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Democratas e republicanos acusam o ex-presidente de usar barreiras comerciais como vingança política em defesa de Bolsonaro
Publicado em 18/09/2025 2:13 - Semana On
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Um grupo bipartidário de senadores dos Estados Unidos apresentou nesta quinta-feira (18) um projeto de lei que propõe o fim imediato das tarifas impostas pelo ex-presidente Donald Trump sobre produtos brasileiros.
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Para os parlamentares, a medida não se justifica do ponto de vista econômico e está sendo usada como ferramenta de retaliação política em resposta à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado próximo de Trump. A proposta acusa diretamente o ex-mandatário americano de abusar de prerrogativas presidenciais para interferir na soberania judicial de outra nação e causar prejuízos econômicos aos próprios consumidores americanos.
A iniciativa tem apoio de nomes influentes tanto entre os democratas quanto entre os republicanos. O projeto é liderado por Tim Kaine (D-VA), Rand Paul (R-KY), Chuck Schumer (D-NY), Jeanne Shaheen (D-NH) e Ron Wyden (D-OR), com apoio adicional de Peter Welch (D-VT) e Angus King (I-ME). Todos criticam abertamente a forma como Trump declarou uma suposta “emergência internacional” — baseando-se na Lei de Poderes de Emergência Econômica Internacional (IEEPA) — para evitar a análise e aprovação do Congresso. Para os senadores, a medida extrapola os limites constitucionais do Executivo e compromete os princípios da política comercial americana.
“As tarifas do presidente Trump sobre produtos brasileiros, que ele impôs para tentar impedir que o Brasil processe um de seus amigos, são ultrajantes”, declarou Tim Kaine, membro sênior da Subcomissão de Relações Exteriores do Senado para o Hemisfério Ocidental. Em tom igualmente incisivo, o republicano Rand Paul afirmou: “Estou alarmado com a perseguição do governo brasileiro a um ex-presidente, mas isso não dá ao nosso Executivo carta branca para impor tarifas. A política comercial pertence ao Congresso, não à Casa Branca.”
A ordem executiva assinada por Trump em 30 de julho impôs sobretaxas a produtos brasileiros como café, carne bovina e minério de ferro. De acordo com dados citados pelos senadores, os Estados Unidos importam anualmente mais de US$ 40 bilhões em produtos do Brasil — incluindo quase US$ 2 bilhões apenas em café, item que não é cultivado em larga escala em território americano. Além disso, o comércio bilateral sustenta cerca de 130 mil empregos nos EUA, e os americanos mantêm superávit comercial em relação ao Brasil. “Uma guerra comercial com o Brasil aumentaria os custos para os americanos, prejudicaria as economias americana e brasileira e aproximaria o Brasil da China”, alertaram os parlamentares no documento.
O projeto de lei protocolado no Senado visa revogar a declaração de emergência feita por Trump e eliminar as tarifas impostas ao Brasil, devolvendo ao Congresso a prerrogativa sobre decisões de política comercial. A proposta já nasce com peso político considerável, especialmente pela adesão de Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, que classificou as medidas de Trump como uma “loucura” e um “flagrante abuso de poder presidencial”.
A senadora Jeanne Shaheen também criticou duramente a interferência do ex-presidente nas relações internacionais americanas. “As tarifas sobre o Brasil não estão apenas prejudicando famílias e empresas. Elas representam um uso político da economia para interferir no judiciário de outra nação. Essa resolução deixa claro que essas tarifas são ilegais e uma traição às preocupações reais dos americanos com o custo de vida”, afirmou.
Ron Wyden, presidente do Comitê de Finanças do Senado, acrescentou: “As tarifas massivas de Trump sobre café, carne bovina e outros produtos que compramos do Brasil são um abuso flagrantemente ilegal da lei. Tenho orgulho de ser parceiro nesta resolução para deixar claro aos senadores republicanos se eles se oporão a esse aumento corrupto de impostos sobre seus eleitores ou se, mais uma vez, deixarão Trump mexer os pauzinhos para acertar suas contas pessoais.”
O pano de fundo dessa ofensiva parlamentar é a crescente preocupação com o uso das políticas comerciais como instrumentos de vingança pessoal e diplomática. Para os críticos, o movimento de Trump reflete mais uma tentativa de interferência externa nos assuntos internos de outro país — neste caso, o Brasil — em nome de fidelidades políticas.
O ex-presidente Jair Bolsonaro foi condenado recentemente pela Justiça brasileira por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação pública durante as eleições de 2022. Desde então, ele tem sido alvo de diversas investigações e perdeu seus direitos políticos até 2030. A proximidade histórica entre Bolsonaro e Trump — marcada por declarações públicas de admiração mútua e alinhamento ideológico — é apontada como motivação central para a adoção das tarifas, vistas como uma tentativa de pressionar o governo brasileiro e mobilizar sua base política interna.
A proposta ainda precisa ser aprovada nas duas casas do Congresso americano. Mas o seu conteúdo lança luz sobre um debate mais amplo: o equilíbrio de poderes entre Executivo e Legislativo na formulação da política externa, especialmente em um contexto de crescente polarização e uso político das relações internacionais.
Como analisa o cientista político Thomas Carothers, do Carnegie Endowment for International Peace, “quando líderes utilizam os instrumentos do Estado para fins pessoais ou de aliados, abrem precedentes perigosos não apenas para a política doméstica, mas para a credibilidade externa do país”. (Fonte: Carnegie Endowment, 2023)
A disputa agora caminha para os bastidores do Congresso e poderá se transformar em um marco sobre os limites da autoridade presidencial em temas comerciais — com implicações diretas para o Brasil e para o futuro da diplomacia econômica entre os dois países.
Inflação dispara nos EUA e pressiona política de juros do Fed
A inflação nos Estados Unidos voltou a subir com força em agosto, atingindo 0,4% no mês e 2,9% em 12 meses, o maior avanço desde janeiro. O dado divulgado pelo Departamento de Estatísticas do Trabalho nesta quinta-feira (18) reflete, segundo analistas, os efeitos acumulados das tarifas impostas pela gestão Trump a produtos importados. Com isso, o índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) superou as expectativas do mercado e coloca pressão sobre o Federal Reserve, que se reunirá na próxima semana para decidir sobre os rumos da política monetária.
A inflação acumulada interrompe uma trajetória de desaceleração observada nos meses anteriores e reacende o debate sobre os custos da política protecionista implementada desde o início do governo Trump. Em julho, o índice havia registrado alta de 0,2% no mês e 2,7% em 12 meses — números já considerados elevados em relação à meta informal do Fed, de 2%.
Tarifas pesam no bolso e na política
Os maiores vilões da inflação foram os alimentos e a moradia, com destaque para a disparada nos preços de carnes, frutas e vegetais. O índice de alimentos consumidos em casa subiu 2,7% no acumulado de 12 meses, com destaque para a carne bovina (+2,7% em agosto) e para a categoria carnes, aves, peixes e ovos, que acumulou alta de 5,6% no ano. Os alimentos frescos também puxaram o índice: tomates subiram 4,5% e maçãs, 3,5% no mês.
Especialistas apontam que esses aumentos são consequência direta das tarifas sobre produtos importados, com impacto especial em commodities agrícolas e carnes, como a brasileira, que sofreu sobretaxas. “As evidências são contundentes de que mais inflação relacionada às tarifas está por vir, embora ainda possa levar vários meses para que ela seja totalmente repassada”, afirmou Stephen Stanley, economista-chefe do Santander U.S. Capital Markets, em entrevista à Reuters.
Além dos alimentos, o relatório indica alta nos preços de carros e caminhões usados, além de serviços de transporte como passagens aéreas, que subiram mais de 1% em agosto.
Tensão institucional e pressão sobre dados
O aumento inflacionário ocorre em um ambiente de pressão política crescente sobre os órgãos de estatística do governo. O gabinete do inspetor-geral do Departamento do Trabalho anunciou, na véspera da divulgação dos dados, que iniciou uma revisão sobre os desafios na coleta e divulgação de dados econômicos. A decisão veio após o presidente Trump demitir a chefe da agência de estatísticas, Erika McEntarfer, após um relatório de empregos considerado decepcionante.
A suspeita de interferência política nos dados estatísticos não é nova, mas ganha força com os sinais de que o governo tem reduzido a coleta de informações detalhadas sobre inflação e mercado de trabalho — pilares para a tomada de decisão do Federal Reserve e para o acompanhamento público da saúde econômica do país.
Entre o populismo e a realidade econômica
Durante a campanha presidencial, Donald Trump prometeu reduzir rapidamente o custo de vida dos americanos. No entanto, frente à realidade inflacionária, o presidente passou a pedir “paciência” aos eleitores. A retórica protecionista, que buscava fortalecer a indústria doméstica por meio da imposição de tarifas, agora demonstra seus efeitos colaterais sobre o consumo interno.
A tentativa de moldar o discurso econômico com base em promessas eleitorais, enquanto os dados mostram o contrário, expõe uma fragilidade da narrativa trumpista. Como alerta o economista Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, em coluna no New York Times, “o populismo econômico costuma ignorar leis básicas da economia, como o impacto de tarifas nos preços domésticos — até que a conta chegue”.
Perspectivas e riscos
Com os estoques ainda segurando parte do impacto tarifário, a previsão é de que os preços continuem subindo nos próximos meses. Economistas alertam que o repasso total das tarifas ainda está em curso, o que pode manter a inflação em trajetória ascendente até o final do ano.
O Fed, por sua vez, caminha em terreno delicado: precisa controlar a inflação sem sufocar um mercado de trabalho já fragilizado. A combinação de preços altos, tensões políticas e incertezas econômicas internas projeta um cenário desafiador não apenas para a política monetária, mas também para a estabilidade institucional nos EUA.
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