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Mundo
Suspensão do programa de Jimmy Kimmel revela como Trump instrumentaliza tragédias e o poder para punir opositores e sufocar a democracia
Publicado em 19/09/2025 12:47 - Semana On
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A suspensão do talk show de Jimmy Kimmel pela ABC expõe um sintoma grave da democracia norte-americana sob o segundo mandato de Donald Trump: o uso cada vez mais escancarado do poder de Estado para intimidar e silenciar opositores políticos, sob o pretexto da sensibilidade nacional.
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Anunciada na quarta-feira (17), a suspensão por tempo indeterminado do programa Jimmy Kimmel Live não se deu por uma infração legal, incitação à violência ou apologia ao crime. O apresentador apenas denunciou, com ironia habitual, a exploração política da morte do ativista ultraconservador Charlie Kirk por aliados do governo. Em suas palavras: “a turma do Maga está desesperada para caracterizar esse garoto que matou Charlie Kirk como qualquer coisa que não seja um deles, e fazendo de tudo para tirar proveito político disso”. A crítica custou-lhe o microfone.
Na superfície, o episódio parece uma reação corporativa a um comentário considerado “insensível”. Mas basta raspar a tinta do verniz institucional para ver que o caso se inscreve numa sequência orquestrada de retaliações contra vozes críticas ao governo. A Comissão Federal de Comunicações (FCC), hoje alinhada à Casa Branca, havia sinalizado que poderia agir contra emissoras que dessem espaço a “mentiras perigosas”. Brendan Carr, presidente da agência, declarou em um podcast de direita que as falas de Kimmel “fazem parte de um esforço concentrado para mentir para o povo americano”. A mesma FCC é responsável por aprovar uma bilionária fusão envolvendo negócios da ABC e a Disney, o que transforma a decisão da emissora num movimento que cheira a chantagem regulatória.
Esse padrão de coerção tem precedentes recentes. O talk show de Stephen Colbert — outro humorista crítico a Trump — teve seu cancelamento anunciado em julho, com alegações financeiras pouco convincentes. A CBS, que exibia o programa, pertence à Paramount Global, empresa que acabou de obter o aval do governo para uma fusão com a Skydance Media após resolver pendências legais com o presidente. A suspeita de que Colbert tenha sido o preço desse acordo ganhou força nos bastidores.
Jimmy Kimmel não zombou da morte de Kirk. Apontou, com clareza, a instrumentalização política de uma tragédia. Nenhum vínculo do assassino, Tyler Robinson, com movimentos de esquerda foi estabelecido pelas investigações, que indicam que ele agiu sozinho, motivado por ódio pessoal. Ainda assim, a máquina retórica trumpista tratou de transformar o episódio em munição ideológica. “Vamos canalizar toda essa raiva para erradicar e desmantelar essas redes terroristas”, declarou Stephen Miller, assessor da Casa Branca, no podcast apresentado por JD Vance — vice-presidente e amigo próximo de Kirk.
É a partir desse cenário que se compreende a lógica perversa em curso: críticas ao governo, ainda que fundamentadas, são enquadradas como ameaças à segurança nacional. Organizações progressistas passaram a ser alvo de investigações e ameaças de perder isenções fiscais. A Open Society Foundations, de George Soros, e a rede Indivisible foram apontadas como “possíveis cúmplices ideológicos” do assassinato. Nenhuma evidência sustenta tal ligação.
A censura, portanto, não é acidental. É parte de um projeto de poder. Como resumiu o jornal alemão Süddeutsche Zeitung, “Trump e seus aliados estão usando a morte de Kirk como pretexto para o desmonte das liberdades, e o temor de que queiram transformar os EUA num sistema autoritário se tornou assustadoramente real”.
O discurso oficial, que ainda clama defender a liberdade de expressão, camufla um autoritarismo em ascensão. Trump assinou um decreto no início do mandato proibindo que agências federais restrinjam a livre expressão — mas tem feito exatamente o oposto ao instrumentalizar a FCC, pressionar universidades, punir comentaristas e incentivar a denúncia de críticos. O próprio Departamento de Justiça apagou do site oficial uma pesquisa que indicava que grupos de extrema-direita foram responsáveis por mais assassinatos ideológicos nos EUA desde 1990 do que extremistas de esquerda ou islamistas.
Ao que tudo indica, a “cultura do cancelamento” agora veste terno e ocupa cargos no governo federal. Professores, jornalistas, colunistas e servidores públicos foram demitidos ou punidos nos últimos dias por manifestações críticas à exploração política da morte de Kirk. Até vistos de estrangeiros que “ridicularizarem” o assassinato estão sob ameaça.
O uso político da tragédia revela o funcionamento de um governo que pune opositores não por infringirem leis, mas por desafiarem narrativas oficiais. A mesma Casa Branca que perdoou 1.500 invasores do Capitólio em seu primeiro dia de retorno ao poder, agora silencia comediantes e ameaça instituições progressistas com sanções.
“Não é um grande momento para a liberdade de expressão”, afirmou Adam Goldstein, da Fundação para os Direitos Individuais e a Expressão (FIRE), ao denunciar o clima de perseguição instaurado nos EUA.
Se o humor político é tradicionalmente uma trincheira contra o autoritarismo, os ataques a Colbert e Kimmel sinalizam que até essa trincheira está sendo demolida. A democracia norte-americana se fragiliza não com tanques nas ruas, mas com canetadas, fusões corporativas e silêncio forçado em nome da sensibilidade. O que está em jogo não é apenas um programa de TV. É o direito de discordar, ironizar, questionar — inclusive o rei, sobretudo quando o rei se proclama intocável.
Ataque à mídia
Enquanto aplica sanções ao Brasil alegando defender a liberdade de expressão Trump, ameaça cancelar as licenças de emissoras de rádio e televisão que criticam o governo dele.
Ao embarcar no Reino Unido de volta a Washington na quinta-feira (18), Trump disse a jornalistas que o órgão responsável pelas licenças de emissoras de radiodifusão deveria discutir as autorizações de canais que só fazem criticar o presidente do país.
“Quando se tem uma rede e se tem programas noturnos e tudo o que fazem é criticar o Trump. É só o que fazem. Eles me dão apenas publicidade ruim. Eles estão recebendo uma licença. Eu acho que talvez a licença deles devesse ser retirada”, comentou.
Para ele, essa decisão caberá ao chefe da Comissão Federal de Comunicações (FCC), Brendan Carr. “Ele é um patriota, ama nosso país e é uma pessoa forte. Teremos que aguardar para ver”, completou.
Mesmo antes do assassinato de Kirk, Trump estava avançando em sua campanha contra as empresas tradicionais de comunicação, e agora acelerou o passo. Em um processo contra o New York Times, apresentado esta semana, ele citou os acordos como a ABC e a CBS como argumentos para dizer que suas ações “tinham muito mérito”. No processo, movido em um tribunal da Flórida, ele afirma que artigos e um livro publicados por profissionais do jornal foram “especificamente projetados para tentar prejudicar a reputação empresarial, pessoal e política do presidente Trump”, e pediu uma indenização de US$ 15 bilhões (R$ 79 bilhões).
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