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Mundo

Racismo, conspiração e distração: Trump reacende o fogo do ódio político

Vídeo racista contra os Obama expõe método baseado no caos, na mentira e na erosão democrática

Publicado em 08/02/2026 11:42 - Semana On

Divulgação Reprodução

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O racismo, quando instrumentalizado pelo poder político, raramente é um acidente. Ele costuma surgir como linguagem, método e sinalização. Foi assim ao longo do século XX, nos regimes autoritários que transformaram o preconceito em política de Estado, e volta a se repetir no século XXI, agora amplificado por redes sociais, teorias conspiratórias e lideranças que fazem do choque permanente uma estratégia de sobrevivência. A mais recente demonstração desse padrão veio da Casa Branca, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, publicou — e depois apagou — um vídeo que retratava Barack Obama e Michelle Obama como macacos.

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Questionado por jornalistas, Trump afirmou não ter visto “a parte racista” do vídeo e disse que não pediria desculpas. “Eu não cometi nenhum erro. Quer dizer, eu analiso milhares de coisas. E eu vi o começo [do vídeo]. Estava tudo bem”, declarou ao embarcar no avião presidencial. Mesmo condenando o trecho final, insistiu que a responsabilidade não seria sua, pois se tratava de uma republicação. A justificativa foi reforçada com a alegação de que “provavelmente” ninguém de sua equipe teria visto o conteúdo completo.

O vídeo em questão tinha cerca de um minuto e reunia teorias da conspiração já amplamente desmentidas sobre uma suposta fraude nas eleições de 2020 — pleito vencido por Joe Biden e jamais reconhecido por Trump. Nos dois segundos finais, surgia a imagem racista do casal Obama em corpos de macacos. O simbolismo não é casual: Obama foi o primeiro presidente negro da história dos Estados Unidos, e a desumanização racial por meio da animalização é um dos mais antigos expedientes do racismo moderno, usado para legitimar exclusões, violências e hierarquias.

A repercussão foi imediata e ultrapassou as fronteiras partidárias. O senador Tim Scott, único republicano negro em exercício no Congresso, afirmou ter rezado para que o vídeo fosse falso, classificando-o como “a coisa mais racista que já vi vinda desta Casa Branca”. Já o deputado Mike Lawler disse que a publicação foi “extremamente ofensiva — seja intencional ou um engano” e defendeu que Trump, além de apagar o vídeo, pedisse desculpas públicas.

A tentativa de reduzir o episódio a um “erro” de funcionário — a clássica transferência de culpa para o elo mais fraco da cadeia institucional — não resistiu à análise política mais elementar. Se o conteúdo está no perfil oficial do presidente, a responsabilidade é presidencial. Mais do que isso: o contexto em que a postagem ocorreu desmonta a tese do acaso. O vídeo foi divulgado em meio a dezenas de publicações de Trump reiterando acusações falsas de fraude eleitoral em 2020, incluindo ataques à empresa Dominion Voting Systems. Essas acusações já custaram caro: a emissora Fox News, alinhada ao trumpismo, fechou um acordo extrajudicial de US$ 787 milhões com a Dominion para encerrar um processo de difamação.

A insistência na narrativa da fraude não é apenas ideológica; é estratégica. Trump enfrenta avaliações internas e externas de que pode perder a estreita maioria republicana na Câmara e no Senado nas eleições de novembro. O sinal de alerta soou alto no último sábado, quando o democrata Taylor Rehmet venceu uma disputa pelo Senado estadual do Texas em um distrito controlado por republicanos desde a década de 1990. Segundo a historiadora Heather Cox Richardson, Rehmet triunfou com uma margem de 14,4 pontos percentuais em um distrito que Trump havia vencido em 2024 por 17 pontos. “A virada de 32 pontos percentuais deixou os republicanos ‘em pânico total’”, afirmou a especialista.

É nesse ambiente de pressão eleitoral que o episódio racista ganha contornos mais nítidos. Não se trata de deslize, mas de método. A lógica é conhecida por estudiosos do autoritarismo: produzir escândalos sucessivos, preferencialmente carregados de ódio simbólico, para sequestrar o debate público e deslocar a atenção de temas sensíveis. A porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, explicitou essa inversão ao atacar a imprensa: “Parem com essa indignação falsa e relatem algo que realmente importe ao público americano hoje”. A acusação é paradoxal. Foi o próprio governo que criou um fato de alto teor simbólico — e irrelevante para políticas públicas concretas — para ocupar o espaço informativo.

Enquanto isso, questões incômodas permanecem à sombra: o aumento no preço dos alimentos, revelações envolvendo arquivos ligados ao falecido financista Jeffrey Epstein, antigo conhecido de Trump, e os protestos contra mortes atribuídas à atuação da agência de imigração ICE. O episódio ocorre, ainda, logo após Barack e Michelle Obama criticarem publicamente práticas da agência, classificando o assassinato de Alex Pretti como “uma tragédia devastadora” e alertando que “valores fundamentais da nação estão sob ataque”.

A política do choque permanente não é novidade. No Brasil, o mundo assistiu a estratégia semelhante durante o governo de Jair Bolsonaro, quando episódios grotescos e declarações ofensivas eram usados para monopolizar a atenção pública e diluir denúncias de corrupção ou a responsabilidade estatal por mais de 700 mil mortes na pandemia de Covid-19. O escândalo, nesse modelo, não é efeito colateral: é ferramenta.

A diferença, no caso de Trump, é a escala. Quando o presidente da principal potência mundial banaliza o racismo, recicla teorias conspiratórias e flerta abertamente com símbolos do fascismo, o risco ultrapassa a esfera moral ou institucional. Torna-se civilizatório. O filósofo alemão Theodor Adorno, ao analisar as raízes do autoritarismo, advertia que a desumanização do outro é sempre o primeiro passo para a normalização da violência. Ao chamar líderes negros de macacos — direta ou indiretamente — o trumpismo não apenas ofende indivíduos, mas sinaliza para sua base que o ódio racial segue autorizado.

Não houve erro. Houve cálculo — ainda que mal feito. Ao tentar mais uma distração, Trump e sua equipe subestimaram o impacto simbólico de atacar duas das figuras negras mais conhecidas do planeta. O resultado foi um incêndio político que saiu do controle. E quando se brinca de atear fogo ao debate público com racismo e mentira, as chamas não ficam restritas às redes sociais. Elas consomem instituições, corroem a confiança democrática e deixam marcas duradouras na vida real. Trump sabe disso. E, mesmo assim, continua apertando o isqueiro.

PENDURICALHOS


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