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Alheio ao mundo, Netanyahu ordena evacuação de cidades e amplia ataques
Publicado em 20/05/2025 1:31 - Semana On
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“Não ficaremos de braços cruzados.” A advertência, que em outros tempos poderia soar simbólica, agora carrega o peso da diplomacia em ruptura. Na segunda-feira (19), os líderes de França, Reino Unido e Canadá romperam o silêncio estratégico que por décadas blindou Israel de condenações mais duras no Ocidente. Em declaração conjunta, Emmanuel Macron, Keir Starmer e Mark Carney condenaram de forma explícita as ações militares do governo de Benjamin Netanyahu na Faixa de Gaza, classificando-as como “escandalosas” e “flagrantemente desproporcionais”. Mais que palavras, anunciaram que podem adotar “medidas concretas” — incluindo sanções — caso as violações continuem.
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O contexto é dramático: escolas, hospitais e infraestruturas civis transformaram-se em alvos frequentes da artilharia israelense, segundo reportagens de campo de veículos como The Guardian e Al Jazeera, enquanto a entrada de alimentos e ajuda humanitária no enclave palestino continua sistematicamente bloqueada. A resposta da comunidade internacional, por vezes hesitante, ganhou um novo tom com a declaração dos três líderes, que além de condenar as ações militares, também manifestaram apoio à criação de um Estado palestino como “contribuição para uma solução de dois Estados”.
Ruptura histórica com o alinhamento automático
A gravidade do posicionamento está no ineditismo: França, Reino Unido e Canadá — tradicionalmente alinhados com Israel, sobretudo em suas alianças militares e econômicas com os Estados Unidos — agora sinalizam um distanciamento. O gesto tem peso histórico e diplomático. Desde 1948, quando foi criado o Estado de Israel, o apoio ocidental tem sido um dos pilares de sua segurança estratégica, blindando o país de condenações no Conselho de Segurança da ONU e sustentando seu poder militar com bilhões em ajuda e acordos tecnológicos.
A mudança no discurso sinaliza um ponto de inflexão. A crítica aberta à “negação de assistência humanitária essencial” e a menção direta a possíveis “violações do Direito Internacional Humanitário” evocam os princípios da Convenção de Genebra, que proíbe ataques deliberados a civis e a infraestruturas indispensáveis à sobrevivência. Além disso, ao alertarem que “não hesitarão em tomar mais medidas”, incluindo sanções, Macron, Starmer e Carney recolocam o eixo do debate internacional sobre o Oriente Médio no campo dos direitos humanos — e não apenas da geopolítica.
Entre o direito à defesa e a barbárie
A retórica do direito à defesa, frequentemente invocada por Israel, voltou a ser mencionada na declaração: “Temos sempre apoiado o direito de Israel de defender os israelenses contra o terrorismo”. Mas os líderes ocidentais fazem uma distinção clara: a resposta israelense é, nas palavras deles, “totalmente desproporcional”.
A desproporção das ações militares — bombardeios indiscriminados em áreas densamente povoadas, ataques a estruturas civis e bloqueio humanitário — remete a debates centrais no Direito Internacional e na filosofia política. Como observou a jurista e professora de Harvard, Martha Minow, “a distinção entre autodefesa legítima e punição coletiva é a linha que separa a democracia da tirania”.
A escalada atual parece cruzar essa linha. Relatórios de organizações como Human Rights Watch e Anistia Internacional apontam para práticas que podem configurar crimes de guerra, o que amplia a pressão para que organismos internacionais — incluindo o Tribunal Penal Internacional — tomem posição mais firme.
A urgência de um Estado palestino
No centro da declaração está também a reafirmação de um projeto que, embora endossado há décadas por sucessivas resoluções da ONU, jamais se concretizou: a criação de um Estado palestino. “Estamos determinados a reconhecer um Estado palestino como uma contribuição para uma solução de dois Estados”, afirmam Macron, Starmer e Carney. A referência à conferência da ONU prevista para junho é um indício de que uma coalizão internacional pode estar se formando em torno desse objetivo.
A proposta de dois Estados não é nova — está no cerne dos Acordos de Oslo (1993), apoiados inclusive pelos EUA. Mas, desde então, o avanço dos assentamentos ilegais israelenses na Cisjordânia e a fragilização das instituições palestinas tornaram o cenário mais complexo. Mesmo assim, a defesa do direito à autodeterminação do povo palestino permanece como eixo central da paz duradoura, como destacaram os filósofos Edward Said e Noam Chomsky em diversas ocasiões.
A ocupação da Cisjordânia e o cerco permanente à Faixa de Gaza não apenas violam normas internacionais como agravam uma crise humanitária que já deixou milhares de mortos — a maioria civis — e uma geração inteira privada de dignidade. A ONU estima que mais de 75% da população de Gaza vive hoje em insegurança alimentar, sem acesso a água potável, eletricidade ou abrigo seguro.
Silêncio americano e o dilema do Ocidente
Curiosamente, os Estados Unidos — principal aliado de Israel — não aparecem na declaração. O silêncio de Washington sobre a ofensiva israelense tem sido criticado até mesmo dentro do Partido Democrata. Em março, o senador Bernie Sanders afirmou: “Estamos vendo crimes de guerra diante de nossos olhos. O apoio incondicional dos EUA a Netanyahu é moralmente indefensável” (CNN, 3 de março de 2025).
O dilema do Ocidente, portanto, está lançado: como conciliar o compromisso histórico com Israel com os valores democráticos e os direitos humanos? A resposta pode passar por uma mudança de paradigma — da geopolítica das alianças para uma ética da responsabilidade, como propunha Hans Jonas. Quando o sofrimento humano alcança a escala do que se vê em Gaza, a neutralidade se torna cumplicidade.
A advertência de França, Reino Unido e Canadá não é apenas um gesto diplomático. É um teste decisivo para a credibilidade do Ocidente diante das violações do direito internacional. É também uma oportunidade de reafirmar que a democracia, se quiser ser mais que um rótulo, precisa se comprometer com a justiça — inclusive fora de suas fronteiras.
O filósofo alemão Jürgen Habermas escreveu que “a legitimidade de um Estado moderno depende da sua disposição em reconhecer os direitos dos outros” (Direito e Democracia, 1992). O reconhecimento do Estado palestino, em meio a essa tragédia, pode ser um primeiro passo nessa direção — ainda que tardio, ainda que insuficiente.
Israel ordena evacuação em Gaza e amplia ofensiva militar
Na segunda-feira (19), o governo israelense deu mais um passo rumo à radicalização de sua ofensiva militar em Gaza ao ordenar a evacuação total de Khan Yunis — cidade com mais de 200 mil habitantes — e anunciar um “ataque sem precedentes” à região, considerada agora “zona de combate perigosa”. A ordem, divulgada por um porta-voz do Exército nas redes sociais, acende um novo alerta sobre o aprofundamento da crise humanitária no enclave palestino, já devastado por meses de conflito, deslocamentos forçados e escassez total de suprimentos.
A ação militar se intensifica no mesmo dia em que o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, declara publicamente a intenção de controlar “todas as partes de Gaza” e admite, pela primeira vez, a abertura “mínima” para a entrada de ajuda humanitária — após intensa pressão internacional e alertas de que Israel estaria prestes a cruzar uma “linha vermelha”.
“Temos que fazer isso de uma maneira que não seremos parados”, disse Netanyahu em uma gravação, em referência à ofensiva, enquanto reconheceu que senadores americanos — descritos como “nossos melhores amigos” — manifestaram preocupação com “imagens de fome” e a consequente perda de apoio externo.
A liberação parcial de ajuda, no entanto, contrasta com a gravidade da situação: segundo a ONU, apenas nove caminhões com alimentos conseguiram entrar em Gaza nesta segunda-feira, muito abaixo da média diária necessária para atender a uma população de mais de dois milhões de pessoas. O bloqueio prolongado — que já dura mais de dois meses — impediu a entrada de itens básicos como comida, medicamentos e combustível, levando agências internacionais a alertarem para o risco de fome generalizada.
Guerra total: operação militar e nova escalada
A nova fase da ofensiva foi batizada por Israel de “Operação Carruagens de Gideão”. Nas últimas 24 horas, 160 alvos foram atacados, de acordo com as Forças de Defesa de Israel, incluindo túneis, posições antitanque e depósitos de armamento. O Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas, afirma que ao menos 40 pessoas morreram nesta segunda-feira, incluindo sete refugiados em uma escola na região de Nuseirat e três civis em Deir Al-Balah.
Nos últimos oito dias, a contabilidade é brutal: 500 mortos, segundo dados locais. A guerra, que começou após o ataque liderado pelo Hamas a comunidades israelenses em 7 de outubro de 2023 — deixando 1.200 mortos, em sua maioria civis —, já fez mais de 53 mil vítimas fatais em Gaza, além de deslocar quase toda a população do território.
Em meio a esse cenário, as negociações por cessar-fogo mediadas pelo Catar voltaram a fracassar. Netanyahu condiciona um eventual fim da guerra à “desmilitarização completa de Gaza” e ao exílio de militantes do Hamas, enquanto líderes do grupo palestino afirmam que a intensificação da ofensiva representa uma “sentença de morte” para os reféns restantes.
O endurecimento do discurso de Netanyahu reflete não apenas o impasse diplomático, mas uma tentativa de sobreviver politicamente a uma coalizão dominada pela ultradireita israelense — avessa a qualquer concessão humanitária. Seu apelo à necessidade de “resolver de alguma forma o problema” foi claramente dirigido aos setores radicais de seu próprio governo, que rejeitam até mesmo a entrada mínima de ajuda.
Deslocamento em massa e o colapso da infraestrutura humanitária
Com a nova ordem de evacuação em Khan Yunis, somam-se centenas de milhares aos quase dois milhões de deslocados em Gaza — um território que já não possui corredores seguros, nem abrigos, nem serviços básicos em funcionamento. A escalada contínua da violência, segundo a ONU e organizações como a Human Rights Watch, ameaça consolidar um cenário de limpeza étnica, à medida que civis são expulsos de suas casas sem destino seguro.
Como afirmou a historiadora e especialista em Oriente Médio Ilan Pappé, em entrevista à Democracy Now! (2024): “O projeto sionista radicalizado que domina Israel hoje não busca apenas derrotar o Hamas, mas eliminar a viabilidade de qualquer presença palestina autônoma. Isso já não é apenas guerra — é engenharia demográfica com consequências genocidas.”
A postura de Netanyahu expõe o dilema moral e político de governos que, por décadas, sustentaram a aliança com Israel em nome de uma suposta afinidade democrática. Mas como advertiu o filósofo Jürgen Habermas, “democracias que abandonam o compromisso com os direitos humanos se tornam versões ocidentais do autoritarismo” (Direito e Democracia, 1992).
A crise em Gaza não é apenas uma tragédia humanitária — é um teste decisivo para a integridade do sistema internacional baseado em regras, acordos e princípios universais. A promessa de proteger civis, assegurar acesso a ajuda e respeitar a soberania dos povos está sendo desafiada em escala global. E o silêncio ou a hesitação diante disso representam mais que uma omissão: configuram cumplicidade.
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