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Mundo

Israel ameaça paz mundial ao ignorar trégua EUA/Irã e ampliar ataques no Líbano

Após ameaçar com "destruição de uma civilização", Trump recua e expõe erosão da credibilidade americana

Publicado em 08/04/2026 11:46 - Semana On

Divulgação Reprodução

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Mesmo após o anúncio de um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, Israel manteve sua ofensiva militar no sul do Líbano, numa decisão que tensiona ainda mais o cenário regional e coloca em xeque a efetividade — e a própria natureza — da trégua articulada pelo presidente Donald Trump.

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As Forças de Defesa de Israel (IDF) confirmaram, nesta quarta-feira (8), que os ataques ao território libanês continuarão. A justificativa apresentada pelo governo de Benjamin Netanyahu é direta: o acordo firmado na noite anterior não incluiria o Líbano. A declaração, no entanto, contradiz informações divulgadas por mediadores paquistaneses, que haviam indicado um cessar-fogo “em todos os lugares”, abrangendo também o território libanês.

Na prática, o que se observa é um descompasso entre o anúncio diplomático e a realidade no terreno. Segundo a emissora Al Jazeera, ataques israelenses persistiram em diversas áreas do sul do Líbano desde a entrada em vigor da trégua. Em contraste, o Hezbollah optou, ao menos inicialmente, por interromper suas ofensivas contra alvos israelenses, sinalizando adesão parcial ao acordo — ainda que sob forte desconfiança.

A assimetria nas ações alimenta a percepção de que Israel atua como um vetor de desestabilização no momento em que se esperava uma redução coordenada das hostilidades. O próprio Hezbollah alertou que o cessar-fogo pode “desmoronar completamente” caso o Líbano permaneça fora de sua abrangência. Em comunicado, o grupo também orientou civis a não retornarem às áreas evacuadas, indicando que o risco de novos ataques permanece elevado.

Enquanto isso, o Exército israelense intensificou medidas no terreno. O porta-voz militar Avichay Adraee emitiu ordens públicas para evacuação de regiões ao sul do rio Zahrani — movimento que sugere preparação para novas operações. Relatos locais apontam que bombardeios atingiram a cidade de Al Qalila na madrugada, deixando ao menos quatro mortos.

O pano de fundo é uma guerra que, desde o fim de fevereiro, já deixou mais de 1,5 mil mortos e mais de um milhão de deslocados no Líbano, segundo autoridades locais. Paralelamente, Israel tem sinalizado a intenção de expandir uma “zona tampão” no sul do país, o que reforça a percepção de uma estratégia territorial em curso sob o pretexto de segurança.

Do lado iraniano, a posição tem sido consistente: Teerã considera o Líbano parte de uma “frente única” e insiste que qualquer acordo precisa necessariamente incluí-lo. Essa leitura amplia o risco de escalada, já que a exclusão do território libanês do cessar-fogo pode ser interpretada como uma brecha deliberada — ou, no mínimo, uma falha estratégica relevante.

É nesse ponto que emergem dúvidas sobre o papel dos Estados Unidos. Embora o governo Trump tenha anunciado a trégua como um avanço diplomático, a rápida manifestação de Netanyahu — enfatizando que o Líbano está fora do acordo — levanta questionamentos sobre o grau de alinhamento entre Washington e Tel Aviv. Trata-se de uma divergência genuína ou de um arranjo tácito que permite a continuidade das operações israelenses enquanto se preserva a aparência de desescalada?

A ambiguidade se torna ainda mais evidente no comunicado do gabinete israelense, que, ao mesmo tempo em que apoia a suspensão dos ataques ao Irã, reafirma objetivos estratégicos amplos, como neutralizar ameaças nucleares e militares iranianas, sem qualquer menção à contenção no front libanês.

Internamente, a condução do governo Netanyahu também enfrenta críticas. O líder da oposição, Yair Lapid, classificou o acordo como um “desastre diplomático”, afirmando que Israel foi excluído de decisões centrais para sua própria segurança. Para ele, o primeiro-ministro falhou tanto no plano estratégico quanto no diplomático, acumulando danos que podem levar anos para serem revertidos.

O episódio expõe não apenas as fragilidades de um cessar-fogo anunciado sob pressão, mas também a complexa teia de interesses que molda o conflito. Se, por um lado, a trégua sugere um esforço de contenção, por outro, a continuidade dos ataques israelenses no Líbano indica que a estabilidade regional segue refém de decisões unilaterais — e possivelmente de acordos cujos termos reais permanecem longe do escrutínio público.

No limite, a pergunta que se impõe é inevitável: o cessar-fogo representa, de fato, uma tentativa de pacificação ou apenas uma pausa seletiva que legitima a continuidade da guerra por outros meios?

Escalada israelense e amplia crise humanitária no Líbano

Na sequência da manutenção dos ataques israelenses apesar da trégua anunciada, o impacto humanitário e a lógica estratégica por trás da ofensiva no Líbano ganham contornos ainda mais evidentes — e mais difíceis de dissociar de um padrão já observado em outros cenários recentes.

A história de Abu Mohammed, um libanês de 85 anos forçado a fugir às pressas sob bombardeios, ilustra o alcance concreto dessa escalada. Seu deslocamento não é um caso isolado, mas parte de um movimento massivo que já expulsou mais de um milhão de pessoas de suas casas desde o início da intensificação dos ataques. Ao mesmo tempo, milhares permanecem isolados no sul do país, após a destruição de infraestruturas essenciais como pontes e vias de acesso.

Os dados oficiais reforçam a dimensão da crise: até o fim de março, ao menos 1.247 pessoas haviam sido mortas — incluindo 124 crianças — e outras 3.680 ficaram feridas. A distribuição geográfica dos deslocados revela um padrão: as áreas mais atingidas coincidem com regiões densamente povoadas e, em muitos casos, historicamente marginalizadas, como o sul do Líbano, o Vale do Bekaa e os subúrbios de Beirute.

Paralelamente ao avanço militar, declarações de autoridades israelenses indicam que a operação vai além de objetivos imediatos de segurança. O governo de Benjamin Netanyahu tem defendido abertamente a expansão de uma “zona tampão” no sul do Líbano — conceito que, na prática, implica ocupação prolongada. Integrantes do alto escalão, como o ministro da Defesa, Israel Katz, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, chegaram a mencionar referências territoriais que avançam até o rio Litani, a cerca de 30 quilômetros da fronteira internacionalmente reconhecida.

Esse conjunto de ações — bombardeios contínuos, destruição de moradias, deslocamento em massa e ambições territoriais explícitas — tem sido frequentemente enquadrado no debate público como parte de um “conflito” bilateral entre Israel e Hezbollah. No entanto, essa leitura tende a simplificar — ou mesmo distorcer — a cronologia e a assimetria dos acontecimentos.

Mesmo antes da escalada atual, durante um cessar-fogo formalmente vigente entre novembro de 2024 e fevereiro deste ano, ataques israelenses já haviam causado centenas de mortes no Líbano, além de milhares de violações registradas por organismos internacionais. Esse histórico fragiliza a narrativa de que o país teria sido “arrastado” para a guerra a partir de ações isoladas do Hezbollah.

Além disso, a própria origem do conflito mais amplo — incluindo os ataques ao Irã em fevereiro — é apontada por especialistas como uma violação do direito internacional, o que adiciona uma camada de contestação jurídica à legitimidade das operações em curso.

A desproporção entre os impactos também desafia a retórica de equivalência frequentemente adotada. Enquanto o número de mortos no Líbano ultrapassa a casa dos milhares em poucas semanas, as baixas do lado israelense permanecem significativamente menores. Mais do que uma diferença quantitativa, esse contraste evidencia a natureza da ofensiva e seus efeitos sobre a população civil.

Nesse contexto, analistas apontam a repetição de um modelo operacional já empregado em Gaza: ataques sistemáticos à infraestrutura civil, restrição de acesso a recursos básicos, pressão sobre populações inteiras e justificativas baseadas no combate a grupos armados. Trata-se de uma lógica que combina objetivos militares com mecanismos de coerção coletiva, frequentemente direcionados a áreas associadas a determinados grupos políticos ou religiosos.

O conceito conhecido como “doutrina Dahieh” ajuda a compreender essa abordagem. Formulado por estrategistas militares israelenses, ele prevê a aplicação de força desproporcional contra áreas civis consideradas bases de apoio a adversários, com o objetivo de gerar pressão interna contra essas lideranças. No Líbano, sua aplicação se manifesta na intensidade e na frequência dos ataques a regiões densamente povoadas, como os subúrbios do sul de Beirute.

Enquanto isso, a crise humanitária se aprofunda. Em Beirute, milhares de deslocados vivem em condições precárias, dependentes de ajuda humanitária para alimentação e abrigo. A trajetória de Abu Mohammed — que já havia sido deslocado anteriormente e teve sua casa destruída — revela a recorrência desse ciclo ao longo das décadas.

Sua memória atravessa eventos-chave da história regional, desde a criação do Estado de Israel em 1948 até sucessivas ondas de deslocamento forçado. A referência constante a esse passado não é apenas simbólica: ela conecta a experiência atual a um processo histórico mais amplo de conflitos, ocupações e migrações forçadas que moldaram o Líbano contemporâneo.

No terreno, porém, o presente se impõe com urgência. Em meio a bombardeios recorrentes e ordens de evacuação, a perspectiva de retorno para milhares de famílias segue incerta. Ainda assim, como sugere a metáfora evocada por Abu Mohammed — comparando os deslocados a pássaros que sempre retornam ao seu território —, a disputa não se limita ao controle militar, mas envolve também pertencimento, memória e resistência.

Diante disso, a continuidade das operações israelenses no Líbano, mesmo sob a sombra de um cessar-fogo anunciado, reforça a percepção de que a estabilização da região permanece distante — e possivelmente subordinada a estratégias que extrapolam os termos formais da diplomacia recente.

Trump recua após ameaças extremas e expõe erosão da credibilidade dos EUA

A recorrência de ameaças seguidas por recuos na política externa de Donald Trump voltou ao centro do debate internacional após mais um episódio envolvendo o Irã. O padrão, já identificado por analistas e diplomatas, alimenta o acrônimo TACO (Trump Always Chickens Out), utilizado nos bastidores para descrever uma atuação marcada pela escalada retórica e posterior retração diante de momentos decisivos.

Desta vez, o presidente norte-americano chegou a declarar que “uma civilização inteira morrerá nesta noite” caso Irã não atendesse às suas exigências. No entanto, ao atingir o prazo imposto por ele próprio, anunciou um cessar-fogo de duas semanas. O movimento reforça uma dinâmica já observada: eleva-se o tom até o limite do inaceitável, cria-se um ambiente de tensão máxima e, em seguida, o recuo é apresentado como resultado bem-sucedido.

Embora aliados tentem enquadrar essa conduta como estratégia de negociação, a repetição do padrão tem produzido efeitos mais amplos. A retórica extrema, especialmente quando envolve a menção ao extermínio de populações inteiras, ultrapassa os limites do discurso político convencional e passa a operar como instrumento de pressão que normaliza cenários antes considerados impensáveis.

O episódio recente acentua essa preocupação. A menção explícita a um possível genocídio não foi acompanhada por ações equivalentes no campo militar imediato, mas contribuiu para ampliar o grau de instabilidade. Ao mesmo tempo, o envolvimento do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, cuja condução da guerra em Gaza já é alvo de críticas internacionais, adiciona um elemento de imprevisibilidade à equação.

Enquanto a retórica oscila, os efeitos concretos do conflito permanecem. Bombardeios têm atingido não apenas alvos militares, mas também infraestrutura civil, incluindo pontes e áreas urbanas. Há registros de milhares de vítimas civis, entre elas crianças. A ameaça de ataques a instalações essenciais, como usinas de dessalinização e geração de energia, amplia o risco humanitário ao comprometer recursos básicos à sobrevivência.

Nesse contexto, o TACO deixa de ser apenas uma expressão irônica sobre estilo político e passa a indicar um processo mais profundo: a banalização da violência extrema como linguagem diplomática. Cada declaração desse tipo desloca o limite do aceitável no debate público, ainda que posteriormente não se concretize em ação direta.

Internamente, a condução do conflito levanta questionamentos nos próprios Estados Unidos. A combinação de retórica apocalíptica com recuos táticos ocorre em paralelo a gastos bilionários em operações militares externas, o que reacende críticas sobre prioridades orçamentárias — especialmente diante de demandas domésticas por investimentos em saúde, educação e assistência social.

Do ponto de vista geopolítico, o cessar-fogo anunciado não representa uma vitória clara para Washington. Pelo contrário, indica limitações. A estrutura do regime iraniano permanece em grande medida intacta, apesar de perdas pontuais em sua liderança. Além disso, o controle do Estreito de Ormuz pelo Irã evidenciou a vulnerabilidade da economia global, dependente da estabilidade na região.

A credibilidade internacional dos Estados Unidos também sofreu abalos. Parceiros tradicionais têm reagido com cautela diante de declarações e decisões consideradas erráticas. Questionamentos sobre a solidez de alianças, como a OTAN, e sobre a viabilidade da cooperação transatlântica voltaram à pauta. Países do Golfo, historicamente alinhados a Washington, passaram a reavaliar os custos dessa parceria.

No campo militar, o episódio reforça uma constatação recorrente: superioridade bélica e orçamentos trilionários não garantem resultados decisivos, especialmente quando o adversário demonstra disposição para absorver danos significativos, inclusive sobre sua própria população.

A chamada doutrina de “paz pela força”, associada à atual administração, enfrenta, assim, seu primeiro grande teste com sinais de desgaste. A narrativa de vitória, sustentada pelo discurso oficial, contrasta com avaliações mais críticas que apontam para isolamento diplomático e eficácia limitada.

Esse cenário repercute inclusive entre a base política do presidente. Pesquisas indicam sinais de desilusão entre apoiadores que, até então, sustentavam o lema “Make America Great Again”. A percepção de incoerência entre discurso e resultados começa a corroer a confiança em uma liderança que prometia assertividade, mas tem alternado entre ameaças máximas e recuos estratégicos.

Ao final, a principal implicação pode não estar no recuo em si, mas na frequência com que o mundo passa a considerá-lo parte do jogo. A repetição desse ciclo — ameaça extrema seguida de retração — contribui para redefinir padrões de normalidade na política internacional. E, nesse processo, o risco maior não é apenas o comportamento de um líder, mas a gradual adaptação global a ele.

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