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Mundo

Quem ganha e quem perde com a guerra de Trump e Israel contra o Irã

Esmagado entre interesses e cobiça, Líbano contabiliza mortes

Publicado em 09/04/2026 4:25 - Semana On

Divulgação The Independent

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Em meio ao frágil equilíbrio estabelecido após a interrupção das hostilidades diretas entre Irã, Estados Unidos e Israel, uma nova frente diplomática começa a se delinear — desta vez envolvendo o Líbano. O governo israelense anunciou ter autorizado a abertura de negociações diretas com Beirute “o mais rápido possível”, alegando atender a sucessivos pedidos do lado libanês.

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A iniciativa, contudo, não ocorre de forma autônoma. Nos bastidores, a movimentação reflete a crescente pressão de Washington para conter a expansão do conflito. Em conversa telefônica realizada na véspera, o presidente Donald Trump solicitou ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que moderasse os ataques em território libanês, segundo informações de um alto funcionário americano. A interlocução ocorreu logo após declarações públicas do líder israelense prometendo intensificar as ofensivas contra o Hezbollah.

Diante do apelo da Casa Branca, Netanyahu sinalizou disposição para ajustar sua postura, comprometendo-se a atuar como um “parceiro útil” no esforço de contenção — um indicativo de que, apesar da autonomia militar demonstrada nas últimas semanas, Israel segue condicionado às diretrizes estratégicas de seu principal aliado.

Trégua contestada e disputa de narrativas

O avanço diplomático ocorre em um ambiente marcado por interpretações conflitantes sobre os termos do cessar-fogo. Enquanto Estados Unidos e Israel sustentam que o acordo não abrange o Líbano, atores como Irã e Paquistão — este último mediador das negociações — defendem que a trégua deveria se estender ao território libanês.

A divergência não é meramente retórica. Ela influencia diretamente a legitimidade das operações militares em curso e fragiliza qualquer tentativa de estabilização imediata. Teerã, inclusive, advertiu que a continuidade dos bombardeios tornaria “inúteis” os esforços diplomáticos, elevando o tom em relação ao que considera uma violação do entendimento firmado.

Do lado libanês, o presidente Joseph Aoun busca consolidar uma saída negociada. Segundo ele, a proposta de cessar-fogo e abertura de diálogo direto recebeu resposta positiva inicial. Ainda assim, enfatizou que a interrupção das hostilidades é condição indispensável para qualquer avanço concreto.

Ofensiva militar persiste e agrava crise humanitária

Apesar das sinalizações diplomáticas, a dinâmica no terreno segue dominada pela lógica militar. Israel mantém ataques intensivos em áreas urbanas do Líbano, especialmente nos subúrbios ao sul de Beirute. Alertas de evacuação foram emitidos para diversos bairros densamente povoados, indicando a iminência de novos bombardeios.

Na quarta-feira, forças israelenses lançaram a maior ofensiva coordenada desde o início da operação militar em curso, ampliando significativamente o número de vítimas. Dados do Ministério da Saúde libanês apontam mais de 200 mortos e mais de mil feridos apenas nesse episódio.

O impacto acumulado do conflito é ainda mais expressivo. Desde a retomada das operações em larga escala, o número de mortos no Líbano chegou a 1.497, incluindo ao menos 130 crianças. Os feridos somam 4.639, enquanto mais de um milhão de pessoas foram deslocadas — um contingente que evidencia a magnitude da crise humanitária em curso.

Entre diplomacia e coerção: o impasse que redefine o conflito

O cenário atual revela um paradoxo recorrente em conflitos contemporâneos: negociações avançam simultaneamente à intensificação da violência. A abertura de canais diplomáticos, ainda que relevante, ocorre sob forte desconfiança e sem consenso mínimo sobre os próprios termos da trégua.

A atuação dos Estados Unidos, pressionando por moderação ao mesmo tempo em que sustenta a narrativa de exclusão do Líbano do acordo, expõe ambiguidades estratégicas que dificultam a estabilização do cenário.

Já Israel busca equilibrar dois objetivos potencialmente contraditórios: manter a pressão militar sobre o Hezbollah e, ao mesmo tempo, evitar o isolamento diplomático crescente. O Líbano, por sua vez, tenta transformar o custo humano do conflito em argumento político para acelerar negociações.

O resultado é um impasse instável, no qual cada movimento — seja no campo de batalha ou na mesa de negociação — redefine não apenas os rumos imediatos da crise, mas também o alcance real do cessar-fogo que, ao que tudo indica, ainda está longe de ser plenamente consolidado.

O cessar-fogo de duas semanas firmado entre Irã, Israel e Estados Unidos interrompe, ao menos temporariamente, um ciclo de 40 dias marcado por ataques intensos e sucessivas retaliações. A trégua ocorre após um período de devastação generalizada: milhares de mortos e feridos, deslocamentos em massa e destruição de infraestrutura civil em múltiplos territórios — do Irã a Israel, passando por diferentes pontos do Oriente Médio.

Mesmo com a suspensão formal das hostilidades entre Washington, Tel Aviv e Teerã, o conflito manteve desdobramentos imediatos. Israel intensificou sua ofensiva contra o Hezbollah, no Líbano, aliado estratégico do Irã. Horas após o anúncio do cessar-fogo, ataques de grande escala atingiram o país vizinho, resultando em mais de 200 mortes — o episódio mais letal desde a escalada iniciada em março.

A guerra, como frequentemente ocorre, não produziu vencedores inequívocos. Ainda assim, seus efeitos ultrapassam o campo de batalha e se projetam sobre a geopolítica global, influenciando alianças, fluxos energéticos e a distribuição de poder internacional.

Irã: sobrevivência política e vitória estratégica limitada

Epicentro do conflito, o Irã foi alvo de bombardeios conduzidos por Estados Unidos e Israel desde 28 de fevereiro, atingindo instalações militares e infraestrutura energética. Segundo o grupo de direitos humanos HRANA, mais de 3,6 mil pessoas morreram no país — entre elas o líder supremo aiatolá Ali Khamenei, além de membros da elite política e militar. O número inclui também civis, como 165 vítimas em uma escola feminina, majoritariamente crianças.

Apesar das perdas severas, o núcleo do regime permaneceu intacto. A ausência de colapso institucional frustrou expectativas externas de mudança de regime.

Como sintetiza o analista Ian Bremmer, não houve avanço concreto nesse sentido, tampouco uma estratégia consistente de “resgate” da população iraniana — objetivo inicialmente mencionado pelo governo americano.

Diante da pressão militar, Teerã adotou uma resposta de alto impacto: restringiu o tráfego no Estreito de Ormuz, permitindo a passagem apenas a países selecionados. A medida afetou diretamente cerca de um quinto do fluxo global de petróleo, elevando preços e ampliando o custo econômico do conflito para adversários.

A estratégia se mostrou eficaz. O Irã garantiu um cessar-fogo sem admitir derrota formal e ainda conseguiu impor um plano de negociação aceito por Washington como base para o diálogo. Internamente, o regime preserva a narrativa de resistência bem-sucedida, ganhando tempo para reorganização.

Estados Unidos: superioridade militar sem tradução política

O governo americano classificou o desfecho como uma “vitória total e completa”. A avaliação, porém, encontra resistência entre analistas.

Do ponto de vista militar, houve avanços concretos: capacidades balísticas, navais e parte do programa nuclear iraniano sofreram danos significativos. Esses resultados dialogam diretamente com o objetivo estratégico de impedir o desenvolvimento de armas nucleares por Teerã.

Ainda assim, os custos foram relevantes. Ataques iranianos comprometeram sistemas de radar e aeronaves avaliados em bilhões de dólares. Mais sensível, contudo, foi o impacto reputacional: ofensivas contra alvos no Golfo — incluindo infraestrutura crítica — abalaram a imagem dos EUA como garantidores da segurança regional.

A condução unilateral da guerra também tensionou relações com aliados europeus e com a Otan, já que Washington iniciou as operações sem ampla coordenação diplomática.

O cessar-fogo atende a uma prioridade central da Casa Branca: evitar a expansão do conflito para uma guerra regional de maior escala. Porém, ao retornar à mesa de negociações praticamente no mesmo ponto de partida, os EUA demonstram limitações em traduzir vantagem militar em ganhos políticos duradouros.

Israel: eficácia operacional sob crescente isolamento

Israel demonstrou capacidade de projeção militar ao atingir alvos em território iraniano e enfraquecer estruturas estratégicas do adversário. O apoio dos Estados Unidos permaneceu decisivo.

No entanto, a guerra também revelou fragilidades. Sistemas de defesa aérea foram submetidos a pressão contínua por mísseis iranianos, alguns dos quais conseguiram ultrapassar as barreiras e causar mortes — mais de 30 vítimas registradas.

No plano diplomático, os custos podem ser ainda mais significativos. Avaliações como a do acadêmico Fawaz Gerges, da London School of Economics, indicam que Israel pode emergir politicamente mais isolado, especialmente no relacionamento com países do Golfo, hoje menos inclinados a aprofundar laços.

China: ganho estratégico silencioso

A China surge como uma das principais beneficiárias indiretas do conflito. O deslocamento de recursos militares americanos para o Oriente Médio reduz a capacidade de atuação de Washington no Indo-Pacífico, região central da disputa entre as duas potências.

Além disso, a percepção de menor previsibilidade dos Estados Unidos entre seus próprios aliados favorece Pequim, que se apresenta como um ator mais estável no cenário internacional.

Durante a guerra, a China adotou uma postura de moderação, defendendo o cessar-fogo enquanto preservava seus interesses energéticos. Como principal compradora do petróleo iraniano — mais de 80% das exportações —, Pequim também se beneficia de preços frequentemente descontados e de estoques estratégicos robustos, capazes de amortecer choques no mercado.

Rússia: ganhos econômicos e vantagens indiretas

O aumento dos preços da energia impulsionou receitas russas em um momento de aperto fiscal decorrente da guerra na Ucrânia. Paralelamente, a flexibilização temporária de sanções por parte de alguns países, em busca de fontes alternativas de petróleo, abriu espaço adicional para Moscou.

Outro efeito relevante foi o desvio da atenção internacional do conflito ucraniano, aliviando a pressão política sobre o Kremlin.

No campo militar, a redistribuição de recursos dos Estados Unidos também impacta o apoio à Ucrânia, reduzindo a disponibilidade de sistemas de defesa essenciais.

Ainda assim, há um elemento de perda: o enfraquecimento do Irã — aliado estratégico — limita a influência russa no Oriente Médio.

Países do Golfo: vulnerabilidade exposta e ganhos seletivos

Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e outros países do Golfo foram diretamente atingidos por ataques iranianos, que danificaram infraestrutura energética avaliada em bilhões de dólares e abalaram a percepção de segurança regional.

Apesar disso, alguns atores conseguiram mitigar impactos. A Arábia Saudita manteve parte significativa de suas exportações ao contornar o Estreito de Ormuz por meio do Oleoduto Leste-Oeste, garantindo fluxo contínuo de petróleo e se beneficiando de preços elevados.

Já os Emirados Árabes Unidos enfrentam um desafio mais estrutural. Altamente dependentes de investidores e trabalhadores estrangeiros — que representam cerca de 90% da população —, os EAU viram sua imagem de porto seguro ser colocada em xeque, o que pode afetar diretamente seu modelo econômico.

Europa: pressão econômica e fissuras políticas

A elevação dos preços de energia atingiu consumidores e setores produtivos europeus, intensificando pressões inflacionárias em economias já fragilizadas. Ao mesmo tempo, disrupções nas rotas marítimas afetaram o comércio internacional.

Politicamente, o conflito expôs divisões no bloco ocidental. Países europeus resistiram a apoiar as ações militares dos Estados Unidos, recusando inclusive o uso de espaço aéreo para operações ofensivas.

A resposta de Washington — com ameaças de rever seu compromisso com a Otan — aumentou a tensão transatlântica, reacendendo debates sobre autonomia estratégica europeia.

Paquistão: protagonismo diplomático emergente

O Paquistão desempenhou papel central na mediação do cessar-fogo e deve sediar novas rodadas de negociação. Para o primeiro-ministro Shehbaz Sharif, trata-se de um avanço significativo na projeção internacional do país.

Com canais abertos tanto com Teerã quanto com Washington, Islamabad atuou como intermediário discreto durante semanas, facilitando a comunicação entre as partes.

O resultado fortalece sua posição como mediador regional e contrasta com a marginalização da Índia no processo — agravada pelo impacto negativo da alta dos preços de energia sobre sua economia.

No Líbano, negociações emergem sob bombardeios contínuos de Israel

Em meio ao frágil equilíbrio estabelecido após a interrupção das hostilidades diretas entre Irã, Estados Unidos e Israel, uma nova frente diplomática começa a se delinear — desta vez envolvendo o Líbano. O governo israelense anunciou ter autorizado a abertura de negociações diretas com Beirute “o mais rápido possível”, alegando atender a sucessivos pedidos do lado libanês.

A iniciativa, contudo, não ocorre de forma autônoma. Nos bastidores, a movimentação reflete a crescente pressão de Washington para conter a expansão do conflito. Em conversa telefônica realizada na véspera, o presidente Donald Trump solicitou ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu que moderasse os ataques em território libanês, segundo informações de um alto funcionário americano. A interlocução ocorreu logo após declarações públicas do líder israelense prometendo intensificar as ofensivas contra o Hezbollah.

Diante do apelo da Casa Branca, Netanyahu sinalizou disposição para ajustar sua postura, comprometendo-se a atuar como um “parceiro útil” no esforço de contenção — um indicativo de que, apesar da autonomia militar demonstrada nas últimas semanas, Israel segue condicionado às diretrizes estratégicas de seu principal aliado.

Trégua contestada e disputa de narrativas

O avanço diplomático ocorre em um ambiente marcado por interpretações conflitantes sobre os termos do cessar-fogo. Enquanto Estados Unidos e Israel sustentam que o acordo não abrange o Líbano, atores como Irã e Paquistão — este último mediador das negociações — defendem que a trégua deveria se estender ao território libanês.

A divergência não é meramente retórica. Ela influencia diretamente a legitimidade das operações militares em curso e fragiliza qualquer tentativa de estabilização imediata. Teerã, inclusive, advertiu que a continuidade dos bombardeios tornaria “inúteis” os esforços diplomáticos, elevando o tom em relação ao que considera uma violação do entendimento firmado.

Do lado libanês, o presidente Joseph Aoun busca consolidar uma saída negociada. Segundo ele, a proposta de cessar-fogo e abertura de diálogo direto recebeu resposta positiva inicial. Ainda assim, enfatizou que a interrupção das hostilidades é condição indispensável para qualquer avanço concreto.

Ofensiva militar persiste e agrava crise humanitária

Apesar das sinalizações diplomáticas, a dinâmica no terreno segue dominada pela lógica militar. Israel mantém ataques intensivos em áreas urbanas do Líbano, especialmente nos subúrbios ao sul de Beirute. Alertas de evacuação foram emitidos para diversos bairros densamente povoados, indicando a iminência de novos bombardeios.

Na quarta-feira, forças israelenses lançaram a maior ofensiva coordenada desde o início da operação militar em curso, ampliando significativamente o número de vítimas. Dados do Ministério da Saúde libanês apontam mais de 200 mortos e mais de mil feridos apenas nesse episódio.

O impacto acumulado do conflito é ainda mais expressivo. Desde a retomada das operações em larga escala, o número de mortos no Líbano chegou a 1.497, incluindo ao menos 130 crianças. Os feridos somam 4.639, enquanto mais de um milhão de pessoas foram deslocadas — um contingente que evidencia a magnitude da crise humanitária em curso.

Entre diplomacia e coerção: o impasse que redefine o conflito

O cenário atual revela um paradoxo recorrente em conflitos contemporâneos: negociações avançam simultaneamente à intensificação da violência. A abertura de canais diplomáticos, ainda que relevante, ocorre sob forte desconfiança e sem consenso mínimo sobre os próprios termos da trégua.

A atuação dos Estados Unidos, pressionando por moderação ao mesmo tempo em que sustenta a narrativa de exclusão do Líbano do acordo, expõe ambiguidades estratégicas que dificultam a estabilização do cenário.

Já Israel busca equilibrar dois objetivos potencialmente contraditórios: manter a pressão militar sobre o Hezbollah e, ao mesmo tempo, evitar o isolamento diplomático crescente. O Líbano, por sua vez, tenta transformar o custo humano do conflito em argumento político para acelerar negociações.

O resultado é um impasse instável, no qual cada movimento — seja no campo de batalha ou na mesa de negociação — redefine não apenas os rumos imediatos da crise, mas também o alcance real do cessar-fogo que, ao que tudo indica, ainda está longe de ser plenamente consolidado.

O que Israel busca na guerra no Líbano

A intensificação das operações israelenses no Líbano, nas últimas semanas, revela uma mudança de escala e de propósito. Mais do que uma reação pontual aos ataques do Hezbollah, a campanha militar passou a incorporar objetivos estratégicos mais amplos, combinando bombardeios aéreos, avanço terrestre e reconfiguração do espaço na fronteira norte.

Os ataques, que atingiram inclusive áreas densamente povoadas de Beirute e deixaram centenas de mortos, foram desencadeados após o lançamento de mísseis pelo Hezbollah em apoio ao Irã, no início de março. O episódio consolidou o colapso definitivo do cessar-fogo que vigorava desde novembro de 2024, encerrando um período já marcado por instabilidade recorrente.

Da contenção à neutralização: a mudança na doutrina militar

A atual ofensiva indica uma inflexão na lógica de segurança israelense. Tradicionalmente baseada na contenção de ameaças, a estratégia passa a buscar a neutralização estrutural de adversários considerados existenciais.

O Hezbollah ocupa posição central nesse cálculo. Com capacidade estimada de atingir praticamente todo o território israelense e dotado de uma estrutura militar sofisticada, o grupo é tratado por Tel Aviv como uma ameaça prioritária. A meta declarada por lideranças militares é clara: reduzir drasticamente — ou, no limite, eliminar — sua capacidade operacional.

Essa ambição, no entanto, esbarra em limites políticos e sociais. Especialistas apontam que o Hezbollah não é apenas uma força armada, mas também um ator institucional profundamente enraizado na sociedade libanesa, com representação parlamentar e base social consolidada. Nesse contexto, sua erradicação completa se mostra improvável, deslocando o foco para soluções territoriais e militares de longo prazo.

Segurança interna e cálculo político

Outro vetor central da ofensiva é a tentativa de restabelecer condições de segurança no norte de Israel. Desde a escalada iniciada em 2023, dezenas de milhares de civis foram deslocados de áreas próximas à fronteira, criando uma pressão interna significativa sobre o governo.

A campanha militar busca, portanto, criar condições para o retorno dessas populações — um objetivo que combina imperativos de segurança com demandas políticas domésticas. Ainda assim, analistas alertam que ganhos táticos no campo de batalha não necessariamente se traduzem em soluções duradouras, sobretudo diante da ausência de um projeto político consistente para o Líbano.

Enfrentamento indireto com o Irã

A ofensiva também se insere em uma disputa regional mais ampla. Israel considera o Hezbollah parte de uma rede de alianças articulada por Teerã, que inclui grupos armados no Iraque, na Síria e no Iêmen.

Ao atingir a milícia libanesa, Tel Aviv busca, simultaneamente, enfraquecer esse arranjo regional e limitar a capacidade de projeção indireta do Irã. Trata-se de uma estratégia que desloca o confronto para atores intermediários, mas com impactos diretos sobre o equilíbrio de poder no Oriente Médio.

Zona-tampão e risco de ocupação prolongada

Nesse contexto, ganha força a proposta israelense de criação de uma “zona de segurança” no sul do Líbano, estendendo-se até o rio Litani. O plano prevê não apenas presença militar contínua, mas também a demolição sistemática de infraestrutura local, incluindo casas e pontes — um indicativo de transformação duradoura da área.

Na prática, a medida implicaria o controle de uma faixa equivalente a cerca de 10% do território libanês. A iniciativa também envolve o deslocamento massivo de civis: aproximadamente 600 mil pessoas seriam impedidas de retornar às suas casas por tempo indeterminado, sob o argumento de garantir a segurança no norte de Israel.

O impacto social dessa política é significativo, atingindo sobretudo comunidades xiitas, base de apoio do Hezbollah, o que pode aprofundar tensões internas no Líbano e alimentar ciclos futuros de conflito.

Precedentes históricos e riscos de repetição

A proposta remete a um precedente relevante: a ocupação israelense do sul do Líbano entre 1982 e 2000, também estruturada sob o conceito de “zona de segurança”. À época, a permanência prolongada de tropas gerou desgaste interno em Israel e crescente rejeição da opinião pública, culminando na retirada sob o governo de Ehud Barak.

A retomada de uma estratégia semelhante levanta questionamentos sobre sua sustentabilidade política e militar. Ao mesmo tempo, reforça a percepção de que o conflito atual pode evoluir de uma operação de curto prazo para um engajamento prolongado, com custos crescentes para todos os envolvidos.

Entre objetivos militares e impasses estruturais

O avanço israelense no Líbano evidencia um dilema central: embora a ação militar possa alterar o equilíbrio imediato de forças, ela dificilmente resolve as causas estruturais do conflito.

A tentativa de impor uma nova realidade de segurança por meio de controle territorial e deslocamento populacional pode produzir ganhos táticos, mas também tende a aprofundar fraturas políticas e sociais já existentes.

Assim, a ofensiva em curso não apenas amplia a dimensão do conflito regional, como também sinaliza que, mesmo diante de iniciativas diplomáticas paralelas, a estabilização permanece condicionada a fatores que vão muito além do campo militar.

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Israel ameaça paz mundial ao ignorar trégua EUA/Irã e ampliar ataques no Líbano


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