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Moscou eleva retórica no aniversário da guerra, enquanto tratado nuclear com os EUA expira e amplia incertezas estratégicas
Publicado em 24/02/2026 1:29 - Semana On
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No quarto aniversário da guerra, a Rússia voltou a tensionar o debate nuclear ao acusar a Ucrânia de tentar obter armamento atômico com apoio do Reino Unido e da França. A denúncia partiu do Serviço de Inteligência Estrangeira russo (SVR), mas não foi acompanhada de evidências documentais. Kiev classificou a acusação como “absurda”, enquanto Londres e Paris a descreveram como desinformação.
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Segundo comunicado divulgado pelo SVR, britânicos e franceses estariam convencidos de que a posse de “uma bomba nuclear ou, ao menos, uma chamada ‘bomba suja’” fortaleceria a posição ucraniana nas negociações para encerrar o conflito. O serviço russo afirmou ainda que os dois países estariam “trabalhando ativamente” para fornecer armas nucleares e sistemas de lançamento a Kiev, fazendo parecer que a aquisição teria ocorrido por iniciativa própria da Ucrânia.
Uma bomba suja — dispositivo explosivo convencional que dispersa material radioativo — difere substancialmente de uma arma nuclear estratégica, projetada para desencadear uma reação nuclear de grande magnitude. A declaração do SVR não apresentou provas que sustentassem as alegações.
Negativas categóricas
A reação foi imediata. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da França classificou a acusação como “desinformação flagrante”. O gabinete do primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, afirmou de forma direta: “Não há verdade nisso”.
Pelo lado ucraniano, o porta-voz da chancelaria, Heorhii Tykhyi, declarou à agência Reuters que Kiev “já negou essas alegações absurdas da Rússia muitas vezes antes” e reiterou oficialmente a negativa. A Ucrânia sustenta que não pretende readquirir armamento nuclear e que cumpre os tratados internacionais de não proliferação.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, já criticou em ocasiões anteriores a decisão tomada por Kiev nos anos 1990 de abrir mão do arsenal nuclear herdado da União Soviética, argumentando que o país não obteve garantias de segurança suficientemente robustas e vinculantes. Ainda assim, o governo ucraniano mantém o compromisso formal com os acordos internacionais.
Retórica nuclear e pressão diplomática
Ao longo da guerra, Moscou tem recorrido a advertências nucleares — muitas vezes em tom velado — como forma de dissuadir o Ocidente de ampliar o apoio militar a Kiev. Em novo comunicado, o Ministério das Relações Exteriores russo alertou para os riscos de um “confronto militar direto entre potências nucleares” e suas “consequências potencialmente terríveis”.
O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que os adversários de Moscou saberiam como poderia terminar qualquer ataque à Rússia ou às suas forças envolvendo elemento nuclear. A declaração foi feita diante do FSB, serviço de segurança sucessor da KGB soviética.
Agências russas também citaram o assessor do Kremlin Yuri Ushakov, segundo o qual Moscou informaria os Estados Unidos sobre o assunto, advertindo que a controvérsia poderia afetar as negociações mediadas por Washington para o fim da guerra.
Novo START: limites expirados e incerteza estratégica
O episódio ocorre em meio a um vácuo jurídico no regime bilateral de controle de armas entre Rússia e Estados Unidos. O tratado New START, que limitava o número de ogivas estratégicas mobilizadas por cada parte a 1.550 — cerca de 30% abaixo do teto anterior fixado em 2002 — expirou em 5 de fevereiro. Desde então, não há acordo em vigor que restrinja formalmente o desdobramento de armas nucleares pelas duas maiores potências atômicas do planeta.
O chanceler russo, Serguei Lavrov, afirmou no Parlamento que Moscou continuará respeitando os limites previstos no tratado, desde que os Estados Unidos façam o mesmo. “Essas restrições continuarão em vigor, mas apenas se os Estados Unidos não ultrapassarem os limites mencionados”, declarou, acrescentando que a Rússia agirá de forma “responsável”, com base na análise da política militar americana.
O Donald Trump, que não respondeu à proposta russa de prorrogação do acordo, defendeu a negociação de “um novo tratado aprimorado e modernizado” e criticou o Novo START como tendo sido “mal negociado” pelo governo de Barack Obama. Washington também defende a inclusão da China em futuras negociações, hipótese rejeitada por Pequim sob o argumento de que seu arsenal é significativamente menor.
Com o colapso do principal mecanismo de verificação mútua — que previa inspeções in loco, suspensas desde 2023 — e a intensificação da retórica nuclear no contexto da guerra, o ambiente estratégico internacional torna-se ainda mais instável. A acusação russa contra Kiev, sem provas apresentadas, insere-se nesse cenário de crescente polarização e de erosão dos instrumentos clássicos de controle de armas.
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