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Israel dobra a aposta e prepara plano de evacuação "voluntária" de Gaza
Publicado em 07/02/2025 10:40 - Semana On
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O anúncio de um plano polêmico pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para assumir o controle da Faixa de Gaza e promover a reconstrução do território sob uma suposta “propriedade americana” gerou uma onda de críticas globais e levantou sérias questões legais. Especialistas em direito internacional e direitos humanos alertam que as medidas propostas violariam princípios fundamentais da ordem internacional, potencialmente configurando crimes de guerra e agressão territorial.
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Em um momento delicado do conflito israelense-palestino, a proposta reacendeu temores históricos de deslocamento forçado e ameaça à autodeterminação dos palestinos.
Durante um pronunciamento feito no último dia 4 de fevereiro, Trump afirmou que os Estados Unidos assumiriam o controle da Faixa de Gaza. “Faremos um bom trabalho com ela”, disse o ex-presidente, comparando a transformação do território a projetos imobiliários de luxo. “Vejo uma posição de propriedade de longo prazo”, complementou.
O plano incluiria a retirada de parte dos 2,3 milhões de palestinos que vivem na região, sob o argumento de que a área seria reurbanizada para atrair investimentos. No entanto, especialistas apontam que tais declarações vão de encontro ao direito internacional. Para o professor de Direito Internacional Marc Weller, da Universidade de Cambridge, Trump parece abordar Gaza “como se fosse um terreno baldio”, ignorando os direitos de seus habitantes. “Esse território pertence aos palestinos, e eles têm o direito à autodeterminação, que inclui decidir o próprio futuro político”, destacou Weller.
A violação da Carta da ONU e das Convenções de Genebra
A proposta de Trump entra em choque direto com a Carta das Nações Unidas, que proíbe a tomada de territórios pela força. Segundo o documento, “todos os membros devem abster-se da ameaça ou uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado”. A Faixa de Gaza, mesmo sendo parte de um território sem plena soberania, está sob proteção legal internacional, conforme estabelecido pela Quarta Convenção de Genebra, que regula a proteção de civis em tempos de conflito.
Michael Becker, professor de Direito Internacional do Trinity College em Dublin, alerta que tomar o controle de Gaza sem o consentimento palestino equivale à anexação ilegal de território, prática amplamente condenada pela comunidade internacional. “A proposta é uma rejeição flagrante dos princípios fundamentais que vigoram desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, afirmou.
Deslocamento forçado e o temor de uma nova “Nakba”
Entre os pontos mais controversos está a sugestão de Trump de remover os palestinos de Gaza para “permitir a reconstrução”. Para ele, os residentes da região estariam dispostos a sair por causa da deterioração das condições de vida. No entanto, não há indicações de que os moradores de Gaza desejem deixar suas casas. Além disso, os países mencionados como possíveis destinos de acolhimento, como Egito e Jordânia, rejeitaram a proposta.
A remoção forçada de civis em um território ocupado configura um crime grave sob o direito internacional. O Estatuto de Roma, que criou o Tribunal Penal Internacional (TPI), considera a deportação ou transferência forçada de populações como um crime contra a humanidade. Para Janina Dill, diretora do Instituto Oxford de Ética, Direito e Conflitos Armados, o plano de Trump “atingiria o limiar de um ataque sistemático e em grande escala contra uma população civil”. Dill alerta que o nível de coerção necessário para tal deslocamento transformaria a operação em um potencial crime de guerra.
O termo “Nakba” — que significa “catástrofe” em árabe e refere-se ao êxodo de centenas de milhares de palestinos durante a criação do Estado de Israel em 1948 — voltou a ser amplamente utilizado por críticos da proposta. Especialistas temem que a nova estratégia de deslocamento possa desencadear um êxodo em massa semelhante ao de 1948.
A questão do retorno e o princípio da autodeterminação
Outra parte controversa do plano de Trump envolve a impossibilidade de retorno dos palestinos deslocados. O direito internacional é claro: populações removidas de suas terras, mesmo em casos de conflitos armados, têm o direito de retornar. Proibir o retorno violaria não apenas a Quarta Convenção de Genebra, mas também o princípio da autodeterminação, consolidado pela ONU.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, destacou o risco de inviabilizar a criação de um Estado palestino caso o plano seja implementado. “Deslocar os residentes de Gaza destruiria qualquer possibilidade real de um futuro Estado palestino viável”, afirmou em entrevista à Al Arabiya TV.
Crimes de guerra e veto no Conselho de Segurança
Embora os Estados Unidos e Israel não sejam signatários do Estatuto de Roma, o Tribunal Penal Internacional tem jurisdição sobre crimes cometidos nos territórios palestinos, incluindo Gaza. Isso significa que ações como a transferência forçada de civis, destruição de propriedades e impedimento do retorno podem ser investigadas pelo TPI. O tribunal já emitiu um mandado de prisão contra o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, em parte devido às violações em territórios ocupados.
Contudo, uma eventual condenação dependeria de mecanismos políticos complexos, uma vez que os Estados Unidos têm poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, principal órgão responsável por identificar e responder a atos de agressão.
Casa Branca recua após críticas
A proposta de Trump enfrentou um forte revés quando o secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou que o plano poderia resultar em uma “limpeza étnica” – um crime contra a humanidade segundo o direito internacional. A fala de Guterres, proferida em um discurso contundente na sede da ONU, somou-se às duras críticas emitidas por governos de todo o mundo. Horas depois, a Casa Branca recuou e anunciou que a expulsão dos palestinos seria “temporária”, tentando aliviar as tensões globais.
Durante seu discurso em Nova York, Guterres enfatizou que qualquer plano que implique a remoção forçada de palestinos é inaceitável e representa uma violação grave do direito internacional. Ele pediu que a comunidade internacional reafirmasse a solução de dois Estados como o único caminho para a paz duradoura na região.
“Na busca por soluções, não devemos piorar o problema. Qualquer forma de limpeza étnica é inaceitável”, afirmou o chefe da ONU. Para Guterres, um Estado palestino viável e independente, coexistindo pacificamente ao lado de Israel, é a única saída sustentável para a crise.
O secretário-geral também destacou a necessidade urgente de apoio internacional para a reconstrução de Gaza, após meses de conflito devastador. “Devemos preservar a unidade, a integridade e a viabilidade do Território Palestino Ocupado. A Autoridade Palestina precisa de apoio para governar efetivamente Gaza e garantir a reconstrução”, declarou.
Menos de 24 horas após o anúncio inicial de Trump, assessores da Casa Branca começaram a moderar o tom da proposta. De acordo com informações publicadas pelo The New York Times, o secretário de Estado, Marco Rubio, e a porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmaram que a ideia não envolvia uma remoção permanente.
“O presidente deixou claro que eles precisam ser temporariamente realocados para fora de Gaza”, disse Leavitt em uma coletiva de imprensa. Por sua vez, Rubio defendeu o plano como “uma oferta generosa de reconstrução e segurança”. No entanto, a justificativa não convenceu líderes internacionais, que continuaram alertando para os riscos de deslocamento forçado e aprofundamento da crise humanitária.
Mike Waltz, conselheiro de Segurança Nacional de Trump, também tentou minimizar o impacto da proposta, afirmando que o objetivo era pressionar os países árabes a apresentarem soluções concretas para a região.
Críticas internacionais e alertas de crise humanitária
Apesar do recuo, as reações foram imediatas e contundentes. O embaixador palestino na ONU, Ryad Mansour, declarou que “o povo palestino não deixará Gaza”, reforçando a resistência à proposta americana. Organizações de direitos humanos alertaram para as consequências catastróficas de qualquer tipo de remoção, mesmo que temporária.
Guterres foi enfático ao afirmar que a situação em Gaza já atingiu um nível de calamidade sem precedentes. Ele destacou que cerca de 50 mil pessoas morreram nos últimos meses de conflito, sendo 70% mulheres e crianças. A infraestrutura civil de Gaza está em colapso, com hospitais, escolas e sistemas de abastecimento de água destruídos.
“A esmagadora maioria da população enfrenta deslocamento contínuo, fome e doenças”, lamentou o secretário-geral. Ele também ressaltou que as crianças estão fora das escolas há mais de um ano e que uma geração inteira está sendo traumatizada pela violência.
Foco em cessar-fogo e acesso humanitário
Para evitar mais mortes e destruição, Guterres pediu que os esforços se concentrem na consolidação do cessar-fogo e na libertação de reféns. Ele também apelou para que a comunidade internacional financie operações humanitárias e garanta o acesso desimpedido às áreas mais afetadas de Gaza.
“A ONU está trabalhando para alcançar os palestinos necessitados, mas para isso precisamos de um acesso rápido e seguro”, explicou. Guterres apelou aos Estados-membros e doadores para que ampliem o financiamento das operações humanitárias e reforcem o apoio à Agência da ONU para Refugiados Palestinos (UNRWA).
A crise em Gaza não é a única preocupação da ONU. Guterres destacou que a situação na Cisjordânia ocupada, incluindo Jerusalém Oriental, está se deteriorando rapidamente. Ele expressou preocupação com a crescente violência dos colonos israelenses e outras violações, pedindo o fim imediato dessas ações.
“Estou seriamente preocupado com o aumento da violência dos colonos. Isso precisa acabar”, declarou. O secretário-geral também reiterou o pedido de fim da ocupação israelense dos territórios palestinos, como estabelecido pela Corte Internacional de Justiça.
Com a Casa Branca recuando parcialmente e a ONU intensificando suas críticas, o futuro de Gaza permanece incerto. Enquanto Trump tenta reformular seu plano para evitar novas repercussões, a comunidade internacional exige que qualquer ação respeite os direitos dos palestinos e siga os parâmetros do direito internacional. Para muitos analistas, o momento é decisivo: ou o diálogo será retomado para evitar uma catástrofe humanitária ainda maior, ou o ciclo de violência pode se intensificar, dificultando ainda mais a paz na região.
Israel prepara plano de evacuação “voluntária”
Apesar do recuo dos Estados Unidos, e embasado pelo trumpismo, o ministro israelense da Defesa, Israel Katz, ordenou ontem (6) às Forças Armadas que desenvolvam um plano para permitir a saída “voluntária” de palestinos da Faixa de Gaza.
Em apoio ao discurso de Trump, Katz anunciou uma iniciativa que visa “permitir” que os palestinos deixem Gaza caso desejem. “Os moradores de Gaza devem ter a liberdade de sair e emigrar, como é a norma em todo o mundo”, disse Katz. Ele detalhou que o plano incluiria passagens terrestres e, eventualmente, transportes por mar e ar, desde que outros países estejam dispostos a aceitar os refugiados.
Segundo o ministro, o Hamas, grupo político que governa a Faixa de Gaza desde 2007, estaria mantendo a população local como “refém”, utilizando-a como ferramenta de barganha no contexto de ajuda humanitária internacional. Katz argumentou que, ao permitir a saída dos palestinos, Israel estaria oferecendo uma oportunidade de libertação. No entanto, críticos alertam que a proposta de “emigração voluntária” pode mascarar uma política de expulsão forçada, o que violaria o direito internacional.
Em um tom desafiador, Katz cobrou responsabilidade dos países que, segundo ele, criticam as ações militares de Israel. “Países como Espanha, Irlanda e Noruega, que condenam nossas ações em Gaza, têm a obrigação moral e legal de aceitar refugiados palestinos em seus territórios.” A declaração foi recebida com ceticismo por analistas internacionais, que veem o plano como parte de uma estratégia maior para reduzir a presença palestina no território.
Em entrevista à Fox News, Netanyahu corroborou a ideia de Katz e destacou que os esforços para reconstruir Gaza levariam anos após uma eventual desmilitarização. “Precisamos garantir que Gaza seja um território desmilitarizado e livre de ameaças. Isso não é uma questão de meses, mas de anos de reconstrução”, afirmou o primeiro-ministro.
Reações globais: tensão e condenações
As declarações de Trump e Netanyahu encontraram forte oposição de aliados históricos da região. A Arábia Saudita, geralmente alinhada a algumas políticas americanas, expressou rejeição ao plano, classificando-o como uma ameaça à estabilidade regional. Outras nações, como Egito e Jordânia, também se manifestaram contra a ideia, alertando para os riscos de um agravamento da crise humanitária.
Organizações de direitos humanos criticaram o que consideram um “deslocamento forçado disfarçado de escolha”. A Anistia Internacional alertou que qualquer plano que envolva a remoção de palestinos de suas terras pode ser interpretado como uma violação do direito de retorno, previsto em convenções internacionais.
A Human Rights Watch classificou o plano como uma tentativa de realizar uma limpeza étnica disfarçada de “reurbanização”. O presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas, afirmou que qualquer tentativa de deslocamento forçado enfrentará forte resistência popular.
Na prática, o plano de Trump, se implementado, não apenas violaria normas legais, mas aprofundaria a crise humanitária em Gaza, onde a população já enfrenta bloqueios econômicos, pobreza extrema e infraestrutura devastada. Para Janina Dill, os custos humanitários e as consequências políticas de tal medida seriam catastróficos.
Como destacou Marc Weller, “se essas normas forem quebradas sem consequências, o mundo se tornará um lugar onde regras mínimas de convivência e respeito aos direitos humanos deixarão de existir”.
Com a resistência palestina e a condenação da comunidade internacional, o plano de Trump não só revive memórias traumáticas da Nakba, mas também sinaliza uma ameaça direta ao direito à autodeterminação dos palestinos e à estabilidade na região. Resta saber se o sistema internacional será capaz de responder à altura.
Israel abandona Conselho de Direitos Humanos da ONU
A tensão internacional foi intensificada quando, no mesmo dia, Israel anunciou sua saída oficial do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas (UNHRC). Gideon Saar, ministro do Exterior, justificou a decisão alegando “viés institucional implacável” contra Israel. Desde 2006, o UNHRC tem conduzido investigações sobre violações de direitos humanos nos territórios palestinos ocupados, o que, para Saar, demonstra um ataque ao direito de existência de Israel.
Em entrevista à agência Reuters, a relatora especial da ONU para o Território Ocupado da Palestina, Francesca Albanese, considerou a saída de Israel “um passo extremamente sério”. Ela afirmou que a decisão reforça a imagem de Israel como um país que não se submete a escrutínios internacionais. “Isso demonstra arrogância e uma desconexão total com a realidade. Israel insiste na superioridade moral ao mesmo tempo em que rejeita qualquer responsabilidade pelo sofrimento palestino”, disse Albanese.
Cenário de incertezas e resistência
Enquanto os EUA e Israel defendem a ideia como uma forma de estabelecer um novo equilíbrio regional, muitos observadores consideram que o plano pode resultar no deslocamento massivo de civis e aprofundar a crise humanitária. Com Gaza já enfrentando bloqueios severos e uma infraestrutura precária, as discussões em torno da ocupação e da saída de palestinos devem acirrar ainda mais as tensões.
Os próximos dias prometem ser de intensa diplomacia e possível escalada nas tensões entre Israel, a Autoridade Palestina e o restante da comunidade internacional. A resistência interna de grupos palestinos, especialmente do Hamas, também pode influenciar o desdobramento desse plano controverso, colocando Gaza novamente no centro de um conflito de proporções globais.
Como alimentar palestinos?
O Programa Alimentar Mundial (PAM) da ONU solicitou nesta sexta-feira (7) à comunidade internacional apoio para garantir alimentação a milhões de pessoas na Faixa de Gaza, devastada após 16 meses de conflitos. Segundo Carl Skau, diretor executivo adjunto do programa, mais de 15 mil toneladas de alimentos já foram enviadas, beneficiando 525 mil pessoas desde o cessar-fogo de 19 de janeiro. No entanto, ele destacou que a ajuda atual não é suficiente diante das necessidades crescentes.
O PAM está distribuindo pacotes de alimentos, refeições quentes e dinheiro, além de fornecer farinha e combustível por meio de 22 padarias locais. Contudo, Skau alertou que ações urgentes são necessárias em áreas como água, saneamento, abrigos e educação, tudo dependente de financiamento adicional. A recuperação econômica de Gaza, que envolve a agricultura, pesca e cadeias alimentares, também é uma prioridade.
Cerca de 90% da população de Gaza foi deslocada ao longo do último ano de conflitos, vivendo em condições precárias. Mais de 1,1 milhão de pessoas enfrentam uma crise aguda de fome, o maior número já registrado pela ONU em estudos de segurança alimentar. A situação ocorre enquanto Israel e Hamas negociam uma segunda fase do acordo de cessar-fogo.
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