e sistemáticas formas de repressão de um povo em tempos modernos”.
A marcha desta segunda-feira ilustra, mais uma vez, o fracasso das tentativas de coexistência sob um regime de ocupação. E enquanto a comunidade internacional mantém seu repúdio à anexação de Jerusalém Oriental — reafirmado em diversas resoluções da ONU, como a 478/1980, que considera a lei israelense de anexação “nula e sem efeito” —, a realidade no terreno é de aumento das tensões, expansão dos assentamentos e marginalização contínua da população palestina.
No final, o que está em disputa em Jerusalém não é apenas o controle territorial de pedras milenares, mas o direito de existir com dignidade. A cidade sagrada para judeus, cristãos e muçulmanos tornou-se também o símbolo de uma ferida que ainda sangra — e cujas cicatrizes, se ignoradas, ameaçam comprometer não só a paz regional, mas os princípios universais de justiça e humanidade.
Brasil se une a coalizão internacional por Gaza e cobra sanções a Israel
Os episódios de violência promovidos por extremistas israelenses em Jerusalém Oriental, sob o olhar complacente de autoridades locais, não apenas evidenciam o avanço de uma ideologia ultranacionalista, como também acentuam o isolamento político de Israel no cenário internacional. À medida que as ações militares e repressivas se intensificam nos territórios palestinos ocupados — e se tornam cada vez mais difíceis de justificar sob a ótica do direito internacional — cresce o movimento de países dispostos a adotar uma postura mais assertiva. É nesse contexto que surge a iniciativa liderada pela Espanha, reunindo 20 nações, incluindo o Brasil, para discutir medidas concretas de apoio à população de Gaza e pressões diplomáticas sobre Tel-Aviv. A mudança no tom da diplomacia internacional, até então marcada por ambiguidades e silêncios, sinaliza que o prolongamento da ocupação e a recusa à solução de dois Estados podem deixar de ser tolerados passivamente pela comunidade global.
Em um movimento diplomático de rara contundência, o Brasil juntou-se no domingo (25) a uma coalizão internacional formada por 20 países, em Madri, para discutir medidas concretas de ajuda à Faixa de Gaza e formas de pressionar Israel a cessar sua ofensiva militar. A reunião, organizada pelo governo da Espanha, colocou sobre a mesa propostas até então evitadas por grande parte da comunidade internacional: sanções econômicas, embargo de armas e suspensão de acordos bilaterais.
Representando o Brasil, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, não poupou críticas à omissão global diante da tragédia humanitária em curso. “Ninguém poderá alegar desconhecimento sobre as atrocidades em curso, transmitidas diariamente ao vivo pelos meios de comunicação. Nenhum interesse nacional, nenhuma consideração de política doméstica justificam o silêncio diante de crimes que erodem os alicerces do ordenamento jurídico internacional”, afirmou Vieira, em um dos discursos mais enfáticos já feitos por um representante brasileiro sobre o conflito.
A reunião em Madri é um prelúdio da Conferência sobre a Questão Palestina, programada para ocorrer entre os dias 17 e 20 de junho na sede das Nações Unidas, em Nova York. O Brasil terá papel central, coordenando um dos grupos de trabalho. A coalizão é formada por países como Alemanha, Reino Unido, Irlanda, Portugal, Turquia, Egito, Arábia Saudita, Catar e Jordânia — sinal claro de que a pressão sobre Tel-Aviv está ganhando corpo não apenas entre países do Sul Global, mas também no eixo euro-árabe.
A principal pauta do encontro foi a retomada da solução de dois Estados, proposta endossada por resoluções da ONU desde 1947, mas sistematicamente rejeitada pelo atual governo israelense. Em julho de 2024, o parlamento de Israel aprovou uma resolução formal contra a criação de um Estado palestino, alegando que isso representa “um perigo existencial” para Israel.
O chanceler espanhol, José Manuel Albares, foi categórico: “Gaza é uma ferida aberta na humanidade. O silêncio neste momento é cúmplice”. Albares defendeu a suspensão do acordo de associação entre a União Europeia e Israel, além de um embargo de armas e sanções individuais contra figuras que bloqueiam a viabilidade de um Estado palestino.
As palavras fortes ganham ainda mais peso diante dos dados do Instituto Internacional de Pesquisa de Paz de Estocolmo (SIPRI), que revelam que entre 2019 e 2023, os Estados Unidos forneceram 69% das armas importadas por Israel. A Alemanha, com 30%, e a Itália, com 0,9%, completam o topo da lista. Após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, os EUA aceleraram a entrega de mil bombas guiadas GBU-39 e intensificaram a ajuda militar emergencial.
Mas a ofensiva militar israelense ultrapassou o objetivo declarado de destruir o Hamas. Segundo a ONU, mais de 53 mil palestinos foram mortos desde o início da operação em Gaza, com a maior parte da população civil deslocada, em um território agora praticamente em ruínas. Israel também avança na Cisjordânia, de onde mais de 40 mil pessoas foram forçadas a sair. A entrada de ajuda humanitária continua escassa: apenas 100 caminhões foram autorizados a entrar na Faixa de Gaza na última semana, contra os 500 diários que entravam antes da guerra.
O professor Mohammed Nadir, da Universidade Federal do ABC, avaliou que o encontro em Madri representa uma inflexão simbólica nas relações entre países europeus e Israel: “Quebra aquela relação de vassalagem cega da União Europeia para com Israel. Mas tenho sérias dúvidas se isso pode se concretizar, porque muitos países vão continuar fornecendo armas a Israel de forma pública ou secreta”.
A recusa histórica de Israel em aceitar a criação do Estado palestino está enraizada em uma longa trajetória de ocupação e exclusão. Desde 1948, quando mais de 700 mil palestinos foram expulsos com a criação de Israel, a autodeterminação do povo palestino tem sido adiada por guerras, bloqueios e colonização crescente. Os Acordos de Oslo, de 1993, prometeram um Estado palestino — mas jamais saíram do papel. Pelo contrário: a ocupação da Cisjordânia por assentamentos ilegais se intensificou nas últimas décadas, em violação ao direito internacional.
A resposta do Hamas em 7 de outubro de 2023, que matou 1.200 israelenses e sequestrou 220 pessoas, foi usada por Israel como justificativa para o que muitos especialistas e organizações de direitos humanos já classificam como genocídio. A retaliação indiscriminada e o cerco total a Gaza são considerados, por analistas internacionais e juristas, violações graves do Direito Humanitário.
Ao denunciar o “silêncio cúmplice” e ao se engajar em um esforço multilateral pela paz, o Brasil retoma uma tradição diplomática de protagonismo nos fóruns internacionais, mas enfrenta um desafio considerável: transformar apelos morais em ações concretas num cenário global ainda dominado por alianças estratégicas, lobbies armamentistas e a leniência histórica com as violações de Israel.
A história já testemunhou o que acontece quando a comunidade internacional decide virar o rosto diante de crimes cometidos sob a justificativa da segurança. A coalizão formada em Madri parece querer romper com essa lógica. Se terá força para tanto, ainda é incerto. Mas, como afirmou Mauro Vieira, não haverá desculpa possível: ninguém poderá dizer que não sabia.
Guerra destrói sistema alimentar e ameaça milhões com fome
Com menos de 5% das terras agrícolas ainda acessíveis e produtivas, a Faixa de Gaza enfrenta não apenas o terror da guerra, mas a lenta agonia da fome em massa. A destruição sistemática da infraestrutura rural, revelada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), escancara o colapso do sistema alimentar em um dos territórios mais densamente povoados do mundo, onde mais de 2 milhões de pessoas agora lutam pela sobrevivência diária.
Segundo a FAO, em colaboração com o centro de satélites da ONU (UNOSAT), mais de 80% das terras agrícolas de Gaza foram danificadas, e 77,8% já não estão acessíveis. O que resta de solos aráveis — cerca de 688 hectares, ou 4,6% da área total — é insuficiente até mesmo para garantir o mínimo de subsistência. “Esse nível de destruição não é apenas uma perda de infraestrutura, é o colapso do sistema alimentar de Gaza, e daquilo que sustentava vidas”, afirmou Beth Bechdol, diretora-geral adjunta da FAO.
Antes da guerra, a agricultura representava cerca de 10% da economia local, sustentando mais de 560 mil pessoas, segundo dados da própria FAO. Agora, além das terras, 82,8% dos poços para irrigação foram danificados, número que aumentou drasticamente desde dezembro de 2024, quando esse índice era de 67,7%. As estufas foram arrasadas, a pecuária praticamente dizimada e a pesca inviabilizada pelos bloqueios marítimos. A destruição, portanto, é completa e deliberada.
A situação mais crítica é observada nas regiões de Rafah, ao sul, e no norte da Faixa, onde praticamente nenhuma terra agrícola permanece acessível. Isso coincide com áreas onde a ofensiva militar israelense foi mais intensa. Após mais de 19 meses de guerra e dois meses e meio de bloqueio quase total à ajuda humanitária, os organismos internacionais alertam para uma iminente catástrofe nutricional. A ONU já classificou Gaza como “um dos lugares mais perigosos do mundo para uma criança viver”.
A origem da escalada militar remonta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, que resultou em cerca de 1.200 mortes e mais de 200 sequestros em território israelense. Desde então, a retaliação israelense ultrapassou a lógica do combate ao grupo armado e mergulhou o enclave palestino em uma devastação sem precedentes: quase 54 mil palestinos mortos, a maioria civis, e a destruição sistemática de escolas, hospitais, centros de abastecimento, redes de esgoto e energia elétrica. Gaza está sendo transformada, nas palavras do jornalista e escritor Gideon Levy, “de território ocupado em cemitério a céu aberto”.
Mesmo sob intensa pressão internacional, Israel apenas suspendeu parcialmente o bloqueio à ajuda na última semana. Ainda assim, o volume liberado ficou muito aquém das necessidades. Antes da guerra, cerca de 500 caminhões por dia entravam no território com alimentos, medicamentos e combustível. Agora, esse número caiu para apenas 100 caminhões — uma redução de 80% em meio à emergência humanitária mais grave da história recente do Oriente Médio.
A destruição da agricultura em Gaza não pode ser vista apenas como um “efeito colateral” do conflito. Trata-se, como apontam especialistas em direito internacional humanitário, de uma violação grave das Convenções de Genebra, que proíbem ataques deliberados a infraestrutura civil essencial à sobrevivência da população. O jurista e relator especial da ONU para os territórios palestinos ocupados, Michael Lynk, já havia advertido em 2021 que “a política israelense de cerco a Gaza constitui punição coletiva — o que é ilegal sob o direito internacional”.
Mais do que um desastre humanitário, o que se desenha em Gaza é o colapso de um povo inteiro por asfixia deliberada. A guerra, nesse contexto, deixa de ser apenas um enfrentamento entre Estados ou grupos armados: torna-se um projeto de destruição sistemática da viabilidade de vida palestina — não apenas hoje, mas por gerações. Como observou Edward Said, intelectual palestino exilado nos EUA: “É parte da luta por apagar a história, para que os palestinos deixem de existir não apenas geograficamente, mas também simbolicamente”.
A omissão prolongada da comunidade internacional diante dessa realidade agrava o cenário. Mesmo após o recente encontro de chanceleres em Madri — onde o Brasil, Espanha e outros 18 países defenderam sanções e retomada da solução de dois Estados — os esforços diplomáticos parecem insuficientes para deter a velocidade da destruição. Enquanto isso, Gaza vai sendo desfigurada — não apenas como território, mas como projeto humano e civilizatório.
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