Entre em nosso grupo

2

WhatsApp Semana On

21/06/2026 - Desde 2009 informando com qualidade

Nos apoie:

Chave PIX:

19.485.790/0001-70

QR Code para doação

Mundo

‘Mundo livre precisa de um novo líder’, dizem europeus

Conflito entre Trump e Zelensky escancara fissuras no Ocidente e acelera o reposicionamento estratégico da Europa

Publicado em 02/03/2025 10:24 - Semana On

Divulgação Reprodução

Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a estabilidade do Ocidente repousa sobre uma premissa fundamental: a aliança transatlântica. Os Estados Unidos, ao longo de sete décadas, consolidaram-se como os fiadores da segurança europeia, garantindo um equilíbrio de poder que impediu novas catástrofes no continente. No entanto, essa ordem está em xeque.

CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP

A cena de Donald Trump humilhando publicamente Volodymyr Zelensky no Salão Oval não foi apenas um incidente diplomático – foi o sintoma de uma fratura profunda que ameaça redesenhar as relações internacionais. Para os europeus, o recado foi claro: os EUA, sob Trump, podem se tornar um parceiro imprevisível, senão hostil. A partir dessa constatação, emerge uma questão decisiva: poderá a Europa assumir a liderança do chamado “mundo livre”?

A resposta a essa dúvida ganha contornos dramáticos em um cenário global de tensões exacerbadas. A guerra na Ucrânia, prestes a completar três anos, atravessa um momento crítico. Com o avanço russo em algumas frentes e o esgotamento gradual das forças ucranianas, o país depende, mais do que nunca, do suporte ocidental. Mas se antes essa dependência recaía principalmente sobre os Estados Unidos, agora, com a postura errática de Trump, a Europa é forçada a repensar seu papel. Londres e Paris já anunciaram um plano de paz alternativo para Kiev, numa tentativa de se antecipar a um possível abandono americano. Berlim, tradicionalmente cautelosa em assuntos militares, movimenta-se para ampliar sua participação. A União Europeia e a Otan iniciam tratativas para uma postura mais coesa no conflito. A questão central, porém, é se o bloco tem meios – e vontade política – para assumir essa nova responsabilidade.

Trump e Zelensky: o conflito que mudou o jogo

O embate entre Trump e Zelensky foi, para muitos analistas, um divisor de águas. Trump, ao adotar abertamente a visão russa sobre a guerra e sugerir que a Ucrânia deveria ceder territórios, rompeu com a posição histórica dos EUA de defesa da integridade territorial ucraniana. O presidente americano também deixou claro que se opõe à entrada de Kiev na Otan, um ponto sensível que sempre esteve no cerne da disputa entre Rússia e Ocidente.

Mais do que isso, a forma como Trump conduziu a reunião – repleta de provocações e menosprezo – indicou um possível plano para enfraquecer Zelensky politicamente. A insinuação de que o líder ucraniano não seria um interlocutor confiável para a paz soa como um endosso indireto à estratégia de Vladimir Putin, que sempre defendeu a necessidade de uma mudança de regime em Kiev. Diplomatas europeus acreditam que o objetivo do republicano foi acelerar essa troca, deslegitimando Zelensky perante seus aliados.

O presidente francês, Emmanuel Macron, tentou atuar como mediador, conversando tanto com Trump quanto com Zelensky. No entanto, a postura americana já havia causado estragos irreversíveis. A Alemanha, por sua vez, reforçou seu apoio à Ucrânia, destinando mais 3 bilhões de euros para sua defesa. O Reino Unido, além de manifestar solidariedade, garantiu um novo pacote de 2,2 bilhões de libras em ajuda militar. Essas ações representam uma resposta direta ao vácuo de liderança deixado pelos EUA.

A França e a aposta nuclear

Se o Ocidente sempre confiou na dissuasão nuclear americana para conter ameaças externas, a Europa agora se vê forçada a repensar essa dependência. O anúncio de Macron sobre a possibilidade de ampliar a cobertura do arsenal nuclear francês para a defesa da Europa é uma jogada de alto risco. A França detém 290 ogivas nucleares, um arsenal considerável, mas que empalidece diante das 1.710 ogivas prontas para uso imediato da Rússia.

A proposta francesa esbarra em obstáculos políticos e estratégicos. A Alemanha, principal potência econômica da UE, tem um histórico de rejeição ao armamento nuclear em solo europeu. Em 2007, uma ideia semelhante já havia sido descartada por Berlim. Agora, no entanto, a conjuntura é outra. A ameaça russa tornou-se concreta, e a dúvida sobre o compromisso americano leva os europeus a reconsiderar posturas antes impensáveis.

O Reino Unido, apesar de ser a terceira potência nuclear da Otan, mantém sua estratégia alinhada a Washington, o que limita sua capacidade de atuar de forma independente. Assim, mesmo que Macron tente posicionar a França como o novo escudo nuclear da Europa, sua proposta pode ser mais um gesto político do que uma solução viável.

A líder da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, já se manifestou contra a iniciativa, argumentando que a “dissuasão nuclear francesa deve permanecer francesa”. Sua posição reflete não apenas a tradicional resistência gaulesa a submeter sua soberania militar a interesses externos, mas também a crescente influência da extrema-direita na política europeia. Se Macron deseja transformar sua proposta em realidade, precisará convencer tanto os aliados continentais quanto sua própria opinião pública.

O destino da aliança transatlântica

A crise atual não afeta apenas a Ucrânia – ela questiona a própria existência da Otan e o futuro da aliança transatlântica. Criada em 1949 para conter a ameaça soviética, a Otan sempre teve os EUA como seu pilar central. Com Trump ameaçando retirar os americanos do pacto, a organização se encontra em um dilema existencial. Até que ponto os europeus estão dispostos a arcar sozinhos com os custos da segurança continental?

O primeiro-ministro tcheco, Petr Fala, alertou que a Europa vive um “teste histórico”. Seu argumento é compartilhado por diversos líderes europeus, que percebem que não há mais garantias externas para sua proteção. Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria e aliado de Trump e Putin, destoou desse consenso e reforçou que apenas os EUA poderiam conduzir uma negociação viável para a guerra. Sua postura evidencia uma divisão interna na Europa, entre aqueles que buscam uma autonomia estratégica e aqueles que ainda veem os EUA como peça-chave para a segurança regional.

Um mundo à beira da reconfiguração

O cenário global está em ebulição. A crise na aliança ocidental ocorre em um momento de crescimento da influência chinesa, fortalecimento da Rússia e ressurgimento de políticas nacionalistas que desafiam a ordem liberal internacional. O que está em jogo não é apenas o destino da Ucrânia, mas a própria estrutura do sistema global.

Lula, ao comentar o episódio, apontou que o embate entre Trump e Zelensky foi “grotesco” e destacou a necessidade de uma abordagem diplomática para o fim da guerra. O Brasil, ao lado da China e outros países, tem tentado articular uma solução negociada, mas sem grande impacto prático até o momento. A fala de Lula reflete uma percepção crescente no Sul Global: a guerra na Ucrânia não é apenas um conflito regional, mas um evento que redefine as dinâmicas de poder no século XXI.

Se a Europa deseja assumir a liderança do “mundo livre”, precisará agir rapidamente. A fragmentação interna da UE e a hesitação histórica em relação à autonomia militar são obstáculos que precisam ser superados. Caso contrário, o continente corre o risco de se tornar refém dos caprichos de Washington – ou pior, de Moscou.

O que se desenha é um futuro incerto, onde o equilíbrio global dependerá cada vez mais das decisões tomadas em Bruxelas, Paris, Berlim e Londres. A era da hegemonia incontestável dos EUA parece estar chegando ao fim. A questão é: a Europa está pronta para o desafio?

A nova diplomacia do grito


Voltar


Comente sobre essa publicação...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *