Entre em nosso grupo
2
19.485.790/0001-70
Mundo
O plano da UE para penalizar Israel por ação militar contra palestinos
Publicado em 05/08/2025 11:54 - Semana On e DW
Clique aqui e contribua para um jornalismo livre e financiado pelos seus próprios leitores.
O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, decidiu ordenar a ocupação total da Faixa de Gaza, mesmo diante da crescente oposição dentro das Forças de Defesa de Israel (FDI), do clamor internacional por um cessar-fogo e da denúncia de limpeza étnica e genocídio contra a população palestina. A informação foi confirmada por diversas fontes da imprensa israelense na segunda-feira (04/08) e por integrantes do próprio gabinete do premiê ao The Jerusalem Post.
CLIQUE PARA SEGUIR A SEMANA ON NO INSTAGRAM, NO FACEBOOK E NO WHATSAPP
A decisão, segundo o jornal, foi comunicada ao chefe do Estado-Maior das FDI, general Eyal Zamir, que se opõe à ofensiva, especialmente nas áreas onde ainda há reféns mantidos pelo Hamas. A resposta do núcleo duro do governo foi categórica: “Se isto não lhe convém, então demita-se”, declarou uma fonte do gabinete, conforme reportado pelo Jerusalem Post. O avanço das tropas israelenses já resultou, anteriormente, na execução de seis reféns, fato que amplia os temores de familiares e especialistas em segurança sobre as consequências da estratégia militar.
Mais de 70% da Faixa de Gaza já se encontra ocupada militarmente ou sob ordens de evacuação, segundo estimativa das Nações Unidas de maio deste ano. Agora, o plano de Netanyahu prevê a tomada total do enclave palestino, acompanhada de propostas defendidas por ministros da extrema direita, que incluem a expulsão em massa de palestinos e o assentamento de colonos judeus nas regiões ocupadas.
Um projeto de limpeza étnica
A proposta não é nova, mas ganha fôlego com a coalizão extremista que sustenta Netanyahu. Desde outubro de 2023, após os ataques do Hamas que deixaram 1.219 mortos em Israel — a maioria civis —, a resposta israelense tem sido de uma devastação sistemática da Faixa de Gaza, com mais de 60 mil mortos, segundo o Ministério da Saúde do território palestino, órgão cuja contagem é considerada confiável pela Organização das Nações Unidas.
Diante da escalada, vozes críticas internas começam a se insurgir. Mais de 500 ex-agentes de segurança israelenses — entre eles ex-chefes do Mossad e do Shin Bet — assinaram uma carta pedindo ao presidente dos EUA, Donald Trump, que pressione Netanyahu a parar a guerra. “Parem a guerra em Gaza!”, pedem. Já o Fórum de Famílias de Reféns acusa o premiê de sacrificar vidas humanas por objetivos políticos: “Netanyahu está levando Israel para a ruína e os reféns à morte”.
A crítica mais contundente, no entanto, vem da própria história: a ocupação total de Gaza, em meio a bombardeios, cercos e expulsões forçadas, se insere na lógica histórica de limpeza étnica que, desde 1948, marca o conflito entre Israel e o povo palestino. Em sua obra The Ethnic Cleansing of Palestine, o historiador israelense Ilan Pappé argumenta que a criação do Estado de Israel foi acompanhada de um processo sistemático de expulsão e massacres de palestinos, um “crime contra a humanidade” que segue em curso.
Genocídio em tempo real
A Corte Internacional de Justiça, em janeiro de 2024, reconheceu que há indícios plausíveis de genocídio por parte de Israel em Gaza. O termo, com peso jurídico e histórico, não é usado de forma leviana. O genocídio, segundo a Convenção da ONU de 1948, inclui não apenas o extermínio físico, mas também ações destinadas a destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso, por meio de deslocamentos forçados, fome, bombardeios indiscriminados e destruição de infraestrutura vital — todos elementos presentes na atual ofensiva israelense.
O próprio secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou em março de 2024 que Gaza se tornou “um cemitério de crianças”, com hospitais e escolas atacados, bairros inteiros arrasados e mais de 70% da população vivendo sob risco de fome severa.
Segundo a organização Save the Children, mais de 17 mil menores palestinos foram mortos até julho de 2025. E ainda assim, o governo israelense amplia sua ação, desconsiderando tratados internacionais e a pressão de aliados históricos, como os Estados Unidos, cujas armas continuam abastecendo a ofensiva.
Um impasse civilizatório
A insistência de Netanyahu em expandir a ocupação, mesmo contra a lógica militar e diplomática, revela mais do que uma estratégia de guerra. Trata-se de um projeto ideológico de eliminação da presença palestina — um movimento que se alinha a doutrinas extremistas como a defendida pelo ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, que já defendeu abertamente a “transferência” de palestinos e o direito de colonos judeus de habitarem “toda a terra de Israel”.
Essa visão teocrática e supremacista entra em choque direto com os princípios do direito internacional, da autodeterminação dos povos e da própria democracia. Como observa a filósofa Judith Butler, “não se pode defender a democracia e ao mesmo tempo sustentar práticas coloniais e de exclusão racial” (Butler, Parting Ways: Jewishness and the Critique of Zionism, 2012).
O silêncio cúmplice e a urgência moral
A continuidade da guerra, os bloqueios a ajudas humanitárias e os ataques deliberados à população civil configuram não apenas crimes de guerra, mas uma afronta à consciência humanitária global. Diante desse cenário, o silêncio — ou o apoio explícito de governos e instituições ocidentais — se torna cúmplice de um massacre em tempo real.
Como afirmou o jurista sul-africano John Dugard, ex-relator especial da ONU para os Direitos Humanos nos Territórios Palestinos, “o que Israel pratica nos territórios ocupados é um apartheid mais severo do que aquele que conheci na África do Sul”.
O projeto de ocupação total de Gaza não é uma operação militar pontual. É parte de uma engenharia de poder que busca apagar a existência de um povo. O mundo, mais uma vez, assiste — e hesita. A história, porém, será implacável com os que escolherem o lado da omissão.
O plano da UE para penalizar Israel por ação militar em Gaza
Após mais de um ano pedindo que Israel interrompa os bombardeios e o bloqueio humanitário em Gaza, a União Europeia começou a adotar movimentos mais concretos para pressionar o governo de Benjamin Netanyahu a recuar em sua ofensiva militar no território palestino.
“O clima endureceu significativamente”, disse a um diplomata da UE que preferiu não se identificar, em entrevista à DW.
Com as Nações Unidas alertando para um “risco de fome em massa” em Gaza, o braço executivo da UE propôs proibir startups israelenses de acessar fundos de pesquisa europeus.
“Com sua intervenção na Faixa de Gaza e a consequente catástrofe humanitária, incluindo milhares de mortes de civis e o aumento acelerado de casos de desnutrição extrema, especialmente entre crianças, Israel está violando direitos humanos e o direito humanitário, e assim descumprindo um princípio essencial da cooperação UE-Israel”, escreveu a Comissão Europeia em sua proposta na última segunda-feira.
O ministério das Relações Exteriores de Israel classificou o plano de Bruxelas como “injustificado” e afirmou que qualquer medida punitiva só serviria para “fortalecer o Hamas”.
No entanto, a nova proposta não chegou a ser votada, como previsto, pois membros como Alemanha e Itália pediram mais tempo para avaliar a estratégia. Sem o apoio de Berlim, é improvável que a sanção avance, uma vez que precisa de uma maioria qualificada para se tornar regra.
Para Bushra Khalidi, da Oxfam, agora há uma clara pressão crescente em alguns setores da Comissão Europeia para forçar uma mudança de rumo do bloco em relação a Israel.
“Mas sejamos claros. O fato de que a UE não consegue nem mesmo concordar com o menor passo é uma vergonha. A régua está no chão, e ainda assim a UE e alguns países conseguem tropeçar nela”, afirmou à DW.
Bloco dividido
Desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, a UE tem estado unida na condenação ao grupo palestino – classificado como organização terrorista pelo bloco – e no apelo pela libertação dos reféns israelenses.
Com exceção deste tópico, porém, todo posicionamento que afeta os laços com Israel tem sido debatido dentro de um bloco profundamente dividido.
De um lado, estão países como Espanha e Irlanda que, desde fevereiro de 2024, pedem uma “revisão urgente” do acordo que regula o comércio do bloco com Israel. França e Portugal também têm defendido um posicionamento mais duro.
Do outro lado, a Hungria é vista como o aliado mais firme de Israel, bloqueando qualquer medida que exija apoio unânime – como sanções contra a violência cometida por colonos israelenses na Cisjordânia. Ela é seguida por Bulgária e República Tcheca, que se opõem a medidas punitivas concretas.
Berlim também é uma aliada próxima de Israel. A Alemanha considera ter uma responsabilidade histórica pela segurança israelense, devido ao seu passado nazista e ao assassinato sistemático de seis milhões de judeus durante o Holocausto. Contudo, vem aos poucos endurecendo o tom contra o governo de Netanyahu e exigindo medidas humanitárias em Gaza.
Ponto de virada nas relações UE-Israel?
Os primeiros sinais de mudança diplomática surgiram em maio deste ano, quando a maioria dos 27 membros do bloco apoiou o pedido da Espanha e da Irlanda para revisar o Acordo de Associação UE-Israel – um pacto de livre-comércio que regula as relações políticas e econômicas entre as duas partes.
Entre os países que mudaram de lado e provocaram esse ponto de virada estava a Holanda.
A Alemanha manteve sua posição contrária e alertou contra a revisão, defendendo o diálogo. No entanto, Berlim foi vencida e a investigação avançou. A revisão apontou uma série de possíveis violações por parte de Israel, incluindo bloqueio à entrada de ajuda em Gaza, ataques a hospitais e jornalistas, e a expansão de assentamentos ilegais.
Em uma carta vista pela DW, Israel criticou a revisão, chamando-a de “fracasso moral e metodológico” e alegando que os relatórios da ONU em que ela se baseou eram “tudo, menos imparciais”.
Mas o braço executivo da UE manteve suas conclusões e, em junho, a maioria dos Estados da UE pediu que fossem elaboradas possíveis medidas punitivas.
De acordo com um documento interno vazado, essa lista inclui a suspensão da isenção de vistos para cidadãos israelenses, restrição a intercâmbios estudantis, proibição de importações de assentamentos ilegais e sanções contra alguns ministros israelenses.
Algumas dessas pautas, como as sanções direcionadas, exigiriam apoio unânime da UE. Outras, como as restrições comerciais, precisam apenas de aprovação por maioria qualificada dos governos.
Mesmo nestes casos, seria necessário o aval de Estados que representem ao menos 65% da população do bloco. Entre eles, os mais populosos como Alemanha, França, Itália, Espanha e Polônia têm maior peso na votação.
Acordo malsucedido?
Com essas opções na mesa, a chefe de diplomacia da UE, Kaja Kallas, se reuniu com sua contraparte israelense e anunciou um acordo poucos dias antes de os ministros da UE discutirem medidas punitivas.
“Israel concordou com passos significativos para melhorar a situação humanitária na Faixa de Gaza”, disse Kallas em nota no dia 10 de julho. A Alemanha também ajudou a intermediar o chamado “entendimento comum”.
Segundo autoridades da UE, os compromissos de Israel incluíam facilitar um “aumento substancial” de caminhões entrando em Gaza e reabrir algumas rotas de ajuda. Quando os ministros da UE se reuniram em 15 de julho, decidiram não avançar em nenhuma medida contra Israel, pedindo apenas relatórios regulares sobre o cumprimento do novo acordo.
O ministro das Relações Exteriores de Israel chamou o resultado de “importante sucesso diplomático”.
“Conseguimos impedir todos os tipos de tentativas obsessivas de alguns países de impor sanções a Israel na UE”, escreveu Gideon Saar na rede X naquele dia.
Entretanto, com o passar de julho e o aumento dos alertas de fome, a estratégia diplomática de Bruxelas se tornou menos eficaz.
A promessa de Israel só se efetivou no final do mês, após uma centena de organizações internacionais denunciarem a existência de “fome em massa” em Gaza e mortes por desnutrição se multiplicarem.
O governo israelense disse à DW que “começou a implementar medidas significativas para facilitar a ajuda humanitária”, incluindo pausas nos combates e a designação de rotas seguras para entrega de alimentos. A nota culpou a ONU e o Hamas pela crise e afirmou que não há fome em Gaza – apesar de evidências sugerirem o contrário.
Espanha e Suécia querem congelar acordo comercial
No entanto, muitos governos europeus consideram que as medidas de Israel estão muito aquém do necessário. O bloqueio ao financiamento de startups foi pautado um dia após Israel reabrir vias de acesso de ajuda humanitária em Gaza. Para ministros da UE, a medida não foi suficiente.
“O esforço diplomático com as autoridades israelenses tem sido intenso em vários níveis, mas não levou a uma mudança significativa e sustentável da situação no terreno”, diz a Comissão Europeia na justificativa do projeto.
“Houve algum progresso”, disse nesta sexta-feira a comissária europeia de ajuda humanitária, Hadja Lahbib. “Mas sejamos honestos: ainda é uma gota no oceano. Sem acesso, não conseguimos avaliar adequadamente as necessidades ou entregar ajuda.”
Alguns países, incluindo Suécia, Holanda e Espanha, defendem abertamente que a UE vá além e congele o acordo comercial que tem com Israel. Isso tornaria mais caro e difícil para as empresas israelenses exportarem para o bloco, seu maior parceiro comercial.
“A situação em Gaza é absolutamente deplorável, e Israel não está cumprindo suas obrigações mais básicas nem os compromissos assumidos em relação à ajuda humanitária”, escreveu na quinta-feira o primeiro-ministro sueco Ulf Kristersson na rede X. “A pressão econômica sobre Israel precisa aumentar.”
Ações unilaterais de Estados da UE
Restringir o comércio é uma competência que cabe ao braço executivo da UE, em Bruxelas, ou seja, os governos nacionais não podem tomar esta decisão unilateralmente.
Mas alguns Estados membros seguem outros caminhos para aumentar a pressão sobre Benjamin Netanyahu. Diversos países, incluindo Espanha e Bélgica, restringiram exportações de armas para Israel. E como sanções a nível da UE parecem improváveis, Eslovênia e Holanda também proibiram, no início deste mês, a entrada de dois ministros israelenses de extrema-direita, acusando-os de promover “limpeza étnica”.
A França, por sua vez, decidiu reconhecer os territórios palestinos como um Estado.
Este também é um movimento avaliado pelo Reino Unido, que não compõe a UE, mas sugere cada vez mais medidas punitivas e já impôs sanções contra Israel.
Em visita a Israel na quinta-feira, o ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, alertou seu homólogo israelense de que ele corre risco de isolamento.
Wadephul também disse que Berlim responderia a quaisquer ações unilaterais por parte de Israel e criticou os possíveis planos de anexar a Cisjordânia ocupada.
Capitais de toda a Europa acompanharam a visita com atenção, porque mudanças na posição da Alemanha podem definir se as penalidades planejadas pela UE sairão do papel ou continuarão sendo apenas uma ameaça vazia.
Crianças em Gaza morrem a um ritmo sem precedentes, denuncia Unicef
Deixe um comentário