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Mundo

Rússia alerta para perigo global e defende negociação direta entre Washington e Teerã

Moscou vê risco de desestabilização regional diante de ameaças militares dos EUA ao Irã

Publicado em 29/01/2026 2:28 - Semana On

Divulgação Reprodução

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A Rússia voltou a acender o sinal de alerta diante da possibilidade de um ataque militar dos Estados Unidos ao Irã e reforçou a defesa de uma saída diplomática para conter a escalada de tensões no Oriente Médio. A avaliação, feita pelo porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, surge após o presidente norte-americano, Donald Trump, endurecer o discurso contra Teerã como forma de pressionar por um novo acordo.

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Para Moscou, o recurso à força tende a provocar um efeito dominó de instabilidade. Peskov afirmou que as alternativas diplomáticas ainda estão longe de se esgotar e que insistir em soluções militares apenas amplia o risco de um conflito de grandes proporções. Na leitura russa, há espaço real para negociação, desde que as partes adotem uma postura de contenção.

O posicionamento não é pontual. Nas últimas semanas, o Kremlin já havia criticado o que define como interferência de potências externas nos assuntos internos iranianos. Ainda neste mês, o secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Sergei Shoigu, condenou novas pressões sobre a República Islâmica em meio a protestos violentos no país.

Esse discurso acompanha o estreitamento das relações entre Moscou e Teerã. Desde o início da guerra na Ucrânia, a cooperação política e militar entre os dois países se intensificou, culminando na assinatura, em janeiro de 2025, de um tratado de parceria estratégica com validade de 20 anos.

Pressão militar dos EUA e reação iraniana

Em Washington, o tom é outro. Trump afirmou que o “tempo está se esgotando” para o Irã e anunciou o envio de uma grande força naval para a região, descrita como superior à mobilizada anteriormente na crise com a Venezuela. Segundo o presidente, a frota estaria preparada para agir “com rapidez e violência”, caso necessário, embora ele afirme preferir um acordo que impeça o avanço iraniano rumo a armas nucleares.

Teerã respondeu com desconfiança. O chanceler Abbas Araghchi declarou que não haverá diálogo sob ameaça militar e classificou a diplomacia baseada em coerção como ineficaz. Para o governo iraniano, qualquer negociação só é possível em bases consideradas justas e sem intimidação.

Temor no Golfo e risco para o petróleo

A perspectiva de um confronto direto preocupa aliados regionais dos Estados Unidos. Países árabes do Golfo Pérsico, como Arábia Saudita, Omã e Catar, pressionam Washington a evitar uma ofensiva contra o regime iraniano, temendo impactos severos nos mercados de petróleo e reflexos negativos na economia global — inclusive na americana.

Apesar das rivalidades históricas com Teerã, esses governos avaliam que um ataque poderia comprometer a segurança do Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo comercializado no mundo. Autoridades sauditas chegaram a assegurar ao Irã que não participariam de um eventual conflito e indicaram que não autorizariam o uso de seu espaço aéreo por forças norte-americanas.

Analistas apontam que os países do Golfo têm razões múltiplas para rejeitar uma ofensiva militar. A cientista política Pauline Raabe, do think tank Middle East Minds, observa que, embora essas nações vejam vantagem em um Irã enfraquecido, elas temem que a violência saia de controle e que se tornem alvos de retaliações iranianas.

Avaliação semelhante é feita por Eckart Woertz, diretor do Instituto Giga para Estudos do Oriente Médio. Segundo ele, a derrubada do regime iraniano é improvável no curto prazo e, mesmo que ocorra, dificilmente se daria sem violência. Esse cenário poderia atingir diretamente os países do Golfo e ainda provocar um fluxo significativo de refugiados.

Raabe acrescenta que um ataque dos EUA poderia comprometer anos de aproximação gradual entre o Irã e seus vizinhos árabes. Bases militares americanas no Catar, na Arábia Saudita e no Bahrein, observa ela, estariam entre os primeiros alvos de eventuais ataques iranianos, levando o conflito para o território do Golfo.

Impactos econômicos e incerteza regional

Mesmo sem ataques diretos aos vizinhos, um confronto teria consequências econômicas relevantes. Um eventual bloqueio de rotas comerciais pelo Irã, por exemplo, poderia atingir duramente as economias do Golfo. Raabe lembra que situações semelhantes já ocorreram no Mar Vermelho, onde a milícia houthi, aliada de Teerã, atacou navios internacionais.

Os efeitos, nesse caso, não ficariam restritos à região. “Primeiro atingiriam os países árabes, mas depois se espalhariam pela economia mundial”, avalia a analista.

Woertz destaca que os países do Golfo atravessam processos de transformação econômica e buscam se preparar para um cenário pós-energias fósseis. A Arábia Saudita, em especial, tenta se reposicionar economicamente. Nesse contexto, qualquer instabilidade representa um obstáculo, tanto para novos projetos quanto para setores tradicionais como a exploração de petróleo, altamente dependentes de confiança e cadeias de abastecimento estáveis.

Prontidão militar e risco de escalada

Diante das ameaças, o Irã elevou o tom. Araghchi afirmou que as Forças Armadas do país estão em estado de prontidão máxima, prontas para responder de forma imediata a qualquer agressão. Em publicações nas redes sociais, citou as lições da chamada Guerra dos Doze Dias, travada com Israel no ano passado, como fator de fortalecimento da capacidade militar iraniana.

O governo de Teerã reafirma que não considera armas nucleares parte de sua doutrina de segurança e insiste no caráter pacífico de seu programa nuclear. Ainda assim, condiciona qualquer acordo a termos considerados equitativos e livres de pressão.

No campo militar, o Irã anunciou a incorporação de mais de mil drones ao arsenal, incluindo equipamentos terrestres e marítimos com capacidade ofensiva. Segundo o ministro da Defesa, Amir Hatami, o reforço busca garantir uma resposta contundente e rápida em caso de ataque.

Enquanto os Estados Unidos retiram parte de seus militares de bases no Oriente Médio como medida preventiva, a Guarda Revolucionária iraniana afirma operar no mais alto nível de alerta. O conjunto de declarações duras e movimentações militares reforça a advertência feita por Moscou: sem negociação, o risco de uma escalada regional permanece elevado.

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