Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
Com discurso de abertura ao mercado, ele herda país dividido, em crise fiscal e marcado por escassez de combustível e dólares
Publicado em 20/10/2025 10:21 - Semana On
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O senador centrista Rodrigo Paz foi eleito neste domingo (19) presidente da Bolívia, encerrando quase duas décadas de governos do Movimento ao Socialismo (MAS) e assumindo o comando de um país em sua pior crise econômica em 40 anos. Com 54,5% dos votos válidos no segundo turno, o candidato do Partido Democrata Cristão derrotou o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga (45,5%), segundo o Tribunal Supremo Eleitoral, com 97% das urnas apuradas. A vitória, embora clara, não garante maioria legislativa ao novo governo, que precisará negociar com uma oposição fragmentada e um país socialmente polarizado.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
Aos 58 anos, Paz assume com a promessa de “reabrir a Bolívia para o mundo”, mas diante de um cenário adverso: inflação anual de 23%, escassez de combustíveis e reservas internacionais críticas. A dependência do gás natural — principal fonte de receita do país — caiu drasticamente, enquanto os subsídios estatais e o câmbio artificial tornaram-se insustentáveis. “Estamos caminhando para uma nova etapa da democracia boliviana no século XXI”, disse o presidente eleito, em entrevista à Reuters dois dias antes da eleição.
Um nome conhecido, um rosto improvável
Filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora (1989-1993), Rodrigo Paz nasceu em Santiago de Compostela, na Espanha, onde a família vivia exilada durante a ditadura boliviana. Economista e ex-prefeito da cidade de Tarija, começou a carreira política no partido do pai, de orientação marxista, mas seguiu o mesmo caminho ideológico: migrou para o centro e, mais recentemente, para uma agenda liberal e pró-mercado. Ainda assim, sua vitória foi considerada improvável até semanas antes do pleito.
Em agosto, era um dos candidatos menos cotados. Sem grande estrutura partidária, entrou nos debates sob protesto de apoiadores e viu sua campanha ganhar tração apenas com a chegada de seu vice, Edman Lara — ex-policial expulso da corporação após denunciar corrupção em vídeos no TikTok. O “Capitão Lara”, com sua retórica populista e apelo digital, ampliou a base de apoio do candidato nas regiões mais pobres do país.
Mesmo com seu histórico questionado — enfrentou suspeitas de superfaturamento em obras durante sua gestão municipal —, Paz conseguiu atrair eleitores frustrados com o MAS, mas ainda cautelosos com a agenda de choque fiscal de Quiroga. Venceu em seis dos nove departamentos, mas perdeu na própria Tarija, onde sua gestão como prefeito deixou má impressão entre os trabalhadores e sindicatos.
Fim da hegemonia do MAS, mas não de Evo
Com a vitória de Paz, o MAS perde o controle do Executivo após dominar a política boliviana desde 2006, ano em que Evo Morales assumiu o poder. Ainda assim, o ex-presidente continua sendo um ator relevante. Impedido de concorrer por decisão judicial, Morales foi responsável por uma das maiores taxas de votos anulados no primeiro turno — quase 20% —, atribuída em grande parte à sua exclusão. Embora politicamente enfraquecido e alvo de acusações de tráfico de pessoas (que nega), o ex-líder indígena ainda possui apoio expressivo entre as comunidades rurais e movimentos sociais.
Essas bases já sinalizaram resistência. A Central de Trabalhadores da Bolívia (COB) alertou que se oporá a qualquer tentativa de revogação das conquistas sociais dos últimos anos. A retórica conciliadora de Paz — que prometeu manter alguns programas sociais e amortecer reformas com auxílios — pode não ser suficiente para evitar protestos e paralisias.
Crise de combustível e rombo fiscal
A prioridade do novo governo será sanar a crise de abastecimento e reequilibrar as contas públicas. As filas por gasolina, os postos fechados e a alta generalizada nos preços ilustram o colapso do modelo estatista boliviano, sustentado por subsídios e por um câmbio controlado que já não encontra lastro em reservas internacionais.
Especialistas apontam que o país opera, há meses, em situação crítica de liquidez. O Banco Central da Bolívia tem recorrido a reservas de ouro para pagar importações e não consegue estabilizar a moeda. O modelo, que prosperou nos anos de boom das commodities, desmoronou diante da queda nas exportações de gás e do crescimento descontrolado do gasto público. “A Bolívia vive um esgotamento fiscal profundo. Ou ajusta seu modelo econômico ou enfrentará um colapso ainda maior”, afirmou o economista boliviano Gonzalo Chávez, professor da Universidade Católica Boliviana, em entrevista à BBC Mundo.
Um recomeço com os Estados Unidos
Entre o primeiro e o segundo turno, Paz visitou Washington para dialogar com think tanks e autoridades americanas. O movimento marca uma guinada na política externa boliviana após anos de alinhamento com China, Rússia e Venezuela. O senador já havia anunciado planos para um acordo de US$ 1,5 bilhão com os EUA para impulsionar o setor de energia.
A resposta americana veio ainda no domingo. Em nota, o Secretário de Estado Marco Rubio afirmou: “A vitória de Paz marca uma oportunidade transformadora. Os Estados Unidos estão prontos para fazer parceria com a Bolívia em prioridades compartilhadas”. A fala foi interpretada como um sinal de que o governo Biden pretende retomar uma relação bilateral interrompida desde 2008, quando Evo Morales expulsou a DEA e o embaixador americano.
Divisões regionais e falta de base no Congresso
Além da crise econômica, Paz enfrentará um desafio político imediato: a fragmentação do Congresso. Sem maioria legislativa, o novo presidente dependerá de alianças frágeis para aprovar reformas. Os resultados do segundo turno também evidenciaram as divisões internas do país: enquanto o leste rico e conservador votou majoritariamente em Quiroga, o oeste pobre e indígena optou por Paz.
A tensão entre campo e cidade, indígenas e elite branca, rural e urbano, permanece como um dos principais obstáculos à estabilidade política boliviana. Como apontou a cientista política María Teresa Zegada, da Universidade Mayor de San Simón, em entrevista ao jornal Página Siete, “a Bolívia é governável apenas com diálogo social efetivo. Sem isso, nenhum plano econômico terá êxito”.
“No Kings”: Multidões tomam as ruas dos EUA contra autoritarismo de Trump
Deixe um comentário