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Mundo
Protestos em mais de 2.500 cidades denunciam militarização, cortes sociais e ataques à democracia por parte do governo
Publicado em 19/10/2025 11:22 - Semana On
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De Nova York a Portland, de Chicago a Los Angeles, passando por centenas de pequenas cidades e até embaixadas dos EUA no exterior, mais de 2.500 protestos marcaram o sábado (18) nos Estados Unidos com um recado direto: não há espaço para reis em uma república democrática. Sob o lema “No Kings”, milhares de pessoas tomaram as ruas contra o governo de Donald Trump, denunciando o que consideram ser uma escalada autoritária sem precedentes na história recente do país. Também ocorreram protestos em cidades europeias, como Berlim, Paris e Roma.
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A mobilização ocorre em meio a uma paralisação do governo federal, fruto de um impasse entre a Casa Branca e o Congresso, e reflete o que especialistas classificam como um momento crítico para a democracia americana. Com tropas federais sendo enviadas a cidades como Chicago, cortes em programas sociais, perseguição a imigrantes e tentativas de minar o equilíbrio entre os poderes, o governo Trump é acusado por manifestantes e analistas de avançar sobre as bases institucionais do país.
“Não há maior ameaça a um regime autoritário do que o poder popular patriótico”, declarou Ezra Levin, cofundador da ONG Indivisible, uma das principais articuladoras dos protestos, em entrevista à NPR.
A simbologia do nome “No Kings” remete aos princípios fundadores dos EUA, cuja independência foi conquistada sob o lema de rejeição à monarquia britânica. Ao associar Trump à figura de um rei — alguém acima das leis —, os manifestantes acusam o presidente de tentar concentrar poder e corroer o sistema de freios e contrapesos que sustenta a democracia americana.
A friend in DC had a Zoom call with Congressman Dave Taylor’s office today…
Taylor’s legislative correspondent, Angelo Elia, had what can only be described as an American swastika flag prominently displayed in his background. pic.twitter.com/zFn3QowS0c
— The Rooster (@rooster_ohio) October 15, 2025
Protestos em clima de resistência e festa
Na Times Square, em Nova York, fantasias coloridas, bandas marciais e cartazes criativos deram o tom de um protesto combativo, mas também familiar. Um homem vestido de unicórnio dizia: “Os unicórnios são pacíficos e livres, tudo o que Trump não é”. Para ele, a fantasia é uma forma de resistência simbólica — um recado contra o autoritarismo.
Em Chicago, a resposta federal foi mais severa. Tropas da Guarda Nacional foram enviadas para conter os atos, elevando a tensão. A presença militar é parte da nova estratégia do governo, que desde junho tem autorizado o uso de forças federais em cidades governadas por democratas, sob o pretexto de conter distúrbios civis. Para críticos, trata-se de um ensaio de militarização do espaço público.
“Trump está militarizando o país contra si mesmo”, disse a atriz Gabra Zachman, manifestante em Nova York. “É profundamente antiamericano usar forças federais para retirar cidadãos legais de suas casas e igrejas.”
Em todos os 50 estados, os protestos foram organizados com o apoio de entidades de direitos civis e movimentos progressistas, como MoveOn, Sunrise Movement e Black Lives Matter. As orientações nas redes sociais eram claras: marchar pacificamente, registrar abusos e evitar confrontos com a polícia.
Diversas causas, uma só crítica: o autoritarismo
Embora as pautas fossem variadas — da defesa dos imigrantes ao repúdio ao corte de verbas na saúde, passando pela exigência de abertura dos arquivos do caso Epstein —, o denominador comum era a crítica à concentração de poder nas mãos do Executivo.
A bombeira e reservista do Exército Jen Smith, presente na Times Square, levava um cartaz exigindo a divulgação dos documentos sigilosos do caso Epstein, nos quais acredita que Trump possa estar envolvido. “Eles estão protegendo bilionários enquanto os veteranos ficam sem salário”, denunciou. Ela também criticou os bônus milionários oferecidos a agentes do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas), enquanto setores essenciais do governo seguem paralisados.
“O governo está paralisado por culpa dos republicanos, que se recusam a empossar uma deputada eleita justamente porque seu voto abriria esses arquivos”, afirmou. “Cada vez que voltamos às ruas somos mais e mais. Ele está destruindo tudo em todas as frentes, mas as pessoas estão despertando.”
As mobilizações também ecoaram fora dos Estados Unidos, com protestos em frente às embaixadas americanas em Londres, Madri e Barcelona. Nos cartazes, mensagens como “Nada é mais patriótico do que protestar” e “Resista ao Fascismo” deixaram clara a gravidade das denúncias feitas ao governo Trump.
Congresso acuado e polarização extrema
A resposta do governo foi previsivelmente agressiva. O presidente da Câmara, Mike Johnson, chamou os protestos de “manifestação Hate America”, afirmando que se tratava de um ato da “extrema-esquerda marxista”. Ao lado dele, líderes republicanos classificaram os participantes como “comunistas” e “anarquistas anticapitalistas”.
Na outra ponta, Bernie Sanders, senador independente e ex-candidato à presidência, se posicionou abertamente a favor dos protestos: “É um comício de amor à América”, escreveu em sua página no Facebook.
O senador Chuck Schumer, líder democrata no Senado, também participou das mobilizações. Para ele, os atos expressam uma recusa legítima ao avanço autoritário do Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário.
“Trump está tentando governar por decreto, atropelando o Congresso e os tribunais. Isso é inaceitável em qualquer democracia”, declarou Schumer à CNN.
Esperança e resistência
Apesar do cenário tenso, muitos manifestantes demonstraram esperança na mudança. O nova-iorquino Mitch Shrager, que levou a filha de 13 anos ao protesto, resumiu o sentimento de parte da multidão: “Minhas filhas precisam crescer em um país com mais direitos do que os meus pais tiveram. Trump quer ser um ditador. Não podemos aceitar isso.”
A percepção de que as manifestações estão surtindo efeito começa a ganhar respaldo inclusive em meios tradicionalmente alinhados ao trumpismo. Segundo a atriz Gabra Zachman, até a Fox News, emissora historicamente pró-governo, reconheceu os excessos do presidente. “Se até a Fox começa a enxergar o que está acontecendo, talvez mais gente levante a voz”, disse.
O desafio para os organizadores agora é manter a mobilização crescente e transformá-la em ação política concreta. Nas palavras de Ezra Levin: “A força está na persistência. Democracia não é garantida — é construída, todos os dias.”
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