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Mundo

Quem vai parar o “ogro”? Trump ameaça a Dinamarca

Premiê do país diz que ataque dos EUA seria fim da Otan

Publicado em 06/01/2026 4:13 - Semana On

Divulgação Semana On - IA

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A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, alertou ontem (5) que um ataque dos Estados Unidos a um país da Otan seria o fim da aliança militar, em referência às ameaças do presidente Donald Trump de anexar a Groenlândia.

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“Se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da Otan, então tudo acaba. Isso inclui a nossa Otan e com ela a segurança que é fornecida desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, disse Frederiksen em entrevista à emissora TV2, classificando a situação como grave.

Frederiksen também afirmou que Trump deve ser levado a sério quando diz que quer a Groenlândia. “Não aceitaremos uma situação em que nós e a Groenlândia sejamos ameaçados dessa forma”, acrescentou.

A chefe do governo dinamarquês afirmou estar fazendo tudo o que é possível para impedir uma escalada das tensões, rejeitou as alegações de Washington sobre falhas de segurança no Ártico e sublinhou que a Dinamarca alocou cerca de 90 bilhões de coroas (1,2 bilhão de euros) para a segurança na região até 2025.

Em declarações recentes à revista The Atlantic, Trump reiterou que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia do ponto de vista da segurança nacional”.

O Ministério do Exterior da China instou os EUA a deixarem de usar a “ameaça chinesa” como pretexto para ganhos estratégicos, após Trump ter afirmado que há navios russos e chineses junto à costa da Groenlândia.

Líderes europeus manifestaram amplo apoio à Dinamarca e à Gronelândia, e a Comissão Europeia apelou ao respeito pelos princípios da soberania e da integridade territorial.

Por sua vez, nas redes sociais, o primeiro-ministro groenlandês, Jens-Frederik Nielsen, disse “agora basta” e descreveu as pretensões norte-americanas de anexação do território como uma “fantasia”.

Nielsen apelou ao diálogo, afirmando que este “deve ser feito através dos canais adequados e de acordo com o direito internacional”.

A União Europeia se mostrou solidária à Dinamarca e avisou que a Groenlândia não é “um pedaço de terra que está à venda”.

Já o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, considerou nesta segunda-feira que o futuro do território não deve ser deixado à mercê de Washington.

“Vou ser muito claro sobre a Groenlândia: o futuro da Groenlândia cabe à Groenlândia [e] ao Reino da Dinamarca”, afirmou em declarações à estação de TV britânica Sky News.

Dinamarca recebe apoio de europeus após ameaças de Trump

A Comissão Europeia e vários chefes de governo de países da Europa saíram em apoio à Dinamarca. A Comissão Declarou que a Groenlândia não é “um pedaço de terra à venda” e que “continuará defendendo os princípios da soberania nacional, da integridade territorial e da inviolabilidade das fronteiras”.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer, foi um dos primeiros a expressar apoio à Dinamarca. “Groenlândia e Reino da Dinamarca devem decidir o futuro da Groenlândia, e somente Groenlândia e Reino da Dinamarca”, afirmou Starmer à emissora BBC.

O ministro do Exterior da Alemanha, Johann Wadephul, lembrou que a Groenlândia, como parte da Dinamarca, que é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), seria defendida pela organização diante de uma eventual ameaça ao seu território.

Líderes de Espanha, França, Suécia e Noruega ressaltaram que a Groenlândia pertence aos groenlandeses e dinamarqueses, sendo eles os únicos a terem poder de decidir sobre o seu território.

As fronteiras “não podem ser alteradas pela força ou pela ameaça do uso da força,” destacou o Ministério do Exterior da França.

Já o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, afirmou que “da Ucrânia a Gaza, passando pela Venezuela”, o respeito à soberania e à integridade territorial dos Estados é “inegociável”. No fim de semana, ele havia se destaco como um dos  líderes europeus mais críticos na reação ao ataque dos EUA à Venezuela, em que o presidente Nicolás Maduro foi capturado.

“Não devemos entrar em pânico”

Jens-Frederik Nielsen, disse que as relações entre países e povos se constroem a partir do respeito e com base no direito internacional, e não em gestos simbólicos “que ignoram o nosso estatuto e os nossos direitos”.

Ao mesmo tempo, tanto ele quanto Frederiksen se afastaram de demonstrações de temor pela sua integridade territorial. “Acredito na democracia e na ordem internacional baseada em normas”, afirmou a primeira-ministra dinamarquesa.

“A situação não é tal que os Estados Unidos possam conquistar a Groenlândia. Por isso, não devemos entrar em pânico,” apontou Nielsen. “Devemos restabelecer a boa cooperação que tínhamos.”

Segundo ele, o governo do território adotará agora uma postura mais firme. O primeiro-ministro recusou, entretanto, qualquer paralelo com a Venezuela. “O nosso país não é comparável à Venezuela. Somos um país democrático. Temos sido assim há muitos e muitos anos.”

A nomeação no último mês do governador da Louisiana, Jeff Landry, como enviado especial dos EUA para a Groenlândia também desencadeou críticas dos governos dinamarquês e groenlandês, bem como um protesto formal junto ao embaixador americano.

A Groenlândia tem uma população de cerca de 57 mil habitantes em 2,1 milhões de quilômetros quadrados e depende da renda da pesca e da ajuda econômica anual da Dinamarca, que cobre cerca de metade de seu orçamento.

Segundo uma pesquisa divulgada em janeiro de 2025, 85% dos groenlandeses opõem-se à anexação aos Estados Unidos, e apenas 6% são favoráveis.

O Ogro

No século 19, a imprensa britânica passou a chamar Napoleão Bonaparte de Ogro — não por caricatura gratuita, mas como síntese de um poder que avançava sobre fronteiras alheias com apetite insaciável e desprezo pelas normas que sustentavam a ordem europeia.

Dois séculos depois, o paralelo incômodo se impõe. Ao tratar a Groenlândia como ativo estratégico negociável, Donald Trump revive uma lógica imperial que o mundo dizia ter enterrado com as guerras mundiais: a de que força, ameaça e chantagem podem substituir o direito internacional e a autodeterminação dos povos.

Como no tempo de Napoleão, a pergunta que ecoa nas capitais europeias não é apenas sobre a ambição de um homem, mas sobre quem — e até quando — estará disposto a contê-la. A história mostra que o “ogro” só avança quando encontra silêncio, cálculo ou medo; recua quando se depara com alianças coesas, limites claros e a recusa coletiva em normalizar o inaceitável.

O desfecho, como sempre, dirá menos sobre a voracidade do poder e mais sobre a coragem de quem decide enfrentá-lo.

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