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Mundo
Aposentados enfrentam gás lacrimogêneo e cassetetes em manifestação por direitos
Publicado em 13/03/2025 11:17 - Semana On
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Buenos Aires ardeu em revolta ontem (12), quando uma manifestação que deveria ser apenas mais um capítulo na já tradicional mobilização dos aposentados tomou dimensões inesperadas. O que começou como um protesto semanal contra a precarização da previdência social transformou-se em um episódio de confronto aberto entre manifestantes – a maioria idosos – e forças de segurança, marcando uma das mais violentas repressões desde a posse de Javier Milei.
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Com um governo que aplica políticas econômicas radicais sob o manto do ultraliberalismo, o país assiste ao empobrecimento acelerado de sua população idosa, ao mesmo tempo que vê a insatisfação popular transbordar das margens para o centro do debate público. A participação massiva de torcidas organizadas na marcha não apenas aumentou a visibilidade da causa, mas também reavivou um elo histórico entre o futebol e a política argentina, potencializando a força dos protestos.
O preço da austeridade
Desde que assumiu a presidência, Javier Milei tem implementado um ajuste econômico severo, vendendo a ideia de que somente um “choque de realidade” salvará a Argentina da ruína. Suas políticas de desregulação de preços, corte de subsídios e drástica redução do gasto público conseguiram reduzir a inflação de 211,4% para 117,8% em um ano – um feito que seu governo exibe com orgulho. No entanto, esse mesmo ajuste fiscal trouxe consequências devastadoras para a maioria da população.
A destruição da rede de proteção social atingiu em cheio os aposentados, um dos segmentos mais vulneráveis da sociedade. Atualmente, quase 60% dos aposentados recebem o benefício mínimo, equivalente a R$ 1.970, valor insuficiente para cobrir despesas básicas, especialmente após o aumento desenfreado dos preços de medicamentos e serviços essenciais. Além disso, o governo congelou um bônus adicional de aproximadamente R$ 406, que ajudava a minimizar as perdas inflacionárias.
A crise previdenciária se agravará ainda mais com o fim iminente da moratória previdenciária, medida que permitia que pessoas se aposentassem sem terem cumprido os 30 anos de contribuição. Com sua extinção, milhares de idosos ficarão sem acesso ao benefício. Para muitos manifestantes, a reversão dessas medidas tornou-se uma questão de sobrevivência.
“O povo está acordando para o que esse governo maldito está fazendo”, declarou Cristina Delgado, de 85 anos, uma das manifestantes, expressando o sentimento de milhares de aposentados. “Passei por quatro ditaduras, mas isso aqui é pior, porque acontece na democracia.”
Da arquibancada às ruas
Se há algo que o futebol argentino tem de único, além da paixão das arquibancadas, é sua capacidade de se entrelaçar com a política. Historicamente, as torcidas organizadas desempenharam um papel crucial em momentos de efervescência social. Durante a ditadura militar (1976-1983), os estádios foram palco de protestos velados, e nas crises econômicas dos anos 2000, os “barras bravas” participaram ativamente de manifestações contra o governo.
O engajamento dos torcedores na luta dos aposentados começou de forma espontânea, após a repercussão de um vídeo que mostrava um idoso vestindo a camisa do Chacarita Juniors sendo atingido por gás lacrimogêneo durante uma marcha. A cena gerou indignação, e rapidamente torcedores de outros clubes aderiram à causa. O movimento ganhou ainda mais força com a viralização de um vídeo de Diego Maradona, em que, ainda em 1992, ele afirmava: “Tem que ser muito covarde para não defender os aposentados.”
A frase do ídolo tornou-se um lema dos protestos, e torcedores de Boca Juniors, River Plate, Racing, Independiente e outros clubes passaram a comparecer às manifestações vestindo suas cores e entoando gritos de apoio.
Para Iván Schuliaquer, cientista político da Universidade Nacional de San Martín, essa aliança entre torcedores e aposentados ampliou o alcance da mobilização. “O que começou com um grupo de torcedores do Chacarita possibilitou colocar na agenda um tema que estava marginalizado: a situação dos aposentados”, afirmou à AFP.
A violência do estado e a resistência popular
A repressão ao protesto expôs a face autoritária de um governo que se apresenta como defensor da liberdade, mas que, na prática, criminaliza a dissidência. A polícia agiu com força desproporcional, utilizando gás lacrimogêneo, balas de borracha e caminhões hidrantes contra idosos e torcedores.
A cena mais brutal foi a agressão a uma idosa, que caiu desacordada no chão após ser atingida por um golpe de cassetete. Outra vítima foi o fotógrafo Pablo Grillo, que sofreu uma fratura no crânio ao ser atingido por uma cápsula de gás lacrimogêneo e precisou passar por cirurgia de emergência.
“Em anos anteriores, não havia repressões tão violentas contra aposentados como as que vimos nas últimas semanas”, afirmou o sociólogo Jorge Elbaum, em entrevista à AFP. “Isso gerou uma reação da sociedade, que assiste atônita enquanto idosos são atingidos por gás lacrimogêneo.”
Em resposta às críticas, a ministra da Segurança, Patricia Bullrich, divulgou uma imagem de policiais alinhados e escreveu: “O trânsito não é interrompido e os torcedores, na calçada.” A tentativa de minimizar a violência policial foi desmontada pela enxurrada de vídeos que circulam nas redes sociais, evidenciando a brutalidade da repressão.
A Argentina à beira da ebulição
O que começou como um protesto isolado pode ter sido o estopim para uma revolta popular mais ampla. Os panelaços que tomaram Buenos Aires após a repressão indicam que o descontentamento não se restringe aos aposentados ou torcedores, mas reflete um esgotamento geral da sociedade com a política de Milei.
Os gritos que ecoaram nas ruas não são apenas contra a violência policial, mas contra a destruição do Estado de bem-estar social. “Que se vão todos!” – lema que marcou a crise de 2001 – voltou a ser entoado, indicando que a paciência do povo argentino está no limite.
A questão que se impõe agora é: até onde Javier Milei conseguirá sustentar sua agenda ultraliberal diante de uma sociedade cada vez mais mobilizada e disposta a resistir? A história argentina mostra que governos que apostam na repressão e no arrocho econômico costumam ser confrontados nas ruas. E, se a quarta-feira violenta em Buenos Aires serve de indicativo, a resistência apenas começou.
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