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Mundo

ONU denuncia “retórica genocida” de Israel nas ruínas de Gaza

Ataque em Jerusalém, nesta segunda, é resultado da violência promovida pelo sionismo

Publicado em 08/09/2025 3:00 - Semana On

Divulgação aa

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A Faixa de Gaza, palco de uma das maiores catástrofes humanitárias do século XXI, foi oficialmente descrita como um “cemitério” pelo alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk. Em discurso duro no Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, Türk denunciou não apenas o massacre de civis palestinos e a destruição em larga escala promovida por Israel, mas também, pela primeira vez, o uso sistemático de retórica genocida por parte de autoridades israelenses.

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“Estou horrorizado com o uso aberto de retórica genocida e a desumanização vergonhosa dos palestinos por parte de altos funcionários israelenses”, declarou Türk. Segundo ele, os crimes de guerra em curso, o bloqueio à ajuda humanitária e a fome provocada por ação humana revelam uma “carnificina” sustentada por impunidade internacional. “A comunidade internacional está falhando em seu dever. Estamos falhando com o povo de Gaza”, sentenciou. A fala ecoa pressões internas: mais de 500 funcionários da própria ONU exigiram recentemente que o organismo reconhecesse o genocídio.

Ataque em Jerusalém alimenta retórica de extermínio

Nesta segunda-feira (8) um ataque a tiros em um ponto de ônibus na parte leste de Jerusalém — região de maioria palestina ocupada por Israel — deixou seis mortos e ao menos vinte feridos, intensificando ainda mais a tensão na região. A ação foi rapidamente reivindicada pelo Hamas como uma “resposta natural aos crimes da ocupação e à guerra de extermínio travada contra o nosso povo”, segundo comunicado oficial do grupo.

Condenável enquanto ato terrorista contra a população civil, o episódio foi imediatamente instrumentalizado por autoridades israelenses para justificar a escalada militar em Gaza. O ministro da Defesa, Israel Katz, ameaçou: “Gaza será destruída e vocês serão aniquilados”, em mensagem pública direcionada ao Hamas e à sua liderança no exterior. Já o primeiro-ministro Netanyahu usou o ataque como prova de que “esta é uma guerra em várias frentes”, prometendo represálias abrangentes e sem precedentes.

A retórica de extermínio, alimentada por atentados como o de Jerusalém, tem sido usada para validar ações punitivas generalizadas contra toda a população palestina, borrando deliberadamente as fronteiras entre civis e combatentes — e violando os princípios mais básicos do direito internacional humanitário.

Destruição em massa e deslocamento forçado

Desde o início da atual ofensiva, deflagrada após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, mais de 63.500 palestinos foram mortos, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza — números considerados confiáveis por organizações como a ONU e a Human Rights Watch. Outros milhares permanecem desaparecidos sob escombros. A ocupação militar da Cidade de Gaza, aprovada oficialmente por Israel em agosto de 2025, prevê o deslocamento forçado de até 1 milhão de pessoas para o sul do território.

A operação, sob o pretexto de combater o Hamas, tem transformado bairros históricos como Zaytun, onde ficam a Grande Mesquita Omari e antigas igrejas cristãs, em campos de ruínas. A marinha israelense fechou o acesso ao mar, proibindo inclusive a natação. A antiga cidade portuária de 3.500 a.C. está à beira de um colapso definitivo — físico, histórico e civilizacional.

Segundo relatório do Quadro Integrado de Classificação da Segurança Alimentar (IPC), da ONU, a fome em Gaza foi provocada por ação humana direta, resultado do bloqueio israelense e da destruição deliberada das rotas de distribuição de ajuda. Mais de 80% do território está hoje inacessível à população palestina. Abrigos e alimentos são escassos; milhares vivem em barracas ou dormem nas ruas.

Civis como alvo: uma política deliberada?

A retórica militar israelense tem alimentado suspeitas de que a destruição de Gaza não é apenas colateral, mas estratégica. “Gaza será destruída e vocês serão aniquilados”, declarou em tom de ameaça o ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, em mensagem pública aos membros do Hamas. Já o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que “essa é uma guerra em várias frentes” e prometeu perseguir os autores de atentados em Jerusalém “até suas aldeias”.

Relatos na imprensa israelense sugerem que civis que permanecerem em áreas demarcadas como “zonas vermelhas” podem ser classificados como combatentes — o que, na prática, autoriza execuções sumárias sem distinção entre civis e membros do Hamas. A medida contraria frontalmente o Direito Internacional Humanitário, especialmente a Convenção de Genebra e a Convenção para a Prevenção do Genocídio.

A Corte Internacional de Justiça (CIJ), em decisão histórica de 2024, já havia considerado “plausível” que Israel estivesse cometendo atos genocidas. Um julgamento final pode levar anos, mas as evidências se acumulam: bloqueio total de alimentos e água, bombardeios contínuos a escolas e hospitais, ataques a jornalistas, deslocamentos forçados em massa e declarações públicas que incitam a violência étnica.

Antissemitismo em alta: consequência direta ou manipulação política?

O recrudescimento da violência em Gaza tem consequências globais. Com o aprofundamento da catástrofe humanitária, cresce também o risco de aumento do antissemitismo em diversas regiões do mundo, frequentemente confundido ou manipulado politicamente como crítica à política do Estado de Israel. Especialistas como o historiador israelense Ilan Pappé alertam para o risco dessa associação instrumentalizada: “A ocupação e a repressão alimentam o ressentimento. A crítica ao sionismo não pode ser equiparada ao ódio aos judeus” (The Ethnic Cleansing of Palestine, 2006).

Segundo o Relatório Global sobre Antissemitismo 2024, publicado pelo Pew Research Center, episódios de violência contra judeus em países ocidentais aumentaram 23% após os ataques de outubro de 2023 — muitos deles cometidos por indivíduos identificados com a causa palestina. No entanto, organizações judaicas progressistas como o grupo Jewish Voice for Peace têm afirmado que a política de Israel “compromete a segurança dos próprios judeus no mundo todo ao agir em nome de todos, sem consenso”.

Pressão internacional cresce, mas é insuficiente

O isolamento diplomático de Israel tem se acentuado. Em maio de 2024, a Espanha reconheceu oficialmente o Estado da Palestina e, agora em setembro, anunciou um conjunto de medidas concretas “para deter o genocídio em Gaza”, nas palavras do presidente Pedro Sánchez. Entre elas, embargo de armas, proibição de voos militares israelenses sobre território espanhol e sanções contra produtos vindos de assentamentos ilegais.

“Sabemos que essas medidas não serão suficientes para impedir a invasão ou os crimes de guerra, mas esperamos aumentar a pressão e aliviar o sofrimento do povo palestino”, afirmou Sánchez, em pronunciamento na Moncloa.

A resposta de Israel foi previsível: acusou o governo espanhol de liderar uma “campanha antissemita”. A retórica binária — “ou estão com Israel ou com os jihadistas”, como declarou o ministro das Relações Exteriores Gideon Saar — tem impedido qualquer mediação efetiva.

Um ciclo de violência sustentado pela omissão

A tragédia em Gaza não é uma fatalidade da guerra, mas uma política de extermínio deliberada, sistemática e documentada. O silêncio — ou, pior, a cumplicidade — da maior parte da comunidade internacional contribui para a continuidade da destruição. Como advertiu Volker Türk: “Onde estão as medidas decisivas para impedir o genocídio?”

A retórica extremista, a desumanização dos palestinos e o bloqueio total à ajuda humanitária apontam para uma realidade que já não pode ser suavizada por eufemismos diplomáticos. Se a destruição da Faixa de Gaza continuar nesse ritmo, a história registrará não apenas os responsáveis diretos pelo genocídio, mas também aqueles que, por cálculo ou covardia, escolheram não agir.

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