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Mundo
Sionisno ameaça civis, reféns e destrói viabilidade de Estado palestino
Publicado em 06/08/2025 11:58 - Semana On
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A possível decisão de Israel de ampliar suas operações militares para toda a Faixa de Gaza foi classificada nesta terça-feira como “profundamente alarmante” pela Organização das Nações Unidas. O alerta veio do secretário-geral adjunto da ONU, Miroslav Jenča, durante uma sessão extraordinária do Conselho de Segurança, em que foram levantadas preocupações sobre o agravamento do colapso humanitário no enclave palestino e a escalada militar contínua sob o comando do premiê israelense Benjamin Netanyahu.
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“Tal medida arriscaria consequências catastróficas… e poderia colocar ainda mais em risco a vida dos reféns restantes em Gaza”, afirmou Jenča, ressaltando que a Faixa de Gaza “é e deve continuar sendo parte integrante do futuro Estado palestino”, conforme estabelece o direito internacional.
A declaração reforça a posição histórica da ONU, reafirmada desde a Resolução 242, de 1967, que exige a retirada israelense dos territórios ocupados e a construção de uma solução de dois Estados como único caminho legítimo para a paz. Contudo, as ações do atual governo de extrema-direita de Israel caminham na contramão desses princípios, com operações militares que já deixaram mais de 30 mil mortos desde o início da ofensiva, segundo dados do Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
Netanyahu aposta no colapso político da Palestina
A reunião de Netanyahu com a cúpula de segurança para finalizar uma “nova estratégia de guerra” — noticiada pela mídia israelense como possivelmente envolvendo a ocupação militar total de Gaza — confirma uma guinada ainda mais radical de um governo já marcado por violações sistemáticas do direito internacional. A ofensiva é conduzida sob o pretexto da erradicação do Hamas, mas os impactos atingem indiscriminadamente a população civil, a infraestrutura básica e a própria possibilidade de reconstrução institucional da Palestina.
Nesse contexto, a crítica do representante adjunto da China na ONU, Geng Shuang, expôs com clareza o isolamento diplomático de Israel: “Pedimos a Israel que interrompa imediatamente essas ações perigosas”, disse, reforçando o apelo por um cessar-fogo e por medidas concretas por parte dos países com influência — em evidente referência aos Estados Unidos, aliado histórico de Tel Aviv.
Reféns, política e sofrimento: a face humana da guerra
O drama dos reféns israelenses também foi usado como argumento por familiares no Conselho de Segurança. Ilay David, irmão de Evyatar David — refém em poder do Hamas e recentemente mostrado em estado crítico em vídeo divulgado pelo grupo — fez um apelo desesperado: “Cada momento de atraso é um passo mais próximo do trágico desfecho final”.
O relato de Ilay, emocionado e detalhado, colocou um rosto humano no horror da guerra. “Meu pai não consegue dormir, e minha mãe não para de chorar desde então.” O vídeo, segundo ele, mostra o irmão como “um esqueleto vivo”, desnutrido, incapaz de falar. O uso de reféns como moeda política por parte do Hamas é inaceitável — assim como é inaceitável que Israel explore esse sofrimento para legitimar uma ocupação que viola sistematicamente os direitos de milhões de palestinos.
A destruição da Palestina como projeto político
O que está em curso não é apenas uma guerra. Trata-se, como apontam diversos especialistas, de um processo de desestruturação política da Palestina que ameaça transformar Gaza em uma zona de terra arrasada. Em artigo publicado pelo International Crisis Group, o pesquisador Nathan Thrall afirma: “A política de Israel tem sido, desde Oslo, menos sobre negociação e mais sobre administração do colapso palestino”.
Essa lógica não é nova. O filósofo e sociólogo Edward Said já alertava, nos anos 1990, que a Palestina estava sendo empurrada “para uma não existência política, sob o disfarce de acordos formais”. O que se vê hoje, com a destruição de hospitais, escolas e infraestrutura civil, é a radicalização dessa política — agora sem os disfarces.
O apartheid do século XXI
Diversas organizações de direitos humanos, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, já classificam a política israelense como uma forma contemporânea de apartheid. O relatório da HRW de 2021, intitulado A Threshold Crossed, afirma que o governo de Israel mantém “um sistema de dominação intencional e prolongado de um grupo racial sobre outro”, o que configura o crime de apartheid segundo o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional.
A comunidade internacional, especialmente as democracias ocidentais, tem falhado em enfrentar com firmeza essa violação. A impunidade, aliada ao apoio incondicional dos EUA, alimenta o expansionismo israelense — mesmo diante de alertas diretos da ONU e de dados que evidenciam uma crise humanitária sem precedentes.
A democracia diante do abismo
A crise em Gaza não é apenas um conflito regional. É um teste à própria consistência ética das democracias liberais, que declaram defender os direitos humanos, mas se calam — ou financiam — diante de massacres sistemáticos. Como advertiu o filósofo esloveno Slavoj Žižek: “Quando os direitos humanos são seletivos, eles deixam de ser universais; tornam-se apenas mais um instrumento de poder”.
Se Gaza cair sob ocupação militar total, será mais um capítulo na longa história da negação do direito do povo palestino à autodeterminação — direito garantido desde a Carta das Nações Unidas de 1945. Será também a derrota simbólica de um mundo que falhou em proteger os fundamentos do direito internacional, mesmo após as tragédias do século XX que levaram à criação da própria ONU.
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