Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

Ataque israelense mata 9 filhos de casal de médicos em Gaza

Representantes de Brasil e outros 19 países se reúnem na Espanha para pressionar Israel

Publicado em 26/05/2025 11:41 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Em pleno plantão no hospital Nasser de Khan Yunis, no sul da Faixa de Gaza, a doutora Alaa al Najjar recebeu a notícia de que sua casa foi bombardeada pelo Exército israelense. Ela saiu imediatamente para se deparar com os corpos carbonizados de seus filhos retirados dos escombros.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

Sob uma tenda de luto montada no dia seguinte, perto de sua casa destruída, a pediatra permanecia em choque.

A seu redor, mulheres choravam, enquanto o barulho das explosões ainda ressoava no território palestino devastado pela guerra.

“Corri para a casa e a encontrei totalmente destruída, reduzida a um monte de escombros sobre seus filhos e seu marido”, disse à AFP sua irmã, Sahar al Najjar.

“Nove crianças estavam carbonizadas, irreconhecíveis. O décimo filho e o pai estão em estado crítico”, acrescentou. “Não pude reconhecer as crianças entre os sudários”, disse chorando. “Seus rostos tinham desaparecido.”

A Defesa Civil da Faixa de Gaza anunciou no sábado a morte de nove filhos do casal de médicos palestinos em um ataque israelense.

O Exército israelense alegou à AFP que um de seus aviões “bombardeou vários indivíduos suspeitos de operar a partir de uma estrutura” vizinha à posição de seus soldados nesta área.

“A afirmação sobre os danos causados a civis não envolvidos está sendo avaliada”, acrescentou.

“Não há lugar seguro em Gaza”

De acordo com pessoas próximas à família, o bombardeio aéreo foi realizado sem advertência na tarde de sexta-feira contra a residência familiar onde estavam as dez crianças com o pai, Hamdi al Najjar, também médico.

Gravemente ferido, Hamdi está hospitalizado com seu filho Adam, de 10 anos, único sobrevivente entre as crianças, que se encontra em cuidados intensivos no hospital Nasser.

“Meu irmão estava no chão, com a cabeça ensanguentada, a mão arrancada, coberto pelos escombros”, conta Ali al Najjar, irmão de Hamdi.

“Tirei Adam, queimado, e o levei ao hospital. Os socorristas levaram Hamdi”, acrescenta. “Encontrei a casa de meu irmão […] reduzida a ruínas, e meus parentes debaixo” dos escombros, prossegue.

Ele explica que depois tentou remover os escombros com as mãos junto com o pessoal das ambulâncias para tentar encontrar as outras crianças.

“Alaa chegou correndo, não havia veículo. Quando viu os corpos carbonizados, começou a gritar”, disse. “Reconheceu sua filha Nibal e gritou seu nome.”

Segundo fontes médicas, Hamdi al Najjar passou por diversas cirurgias no hospital de campanha jordaniano, onde os médicos tiveram que remover grande parte de seu pulmão direito. Ele precisou da transfusão de 17 bolsas de sangue. Seu filho Adam teve uma mão amputada e sofre com queimaduras no corpo.

“É uma perda imensa. Alaa está destruída”, diz Mohammed, próximo à família.

Mas Ali al Najjar está preocupado agora com o que vai acontecer com seu irmão quando despertar.

“Não sei como dizer isso a ele. Devo anunciar que seus filhos morreram? Eu os enterrei em duas sepulturas.”

“Não há lugar seguro em Gaza”, afirma. “A morte é melhor que este suplício.”

Covardia

O presidente Lula classificou de “vergonhoso e covarde” o ataque aéreo de Israel que matou nove filhos da médica palestina Alaa Al-Najjar na Faixa de Gaza, no sábado (24). O bombardeio explodiu a casa de Najjar, na cidade de Khan Younis, região sul de Gaza.

Lula criticou as ações de Israel no conflito, e disse que o único objetivo do governo israelense é expulsar os palestinos do território. O presidente voltou a chamar de “genocídio” o ataque a Gaza.

“A morte de nove dos 10 filhos da médica palestina Alaa Al-Najjar, como consequência de ataque aéreo do governo de Israel na faixa de Gaza, no sábado, é mais um ato vergonhoso e covarde. Seu único filho sobrevivente e seu marido, também médico, seguem internados em estado crítico”, escreveu o presidente em nota publicada nas redes sociais.

Pressão sobre Israel

Num momento em que o mundo assiste atônito à escalada da destruição em Gaza, representantes de 20 países — entre eles o Brasil — se reuniram no domingo (25), em Madri, com um objetivo comum: pressionar Israel pelo fim imediato de uma guerra que muitos já classificam como desumana, injustificável e desproporcional. O encontro marca uma inflexão na diplomacia internacional, que começa a cogitar, de forma inédita desde o início da ofensiva, a adoção de sanções contra o Estado israelense. A posição, antes restrita a vozes do Sul Global e de setores da sociedade civil, agora emerge nos bastidores das capitais ocidentais, sinalizando uma possível ruptura no alinhamento automático com Tel Aviv.

O Brasil teve papel ativo na reunião. O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, defendeu o reconhecimento internacional do Estado da Palestina e sua admissão plena na ONU como “passos indispensáveis para viabilizar a solução dos dois Estados”, posição histórica da diplomacia brasileira desde 2010. Em nota, o Itamaraty reiterou que não há justificativa para a omissão da comunidade internacional diante da catástrofe humanitária em curso na Faixa de Gaza. Vieira também endossou a crescente insatisfação de países europeus e árabes com o bloqueio israelense, que por semanas impediu a entrada de água, alimentos e medicamentos na região.

A fratura da aliança ocidental

Embora aliados tradicionais de Israel — como França, Alemanha, Itália e Reino Unido — tenham resistido por meses a qualquer crítica mais contundente, o cenário mudou. A retomada da ofensiva militar israelense desde 18 de março, somada à ruptura da trégua e ao bloqueio total de suprimentos desde 2 de março, gerou uma onda de repúdio que atravessa o Atlântico. O chanceler espanhol José Manuel Albares, anfitrião do encontro, declarou que “a guerra em Gaza é desumana e sem sentido”, e que a comunidade internacional deve considerar sanções: “É preciso contemplar tudo para interromper esta guerra”.

Segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, já reconhecidos como confiáveis pelas Nações Unidas, mais de 53.900 palestinos foram mortos até agora — a maioria civis. Do lado israelense, o ataque inicial do Hamas, em 7 de outubro de 2023, deixou 1.218 mortos e 251 sequestrados, dos quais 57 permanecem em cativeiro, 34 deles supostamente mortos. A tragédia é evidente de ambos os lados, mas a assimetria é inegável: enquanto Israel mantém capacidade militar e apoio financeiro de Washington, a população de Gaza vive sob cerco, deslocamento forçado e bombardeios ininterruptos.

Brasil e o resgate da diplomacia ativa

O engajamento do Brasil nesse fórum internacional sinaliza um retorno à sua tradição diplomática de mediação e defesa do multilateralismo, abandonada durante o governo Bolsonaro. Ao aceitar o convite para copresidir um grupo de trabalho na ONU sobre o futuro da Palestina, o país assume um papel protagonista no esforço global por uma solução política duradoura.

O presidente Lula, por sua vez, elevou o tom das críticas. No sábado (24), condenou duramente o bombardeio israelense que matou nove dos dez filhos da médica palestina Alaa Al-Najjar. Em nota oficial, afirmou: “Já não se trata de direito de defesa, combater o terrorismo ou buscar a libertação dos reféns. O que vemos em Gaza hoje é vingança.”

A contundência da declaração marca uma mudança qualitativa na retórica diplomática brasileira e ecoa a visão de pensadores como Hannah Arendt, que advertiu: “Quando a violência se torna um fim em si mesma, deixa de ser política e passa a ser barbárie” (Crises da República, Companhia das Letras, 1972).

O dilema moral do Ocidente

A reunião em Madri escancara um dilema que assombra a ordem internacional: a seletividade moral das potências ocidentais diante de violações de direitos humanos. O silêncio ou a hesitação prolongada frente às ações de Israel contrastam com a agilidade com que sanções foram impostas a países como Rússia, Irã ou Venezuela. Como observou o historiador israelense Ilan Pappé, “a ocupação e o apartheid são sustentados não só por Israel, mas pela cumplicidade do Ocidente” (A História da Palestina Moderna, Zahar, 2017).

Para além da disputa geopolítica, o que está em jogo é a credibilidade do sistema internacional. A persistência do veto dos EUA ao reconhecimento da Palestina como Estado pleno na ONU, somada ao apoio militar incondicional a Israel, fragiliza a própria ideia de legalidade internacional. Como lembra o professor de Direito Internacional da USP, Wagner Menezes, “a aplicação seletiva do direito humanitário mina o sistema das Nações Unidas”.

O que está por vir

A decisão de pressionar por sanções ainda encontra resistência nos bastidores. Mas o simples fato de ela estar sendo debatida em fóruns multilaterais já representa um avanço. O ministro francês Jean-Noel Barrot, por exemplo, afirmou que sua prioridade é uma “pressão coordenada” para garantir cessar-fogo, entrada de ajuda humanitária e libertação dos reféns — metas mínimas para a contenção da catástrofe.

Na prática, a efetividade dessa nova coalizão dependerá da capacidade de isolar os extremistas de ambos os lados e restabelecer canais de negociação. Para isso, é essencial que o reconhecimento do Estado palestino avance como condição política e simbólica para o fim da violência.

Gaza tornou-se, nas palavras do chanceler espanhol, uma “ferida aberta da humanidade”. A questão agora é se o mundo terá coragem — e coerência — para curá-la com justiça e dignidade para todos os povos da região.

Milei restringe direito à greve na Argentina


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *