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Embargo: personalidades brasileiras pedem rompimento com Israel
Publicado em 28/05/2025 2:08 - Semana On
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No mesmo momento em que diplomatas europeus debatem o reconhecimento do Estado palestino, Israel intensifica sua política de ocupação: ameaça anexar parte da Cisjordânia e impõe o maior número de bloqueios à circulação de palestinos nos últimos 20 anos. Em nome da segurança, sustenta-se um sistema que especialistas e a ONU classificam como apartheid. O mundo assiste, hesitante, à derrocada de um projeto de paz que jamais chegou a nascer.
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A crise em curso no território palestino não é apenas mais um capítulo do prolongado conflito entre Israel e Palestina. Trata-se da cristalização de um regime de dominação que combina ocupação territorial, cerco administrativo e expulsão sistemática — amparado em argumentos de segurança, mas estruturado em práticas de despossessão. O alerta lançado nesta semana por Ron Dermer, ministro dos Assuntos Estratégicos de Israel, marca um ponto de inflexão: caso países como Reino Unido, França ou Portugal reconheçam o Estado palestino, Israel responderá com ações unilaterais, incluindo a anexação de áreas da Cisjordânia e a legalização de colonatos ilegais.
Essas declarações, feitas a poucos dias da cúpula da ONU em Nova York, não são vazias. Elas vêm acompanhadas de ações concretas e mensuráveis. Um relatório da ONU, publicado no último dia 27, revela que o número de bloqueios impostos por Israel na Cisjordânia atingiu o maior nível em duas décadas: 849 restrições à mobilidade de palestinos, afetando cerca de 3,3 milhões de pessoas. A maioria dos portões é frequentemente fechada, o que agrava o isolamento de comunidades inteiras e compromete o acesso a saúde, educação e trabalho.
Bloqueios como estratégia de dominação
O relatório do Escritório para Assuntos Humanitários da ONU (Ocha) revela o caráter sistemático das restrições. Entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025, foram instalados 36 novos bloqueios, elevando para 288 o número de portões rodoviários. Desse total, 60% permanecem fechados com frequência. As consequências são drásticas: crianças que percorriam 30 minutos até a escola agora gastam duas horas; profissionais de saúde sofrem agressões e têm ambulâncias retidas em postos de controle.
A ONU é direta: essas barreiras privam os palestinos de direitos fundamentais e comprometem a vida cotidiana de forma estrutural. Para a pesquisadora Moara Crivelente, diretora do Cebrapaz, os bloqueios não são incidentais, mas instrumentos de uma política deliberada de expansão colonial. “Desde 1967, Israel emprega esses mecanismos como forma de expulsar a população palestina das suas terras e vilas, criando um ambiente coercitivo que torna a vida impossível”, afirmou à Agência Brasil.
Essa avaliação é corroborada por diversas organizações de direitos humanos. A Human Rights Watch e a ONG israelense B’Tselem classificaram, em 2022, o sistema de dominação sobre os palestinos como apartheid — por sustentar-se em uma política de segregação legal, territorial e identitária. A justificativa oficial, baseada em “necessidades de segurança”, revela-se cada vez mais frágil diante de uma ocupação prolongada, que já dura mais de 57 anos na Cisjordânia e 75 anos desde a Nakba, a “catástrofe” da expulsão de 700 mil palestinos em 1948.
Uma geopolítica da procrastinação
A resposta internacional permanece tímida. Apesar das crescentes críticas às ações israelenses em Gaza e na Cisjordânia, potências ocidentais seguem relutantes em tomar medidas efetivas. David Lammy, ministro britânico, e Jean-Noël Barrot, ministro francês, sugeriram que o reconhecimento do Estado palestino está “em debate”. Portugal, por sua vez, afirma que o tema “permanece em avaliação”. Nenhum desses países, até agora, indicou disposição de enfrentar as ameaças israelenses com sanções ou pressão real.
A contradição é flagrante: por um lado, reconhece-se o direito dos palestinos à autodeterminação; por outro, cede-se diante da chantagem diplomática israelense. Para o filósofo francês Jacques Derrida, “a hospitalidade só é verdadeira se implica risco”. A recusa sistemática em reconhecer a Palestina por temor de retaliações expõe o vazio ético da diplomacia contemporânea. A omissão do Ocidente legitima, por inação, a transformação da Cisjordânia em um mosaico de guetos cercados por muros e postos militares.
Os escombros de Oslo
A atual divisão da Cisjordânia em três zonas — A, B e C — foi instituída pelos Acordos de Oslo, assinados em 1993, com mediação dos EUA. Concebido como um processo transitório para a criação de um Estado palestino, Oslo acabou por institucionalizar a fragmentação territorial: a Área A, com 18% do território, sob controle palestino; a Área B, com 22%, sob administração civil palestina e controle militar israelense; e a Área C, com 60%, sob total controle israelense. É justamente essa última área que Israel agora ameaça anexar formalmente.
A ironia histórica não escapa aos observadores atentos. O que deveria ser um modelo de transição para a paz consolidou, na prática, um regime de soberania hierarquizada, em que um povo controla os recursos, a segurança e a mobilidade de outro. O jurista Antonio Cassese, primeiro presidente do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, já advertia nos anos 2000 que “a ocupação contínua e o uso desproporcional da força transformam o status quo em uma violação permanente do direito internacional humanitário”.
Colonos e apartheid: uma lógica de expulsão
Hoje, mais de 700 mil colonos israelenses vivem em assentamentos ilegais na Cisjordânia. Essas colônias, muitas vezes construídas em terras privadas palestinas, são protegidas pelo exército israelense. Para que existam, é preciso retirar os habitantes originais, restringir o acesso à água e às estradas, e suprimir resistências. Daí o papel estratégico dos bloqueios, dos muros, e das ameaças de anexação. Trata-se de uma engenharia política e militar que visa substituir uma população por outra, com respaldo de um discurso de “direito histórico” que ignora os princípios do direito internacional.
A jornalista e historiadora Ilan Pappé, professor da Universidade de Exeter, afirma em seu livro A Limpeza Étnica da Palestina (2006): “A ocupação não é um erro político; é a continuidade de um projeto de despossessão iniciado em 1948”. Ao contrário do que se acredita, o apartheid israelense não se limita a Gaza ou a uma minoria extremista. Ele é sistemático, amparado em leis, mantido por políticas públicas e reproduzido por sucessivos governos — trabalhistas, centristas ou de extrema-direita.
O ponto de ruptura
A ameaça de Dermer pode ser lida como um ponto de não-retorno: se a comunidade internacional não reagir agora, corre-se o risco de selar a morte definitiva da solução de dois Estados — e, com ela, qualquer esperança de justiça duradoura na região. A proposta alternativa, defendida por uma minoria crescente de intelectuais e ativistas, é a criação de um Estado binacional, laico e democrático, com igualdade de direitos para árabes e judeus. Mas essa ideia, embora legítima, ainda encontra forte resistência tanto em Israel quanto entre os países ocidentais.
O filósofo camaronês Achille Mbembe cunhou o conceito de “necropolítica” para descrever os regimes que decidem quem pode viver e quem deve morrer. O atual regime imposto aos palestinos se encaixa de forma perturbadora nessa definição. Não se trata apenas de violência física, mas de domínio total sobre o tempo, o espaço e o futuro de um povo.
Enquanto a Palestina é encurralada por muros, ameaças e diplomacias hesitantes, o mundo democrático é confrontado com uma escolha: permanecer cúmplice de um regime de ocupação ou reafirmar, com ações concretas, os princípios universais dos direitos humanos e da autodeterminação dos povos. Entre o direito e o poder, não escolher já é uma escolha — e uma que a História cobrará com rigor.
Fome sob Fogo
No enclave sitiado de Gaza, onde a fome se espalha como uma segunda onda de destruição, multidões desesperadas por comida foram alvejadas por disparos israelenses enquanto tentavam acessar um centro de ajuda humanitária. O episódio, que deixou ao menos 47 feridos, escancara a crise humanitária extrema e o uso político da assistência alimentar, em violação frontal aos princípios do direito internacional.
A tragédia ocorreu na terça-feira (28), nas imediações de Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza, onde um novo centro de distribuição de alimentos, criado pela Fundação Humanitária de Gaza (GHF), tornou-se o palco de mais uma cena brutal da guerra. Segundo Ajith Sunghay, chefe do Escritório de Direitos Humanos da ONU para os Territórios Palestinos, a maioria dos feridos foi atingida pelo fogo do Exército israelense.
Testemunhas ouvidas pela Associated Press relataram disparos de tanques e armas automáticas, além da presença de um helicóptero militar que lançou sinalizadores durante a confusão. A GHF, organização registrada nos Estados Unidos e designada por Israel para coordenar a entrega de mantimentos, alega que seus próprios seguranças não atiraram contra os civis e que apenas recuaram temporariamente.
A ONU e diversas organizações humanitárias internacionais, no entanto, rejeitaram colaborar com o novo sistema de ajuda, alegando que a iniciativa viola os princípios fundamentais da assistência humanitária e pode ser instrumentalizada por Israel para fins militares e de controle populacional.
Ajuda sob vigilância e coerção
Os novos centros de distribuição, já operando sob forte vigilância e proteção de empresas de segurança privada, reproduzem a lógica do enclausuramento militar, com cercas de arame, barreiras de areia e entrada controlada — um cenário descrito por ativistas como mais próximo de um campo de detenção do que de um posto humanitário.
Para a ONU, a imposição de rotas específicas e centralizadas para receber alimentos, localizadas longe de populações famintas, pode representar uma forma de deslocamento forçado indireto, proibida pelo direito internacional humanitário, conforme os princípios estabelecidos nas Convenções de Genebra.
A crítica é contundente: ao condicionar o acesso à comida a um movimento populacional controlado, Israel estaria instrumentalizando a fome como arma de guerra. O especialista em direito humanitário Michael Lynk, ex-relator da ONU para os Direitos Humanos na Palestina, já advertia em 2021 que “a ocupação se torna ainda mais intolerável quando o ocupante controla não apenas os territórios, mas também a sobrevivência diária de quem ali vive”.
O cerco da fome
A Faixa de Gaza vive, desde outubro de 2023, sob uma ofensiva militar israelense sem precedentes. O ataque do grupo Hamas a vilarejos israelenses, que deixou cerca de 1.200 mortos e 220 sequestrados, foi seguido por bombardeios massivos e o bloqueio total das fronteiras, intensificando uma crise humanitária já aguda após 17 anos de cerco.
Segundo a ONU, mais de 53 mil palestinos foram mortos em Gaza desde o início da ofensiva. O Programa Mundial de Alimentos alerta para níveis de fome catastrófica, atingindo mais da metade dos 2,3 milhões de habitantes. Filas em frente a centros de distribuição se estendem por horas, e famílias relatam passar dias com uma única refeição composta por farinha e água.
Rafah, onde o incidente desta semana ocorreu, tornou-se o último refúgio viável após evacuações forçadas em outras regiões. Mas nem ali há segurança. A área, agora quase desabitada, é cercada por forças israelenses que operam no chamado “corredor Morag”, zona militar que separa Rafah do restante de Gaza.
Entre a guerra e a caridade militarizada
Israel justifica a criação dos novos centros como uma medida para impedir que o Hamas desvie os mantimentos, mas não apresentou provas de desvio sistemático por parte do grupo. Já as agências da ONU reafirmam que possuem mecanismos eficazes de rastreamento e que sempre operaram com base em princípios de neutralidade e independência.
Em tom revelador, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declarou que houve apenas uma “perda momentânea de controle” na distribuição em Rafah. Na mesma fala, afirmou que Israel planeja mover toda a população de Gaza para “uma área isolada” no sul — um plano que analistas consideram uma tentativa disfarçada de limpeza étnica, com a substituição da população nativa por medidas militares de controle territorial.
Organizações como a Human Rights Watch e a Amnesty International vêm alertando sobre os riscos do colapso total do aparato humanitário em Gaza, sobretudo com a crescente substituição de operações neutras por sistemas militarizados. “A ajuda não pode ser usada como moeda de barganha em conflitos armados”, diz a Carta Humanitária do Esfera, um dos pilares das normas internacionais de assistência.
O episódio de Rafah é mais do que um incidente: é um símbolo trágico da falência das normas internacionais diante da brutalidade da guerra contemporânea. Ele expõe a degradação de um sistema internacional que, mesmo após os horrores do século XX, ainda não aprendeu a proteger os mais vulneráveis do uso político da escassez.
A fome em Gaza não é acidental, nem colateral. É parte de uma arquitetura do controle, de uma política de punição coletiva que transgride os limites da dignidade humana. Quando civis famintos são alvejados ao buscar pão, e quando a caridade se transforma em campo de batalha, a humanidade inteira está sob julgamento.
Personalidades brasileiras pedem rompimento com Israel
A escalada da violência em Gaza e o papel do Brasil no cenário internacional voltam ao centro do debate político e ético com o envio de uma carta aberta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pedindo o rompimento das relações diplomáticas com Israel, o fim do tratado de livre comércio entre os países e a aplicação de um embargo à exportação de petróleo e à cooperação militar. O documento, que reúne a assinatura de nomes como Chico Buarque, Carol Proner, Paulo Sérgio Pinheiro, Manuela D’Ávila e Emir Sader, além de sindicatos, movimentos sociais e parlamentares do PSOL, surge num momento crítico: os 600 dias de ofensiva israelense sobre Gaza após os ataques do Hamas em outubro de 2023, que já deixaram mais de 53 mil mortos, segundo estimativas de agências internacionais de direitos humanos.
O apelo brasileiro se insere numa mobilização global organizada pela campanha BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções), que visa pressionar Israel por meio de sanções semelhantes às aplicadas contra o regime do apartheid na África do Sul. O movimento se baseia em deliberações recentes da Corte Internacional de Justiça (CIJ), que, em julho de 2024, reconheceu indícios de genocídio nas ações israelenses em Gaza, e em uma resolução da Assembleia Geral da ONU, aprovada em setembro do mesmo ano, com apoio do Brasil, exigindo o fim imediato das hostilidades e o respeito ao direito internacional humanitário.
“Essa conduta gera nos terceiros Estados obrigações internacionais que vão além de gestos e propostas diplomáticas”, lembra a carta, referindo-se aos pareceres da CIJ e da ONU.
A carta critica a continuidade da relação comercial entre Brasil e Israel, especialmente a exportação de petróleo e a negociação de equipamentos militares, apontando que isso contraria os compromissos assumidos pelo país no plano internacional. No texto, os signatários afirmam que “sem embargo, o Brasil segue exportando petróleo e negociando compra e venda de equipamentos militares com o Estado israelense e suas empresas”, destacando a contradição entre a política externa oficial de solidariedade à Palestina e as práticas comerciais em curso.
O Brasil, que atualmente preside o grupo de trabalho sobre Direito Internacional da ONU para a criação de um Estado palestino independente, é instado a “dar o exemplo” e liderar um movimento mais firme de coerência diplomática. “Estamos convencidos uma vez mais que é hora de nosso país dar o exemplo de cumprimento do direito internacional”, afirma o documento. A expectativa do grupo é que, com o peso simbólico e diplomático do Brasil, uma medida dessa natureza possa influenciar outras nações a adotar sanções semelhantes, gerando uma “onda necessária” para deter a ofensiva militar em Gaza.
Historicamente, a política externa brasileira tem oscilado entre o pragmatismo comercial e a defesa de princípios humanitários. Durante o governo Lula, especialmente em seus primeiros mandatos, o Brasil ganhou projeção como ator diplomático disposto ao diálogo multilateral e à mediação de conflitos, como quando participou das negociações nucleares com o Irã ao lado da Turquia, em 2010. A questão palestina também tem sido constante na retórica diplomática brasileira, com apoio declarado à solução de dois Estados e críticas reiteradas às ações de Israel nos territórios ocupados.
No entanto, os pedidos atuais vão além das declarações políticas. Inspirados no histórico de sanções que pressionaram o fim do apartheid na África do Sul — uma referência frequentemente mencionada pelos apoiadores do BDS —, os signatários argumentam que sanções econômicas são ferramentas legítimas e eficazes de ação internacional. Como reforça a cientista política e professora da UFRJ, Carol Proner, uma das organizadoras da carta: “É preciso romper a cumplicidade objetiva. Quem continua negociando com um Estado que comete crimes contra a humanidade se torna corresponsável por eles.”
A posição brasileira, portanto, encontra-se num ponto de inflexão: entre a continuidade das relações diplomáticas com um parceiro tecnológico e militarmente relevante e a coerência com princípios do direito internacional que o país historicamente defende. Especialistas em relações internacionais como Noam Chomsky já alertaram, em diversos momentos, sobre o peso simbólico da diplomacia do Sul Global em cenários de desequilíbrio político. Em suas palavras: “Se os países do Sul não falarem, o mundo continuará a ignorar os horrores cometidos com a chancela das grandes potências”.
A carta aberta, ainda disponível para adesão, indica que a pressão social e intelectual tende a aumentar nos próximos meses, especialmente às vésperas da conferência da ONU de junho, onde o Brasil terá papel de destaque. Resta saber se o governo Lula, que se notabilizou por uma diplomacia ativa e altiva, está disposto a transformar sua crítica moral ao genocídio palestino em ações concretas de sanção e isolamento diplomático a Israel.
Nesse contexto, o apelo dos signatários não é apenas um gesto político: é uma exigência de coerência entre discurso e prática. Um desafio que coloca o Brasil diante de uma decisão com peso histórico — e, talvez, civilizatório.
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