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Mundo

Pesquisadores acusam Israel de genocídio “em tempo real”

Brasil lidera negociação na ONU para criação do estado da Palestina

Publicado em 19/05/2025 4:30 - Semana On

Divulgação Reprodução

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“Estamos diante do primeiro genocídio transmitido em tempo real, e mesmo assim as pessoas não se sensibilizam.” A frase do professor Walter Lippold, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), marcou um dos debates mais densos da CryptoRave, evento internacional sobre segurança digital e direitos humanos, encerrado no último sábado (17), em São Paulo. Ao lado do também pesquisador Deivison Faustino, da Universidade de São Paulo (USP), Lippold abordou o que classificou como o uso sistemático de tecnologias digitais por Israel para manter o controle e executar ataques contra civis palestinos.

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A fala ocorre em um momento simbólico: a semana em que palestinos lembram a Nakba, termo árabe que significa “catástrofe” e remete ao êxodo forçado de cerca de 750 mil palestinos em 1948, quando foi criado o Estado de Israel. O tema foi discutido na palestra “Condições Sociotécnicas do Genocídio Palestino”, que lotou um dos auditórios do evento.

Lippold afirmou que o genocídio em curso coloca civis palestinos, incluindo crianças, jornalistas e equipes de ajuda humanitária, como alvos deliberados. “O terror que essas tecnologias causam é psicológico, além do bombardeio físico. Há uma guerra mental, um terrorismo invisível sustentado pelo zumbido constante dos drones”, disse o historiador, ao destacar o impacto da vigilância permanente sobre a população de Gaza.

Tecnologia e necropolítica

O pesquisador defendeu que grandes empresas de tecnologia — as chamadas big techs — deveriam ser tratadas como “necrocorporações”, em referência ao conceito de necropolítica do filósofo Achille Mbembe, segundo o qual Estados e instituições decidem quem pode viver e quem deve morrer. “Há uma lógica de busca e caça por meio de tecnologias preditivas, que identificam rotas de deslocamento e padrões de comportamento, transformando qualquer civil em alvo potencial”, alertou Lippold.

Ele lembrou que esse tipo de estratégia já havia sido utilizada pelo governo de Barack Obama, nos Estados Unidos, que usou drones e sistemas de vigilância para neutralizar alvos com base em dados algorítmicos. “Durante o governo Obama, foram mortos indivíduos cuja identidade nem se conhecia. A predição substitui a identificação.”

De forma semelhante, disse, a chamada “dronificação da guerra” e o uso de dispositivos como pagers e walkie-talkies para acionamento de bombas são ferramentas empregadas por Israel. Um dos casos citados por ele ocorreu no Líbano, em 2024, quando uma menina de 9 anos foi morta por uma explosão controlada por um pager modelo AR-924.

Dados da ONU e crítica ao “racismo algorítmico”

Segundo um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), entre novembro de 2023 e abril de 2024, quase 70% das vítimas fatais em Gaza eram mulheres e crianças. Além disso, cerca de 80% dessas mortes ocorreram dentro de residências. Esses números reforçam, segundo os pesquisadores, a tese de que há uma política deliberada de extermínio de civis.

Para Deivison Faustino, autor do livro Colonialismo Digital: por uma crítica hacker-fanoniana, escrito em parceria com Lippold, é impossível compreender a atual violência sem entender o papel do racismo estrutural. “O racismo é um elemento sem o qual a gente não compreende o capitalismo. Ele está presente na construção de quem pode ser considerado ‘matável’”, afirmou.

Inspirados pela obra de Frantz Fanon, filósofo e psiquiatra martinicano, os pesquisadores argumentam que a atual guerra não é apenas localizada em Gaza. “Ela diz muito sobre nós que estamos fora. O colonialismo não acabou. A desumanização dos não europeus que Fanon denunciava ainda está em curso”, afirmou Lippold.

A resposta de Israel

O governo israelense rejeita categoricamente a acusação de genocídio. Em discurso ao Congresso dos Estados Unidos, em julho de 2024, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que tais denúncias visam “deslegitimar Israel, demonizar o Estado judeu e demonizar os judeus em todos os lugares”.

Na ocasião, o governo israelense apresentou mais de 30 documentos oficiais, incluindo atas de reuniões de gabinete, com o objetivo de demonstrar que foram adotadas medidas para proteger civis e ampliar a ajuda humanitária durante os primeiros meses do conflito.

A denúncia feita por Lippold e Faustino reacende o debate global sobre os limites da guerra tecnológica e da vigilância digital, especialmente quando empregadas em cenários de ocupação e conflito assimétrico. Ao questionar não apenas os ataques, mas os sistemas e estruturas que os sustentam, os pesquisadores colocam no centro da discussão uma pergunta incômoda: quais vidas estão sendo protegidas pela tecnologia — e quais estão sendo descartadas por ela?

Netanyahu promete controle total da Faixa de Gaza

Netanyahu afirmou nesta segunda-feira (19) que pretende manter o controle total sobre toda a Faixa de Gaza, mesmo sob crescente pressão internacional para aliviar o cerco ao enclave palestino e permitir a entrada de ajuda humanitária. Em pronunciamento em vídeo, Netanyahu declarou que Israel não recuará até alcançar uma “vitória completa” contra o Hamas, com a libertação dos reféns e a destruição total do grupo.

“Há uma luta enorme acontecendo, intensa. Vamos controlar todas as partes de Gaza”, afirmou o premiê, em meio ao avanço da ofensiva militar que, segundo ele, visa eliminar a capacidade de governança e combate do Hamas.

A declaração ocorre em um momento em que o país sofre críticas crescentes devido ao agravamento da crise humanitária em Gaza. Imagens de desnutrição severa e escassez de alimentos levaram líderes internacionais, incluindo parlamentares norte-americanos aliados históricos de Israel, a alertar que o país se aproxima de uma “linha vermelha” ética e diplomática.

Ofensiva militar intensificada no sul de Gaza

Na sexta-feira (16), as Forças de Defesa de Israel (FDI) anunciaram o início de uma nova etapa da operação militar no território palestino, batizada de “Operação Carruagens de Gideão”. Nesta segunda-feira, os militares emitiram novos alertas para que moradores da cidade de Khan Younis, no sul da Faixa, deixem imediatamente a região costeira, diante da iminência de um “ataque sem precedentes”.

Segundo as FDI, ao longo das últimas 24 horas foram realizados ataques a 160 alvos em Gaza, incluindo posições antitanque, estruturas subterrâneas e depósitos de armas. Ainda de acordo com o Exército, a ofensiva visa destruir o aparato militar do Hamas e facilitar a recuperação dos 58 reféns que permanecem em cativeiro desde o ataque do grupo em outubro de 2023.

Médicos palestinos informaram que ao menos 20 pessoas foram mortas durante a noite em consequência dos ataques aéreos israelenses.

Ajuda humanitária limitada após pressão internacional

Apesar da retórica beligerante, Netanyahu foi forçado a ceder parcialmente à pressão externa e autorizou a entrada limitada de caminhões de ajuda humanitária na Faixa de Gaza. Repórteres da agência Reuters relataram a movimentação de veículos transportando alimentos e suprimentos em direção ao norte do território palestino.

O premiê israelense reconheceu em seu pronunciamento que senadores dos Estados Unidos — país considerado o principal aliado internacional de Israel — manifestaram preocupação com o impacto das imagens de fome na opinião pública global. “Essas cenas estão drenando o apoio vital. É por isso que, para alcançar a vitória, temos que resolver o problema de alguma forma”, disse Netanyahu, em um aparente recado às alas mais radicais de seu governo, que vinham defendendo o bloqueio total da ajuda, sob o argumento de que os recursos beneficiariam o Hamas.

Cenário crítico em Gaza

Desde o início da guerra, em outubro de 2023, milhares de palestinos foram mortos (mais de 53 mil, a maioria mulheres e crianças), e a infraestrutura básica do território colapsou, segundo organismos internacionais. A ONU e diversas organizações humanitárias vêm alertando para o risco iminente de fome generalizada, sobretudo entre crianças e idosos. Estima-se que mais de 80% da população de Gaza esteja deslocada internamente, vivendo em condições precárias, sem acesso regular a água potável, alimentos e atendimento médico.

Mesmo assim, a linha adotada por Netanyahu segue inflexível, centrada na lógica de segurança nacional e eliminação do Hamas, o que deve prolongar o conflito e ampliar o custo humanitário.

Brasil assume protagonismo na ONU para viabilizar Estado da Palestina

O Brasil assumiu a presidência de um grupo de trabalho estratégico nas Nações Unidas com o objetivo de estabelecer as bases legais para o reconhecimento internacional do Estado da Palestina. A iniciativa, proposta por França e Arábia Saudita, ocorre em meio à intensificação da crise humanitária em Gaza e à estagnação do processo de paz no Oriente Médio.

Décadas após desempenhar papel central na criação do Estado de Israel — com a atuação histórica do diplomata Oswaldo Aranha na aprovação da Resolução 181 da ONU, em 1947 —, o país agora se posiciona como líder nos esforços para concretizar a chamada solução de dois Estados, com fronteiras seguras, viabilidade econômica e reconhecimento internacional.

O embaixador Sérgio Danese, representante permanente do Brasil na ONU, detalhou a missão do grupo que conduzirá: “Identificar ações concretas que os Estados possam adotar para cumprir e promover o cumprimento do direito internacional e das resoluções relevantes da ONU, a fim de facilitar e acelerar a solução pacífica da Questão da Palestina”, afirmou.

Missão central em contexto crítico

O Brasil ficou encarregado de coordenar o Grupo de Trabalho sobre a Promoção do Respeito ao Direito Internacional para a Implementação da Solução de Dois Estados, uma das frentes centrais da nova iniciativa diplomática, que inclui outros sete grupos. O país divide a responsabilidade com o Senegal.

A ação internacional ganha força após os ataques israelenses em Gaza e a intensificação da ocupação de territórios palestinos nos últimos anos — sob as gestões de Benjamin Netanyahu e, anteriormente, com o apoio político do ex-presidente norte-americano Donald Trump. Os recentes episódios de destruição em massa reacenderam o alerta de que a criação de um Estado palestino pode se tornar inviável, caso não haja resposta firme da comunidade internacional.

Conferência internacional em julho e pressão diplomática

O esforço diplomático visa culminar em uma cúpula internacional em julho, em que a Palestina possa ser oficialmente reconhecida como um Estado soberano e independente, passo fundamental para sua entrada plena na ONU. Atualmente, 140 países — incluindo o Brasil — já reconhecem a Palestina. No entanto, o reconhecimento oficial pela ONU permanece travado pelo veto dos Estados Unidos e de Israel no Conselho de Segurança.

Mesmo assim, França, Arábia Saudita e outros aliados latino-americanos, europeus e árabes esperam que a conferência pressione politicamente Washington e Tel Aviv, evidenciando seu isolamento diplomático.

Base legal: direito internacional como pilar da paz

Sérgio Danese reiterou o compromisso com o direito internacional humanitário, os direitos humanos e a Carta das Nações Unidas, afirmando que esses instrumentos “devem servir como escudo para proteger os civis e trabalhadores humanitários e orientar a concretização dos direitos inalienáveis do povo palestino”.

Para isso, o Brasil já enviou uma série de perguntas aos governos de todo o mundo, com base no Parecer Consultivo da Corte Internacional de Justiça, emitido em julho de 2024, que reafirma as obrigações legais dos Estados no cumprimento do direito internacional. Os países têm até 22 de maio para responder.

Com base nas respostas, o Brasil e o Senegal elaborarão uma primeira versão do documento final, a ser distribuída a todos os Estados-Membros da ONU em 29 de maio. Uma reunião de avaliação está prevista para 5 de junho, em Nova York, e a versão final do texto será entregue à França e à Arábia Saudita até 10 de junho, que atuam como co-presidentes da conferência.

Danese encerrou sua declaração com um apelo à comunidade internacional:
“Acreditamos firmemente que o direito internacional não é apenas um conjunto de princípios a serem respeitados: ele também é um roteiro para a justiça e a paz. Com cooperação significativa e vontade política, podemos abrir caminho para um futuro em que a justiça e a paz prevaleçam.”

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