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Mundo

Extrema direita matou seis vezes mais que a esquerda em atentados nos EUA

Radicais de direita exploram assassinato de Charles Kirk para impulsionar perseguições políticas e discursos de ódio

Publicado em 17/09/2025 12:49 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A direita radical matou seis vezes mais que a esquerda em atentados nos Estados Unidos desde 1975. É o que mostra um levantamento publicado pelo Instituto Cato – revelado pelo jornalista Jamil Chade – com base em dados públicos e investigações federais. Ao todo, 391 pessoas foram assassinadas por terroristas de direita, contra 65 vítimas fatais ligadas a atentados de grupos ou indivíduos de esquerda. O estudo, que inclui ainda dados sobre atentados islâmicos e imigrantes ilegais, desmonta o discurso amplamente difundido por figuras como Donald Trump e Elon Musk após a morte brutal do ativista ultraconservador Charlie Kirk.

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A politização imediata do assassinato de Kirk não foi uma surpresa — foi uma estratégia. Antes mesmo de o corpo esfriar, o ex-presidente Donald Trump acusava “lunáticos de esquerda” pelo crime. Seguiram-se ameaças, planos de retaliação e um novo capítulo de mobilização da extrema-direita norte-americana em torno da lógica do mártir. O que não se seguiu — e tampouco interessa a essa agenda — foi o apelo à razão: os números do próprio governo mostram que a extrema-direita é, de longe, o maior vetor de violência política doméstica no país.

No levantamento do Instituto Cato, além das mortes atribuídas à direita, os dados revelam ainda que a chance anual de um americano ser morto por um refugiado em ataque terrorista é de 1 em 3,5 bilhões. Já os imigrantes ilegais que cruzaram fronteiras para entrar nos EUA não mataram ou feriram ninguém em atentados, mesmo após cinco décadas de monitoramento. Essa realidade desmonta a narrativa anti-imigração e nacionalista, que insiste em apresentar os “outros” — os pobres, os muçulmanos, os latinos, os pretos — como ameaça existencial à América.

Mas números e fatos não são o motor do discurso político atual da extrema-direita. A retórica que se seguiu à morte de Kirk tem pouco a ver com realidade e tudo a ver com guerra cultural. O que se viu foi um coro de vozes reacionárias incitando à violência em nome do morto — o que, ironicamente, alinha seus discursos à lógica que supostamente combatem. Steve Bannon disse, em seu programa War Room, que “estamos em guerra neste país”. Elon Musk, com seus 160 milhões de seguidores, publicou que “nossa escolha é lutar ou morrer”. Matt Walsh, outro influente agitador digital, escreveu que “forças demoníacas vindas do fundo do inferno” estariam agindo. E James Woods, ator e militante conservador, declarou que “é guerra civil ou conversa — mais um tiro e a escolha acaba”.

A morte de Charlie Kirk foi imediatamente convertida em instrumento de mobilização política, e isso diz mais sobre o estado atual da democracia americana do que sobre o crime em si. Kirk era um personagem central na radicalização conservadora. Fundador da Turning Point USA, defensor da Teoria da Grande Substituição e da revogação da Lei dos Direitos Civis de 1964, Kirk simbolizava a fusão entre nacionalismo cristão, supremacismo branco e culto à violência — um tripé típico do fascismo histórico, como bem analisou o historiador Robert Paxton em A Anatomia do Fascismo (2004, Cia. das Letras).

Seu legado é marcado por frases como: “Se estou lidando com alguém no atendimento ao cliente que é uma mulher negra imbecil… ela está lá por causa da ação afirmativa?”

Ou ainda: “O Islã é a espada que a esquerda está usando para cortar a garganta da América.”

Tais ideias circulam entre milhões, nutridas por redes sociais desreguladas e por algoritmos que favorecem a radicalização — ambiente descrito por Shoshana Zuboff, em A Era do Capitalismo de Vigilância (2019, Intrínseca), como um “ecossistema de manipulação comportamental em escala industrial”.

A canonização de Kirk como mártir inaugura, agora, uma nova fase da guerra cultural. A imagem do ativista morto já está sendo usada por lideranças de extrema-direita para defender censura, perseguições políticas, vigilância digital, listas negras e punições extrajudiciais. O congressista Clay Higgins prometeu, textualmente, “cancelar com extremo preconceito” qualquer cidadão que criticasse Kirk ou seu legado — pedindo que se revogassem até carteiras de motorista.

Trata-se da consagração de um modelo de poder baseado na ideia de purificação nacional pela violência — uma lógica profundamente fascista. Como escreveu o filósofo Umberto Eco, em seu ensaio Ur-Fascismo (1995), “o culto da tradição, da ação pela ação, do medo da diferença, e da exaltação da guerra como valor” são os alicerces das formas modernas do fascismo. A reação à morte de Kirk passa por todos esses pontos.

E o Brasil?

Não está imune. Ecoam por aqui os efeitos desse “neomacarthismo trumpista”, com episódios como os ataques à Faculdade de Filosofia da USP, onde grupos extremistas invadiram o campus, arrancaram cartazes e provocaram estudantes. Em redes sociais, vídeos são editados para reforçar a narrativa da “esquerda violenta”, enquanto a Procuradoria-Geral da USP prepara ações civis contra os invasores. São estratégias importadas — e eficazes.

O deputado Gustavo Gayer, por exemplo, alinhado com a extrema-direita, pediu ao governo dos EUA a punição do ator Wagner Moura por críticas ao trumpismo, enquanto ele próprio é investigado no Brasil por uso de verba pública para fomentar atos antidemocráticos, segundo o STF. As incoerências são gritantes — e reveladoras.

O que está em curso, nos EUA e no Brasil, é uma tentativa de capturar o Estado e as instituições democráticas por dentro, a partir da instrumentalização da violência, da manipulação de mártires e da perseguição aos dissidentes. O objetivo não é a pacificação, mas a destruição do adversário, como alertou o cientista político Yascha Mounk em O Povo Contra a Democracia (2019, Companhia das Letras): “Os populistas autoritários não destroem a democracia da noite para o dia. Eles a esvaziam por dentro, até que reste apenas a fachada.”

Neste cenário, apelos à civilidade soam quase anacrônicos. Pedir paz “não dá like”, como bem se disse no próprio texto de origem. Mas sem um pacto pela não violência e pela responsabilização institucional de todos os crimes — de qualquer espectro ideológico — não haverá democracia funcional. A impunidade estimula a repetição. A retórica bélica fomenta a ação bélica. E o que começa com palavras termina com sangue.

Em tempos de guerra simbólica, silenciar é se omitir. Mas reagir com ódio, criminalizar o pensamento e aceitar a lógica do inimigo como natural também é se render. A democracia, quando ameaçada, precisa ser defendida — com coragem, com fatos e com humanidade.

Bolsonarismo convoca para a guerra nas redes

Reportagem do Intercept_Brasil revelou vídeos que circulam em grupos de WhatsApp convocando diretamente à luta armada em defesa de Jair Bolsonaro. Disfarçado sob retórica patriótica e teorias da conspiração, o conteúdo de extrema-direita ecoa os discursos que precederam o 8 de Janeiro e sinaliza uma escalada no grau de ameaça contra a democracia brasileira. As mensagens vêm ganhando fôlego justamente no momento em que o país vive um dos marcos mais importantes de sua história recente: a condenação de um ex-presidente da República por tentativa de golpe.

O vídeo em questão, analisado pela reportagem, traz uma figura encapuzada, mascarada como Guy Fawkes e com voz distorcida, em tom teatral, clamando por insurreição. O roteiro segue uma cartilha já conhecida: acusações de comunistas infiltrados no Estado, críticas ao Judiciário e ao Exército, deslegitimação das instituições democráticas, e, ao final, um chamado: “Essa guerra não será vencida com manifestações pacíficas. Vamos lutar pelo tudo ou nada até a vitória.”

O conteúdo foi compartilhado em um grupo de compra e venda de produtos domésticos da cidade de Araçatuba (SP). A origem exata do vídeo ainda é desconhecida, mas os ecos da mensagem já circulam amplamente por redes bolsonaristas, segundo apontou a consultoria Palver, que monitora mais de 100 mil grupos de WhatsApp no Brasil. Dados da empresa revelam que as menções ao Nepal – símbolo improvisado de uma revolução popular usada pela extrema-direita – saltaram de 7 para 344 a cada 100 mil mensagens entre os dias 8 e 10 de setembro, coincidindo com a leitura do voto do ministro Luiz Fux no julgamento de Bolsonaro no STF.

O caso poderia ser descartado como um devaneio conspiratório, não fosse o contexto político, as coincidências de datas e as ações concretas que o cercaram. No mesmo dia da abertura do julgamento (9/9), um homem ateou fogo em banheiros químicos próximo ao STF, em Brasília. No dia seguinte, outro tentou invadir a rampa do Palácio do Planalto. Autoridades inicialmente atribuíram os atos a desequilíbrio mental ou vulnerabilidade social. Mas a sequência e o ambiente digital inflamado sugerem algo mais articulado.

O alerta se torna ainda mais grave diante da influência internacional que move parte do bolsonarismo. Na mesma semana Charlie Kirk foi assassinado. A reação foi imediata. Nikolas Ferreira (PL-MG), influente entre a base bolsonarista, publicou em inglês, conectando o crime a uma suposta perseguição mundial à direita. É um clássico caso do que estudiosos da comunicação política chamam de “importação de frames” — a transferência de narrativas de outros contextos para manipular percepções internas.

Esse tipo de alinhamento retórico e emocional com os Estados Unidos é parte da engrenagem do bolsonarismo desde seu nascimento, como analisa a antropóloga Isabela Kalil, que pesquisa movimentos conservadores no Brasil: “O bolsonarismo reproduz estratégias discursivas, estéticas e simbólicas do trumpismo. A ideia do mártir, da guerra cultural e do apelo direto às massas via redes são componentes centrais desse modelo.”

Mais que coincidência, há uma clara intenção de criar um clima de cerco, paranoia e urgência revolucionária. A desconstrução da legitimidade do sistema democrático é central para essa estratégia. Não por acaso, o vídeo bolsonarista ataca diretamente o Exército, a Polícia Federal e o Judiciário, chamando-os de “corrompidos” e “vendidos”. Esses ataques não miram apenas instituições: miram a própria ideia de legalidade e resolução institucional de conflitos, substituindo-a por um discurso de salvação via combate.

Trata-se de um fenômeno descrito com precisão por Jason Stanley, professor da Universidade Yale e autor de Como Funciona o Fascismo (2020, Cia. das Letras): “O fascismo prospera na mentira. Ele afirma que apenas ele é o legítimo representante do povo e que todo o resto — imprensa, academia, justiça — é inimigo.”

A radicalização digital no Brasil já produziu seus efeitos mais dramáticos. O 8 de Janeiro foi, em essência, a materialização da desinformação organizada, das milícias digitais e do desprezo por instituições democráticas. Foi também a prova de que não se trata de alucinações virtuais, mas de riscos reais.

E o ciclo se repete. A frase dita por um dos envolvidos na disseminação do vídeo, quando questionado sobre seu envolvimento — “Eu só compartilhei” — é a síntese do fenômeno contemporâneo da banalização do discurso de ódio. É o mesmo padrão observado em muitos dos réus do 8 de Janeiro: pessoas comuns, “patriotas de bem”, que foram atravessadas por uma torrente de desinformação e convocadas para uma guerra imaginária em nome de uma pátria que só existe no delírio bolsonarista.

Essas mensagens não são apenas opiniões radicais. São armas simbólicas, criadas para moldar subjetividades, deslegitimar instituições e naturalizar a violência como linguagem política. E não podem ser ignoradas em nome de uma suposta neutralidade jornalística. Como escreveu Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo (1951): “O ideal de imparcialidade se torna cúmplice da mentira quando não distingue entre fatos e ficção.”

Neste momento em que o Brasil tenta consolidar os efeitos da condenação de Bolsonaro, o mínimo que se espera é ação proativa das instituições de Estado — especialmente da Polícia Federal e da Abin, que têm o dever de investigar e neutralizar redes de incitação à violência política. Ignorar os sinais é repetir os erros de 2022.

É preciso abandonar o conforto da incredulidade. A história recente mostra que vídeos patéticos, frases ensaiadas e teorias conspiratórias não são só ruído: são o ensaio do próximo ato.

Meus 10 cents sobre Charlie Kirk


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