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Mundo

Trump impõe tarifas sobre aço e alumínio e projeta ‘tempos difíceis’

União Europeia e China retaliam, economistas alertam para o impacto nos preços

Publicado em 12/03/2025 12:57 - Semana On

Divulgação Semana On

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O governo de Donald Trump deu início a uma nova e turbulenta fase da economia global. Com a entrada em vigor das tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio importados, os Estados Unidos reacendem um conflito comercial que pode ter implicações devastadoras para o comércio mundial. Justificadas sob o argumento de segurança nacional, as medidas afetam diretamente parceiros estratégicos, como Brasil, Canadá, México e União Europeia, e provocam retaliações que podem desencadear uma espiral de desestabilização econômica.

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No mercado interno, a decisão contradiz promessas centrais da campanha de Trump. O republicano prometeu recuperar o poder aquisitivo dos americanos e garantir uma economia próspera, mas agora admite que a política tarifária pode gerar “dor” no curto prazo. Com inflação persistente, risco de desemprego no setor manufatureiro e um cenário de incerteza para investidores, os EUA correm o risco de repetir erros históricos, colocando em xeque sua posição de liderança econômica mundial.

O protecionismo como resposta e suas contradições

A decisão de Trump de impor tarifas à importação de metais representa um retorno às práticas protecionistas que marcaram períodos de instabilidade econômica global. A lógica é simples: elevar as taxas de importação tornaria os produtos estrangeiros mais caros, forçando indústrias a consumir a produção nacional. O problema, no entanto, reside nas consequências dessa política.

Historicamente, medidas protecionistas têm um efeito paradoxal. Ao proteger setores específicos, elas elevam custos para toda a cadeia produtiva, prejudicando a competitividade das empresas e, no longo prazo, aumentando o desemprego. O exemplo mais emblemático ocorreu nos anos 1930, quando o Smoot-Hawley Tariff Act elevou drasticamente tarifas sobre produtos estrangeiros nos EUA. A resposta de outros países foi imediata: retaliações comerciais levaram a uma queda brutal no comércio global, agravando a Grande Depressão.

No caso das tarifas sobre o aço e alumínio, o cenário é semelhante. O impacto direto será sentido nos setores que dependem desses insumos, como a indústria automobilística, a construção civil e a fabricação de eletrodomésticos. Relatórios do Center for Economic and Policy Research indicam que os preços de automóveis nos EUA podem subir em pelo menos US$ 1.000, enquanto a Associação Nacional de Construtores estima que os custos de habitação também serão repassados ao consumidor.

Além disso, o histórico das tarifas impostas por Trump em seu primeiro mandato já demonstrou que os efeitos econômicos podem ser contrários ao esperado. Estudo da Universidade da Califórnia revelou que o setor manufatureiro perdeu 75 mil empregos devido ao aumento dos custos industriais. O Peterson Institute for International Economics calculou que cada emprego salvo na siderurgia custou mais de US$ 900 mil aos contribuintes americanos. Isso ocorre porque, ao encarecer insumos básicos, as tarifas minam a capacidade de produção e reduzem a competitividade global das empresas americanas.

O impacto no Brasil e a resposta internacional

O Brasil, segundo maior exportador de aço para os EUA, será fortemente impactado pelas medidas. Em 2024, o país exportou 4,1 milhões de toneladas de aço para o mercado americano, atrás apenas do Canadá, com 6 milhões. As siderúrgicas brasileiras, como ArcelorMittal, Ternium e CSN, estão entre as mais expostas ao novo cenário. A Gerdau, que possui operações nos EUA, pode sentir menos os impactos diretos, mas o setor como um todo sofrerá com a retração do mercado.

Apesar disso, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva optou por não adotar retaliações imediatas. Segundo o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a estratégia brasileira será de diálogo e negociação, já que as tarifas “não são um bom negócio nem para os próprios americanos”. O argumento do governo brasileiro é que a decisão de Trump se baseia em um diagnóstico equivocado sobre as exportações do Brasil.

A resposta da União Europeia, por outro lado, foi contundente. A Comissão Europeia anunciou retaliações equivalentes a US$ 26 bilhões, atingindo setores estratégicos para os EUA. Entre os produtos tarifados estão soja, carne bovina e frango, que têm grande peso em estados tradicionalmente republicanos, como Nebraska e Kansas. A inclusão de motocicletas Harley-Davidson e produtos de madeira também faz parte da estratégia europeia de atingir setores simbólicos da economia americana.

A China, maior produtora de aço do mundo, também reagiu. O governo de Pequim classificou as tarifas como “uma violação grave das regras da OMC” e prometeu tomar “todas as medidas necessárias” para defender seus interesses. A expectativa é que o país asiático mire sua retaliação em produtos agrícolas americanos, um movimento que poderia prejudicar ainda mais os produtores rurais dos EUA.

O Japão e o Reino Unido expressaram decepção com a decisão americana, mas não anunciaram medidas imediatas de retaliação. O Canadá, que será o país mais atingido pelas tarifas (fornecendo 20% do aço e 50% do alumínio importados pelos EUA), vive um impasse. O primeiro-ministro canadense, Justin Trudeau, enfrenta pressão interna para responder de forma enérgica, especialmente após Trump ameaçar elevar tarifas para 50% e, depois, recuar da decisão.

Inflação e os desafios internos de Trump

A imposição das tarifas ocorre em um momento delicado para a economia americana. A inflação, que vinha dando sinais de desaceleração, caiu para 2,8% em fevereiro, abaixo das expectativas do mercado. O índice anual ainda reflete um período de alta nos últimos meses, e economistas alertam que o impacto das tarifas pode reverter essa tendência.

Os preços de moradia, passagens aéreas e combustíveis tiveram uma leve queda, mas o custo de alimentos segue pressionando os consumidores. O preço dos ovos subiu 58% em um ano, enquanto o café teve alta de 6% e o frango, 7,7%. O Federal Reserve, que avalia possíveis cortes na taxa de juros, agora enfrenta um dilema: reduzir os juros para estimular a economia ou mantê-los para evitar uma nova escalada inflacionária.

Trump, que durante a campanha prometeu melhorar o poder de compra dos americanos, agora adota um discurso mais cauteloso. Seu governo já admite que os impactos das tarifas podem ser dolorosos no curto prazo e fala em um “período de transição”. No entanto, o risco de uma recessão torna-se cada vez mais real, especialmente se a guerra comercial se intensificar.

O dilema do isolacionismo econômico

O retorno do protecionismo marca uma guinada na política econômica americana e levanta um questionamento fundamental: até que ponto os EUA podem se isolar do comércio global sem sofrer consequências negativas? O próprio histórico econômico do país sugere que o livre comércio foi um dos principais motores de crescimento ao longo do século XX. A abertura de mercados, a diversificação de cadeias produtivas e a interdependência global permitiram avanços tecnológicos e a expansão da economia americana.

Ao contrário do que prega Trump, a segurança econômica dos EUA não depende do fechamento de suas fronteiras comerciais, mas da capacidade de adaptação às dinâmicas globais. Como alertou o economista Paul Krugman, “tarifas podem proteger setores específicos, mas no longo prazo destroem mais empregos do que criam”.

Com os mercados em alerta, a inflação ainda como um fator de preocupação e aliados retaliando as medidas protecionistas, resta saber se Trump seguirá adiante com essa estratégia ou se, mais uma vez, terá que recuar. O preço a pagar pode ser alto demais – tanto para a economia americana quanto para sua credibilidade política.

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