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Mundo
Retomada da dissuasão nuclear na Europa aumenta temor de um conflito global sem precedentes
Publicado em 06/03/2025 11:00 - Semana On
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A história raramente é generosa com os momentos que antecedem grandes catástrofes. As guerras mundiais do século XX foram precedidas por rearmamento acelerado, colapsos diplomáticos e uma perigosa combinação de hesitação e cálculo estratégico equivocado. Hoje, o mundo revive esse roteiro com a crescente militarização da Rússia, o afastamento dos Estados Unidos da defesa europeia e o esforço desesperado da União Europeia para reconstruir sua capacidade bélica.
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Após o autocrata russo Vladimir Putin ter ameaçado a Europa com retaliação nuclear – nos primeiros momentos da guerra na Ucrãnia – o presidente francês, Emmanuel Macron, também rompeu este tabu ao sugerir que a França poderia colocar seu arsenal nuclear à disposição dos aliados europeus, um movimento que sinaliza a deterioração da segurança no continente. Enquanto isso, Donald Trump, ao se reaproximar de Putin e cortar apoio militar à Ucrânia, alimenta uma nova arquitetura de instabilidade geopolítica, onde o risco de um conflito nuclear se torna mais real do que em qualquer outro momento desde a Guerra Fria.
Europa isolada, Rússia em expansão
A invasão da Ucrânia pela Rússia, iniciada em fevereiro de 2022, reconfigurou o equilíbrio de poder na Europa. A agressão de Moscou não apenas expôs a fragilidade da arquitetura de segurança do continente, mas também mostrou o limite da dependência europeia dos Estados Unidos. Durante o governo de Joe Biden, a Casa Branca foi um aliado de primeira hora de Kiev, fornecendo bilhões de dólares em armamentos e assistência econômica. No entanto, com a chegada de Trump à presidência, esse compromisso se desfez abruptamente.
A recente decisão de Washington de cortar o compartilhamento de inteligência com a Ucrânia e suspender toda ajuda militar reflete uma mudança drástica na política externa americana. O governo Trump argumenta que deseja forçar Kiev a aceitar um acordo de paz rápido e incondicional com Moscou, o que, na prática, representaria a capitulação da Ucrânia e uma vitória geopolítica sem precedentes para Putin. Esse realinhamento de Washington enfraquece o bloco ocidental e fortalece o expansionismo russo, aumentando o risco de que a guerra se estenda para além das fronteiras ucranianas.
A passividade americana diante das ambições de Putin não se resume à Ucrânia. A Rússia já anunciou planos de expansão militar sem precedentes, com um aumento de 300 mil soldados, 3.000 tanques e 300 aviões de caça até 2030. Esses números superam a capacidade bélica de qualquer país europeu, evidenciando que Moscou não pretende apenas consolidar suas conquistas na Ucrânia, mas também projetar poder sobre outras partes do continente.
A resposta europeia a essa escalada tem sido fragmentada. Enquanto alguns países buscam fortalecer suas capacidades militares, outros ainda resistem a essa reorientação estratégica. No entanto, diante da ameaça iminente, a União Europeia está sendo forçada a reavaliar seu papel como um bloco geopolítico independente.
ReArm Europe
A cúpula europeia realizada em Bruxelas consolidou a necessidade de um rearmamento acelerado e coordenado, sem depender dos EUA. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou para o cenário alarmante:
“O continente enfrenta um perigo claro e presente em uma escala que nenhum de nós viu em nossa vida adulta. O futuro de uma Ucrânia livre e soberana – de uma Europa segura e próspera – está em jogo.”
O plano ReArm Europe, proposto por von der Leyen, visa mobilizar 650 bilhões de euros para defesa nos próximos quatro anos, flexibilizando as restrições fiscais que limitavam os investimentos militares no bloco. O pacote inclui a criação de um mecanismo de 150 bilhões de euros em empréstimos garantidos para compras conjuntas de equipamentos estratégicos, como sistemas de defesa aérea e tecnologia cibernética.
Apesar das divergências internas, a tendência é que a proposta seja aprovada, pois o risco de colapso da segurança europeia tornou-se grande demais para ser ignorado. A Alemanha, que antes hesitava em expandir seus gastos militares, já anunciou um investimento adicional de 500 bilhões de euros para defesa, sinalizando uma guinada na política externa do país.
No entanto, o rearmamento convencional pode não ser suficiente diante do avanço russo e da erosão das garantias de segurança americanas. É nesse contexto que a dissuasão nuclear francesa surge como um fator central.
O tabu nuclear europeu foi quebrado?
Desde a Guerra Fria, a defesa nuclear da Europa sempre esteve sob a sombra dos Estados Unidos, com o guarda-chuva atômico da OTAN servindo como garantia contra ameaças externas. No entanto, com Trump deixando claro que os EUA podem não mais proteger o continente em caso de ataque russo, a França se vê forçada a assumir uma nova posição estratégica.
Macron, ao anunciar que colocaria o arsenal nuclear francês à disposição dos aliados, não apenas mudou a doutrina militar europeia, mas também enviou uma mensagem clara ao Kremlin: “A ameaça russa existe e afeta os países da Europa […] O futuro da Europa não precisa ser decidido em Washington ou Moscou.”
A França possui 290 ogivas nucleares, um número pequeno se comparado às 5.889 da Rússia e às 5.224 dos EUA, mas que ainda representa um fator dissuasório significativo. O problema é que a Europa nunca lidou sozinha com a responsabilidade da dissuasão nuclear, e muitos países membros da UE não se sentem confortáveis em confiar sua segurança exclusivamente à França.
Um cenário sombrio
O professor de relações internacionais Vinícius Vieira alerta para as implicações desse novo cenário: “Pela primeira vez em quase 75 anos, a Europa pode não estar mais protegida pelo arsenal nuclear ou pelas forças militares americanas. Isso pode estimular aventuras expansionistas não apenas da Rússia, mas também de outras potências.”
Se o isolamento americano persistir, o que impediria a Rússia de expandir suas ambições para além da Ucrânia? Países bálticos, Polônia e mesmo partes dos Bálcãs poderiam ser os próximos alvos, desafiando a capacidade da Europa de responder sem os EUA.
Além disso, a crise não se limita à Rússia. A China observa atentamente os desdobramentos da guerra na Ucrânia, enquanto amplia sua influência no Pacífico e aumenta a pressão sobre Taiwan. O Japão, por sua vez, tem debatido a possibilidade de adquirir armas nucleares para se proteger de ameaças regionais, uma mudança radical para um país historicamente pacifista.
Com a estabilidade internacional fragilizada, cresce o temor de que uma sucessão de crises militares possa gerar um efeito dominó, levando o mundo a um conflito de escala global.
O que esperar do futuro?
A Europa enfrenta um dilema existencial. Com os EUA em retração e a Rússia em expansão, os líderes europeus precisam decidir rapidamente se investirão na construção de uma defesa autônoma ou se continuarão apostando em uma aliança americana cada vez mais incerta.
O tempo para hesitação acabou. O cenário que se desenha é de um continente que precisa, mais uma vez, lutar pela sua própria sobrevivência, em um jogo onde cada erro pode ter consequências irreversíveis. O mundo está à beira do abismo, e o próximo passo determinará se a humanidade retrocederá para os erros do passado ou encontrará um novo caminho para a paz.
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