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Mundo

Peronismo derrota Milei em Buenos Aires e abre crise no governo

Com escândalos de corrupção e queda de popularidade, Milei sofre revés eleitoral

Publicado em 08/09/2025 1:28 - Semana On

Divulgação EPA

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A oposição peronista impôs neste domingo (7) uma derrota contundente ao governo de Javier Milei nas eleições legislativas da província de Buenos Aires, o maior e mais estratégico distrito eleitoral da Argentina. Com mais de 85% das urnas apuradas, a coalizão Fuerza Patria obteve quase 47% dos votos, contra 34% da La Libertad Avanza (LLA), partido do presidente. O resultado não apenas enfraquece a governabilidade de Milei, como expõe um cenário de desgaste precoce a pouco mais de nove meses de sua posse.

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“Hoje tivemos uma derrota clara e isso precisa ser aceito”, reconheceu Milei, em tom sóbrio, num raro gesto de moderação diante do revés. Mas o reconhecimento não ameniza a crise. A eleição foi encarada como um teste nacional antecipado, e o sinal das urnas foi claro: o governo perdeu força política no seu território mais populoso, responsável por 38,6% do eleitorado argentino.

A implosão do capital político de Milei

O desempenho eleitoral da Fuerza Patria — braço kirchnerista do peronismo — não apenas garantiu a maioria dos assentos em disputa no Senado (13 de 23) e na Câmara Baixa (21 de 46), como consolidou Cristina Kirchner como figura central da oposição. Em prisão domiciliar, a ex-presidente saiu à varanda de sua casa para saudar apoiadores e não perdeu a oportunidade de alfinetar o presidente no X: “Viste Milei?”.

A resposta das urnas veio em meio a escândalos de corrupção envolvendo o núcleo duro do governo, incluindo Karina Milei, irmã do presidente e secretária-geral da Presidência, e o deputado Martín Menem, primo e presidente da Câmara dos Deputados. Ambos foram mencionados em áudios vazados que sugerem um esquema de propina envolvendo compras públicas de medicamentos pela Agência Nacional de Deficiência (Andis). O escândalo foi revelado inicialmente pelo streaming Carnaval e posteriormente aprofundado pelo canal Dopamina.

De acordo com o ex-diretor da Andis, Diego Spagnuolo — que também foi advogado pessoal de Milei —, Karina receberia 3% sobre compras feitas pela Suizo Argentina, distribuidora ligada ao governo. Segundo ele, o presidente foi alertado. Em vez de abrir uma investigação, demitiu Spagnuolo.

Resposta autoritária e tentativa de silenciamento

Ao invés de prestar esclarecimentos, o governo optou por reagir atacando a imprensa. Javier Milei afirmou em seu perfil no X que “espiões disfarçados de jornalistas” estariam promovendo uma “rede de espionagem ilegal”. A narrativa foi endossada por Martín Menem, que classificou os áudios como “gravações ilegais feitas dentro do Congresso”.

Em decisão controversa, o juiz federal Alejandro Maraniello proibiu veículos de comunicação de divulgar os áudios, alegando risco de danos irreparáveis. “O direito à liberdade de expressão deve ceder às graves repercussões que a divulgação poderia acarretar”, escreveu. A medida foi duramente criticada por entidades de imprensa e juristas. Para a Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas (ADEPA), trata-se de uma “censura judicial inaceitável em uma democracia”.

A percepção pública: corrupção e desconfiança

A resposta social também foi imediata. Um levantamento da consultoria Horus, com base em mais de 200 mil interações no Instagram e Facebook, mostrou que 86% dos comentários qualificam o governo Milei como corrupto. Apenas 11% defendem o presidente, atribuindo o escândalo a uma armação do kirchnerismo.

Analistas de mídia digital apontam ainda que trolls e contas ligadas ao governo atuaram para desviar o foco das denúncias, polarizando o debate e atacando jornalistas. No entanto, desde a divulgação do escândalo, esse aparato digital tem se mantido mais discreto — talvez pelo impacto negativo da exposição.

Participação modesta, mas decisiva

Apesar de ser uma eleição local e fora do calendário nacional, a participação chegou a 63%, número abaixo de 2021 (71%) e 2017 (77%), mas ainda significativo. Atrás da Fuerza Patria e da LLA, a frente Somos Buenos Aires — composta por setores peronistas não kirchneristas — teve pouco mais de 5%, enquanto a Frente de Esquerda y de los Trabajadores Unidad obteve pouco mais de 4%.

O resultado evidencia que o desgaste de Milei não veio apenas da oposição tradicional, mas também de dentro do espectro conservador: a coligação com o partido Propuesta Republicana (PRO), do ex-presidente Mauricio Macri, tampouco impediu o tombo eleitoral.

Risco à governabilidade e eleições de outubro

Com o revés em Buenos Aires, Milei entra fragilizado nas eleições nacionais de 26 de outubro, que renovarão parte do Parlamento. Sem base sólida, e agora sob suspeitas de corrupção e censura, o governo perde força para aprovar reformas e sustentar sua agenda liberal radical, já alvo de críticas por sua execução improvisada e socialmente regressiva.

O economista Pablo Gerchunoff, professor da Universidad Torcuato Di Tella, afirmou em entrevista à rádio AM750: “Milei está tentando governar sem política, e agora percebe que sem base institucional, sem alianças e sem credibilidade, o modelo implode”.

Na prática, o peronismo não apenas venceu nas urnas: reconfigurou o tabuleiro político. E, ao que tudo indica, Buenos Aires pode ter sido apenas o começo.

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